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Bem-vindos aos 10 anos de Observador. Nascemos há 10 e a rádio há cinco. Assinalamos esta década com uma série de entrevistas especiais, em que procuramos os bastidores dos momentos mais marcantes de cada ano. Eu sou o João Porfírio, editor de fotografia.

E eu sou a Patrícia Reis, escritora e curadora da exposição 10 Anos Observador. E para este episódio convidamos o comandante do Corpo de Segurança da Polícia de Segurança Pública, Alexandre Vieira, e que teve um papel importante em 2023, o ano em que Lisboa recebeu a Jornada Mundial da Juventude e o Papa Francisco. A cada conversa associamos uma fotografia, João.

É verdade, vou mostrar ao comandante esta fotografia e perguntar-lhe o que é que vê, em primeiro lugar, descrevendo-a, e depois o que é que sente ao ver uma fotografia em que, por acaso, também lá está.

Muito bom dia, obrigado pelo convite, antes de mais. A fotografia, para além da excelente fotografia que é, as cores, é um misto de emoções, porque foram uns dias de muito esforço, muita intensidade, mas também de muita emoção pessoal, porque viver o que eu tive a oportunidade de viver enquanto profissional e enquanto pessoa, é um misto de muitas emoções. Porque sentindo que estava ali a cumprir a minha função, a minha missão de proteger e de organizar toda a proteção a Sua Santidade, não deixo de ter milhares de pessoas à volta a gritar, a tentar tocar em Sua Santidade, a tentar que ele estendesse a mão ou oferecesse algo. Portanto, é um misto de muitas emoções.

Essa fotografia é uma fotografia em que se vê o Papa Francisco num carro.

No Papamóvel.

No Papamóvel.

Mais tecnicamente.

Mais tecnicamente, o Papamóvel, e rodeado de vários seguranças e depois rodeado de uma multidão. Essa fotografia, não sei em que local é que é, exatamente.

É no Parque Eduardo VII.

No Parque Eduardo VII. Nós vamos ver esta fotografia e outras, são cerca de 80 fotografias que estarão em exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, entre 7 de novembro e 7 de dezembro, numa exposição que celebra os 10 anos do Observador enquanto jornal e os cinco anos da Rádio Observador. Os números ajudam-nos um bocadinho a recordar a dimensão deste evento. O Papa esteve 128 horas em Portugal, de 2 a 6 de agosto de 2023, e Lisboa recebeu mais de um milhão e meio de peregrinos oriundos de mais de 150 países. A jornada teve cinco línguas oficiais, realizaram-se 19 cerimónias, participaram na jornada 33 mil voluntários, mais ou menos, e cerca de 700 bispos, dos quais 29 eram cardeais. Disse alguma asneira, senhor comandante?

Há de ter mais informação do que aquela que eu tenho, certamente.

Não me parece que eu tenha mais informação.

Daquilo que tenho em mente ainda, sim, os peregrinos cerca de um milhão e meio, que é uma dimensão que nós nunca tínhamos tido em Portugal. Tínhamos tido vários eventos em vários dias, como foi a Jornada da Juventude, naturalmente, mas num dia específico, não tenho ideia e penso que não haverá história em Portugal de um evento com tanta gente no mesmo dia.

Falava-se então de 16 mil efetivos de segurança. Era mais ou menos isso.

Sim, entre todas as valências da PSP, sim, terá andado à volta disso. Desde o policiamento nas ruas, a segurança pessoal, a unidade de cinotécnica, de inativação de explosivos, grupo de operações especiais. Todas as valências da PSP estiveram a trabalhar com muita dedicação, não só durante esta semana.

Muitas semanas antes.

Muitos meses antes. Eu tive o primeiro contacto com o Vaticano, com a polícia do Vaticano, a Gendarmeria do Vaticano, cerca de oito meses antes.

Foi fácil essa articulação?

Foi. Para nós é sempre mais difícil. Por quê? Porque o evento é nosso, a responsabilidade é nossa.

