As fábulas pretendem representar a essência do Homem. Assim, foram usadas durante séculos como fonte de sabedoria e de guia nas relações interpessoais. A ignorância generalizada que delas hoje existe é sintomática dos desafios cognitivos que a nossa sociedade enfrenta. Atribui-se a Esopo a seguinte:

“Uma doninha apaixonou-se por um jovem e garboso varão e pediu à deusa Vénus para a transformar em mulher. Vénus concedeu-lhe graciosamente o pedido e transmutou-a numa belicíssima donzela. Assim que a viu o jovem enamorou-se dela e pouco depois casaram-se. Passado algum tempo, Vénus ficou curiosa em saber se ao mudar a forma à doninha lhe tinha alterado também a essência. Assim, fez com que um rato começasse a correr na sala onde estavam. Assim que o viu, a esposa pulou e deu perseguição ao rato. Ao ver isto Vénus desiludiu-se e devolveu à doninha a sua forma original.”

Hoje é frequente o poder político e judicial pensar que é Vénus e que ao mudar o nome consegue também alterar a essência às coisas. E, ao contrário da fábula, são cada vez mais as doninhas que ganham juízo e se apercebem da futilidade da operação. Um exemplo recente é o de Jamie Shupe, a primeira pessoa (na realidade o primeiro homem) a ser declarada “não-binária” por um tribunal americano. Esta ficção legal, ocorrida em 2016, foi tomada baseada apenas em duas declarações escritas por dois srs. drs., médicos de inquestionável res.puta.são[1], declarando que Shupe não era nem masculino nem feminino. Ao alcançar esta vitória, o “terceiro melhor acontecimento do ano” segundo o res.puta.vel CHS, Shupe rapidamente se tornou um herói para tudo o que é LGBT&tc, sendo mesmo nomeado Oregon Person of the Year de 2016. Em Janeiro de 2019, depois de várias experiências traumáticas às mãos da medicina moderna, Shupe percebeu onde estava o rato e deu o pulo. Agora procura adaptar a sua identidade à sua realidade biológica, em vez de fazer o contrário. O que, apesar de todas as dificuldades associadas, é sanidade. Curioso é que, nos dias de hoje sejam as doninhas a ganhar juízo, enquanto Vénus continua doida.

(O avtor não segve a grafia do nouo Acordo Ørtográfico. Nem a do antigo. Escreue como qver e lhe apetece.)

[1] Res.puta.são (do latim): adulteração da realidade ou prostituição dos factos; aquilo que faz uma pessoa res.puta.vel, como um vendedor de cavalos ou um ministro da res.pública; por analogia, facto ou fama de se prostituir, tal como em “à mulher de César não basta ser honesta, tem de o parecer, senão fica com res.puta.são”.