‘Podes ter,’ disse Henrique o velho industrial, ‘qualquer opinião, desde que seja de uma certa côr.’ A sentença é profunda, apesar das intenções do autor. O autor queria provavelmente dizer que no que dependesse de si não devia haver muitas opiniões; mas vista só assim a ideia é trivial. A sua profundidade vem de Henrique ter talvez pressentido que há uma certa constante na variedade; e que aquilo que é constante é o que permite que nos sintamos atraídos pela variedade. Toda a variedade parece requer uma certa monotonia.
É certo que a variedade absoluta enjoa instintivamente a quase todos. A própria noção levanta dúvidas: as diferenças têm de ser distinguidas entre si constantemente; e distinguir diferenças requer alguma monotonia nos critérios que usamos para o efeito. O problema principal não é sequer a variedade das coisas variadas, mas a suposta variação das coisas monótonas. Que coisas seriam essas? As nossas certezas mais comuns não variam muito: de que o sol se vai levantar amanhã, de que é má ideia comer mexilhões estragados, e de que há coisas que nunca faríamos.
O princípio segundo o qual é má ideia comer mexilhões estragados muda menos do que os modos de cozinhar mexilhões, e a celebração exuberante da probabilidade de vir a haver novas maneiras de o fazer; o culto da variedade parece pressupor aquele princípio quase henriquino. Note-se que, havendo muitas maneiras de cozinhar mexilhões, nenhuma força ou lei nos impede nunca de os comer estragados. Essa inclinação que nos põe de acordo sem que sejamos forçados a isso é expressa apenas por precauções, as quais também se alteram pouco.
Em questões de política e hábitos existem duas posições opostas a esta. A Rainha de Copas, por exemplo, considera que a monotonia é inimiga jurada da variedade. No Reino de Copas, sempre que à soberana passa um novo entretém pela cabeça, a ligação entre as cabeças dos súbditos e os seus pescoços enfraquece. O Príncipe Lampião defende por seu lado que a variedade é um disfarce calculado da monotonia, e que tudo varia para que tudo possa ficar na mesma. Embora seja preferível viver no reino do Príncipe Lampião, a ideia de que a variedade é gerada de propósito pelos adeptos da monotonia só tem boa reputação porque os príncipes atraem os não-príncipes.
O verdadeiro segredo da mudança está na monotonia. As coisas têm um modo amável de mudar como de costume; os grandes cataclismos históricos e as histórias dos grandes cataclismos só se percebem contra os costumes constantes daqueles a quem assarapantam ou excitam. É esse fundo comum que estimula quem reage à variedade; mas é dele que também precisa quem reage à monotonia. As coisas, concederia decerto Henrique, estão bem feitas: todas as opiniões têm a mesma côr; essa côr indica que somos mais parecidos do que as nossas opiniões.