Mas o Papa é deles, mais ou menos.

É, porque a Gendarmeria do Vaticano já tem um modelo de visitas e que impõe ou tenta impor ao país onde a Sua Santidade se desloca e depois nós adaptamo-nos e criamos ali sinergias.

Estamos a falar de deslocações suas ao Vaticano.

Também tive essa oportunidade de ter estado cinco dias no Vaticano, na semana da Páscoa, que foi uma experiência também indescritível, porque poderíamos ter lá ido numa outra época, mas vivemos a semana pascal também no Vaticano. Portanto, também foi uma experiência e que nos ajudou a perceber algumas das dinâmicas, algumas das formas de estar de Sua Santidade, a aproximação que a segurança tem com ele. Apesar de, se calhar não se recordam, foi uma altura em que Sua Santidade tinha acabado de sair do hospital, tinha estado internado.

Havia até rumores de que o Papa podia nem estar presente na Jornada Mundial da Juventude.

Sim, esses rumores aconteceram, mas a mim sempre me deram a certeza que ele viria. E veio, felizmente, mas sempre me deram a certeza que ele viria, a não ser por outro motivo mais grave, que estaria em Portugal e trabalhámos sempre no pensamento que ele viria.

Nessa pronúncia.

O comandante Alexandre foi, como descreveu na imagem, um dos seguranças pessoais da PSP que esteve sempre ao lado do Papa Francisco Desde o momento em que pisa solo português até que entra no avião para abandonar novamente Portugal. Como é que foi a primeira vez que falou com o Papa Francisco? Ou que esteve com ele a primeira vez e disse-lhe alguma coisa, o Papa Francisco também lhe disse alguma coisa?

Apesar da experiência que tenho, é sempre difícil encontrar as palavras certas para nos dirigirmos a Sua Santidade. Eu já tive, por questões de serviço, naturalmente, a oportunidade de ter grandes dignitários internacionais em Portugal, grandes eventos, de falar com eles, mas a forma como nos dirigimos a Sua Santidade é sempre diferente.

Não nos podemos esquecer que é um chefe de Estado.

Além disso, é um chefe de Estado. A visita foi de um chefe de Estado que vinha às Jornadas da Juventude. Há aqui duas distinções, e já agora em termos policiais, em termos de operação, há as Jornadas da Juventude e há a visita de um chefe de Estado a Portugal, que inclusive teve honras de chefe de Estado. A primeira cerimônia que acontece em frente ao Palácio de Belém são de honras de chefe de Estado e só depois é que se enquadra na Jornada.

É questão religiosa.

Exatamente. Há aqui dois momentos que é a Jornadas e a visita de um chefe de Estado. Eu não diria que há uma dificuldade, mas é diferente abordarmos Sua Santidade de um outro chefe de Estado.

Comandante Alexandre Vieira é crente?

Eu sou católico, não sou praticante, respeito muito e acredito.

Isso fez diferença na sua missão?

Para mim fez. E posso lhe dizer que tive colegas completamente descrentes que me disseram isto, que não são católicos, que não acreditam, mas que o facto de se terem aproximado de Sua Santidade mexeu com eles. Tive colegas meus e outros agentes do Corpo de Segurança Pessoal que depois disso tudo acontecer, tivemos estes comentários e que me disseram que de facto-

Sentiram-se tocados de alguma forma.

É.

E este, voltando à pergunta do João, a primeira vez que esteve com o Papa Francisco, trocaram palavras?

Sim, a primeira vez que eu estive com o Papa Francisco foi no Vaticano. Trocamos meia dúzia de palavras, não são muitas, porque o protocolo-

Como é que se diz a alguém: "Eu vou protegê-lo durante seis dias, não se preocupe, que eu e os meus colegas, camaradas, polícias, companheiros, eu não sei como é que se tratam no meio policial, mas eu e os meus colegas vamos protegê-lo bem." Como é que se diz isso a alguém?

