É uma pergunta que oiço muitas vezes, em vários tons: mais baixo, mais indignado, entre risos. Quase sempre vem acompanhada de uma justificação cuidadosa, como quem tenta convencer-me — e convencer-se — de que “o amor tem destas coisas”. Porque reconhecer que algo não está bem, no avesso desta pergunta, exige provas. O amor é casa, e ninguém quer destruir uma casa.

É por isso que tantas relações abusivas não começam com a violência que se vê. Começam com a violência que se explica. Um ciúme “porque me importo”. Uma exigência de transparência “porque não temos nada a esconder”. Um pedido de localização “só para saber se chegaste bem”. E, sem se dar conta, a transparência transforma-se em vigilância; o cuidado, em controlo; a curiosidade, em interrogatório. Afinal, “quem não se sente, não é filho de boa gente”, certo? Uma exigência de “transparência”, que até faz sentido (afinal, isto é uma relação) que vai acumulando pequenos testes: “até onde consigo esticar sem que se aperceba?” … Depois, vai surgindo, subtilmente, a crítica à roupa, ao tom, às amizades. E, quando dá por si, já longe no caminho, pergunta-se quando começou a negociar o seu direito a existir em paz.

O abuso não escolhe idades. Vejo-o em relações jovens mas também em relações com muitos anos, em casais com filhos, em vidas já muito entrelaçadas — casa, rotinas, contas, responsabilidades parentais, reputação social. Nesses contextos, pode tornar-se ainda mais difícil de nomear, porque uma separação não ameaça apenas um vínculo, mas toda uma arquitetura de vida.

Quem está de fora, de olho mais atento e preocupado, vê sinais. Quem está dentro vive uma névoa. Porque o abuso não é só o que acontece, é o que vai ficando: no corpo em sobressalto, na frase engolida, no “não” que se deixa de dizer, na sensação de que a tranquilidade da casa depende de como a outra pessoa acordou. E isto baralha a bússola interna: há dias bons que parecem redenção, pedidos de desculpa que soam a promessa, momentos de ternura que colam estilhaços. De repente, o alívio torna-se medida do amor. E quando o alívio é a medida, será que não estamos já a medir mal?

Do meu lado — como terapeuta, mas também como pessoa —, há um lugar difícil: assistir, por vezes, a esta erosão lenta e escolher palavras que não empurrem para a vergonha. Porque a vergonha isola, e o isolamento é terreno fértil para o abuso florescer.

Algumas perguntas podem abrir espaço de reflexão: sente-se mais livre ou mais pequena/o nesta relação? A sua vida está a crescer ou a encolher? Há medo da reação da outra pessoa quando discorda? Mede palavras para evitar explosões, ridicularizações, silêncios punitivos? Precisa de provar constantemente que é “boa pessoa” para merecer calma?

Há sinais que se repetem e que reforçam esta despromoção do ser humano que se ama a objeto de tranquilização: controlo do telemóvel, do dinheiro, das rotinas; isolamento subtil (“a tua família faz-te mal”, “os seus amigos não prestam”); humilhações em tom de brincadeira; ameaças; portas batidas; objetos partidos; coerção sexual; insistência até ao limite; sexo como moeda para evitar conflito. Em relações longas, há ainda um sinal muito frequente: o vínculo conjugal e parental é usado como argumento de captura “por causa dos filhos”, “por causa da estabilidade”, “por causa do que construímos”. E há um sinal que considero quase definitivo: começar a duvidar de si mais do que do outro.

É aqui que as pessoas próximas podem ajudar ou, sem querer, com a melhor das intenções, empurrar para o abismo. Vejo amigos e família a caírem em armadilhas compreensíveis. É comum surgir o ultimato “ou sais já ou afasto-me”, a sentença “isso é manipulação, ponto final”, ou a pergunta que fere: “porque ficas?”. Quase sempre estas frases nascem do medo e do amor. Mas, muitas vezes, o que mais ajuda é uma mão firme que não puxa nem larga: “Acredito em ti. Não tens de passar por isto sozinha/o. Se quiseres, acompanho-te a pedir ajuda. Se precisares, tens onde ficar.”

E quando pedir ajuda? Idealmente, cedo, quando ainda se está a tentar decidir se “conta”. Esperar pelo “suficientemente grave” é uma das mentiras mais cruéis que o abuso vende. A terapia pode ser um ponto de viragem: dá nome ao que confundiu, devolve linguagem e com linguagem vem margem. Ajuda a separar amor de controlo, culpa de responsabilidade, esperança de autoabandono. E ajuda, sobretudo, a recuperar algo que o abuso tenta roubar: o sentido de merecimento.

Se está a ler isto e algo em si sentiu, guarde esta ideia: não precisa de ter a certeza para pedir ajuda. Não precisa de convencer ninguém. A violência não começa quando há sangue. Começa quando a liberdade deixa de caber na relação. E se hoje a sua vida encolheu para caber num medo, então não é amor que lhe está a pedir silêncio, é abuso.

O amor não exige que se apague. O amor não isola. O amor não a/o põe a andar em bicos de pés dentro da sua própria casa. E se a sua relação lhe está a ensinar a ter medo, isso não é uma história de amor: é um pedido de socorro. E o mais corajoso, aqui, não é aguentar. É escolher-se.

Ana Fidalgo é psicóloga clínica e da saúde, especialista em casais e sexologia na clínica O Teu Lugar, em Coimbra. 

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

Hospital da Luz Johnson & Johnson Innovative Medicine

Com a colaboração de:

Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos