O acordo entre a União Europeia e o Mercosul configura-se como um esforço de sobrevivência do bloco europeu no xadrez internacional. Contudo, esta abertura ameaça comprometer o pulso vital do mercado interno e, por arrastamento, o equilíbrio das economias periféricas e estruturalmente mais frágeis, como é o caso de Portugal.
Em primeiro lugar, e após mais de duas décadas de complexas negociações, é imperativo enaltecer o esforço diplomático que culminou na concretização deste acordo — assinado na passada sexta-feira, dia nove do corrente mês. Trata-se de um compromisso que estabelece as bases para a criação do maior mercado de livre comércio do mundo; um sinal inequívoco de abertura e cooperação por parte da presidência europeia, num contexto global marcado pelo isolacionismo e pela retração.
Num momento histórico em que os Estados Unidos da América atravessam uma liderança pautada pela imprevisibilidade, em que a Rússia ameaça ativamente a soberania territorial europeia, e em que a China consolida o seu domínio sobre o
processamento de matérias-primas críticas — investindo estrategicamente em infraestruturas globais para expandir a sua hegemonia — a Europa tinha o dever de agir. E agiu, ainda que tardiamente.
O compromisso de redução progressiva das tarifas aduaneiras facilitará a negociação direta e reduzirá os entraves alfandegários. Para Portugal, estas alterações representam uma oportunidade para mitigar o défice comercial e potenciar as exportações para o mercado sul-americano, com especial enfoque no Brasil — parceiro estratégico de primeira linha, apesar da tradicional desvantagem da balança comercial lusa.
Se, por um lado, setores como o azeite, o vinho e a fruta anteveem vantagens significativas, por outro, esta parceria transatlântica poderá corroer pilares essenciais da sustentabilidade económica nacional. Os pequenos e médios produtores de cereais, carne e mel enfrentarão uma concorrência direta e desproporcional. Sem a inclusão de cláusulas de salvaguarda rigorosas e a exigência de reciprocidade nas normas ambientais e de bem-estar animal — as chamadas “cláusulas espelho” — será virtualmente impossível competir em preço e escala. Este cenário coloca em risco não apenas o Produto Interno Bruto, mas a própria empregabilidade e a coesão social das regiões rurais.
O Governo deve, por isso, pautar-se pela cautela, lutando por mecanismos de defesa comercial que protejam o nosso tecido empresarial, composto em 80% por grupos familiares. Estes agentes, dependentes dos fluxos da Política Agrícola Comum (PAC), carecem de argumentos de escala para resistir a uma concorrência que se preveja desenfreada ou desleal.
É vital, portanto, fortalecer a tradição, a história e a qualidade como selos de garantia inalienáveis. A proteção das Denominações de Origem Protegida (DOP) só será plena se for acompanhada por uma política que cultive a literacia gastronómica junto dos parceiros internacionais, dignifique os trabalhadores do setor e institua um quadro legal de fiscalização punitivo contra fraudes ou aproveitamentos indevidos.
Paralelamente, cabe ao Estado potencializar a nossa centralidade geográfica. É fundamental assegurar que os portos de Sines e Matosinhos sejam pilares logísticos na receção, armazenamento e distribuição destes fluxos, garantindo a Portugal um papel de mediador direto nesta nova dinâmica comercial.
A Europa e Portugal dão hoje um passo fundamental para a sua relevância global. Todavia, se não houver exatidão e proteção no plano de execução, colocaremos em risco a coesão interna dos Estados-membros e a integridade da própria União Europeia enquanto potência económica, cultural e social.