Não precisamos dizer dessa forma tão óbvia. Mas dizer que teremos todo o prazer, todo o gosto em garantir a sua segurança durante a permanência em território português.

E o Papa Francisco, lembra-se das primeiras palavras que lhe disse? Certamente trocaram muitas palavras de circunstância naqueles momentos mais próximos.

As primeiras palavras é sempre, penso eu, um ritual religioso. É: "Abençoo-te e que corra tudo bem". Basicamente foram as primeiras palavras e que não esqueço, naturalmente. Mas a troca de palavras houve mais no Vaticano do que propriamente em Lisboa, porque em Lisboa à chegada, desce do avião, entra logo no carro e só mais tarde é que voltámos a falar.

O vosso serviço começa assim que o Papa Francisco desce do avião.

O serviço começou, para além das visitas preparatórias, cá ao Vaticano. Começou com a ida a Roma, fomos buscar os carros. A partir desse momento em que fomos, com a cooperação da Força Aérea, buscar os carros a Roma, aí começou o serviço.

Estou a falar dos Papamóveis, fechado e aberto.

E aberto, exatamente. Foram dois carros que trouxemos cerca de uma semana antes. A partir desse momento, começou.

E o comandante Alexandre Vieira acha que se deve usar o Papamóvel fechado ou aberto? Para a sua missão, fechado, imagino, mas depois, obviamente, aberto tem todo um outro impacto.

A nossa missão, nós temos que nos adaptar a todo o tipo de eventos e a todo tipo de desejos. Nós não existimos para impedir.

E complicar a vida da entidade.

E complicar a vida da entidade. Estamos ali para encontrar soluções para que o evento, e volto a referir, a visita de Sua Santidade é feita no âmbito de um evento, que tem que haver exposição pública. E a nossa obrigação é encontrar soluções para que-

Qual é o maior desafio num evento destes? Com esta quantidade de gente, estas deslocações, porque ele deslocou-se muitas vezes.

Muitas vezes. Não é habitual também haver tantas deslocações numa visita.

Ainda por cima com alguma dificuldade do ponto de vista da mobilidade.

Só para recordar os ouvintes, esteve no Parque Eduardo VII em Lisboa, esteve no Parque Tejo, também em Lisboa, chegou a ir a Fátima, foi ao Palácio de Belém, foi a Cascais.

Foi ao Bairro da Serafina, foi ao Colégio São João de Brito.

Foi à Universidade Católica.

Foi à Universidade Católica, que foi um evento fantástico.

Centro Cultural de Belém, já dissemos.

Centro Cultural de Belém, sim. Creio que foram 12 ou 13 deslocações, que não é habitual. Em cinco dias e dadas as condições físicas que ele tinha naquele momento. Recordo que ele tinha tido em abril, maio, uns problemas, tinha estado inclusive internado. Mas aguentou-se muito bem, melhor do que nós muitas vezes. Mas nós preparamos, como disse, começamos a preparar com muita antecedência, tínhamos acesso ao programa e aos diferentes eventos, porque todos eles, à exceção do Parque Eduardo VII e do Parque Tejo Eram eventos, não diria privados, mas que foram organizados por diferentes entidades. Desde a Presidência da República, que foi no Centro Cultural de Belém, à Universidade Católica.

Ao colégio.

Colégio São Luís foi a comunidade jesuíta. Em Cascais também foi escolas ocorrentes, todas elas com diferentes organizações e que tivemos que, durante cerca de três meses antes da chegada, começar a contactar, conversar com as pessoas, qual era a ideia para o evento, o que queriam fazer, o que era possível, o que não é.

Eu vou fazer a pior pergunta de todas. Num evento destes, com tanta gente, tanto interlocutor, tanta gente a achar que sabe e que quer à sua maneira, como é que se faz? Tem que haver alguém que mande, não? Convém.

Na teoria sou eu que mando. Porque a responsabilidade...

Mas teve momentos de grande dificuldade?

