É o anoitecer de quarta-feira. No recato de um modesto café – mesmo ali ao lado da Universidade Católica – na companhia de um dos meus confrades, que travo o meu mais recente duelo. Em jeito de repto à ortodoxia de alguns comentadores “especialistas”, assinalei a inexistência de uma disposição conservadora no nosso espetro político, ao que fui interpelado com a interrogação que diz respeito ao título desta crónica: “Mas afinal és de esquerda ou de direita?”.
Não deixa de ser paradoxal que seja precisamente na conjuntura dos dias de hoje – um ecossistema altamente ruidoso radicado na histeria das descrenças e polarizações – que mais carecemos do projeto conservador. Seria, portanto, profícuo demarcarmo-nos das erróneas classificações “conservadoras” feitas a partidos e movimentos. Os autoproclamados guardiões da “tradição”, chegados à Assembleia da República em 2019, tão-pouco estão perto de suprir o espaço deserto da disposição conservadora. Visceralmente, desconsideram uma herança (que em coro paladino dizem defender) portadora de uma forma de comportamento, de estar e de fazer política. Este entendimento da política, exíguo nos dias de hoje, encontra-se cristalizado na classe política mais desqualificada dos últimos anos.
O ingrediente cético do conservadorismo rejeita as certezas absolutas e sugere uma desconfiança em torno do insuflar das crenças e paixões dos indivíduos. Reconhece o perigo latente da mobilização dos ressentimentos sociais, despreza o culto da personalidade e suspeita das qualidades quase místicas de um líder que se apresente com uma missão messiânica. Trata-se de uma doutrina posicional que, de modo algum, deve ser confundida com um saudosismo ao passado ou um atavismo, e muito menos com o espartilho de uma ideologia. O temperamento conservador jamais poderá conformar-se a uma panaceia universal negligenciando as exigências e vicissitudes de uma determinada situação. Não há tal coisa como uma resposta automática para tudo; a isso chama-se um empobrecimento e uma falsificação da própria realidade.
Conjeturo que a interpelação que me foi feita no decurso da nossa discussão acirrada – motivo desta crónica – pertence a um vocabulário político que procura esvaziar toda a complexidade intrínseca à política. Porém, reconheço que também possa ter sido resultado da minha ineficaz tentativa de explicar o que representa o princípio político da média na ação, substancialmente distinto de uma moderação espúria e falsamente extasiada. Debruçar-me-ei, portanto, a título de redenção, em demonstrar a ausência desse princípio no nosso atual paradigma político, já de si carente de qualquer disposição conservadora.
O século XX foi contemporâneo do pensador que resgatou a alegoria náutica numa era de náufragos ideológicos: Michael Oakeshott. Na sua célebre obra póstuma, “A Política da Fé e a Política do Ceticismo”, o conservador reaviva na modernidade a lição esquecida do 1.º Marquês de Halifax, George Savile, que preconizou o carácter do “Trimmer” (uma profissão humilde mas de elevada importância na arte marítima, responsável por distribuir o peso pelo navio com vista a equilibrá-lo). O Trimmer na política é avesso a fanatismos sectários e a políticas ideológicas, ao passo que zela por um equilíbrio e moderação. Todavia, convém notar que o princípio político da média na ação – referencial norteador do comportamento do Trimmer – não corresponde, de todo, a um ponto esclerótico e equidistante dos extremos.
Veja-se o atual executivo, refém de um centrismo puramente aritmético, cuja cúpula partidária se encontrou, ao longo dos últimos 8 anos, desprovida de uma inteligência moral que lhe permitisse compreender os horizontes essenciais da nossa política. Esta fixação por uma região intermédia acabou por produzir um flagelo na política maior do que os próprios extremos, ao mesmo tempo que o chefe do executivo e os seus correligionários promovem o partido como “elemento da moderação” e, em uníssono, desaprovam os excessos e os radicalismos. Esquecem-se do mais elementar, numa palavra: adequação. É este o princípio político da média na ação que permite ao Trimmer equilibrar o navio conforme um determinado contexto; consciente das suas limitações e oportunidades, é precisamente esta conduta a exigida pela disposição conservadora ao explorar alternativas que, de certo modo, já se encontram latentes entre os arranjos da nossa comunidade.
