Meia hora antes da abertura plantava-me à porta, uma garganta de tenda que se estendia até ao Pavilhão Rosa Mota. Os pavões comiam da terra que os feirantes espalhavam ao passar. Dentro, o ar condicionado debitava frio. A tenda suava. Eu suava. Como não queria pingar nos livros, metia a cabeça na boca do ar condicionado e o cabelo ajustava-se na secagem.

A meia hora de expectativa parecia a antecedência de uma entrega, como esperar por quem nos falta. A cada ano voltava sem saber como reagir, porque a Feira era igual e nova. Só não havia algodão-doce.

Entrava na tenda já em conquista, como um animal liberto mas ainda em retenção, embora tudo agradasse: o contraplacado das bancas (madeira imaculada mas revolvida), os livreiros de enfiada endireitando os exemplares que nunca conseguiam arrumar a tempo, os panfletos com as sessões de autógrafos e lançamentos, a mulher que anunciava os eventos – que voz –, os livros e promoções do dia, as contracapas voltadas para cima por falta de atenção, os funcionários da APEL atirando frases irritadas para os walkie-talkies.

Ainda perto da entrada, comprava o primeiro livro da Feira, mesmo que este não me interessasse. É que outras pessoas também chegavam cedo, e cedo comprariam um livro. Escrevia «Primeiro livro da Feira» na folha de rosto.

Para mim, a Feira resumia a vida, ou pelo menos marcava o seu andamento, como o Ano Novo. Julgava que o mundo se deixava resumir ou pautar. E pensava que o amor aos livros bastava, como se amar os livros pelos próprios livros fosse suficiente. Mas amar os livros não significa nada – quer dizer, quando muito, que não se é amado de volta. Acreditava que os livros davam resposta a tudo.

Durante a Feira, abordava os escritores nas sessões de autógrafos. Apertava-lhes as mãos, e juro que ficava cada vez mais pequeno até que o escritor não tinha onde agarrar, comentando para o lado «Onde é que o puto se meteu?». Aquelas mãos comandavam a vida: apertá-las era demasiado importante.

Antes de me tornar pequeno pedia que autografassem uma folha A4 onde imprimira, em bom papel, um excerto ou poema de sua autoria. Dias antes transcrevera o texto de que mais gostava e passara horas a formatar a página em busca de gralhas.

Juntei vários autógrafos, alguns a contragosto (ao menos que comprasse um livro, ouvia). Chamei-lhe «Colecção de Poetas & Escritores da Actualidade» e aí reuni, entre outros, Lobo Antunes, Saramago, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares e um desenho de Malangatana.

Malangatana

Saía sempre com o dever cumprido e o gosto satisfeito, acalmado. Como no fim de um dia de praia.

Depois de amanhã gostava de voltar à Feira do Livro assim, em expectativa, e pronto a retomar a minha colecção.