Não, porque a ideia que eu sempre tive e dizia a todos os organizadores, e costumo dizer isto, quando nós recebemos outras entidades, também vem com segurança dos países, e eu tenho uma forma muito fácil de expor as coisas. E o que eu digo é que todos nós temos um objetivo em comum: que a visita corra bem. A forma como o vamos fazer, vamos encontrar aqui soluções que agradem parte a parte.

Portanto, o comandante Alexandre Vieira é um diplomata.

Sem dúvida.

Faz parte.

Faz parte.

Faz parte das minhas funções também.

Um bocadinho de diplomata, um bocadinho de autoridade, de técnico e um bocadinho de psicologia.

Porque a segurança pessoal tem muita tecnicidade e obriga, para além da responsabilidade de manter a segurança física, emocional e até da própria imagem da entidade, porque temos tido nos últimos anos situações em que a exposição das entidades é de tal forma que a humilhação pode provocar um atentado através da humilhação à entidade. E nós tentamos também que isso seja evitado. Faz parte também das nossas obrigações evitar esta tentativa de humilhação. Desde o arremesso de tinta ou de outras coisas que possam provocar essa tentativa de humilhação.

Qual era o maior risco neste evento?

O maior risco era a morte, naturalmente.

E nós já tivemos uma tentativa de...

Sim, em 1982.

Com o Papa João Paulo II.

E que foram elementos, na altura, não se chamava Corpo de Segurança Pessoal, mas eram da Segurança Pessoal da PSP, que evitaram esse atentado. Naturalmente que o risco máximo é a tentativa de homicídio. E nós preparamo-nos para todos esses cenários. Os meses antecedentes, desde as tais conversas, reuniões com os organizadores, encontrar soluções para que dentro dos espaços onde iriam ser realizados os diferentes eventos, evitar que qualquer um destes cenários pudesse acontecer. Esse é o nosso trabalho.

Como é que se prepara para isso?

Com muito trabalho, muito treino físico e psicológico, porque é preciso termos polícias com muita capacidade mental para suportar o barulho, os gritos, o calor, como foi aqui estes dias. Com muito trabalho.

Muita coisa mudou de 82 pra agora.

Sim.

Que grandes diferenças vê na Polícia de Segurança Pública, nomeadamente no CSP, no Corpo de Segurança Pessoal, de 82 pra agora, o sucesso. Num visionamento de anos para trás, não nos lembramos de nenhum ataque grave a nenhuma entidade, seja política, seja artística, grave em Portugal. Isso também é um pouquinho o reflexo do vosso trabalho. O que acha que mudou, de fato, na Polícia de Segurança Pública, pra nunca mais ter acontecido uma coisa tão grave como aconteceu em 82?

Há claramente uma grande aposta na formação. Posso dizer que o nosso curso de Segurança Pessoal, que é uma valência exclusiva da PSP a nível nacional, mais nenhuma força ao serviço de segurança faz, temos essa competência à nível nacional. No nosso curso só podem concorrer elementos ou polícias da Polícia de Segurança Pública. Há uma série de requisitos e depois de passarem esses requisitos, provas físicas, provas médicas, psicológicas.

E constante treino, acredito eu.

O curso depois são quatro meses.

Mas mesmo que entrem no curso de Segurança Pessoal, é um treino intenso ao longo da vida.

O efetivo atual anda à volta de cerca de 220 polícias, que inclui o destacamento do senhor Presidente da República, destacamento do senhor Primeiro-Ministro, e depois temos as entidades nacionais, temos testemunhas de processos, cidadãos.

Vítimas de violência doméstica.

Vítimas de violência doméstica.

É bastante abrangente.

É. Está definido legalmente quais são as nossas competências e nós diariamente, quando os polícias do Corpo de Segurança Pessoal não têm missão atribuída pra aquele dia, estão no Corpo de Segurança Pessoal em formação, sempre. Física.

