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O particular caso da Nação não cessa de ser um espanto e, ao mesmo tempo, estudo de caso. Um país com ótimas condições climatéricas, uma posição geográfica invejável e a inserção em várias esferas de poder e influência regionais deveriam justificar uma situação de bem-estar comum e económico bem mais invejável. O facto de não acontecer deveria ser, e repito, um estudo de caso.

Talvez o que seja mais de espantar são algumas das razões mais irrisórias pelas quais 20 anos de século XXI sejam sinónimo de estagnação e atraso relativo para com as economias emergentes do Leste Europeu. E o facto de nos recusarmos a sequer retirar lições desse facto, já ultrapassa a fronteira do hilariante, para uma terra nova e desconhecida onde reinam a Igualdade e Justiça Social, que é como quem diz a pobreza e o marasmo.

É neste caso que eu gostaria de recuperar o Mito de Sísifo: Sísifo, suposto fundador da cidade de Corinto, que na sua arrogância e prepotência ofendeu os deuses e foi condenado a uma miserável e eterna existência no Submundo de Hades, a carregar uma enorme pedra colina acima, sempre que conseguisse completar a tarefa a pedra rolaria de volta até à base da dita elevação, sujeitando a pobre alma a um castigo eterno e absurdo.

Nesse mito, séculos mais tarde, o Prémio Nobel Albert Camus conseguiu retirar uma das mais belas metáforas sobre a existência humana e a sua reação perante o seu absurdo. Segundo Camus, “é preciso imaginar o Sísifo feliz”, porque Sísifo completa a tarefa de forma diligente e sem grandes hesitações, consciente que essa é a sua verdadeira existência, de que as regras do “jogo” são claras. O triunfo de Sísifo é negar-se ao desespero e enfrentar o castigo divino sem hesitações ou contemplações.

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“Sísifo é o herói absurdo. Tanto por causa das suas paixões como pelo seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível no qual todo ser se empenha em não terminar coisa alguma.” – Camus, O Mito de Sísifo, p.138

Desejaríamos nós que a razão da nossa existência fosse ela também pintada com os mesmos tons de épico e de poético, que a pedra que pretendemos carregar fosse ela um castigo por nos atrevermos a desafiar nos olhos o malvado capitalismo norte-americano e alemão, que as Irlandas, Estónias e Holandas deste plano fossem vis crápulas que jogam sujo e de forma desonesta. Aqui, estabelecendo mais um paralelo com Sísifo, na nossa suprema arrogância acreditamos mesmo nessas fábulas.

Mas não, não há “regras alternativas”, ou moralismos fiscais desmesurados, senão os autoimpostos. Portugal não é condenado a carregar pedra nenhuma e, se quisermos mesmo deitar sal na ferida, a pedra que pretende carregar não percorreu uma grande distância, pelo menos nos últimos 20 anos. A tragédia de Portugal é a nossa situação não ser bem uma tragédia. Não no sentido em que estamos condenados, de forma alguma, ao marasmo habitual, nem que esta estagnação nos seja imposta pelos Deuses do Olimpo.

Pelo contrário, a lição a que aludi inicialmente, é precisamente essa. Querem-nos fazer crer que Portugal carrega em si um peso impossível de carregar, “porque Justiça Social”, ou “porque Estado Social”, ou “porque Serviços Públicos”. Enquanto os infernos, a que com desdém chamamos “paraísos fiscais”, castigam e punem os seus habitantes com um “faroeste” de desproteção e desregulação, na fronteira entre o inumano e o criminoso.

Mas pelo contrário, se mesmo as estatísticas e os dados provam que esta narrativa mal-amanhada não sobrevive ao mais básico dos escrutínios, o facto de todos os anos, consecutivamente perdermos dos nossos conterrâneos para esses mesmos infernos paradisíacos, ou de sermos incapazes de cultivar crescimentos económicos para lá do medíocre – e desengane-se aquele que pensa que não há Estado e Justiça Social sem crescimento que o sustente – são provas derradeiras que, não só não sabemos que pedras carregar como nem sabemos como as mover.

Talvez sejamos só um Atlas, parado no sítio a suportar um peso desmesurado, talvez o molde de heroico Sísifo nos seja demasiado largo. A certeza é que está na altura de perder esse pedregulho colossal e optar por uma rocha mais leve e menos penosa de carregar.