A disposição conservadora exige, de forma inequívoca, o módico de adequação do Trimmer na política. E se dúvidas ainda pairam no nosso horizonte acerca do pleno desaparecimento de uma disposição conservadora no governo que nos lidera, atente-se à conivência que se tem demonstrado para com o antigo diretor nacional da Polícia Judiciária, que combate o crime de dia e desconhece as suas obrigações declarativas à noite (em boa verdade, talvez seja o único ministro genuinamente conservador, visto empenhar-se, em pleno século XXI, na renúncia às modernidades da máquina de lavar para tentar convencer os portugueses de que o seu maior luxo doméstico incide na edificação de um tanque para bater a roupa à pedra).
A cumplicidade e a beatificação de quem compreende as instituições exclusivamente no âmbito do poder que estas são capazes de facultar ao seu líder – enquanto este é descuidado de tudo pelo caminho e acredita que não deve ser perturbado pelo acatamento de regras, formalidades e procedimentos – equivalem, tão-somente, a uma desconsideração pelo reservatório de experiências da sociedade. São desapercebidos de que este tecido normativo institucional sofreu e resistiu ao teste do uso e do tempo, e que permite aos homens preservar as tradições conducentes a uma vida mais útil e com melhor qualidade.
Uma leitura mais fina da realidade mostra-nos que incorremos amiudamente no vício de refletir a política através de uma incessante procura de respostas no futuro, à medida que nos alienamos do passado. O cético conservador manifesta um entendimento das instituições que é o antípoda daquele que hoje está a ser branqueado pelo atual partido no governo. A tentativa de exercer um equilíbrio esclerótico e equidistante dos extremos está destinada a dececionar. Ainda que não haja um manifesto articulado, sistemático e esclarecedor do conservadorismo, persiste, contudo, um conjunto sólido de axiomas, princípios e valores intrínsecos à disposição conservadora, a qual, antes de ganhar expressão política, é uma disposição filosófica. Os desatentos a essa dimensão normativa filosófica, ao insistirem, ainda assim, em autoproclamarem-se “conservadores”, podem originar situações humorísticas que mais não são do que degenerações, mutações e aberrações do carácter posicional conservador.
Não há fuga possível às consequências da complexidade da política, e muito menos à ambiguidade do nosso léxico político. Não nos leva a lado nenhum tentar impor um carácter simples àquilo que é constitutivamente complexo. E se porventura for verdade que, com esta crónica, alguém – quando mais não seja uma única alma – deixe de retratar a direita populista como “conservadora” (sugestões não faltam: categorizem-na como antiquária, reacionária, saudosista, atávica ou até revolucionária do avesso, mas nunca como conservadora), poderei então dizer que estas palavras foram bem entregues e que devolvi um resquício de complexidade ao entendimento sobre a política.
Descrente de que possa colocar um ponto final a este texto permanecendo omisso à questão central que lhe deu origem, dedicar-me-ei à interrogação inicial. Dado que a minha mundividência se apoia na imperfeição humana, jamais poderei endossar o dogmatismo racionalista das cartilhas ideológicas ou abraçar a arrogância da razão. Aos meus vinte e dois anos, pertenço à geração designada como a mais qualificada de sempre, manietada no ato de testemunhar o paradoxo de ter a classe política mais desqualificada dos últimos anos.
Sou, na realidade, órfão. Sinto-me próximo de uma direita que se viu depauperada desde o afastamento daquele que, em nomenclatura náutica, antes de ter a oportunidade de equilibrar o navio, teve de o salvar de um naufrágio iminente. Revejo-me numa direita com visão para o futuro, que não vive à espuma dos dias nem limitada aos prazos dos mandatos eleitorais, capaz de imaginação moral e de adequação. Longe está do meu propósito, com o conhecimento de causa que tenho, admitir que não existem conservadores entre nós – inelutavelmente existem – mas se pretendem impedir que a disposição conservadora não se feche sobre si mesma e acabe entregue à sua própria Némesis, releva que não se rendam, por conveniências ou ambições, às aberrações do conservadorismo que por aí proliferam. Para terminar, não adianta lamuriar que o entendimento da política não seja o que deveria ser. O mundo é como é, e compete-nos viver nele com a argúcia de espírito de quem sabe que, perante a ira das tempestades, o carácter posicional do Trimmer existe primordialmente para salvar o navio.