Tenho que o interromper, eu peço desculpa, nós temos mesmo que ir para intervalo. Nós voltamos já a seguir e continuamos com a mesma pergunta: que tipo de formação e por que a formação é fundamental? Este é o podcast "10 Anos de Observador". Voltamos já em seguida. E aqui estamos nós, João. Estávamos a falar de formação, peço desculpa por ter interrompido. A formação é contínua. Quando não estão em missão, estava a dizer que em missão-

Sim, quando os polícias não estão em comissões atribuídas para aquele dia, para aqueles dias ou para aquela semana, estão em formação constante, física, técnica e de tiro, ou de condução, dependendo da sua função dentro da equipa de segurança pessoal. Estamos sempre em formação para habilitar e vamos corrigindo. Nós trabalhamos e vemos situações que se passam pelo mundo, tentamos cenarizá-las com os nossos elementos da equipa de formação, esses cenários que se passaram, ou cenários negativos que se passaram no mundo, para tentarmos perceber o que é que terá acontecido de mal, e tentamos encontrar soluções para aqueles cenários. Nós estamos em constante evolução na formação. Posso dizer que de curso para curso atualizamos e alteramos matérias do próprio curso, porque o mundo evolui e temos necessidade de nos adaptarmos às novas realidades. Aquilo que eu há pouco dizia da tentativa de humilhação de uma entidade é uma realidade relativamente recente e que nós fomos criando formas de adaptação a cenários ou a eventos em que há exposição da entidade, em que temos que evitar que essa tentativa de humilhação aconteça.

A bem da verdade, recordemos, falou há pouco da tinta. A bem da verdade, lembramo-nos de um episódio que aconteceu na última campanha das legislativas. Luís Montenegro foi à entrada da FIL, em Lisboa.

Também teremos essa fotografia na exposição dos 10 anos do Observador.

Luís Montenegro foi alvo de um ato hediondo, naturalmente, de um ativista climático que atirou tinta verde para cima do, na altura, ainda candidato, hoje primeiro-ministro de Portugal. A bem da verdade, Luís Montenegro não tinha segurança pessoal da PSP, porque era um candidato.

Não estava, portanto, em função como primeiro-ministro.

Na verdade, todos os candidatos nas últimas legislativas não tinham corpo de segurança pessoal, porque nenhum era um primeiro-ministro ou um político em funções ativas, digamos assim. E, portanto, a bem da verdade, os ouvintes que se lembrarem deste episódio e se lembrarem: "Mas o comandante está ali a falar, mas de fato aconteceu isto?" A bem da verdade, Luís Montenegro não tinha segurança pessoal. Lembro-me que, e recordo os ouvintes que o primeiro-ministro António Costa ofereceu a todos os candidatos a primeiro-ministro a possibilidade de terem segurança pessoal.

Deixa-me só recordar que estamos à conversa com Alexandre Vieira, que é o comandante do Corpo de Segurança Pessoal da Polícia de Segurança Pública e que teve um papel determinante em 2023, o ano em que Lisboa recebeu a Jornada Mundial da Juventude e o Papa Francisco. Há uma coisa sobre a qual nós não falamos habitualmente quando nos referimos à autoridade, que é saúde mental. E eu imagino que nesta área específica da sua intervenção, a saúde mental seja um tema.

É. E é uma preocupação minha enquanto comandante, não só da minha também, como dos meus polícias. É, e nós, como eu disse também há pouco, faz parte dos nossos requisitos de entrada no Corpo de Segurança Pessoal, uma avaliação psicológica. Trabalhamos em cooperação com o nosso departamento de psicologia da PSP, que durante o período de seleção e durante o curso, temos sempre um acompanhamento. Fazemos semanalmente, quinzenalmente, provas psicológicas e pós-curso, frequentemente vão-

Uma avaliação

...a uma avaliação, não diria, mas pelo menos duas vezes por ano vão ao departamento de psicologia.

Mas muitas vezes há um estigma à volta destas questões de saúde mental, do apoio psicológico ou até psiquiátrico. Enfim, existe este estigma ainda nas forças de segurança?

Existe. Eu tenho polícias meus, pela confiança que têm comigo e que eu tenho com eles, que falam comigo abertamente de dificuldades pessoais. Todos nós temos vida pessoal, todos nós temos mulher ou marido, filhos com crianças, escola, doenças, problemas do dia a dia e tenho essa abertura para virem falar comigo quando têm esses problemas e tentarmos ao meu nível, se for ao meu nível, tentar solucionar, encontrar uma solução para aquele momento. Se não for possível ao meu nível, então passarmos o problema para os nossos técnicos de psicologia.

Acredito que exista uma enormíssima diferença entre proteger um político, um chefe de Estado, seja estrangeiro, seja nacional, a diferença para uma vítima de violência doméstica, uma testemunha num processo importantíssimo. Estou a me lembrar, por exemplo, Rui Pinto. A segurança pessoal do Rui Pinto é feita por vós. Violência doméstica, uma mulher a um homem que a juíza ou o juiz entenda que existe perigo de iminente à sua vida. Como é que se lida com isto, quando de fato existe a possibilidade real da pessoa que vocês estão a proteger, alguém a querer morta?

É verdade As nossas técnicas, inclusive, são diferentes. A nossa preparação para proteger um alto dignatário político, nacional ou internacional, ou uma testemunha, ou um juiz, que também pode ter esse tipo de ameaça, as nossas técnicas são distintas. E nós preparamo-nos até psicologicamente, porque é diferente. Como eu disse há pouco, o meu contacto com Sua Santidade foi mais em zonas privadas do que expostas. E aqui, com uma testemunha, há inclusive um apoio psicológico que a vítima tenta encontrar no polícia.

E vocês não são imunes a esse lado emocional. Essa história pessoal e essa pressão.

Tentamos, mas não é fácil, porque como disse há pouco, somos seres humanos e também vivemos emoções, e muitas. Partimos de um princípio básico, seja para políticos, seja para testemunhas. Uma das premissas da segurança pessoal é que tem que haver um compromisso de parte a parte. Nós não podemos garantir ou oferecer a nossa vida, se necessário for, se não houver um compromisso da outra parte. Naturalmente, com uma testemunha que passamos muitas horas, às vezes até 24 horas por dia, esse compromisso é muito mais intenso do que com um político.

E até talvez mais íntimo também.

E muito mais íntimo, sim. Passamos a viver as questões íntimas dessa pessoa, as suas rotinas diárias, as suas conversas com amigos. Tudo isso é necessário, tal compromisso e a tal confiança, que é muito grande de parte a parte, e que leva a que as nossas técnicas tenham que ser distintas. E tem que haver um maior acompanhamento da nossa parte, do comando, para com esses polícias, porque também podem ter quebras.

Lá está a questão da saúde mental.

E que podem pôr em causa a segurança das pessoas que nós estamos protegendo. E isso é algo que eu não posso deixar acontecer, porque a nossa função é claramente garantir a segurança das testemunhas ou das pessoas que estamos a proteger.

Quantas pessoas trabalham consigo?

Neste momento, cerca de 220. A nossa casa mãe está em Belas, na Quinta das Águas Livres. Temos depois um destacamento com o senhor presidente da República de cerca de 21, 22 polícias, no senhor primeiro-ministro também. E depois temos as diferentes entidades nacionais, ministros, juízes, procuradores, testemunhas, juízes, que sob avaliação de ameaça, que é feito um relatório que as pessoas estão, de facto, a sofrer ameaças, então é atribuída a segurança pessoal. E depois temos as visitas a Portugal, que são muitas. Portugal é, felizmente, um país que sabe receber e gosta de receber, e que os dignatários internacionais querem vir. Mas cerca de 220.

Desses 220, a percentagem maior, imagino, seja composta por homens.

Sim.

Há um maior interesse da parte das mulheres nesta área de trabalho? Tem vindo a ser crescente esse interesse?

Sim, posso dizer que no último curso que terminou o ano passado em setembro, terminaram 54 polícias e 10 mulheres. Foi a primeira vez que terminaram tantas mulheres e, estatisticamente, se calhar, terminaram mais mulheres do que homens. O número inicial de candidatos de homens e de mulheres levou a que, percentualmente, terminassem mais mulheres do que homens.

É vantajoso ser uma mulher nesta tipo de função?

Eu não faço distinção.

Mas as realidades são diferentes.

Mas as realidades são diferentes e naturalmente nós temos entidades e testemunhas de determinado tipo de crimes que o ter uma mulher pode ter outra sensibilidade. Não significa isto que haja-

Que um homem também não a tenha.

Exatamente, e que até para vítimas de determinados crimes não seja o homem. Tudo isto é avaliado depois da conversa que temos com a pessoa que vamos proteger, é avaliado e então é nomeada a pessoa que eu entendo que é a pessoa correta para proteger.

Cada caso é um caso.

Cada caso é um caso, mas naturalmente temos que ter altos, baixos, magros, gordos, homens, mulheres, temos tudo. Faz parte das nossas técnicas.

Para ser invisíveis.

É, passar despercebido ou invisível ao lado da entidade. Não vamos pôr um homem com dois metros ao pé de uma entidade com um metro e cinquenta. Por quê? Porque a atenção passa a ser da pessoa que não se quer que tenha atenção.

Agora um olhar jornalístico, vou provocá-lo um pouquinho. Eu até sei que a unidade de corpo pessoal da PSP tem o cuidado de se, desculpe a expressão, camuflar ao sítio onde o político se encontra. Por exemplo, se for uma situação em que o político pode estar um pouquinho mais descontraído Também os elementos do Corpo de Segurança Pessoal não vão de fato nem gravata, que é uma coisa que estão sempre habitualmente, mas quando há uma cerimónia oficial, quando vai à Assembleia da República ou uma visita, seja onde for, em que o primeiro-ministro ou o presidente da República está de fato e gravata, é engraçado porque todos os elementos acompanham a indumentária da pessoa que estão a fazer a protecção. Portanto, também há esse cuidado. Se o primeiro-ministro vai passear nas suas férias junto à praia, naturalmente, os elementos de segurança pessoal não vão de fato.

Os elementos também têm o fato de banho.

Também há esse cuidado.

Imagino que o fato de banho não seja assim muito recomendável. Digo eu.

Como disse, nós temos que encontrar soluções e, portanto, todo o equipamento que faz parte do nosso dia a dia para garantir a segurança, tem que lá estar presente. Não está de uma forma tão visível, está de uma forma mais encapotada ou camuflada. Mas sim, praia, neve.

Balo de máscaras.

Tudo. E já aqui falámos da questão das testemunhas, não faz sentido andar com uma pessoa que está a ser protegida, que está na sua rotina diária e nós andarmos de fato a chamar a atenção. Portanto, nós adaptamo-nos e camuflamo-nos consoante a indumentária que o protegido vai usar naquele dia.

Há pouco, disse-me-

Posso dizer que quando vamos para uma missão, levamos uma mala com-

Com tudo.

Com tudo o que é possível.

E depois vão adaptando-se um bocadinho com a roupa que têm.

Fato de treino, vamos correr, vamos andar de bicicleta, vamos nadar.

Mas no caso da Jornada, ninguém se vestiu de padre, pois não?

Não.

Tem a certeza? É que houve aí uma hesitação. Estou só a brincar.

Não houve necessidade.

Mas, por exemplo, só para também uma curiosidade aos nossos ouvintes, sempre que o Presidente da República vai mergulhar, que é uma coisa diária.

Que é uma coisa que ele faz habitualmente.

É obrigatório, e eu acho curioso isto, é obrigatório pelo menos um elemento do Corpo de Segurança Pessoal acompanhar o Presidente da República, mesmo que uns metros à distância.

Já lá está.

Já está dentro da água.

De facto, vocês acompanham as entidades para todo o lado, até para os mergulhos.

Sim.

Portanto, uma das perguntas na formação é: gostas de água fria?

Não, faz parte da nossa formação ter formação de socorros a náufragos. Temos um protocolo com o Instituto de Socorros a Náufragos e durante um período do curso vamos lá fazer mesmo salvamento de pessoas.

Vocês não se limitam a ver na areia.

Não, não nos limitamos a ver e a pegar no telefone e telefonar para as entidades. Não.

Não, isso não. Bom, nós estamos mesmo na reta final, porque isto é bastante mais rápido do que aparentemente seria. Quando as conversas são boas, claro. Estamos a conversar com o comandante Alexandre Vieira. Estamos mesmo a terminar. Nós gostaríamos de saber: há algum episódio no âmbito da Jornada Mundial da Juventude que possa recordar aqui e que digamos que não esteja nas bocas do mundo?

Essas eu não posso partilhar. Naturalmente, faz parte da minha função. Tem um comissário meu que costuma dizer: há histórias que se podem contar e outras não se podem contar. Mas a nível pessoal, eu não diria mais que a nível profissional, mas a nível pessoal foi uma experiência que poucas pessoas terão esta oportunidade de ter, como eu tive. Também costumava dizer que estava no dia certo, à hora certa, porque eu quando assumi as funções de comandante do Corpo de Segurança Pessoal há seis anos, não imaginava que iria estar tanto tempo e que iria ter a oportunidade de fazer o planeamento e toda a execução da segurança a Sua Santidade. O Corpo de Segurança Pessoal tem um passado com outros comandantes que nunca tiveram esta oportunidade, e eu tive-a. A nível pessoal, guardo muito uma imagem que eu estava a trabalhar e a minha mulher mandou uma fotografia dos meus filhos a verem-me na televisão.

Pois, porque apareceu bastante. Na televisão estava sempre atrás.

Hoje já não vai conseguir passar despercebido em lado algum, tenho a certeza.

Vou passando. Confesso que nos dias a seguir achava que toda a gente me tinha visto na televisão e toda a gente me conhecia, mas isso vai-se diluindo no tempo.

Que outras entidades é que organizou as suas visitas a Portugal ou que até protegeu diretamente, como o Papa Francisco, e mesmo para terminar?

Durante as jornadas da juventude?

Durante a sua vida profissional.

Eu sou comandante do Corpo de Segurança Pessoal há seis anos. Tudo o que são grandes eventos, grandes visitas de Estado a Portugal, eu estive em todas. Desde a presidência portuguesa-

Da União Europeia

...da União Europeia, que foi assim um bocado híbrida, porque estávamos em fase Covid, mas depois arrancou a partir de maio.

Até à visita do presidente Zelenskyy.

Sim.

Que aconteceu-

Há cerca de três meses atrás.

Este ano ainda. Que imagino que não vamos ter tempo a desenvolver.

Não, eu ia sugerir que o comandante voltasse. Fazíamos um episódio extra.

Mas só para o remate final, de facto, tentar proteger um presidente que tem uma guerra no seu país, de facto deve ter sido também um desafio gigantesco.

Foi talvez a primeira vez que Portugal teve a visita de um presidente com o seu país em guerra. E, portanto, como eu também já referi, é feita uma avaliação de ameaça e de risco à pessoa e a todo o evento. E foi, de facto, até hoje, a visita que me causou mais insônia.

De novo, nós estamos na reta final. Eu acho que é melhor convidarmos o comandante Alexandre Vieira para voltar cá, para conversar conosco. Este é o podcast 10 Anos do Observador. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Como imagina, ficaríamos aqui mais tempo à conversa. Eu sou a Patrícia Reis.

Eu sou o João Bufírido, da Autografia. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Foi uma excelente conversa.

No próximo episódio falaremos sobre um acontecimento que marcou o país ou o mundo no ano de 2024.

Muito obrigado.