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Os Cinco Continentes na Rádio Observador com Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE e da Academia Militar. Bom dia, Bruno, bem-vindo.

Bom dia.

Como sempre, começamos este Cinco Continentes pela guerra na Ucrânia e pelos mísseis russos que atingiram várias cidades ucranianas. Bruno, estamos perante uma viragem na guerra?

Acho que é cedo pra dizer que sim, mas em relação a esta dimensão, ou seja, da guerra aérea contra a Ucrânia, em particular contra as suas infraestruturas críticas, pode ser que sim. De facto, nunca vimos tantos mísseis de tipo diferente, nunca vimos tantos mísseis tipo hipersônico, os tais Kinzhal, e também não tínhamos visto taxas tão baixas de intercepção destes mísseis pela defesa antiaérea ucraniana. Desta vez, apenas 34 de mais de 80 mísseis foram interceptados, bastante abaixo das taxas de intercepção de 70% a 80% de vagas passadas. Em particular, estes mísseis Kinzhal, estes mísseis hipersônicos que têm a capacidade de atingir velocidades que são 10 vezes acima da velocidade do som, e que também têm uma trajetória variável, portanto não são mísseis balísticos, são basicamente impossíveis de interceptar pelos sistemas antiaéreos da Ucrânia e mesmo com os sistemas antiaéreos mais avançados, nomeadamente os Patriot, que temos ouvido falar bastante e que estão agora a chegar. É mais possível que consigam, mas não é certo, até porque eles não foram desenhados para interceptar este tipo de mísseis. O que me leva a dizer que pode não ser uma completa viragem é que pode ser que isto não seja sustentável. Este ataque surgiu bastante mais tempo depois da última grande vaga do que também tem sido habitual. Os russos estavam a fazer vagas deste tipo entre 10 e 15 dias. Desta vez foram mais de três semanas e as notícias que tinham vindo a público eram de que a Rússia só teria poucas dezenas destes mísseis Kinzhal. Teremos de ver se é realmente assim. Um dos grandes objetivos das sanções, nomeadamente as sanções tecnológicas contra a Rússia, tem sido precisamente tentar dificultar que a Rússia tenha estes sistemas mais avançados, tenha a capacidade de continuar a produzir em quantidade estes sistemas mais avançados. Mas sabemos que a Rússia reforçou a sua cooperação com o Irão, que tem alguma experiência nesse campo, nomeadamente fugir a sanções ocidentais. E há também especulação de que a China poderá não estar a fornecer sistemas de armamento, mas pode estar a ajudar com algumas tecnologias de duplo uso. Teremos de ver, mas realmente parecia ter-se virado aqui esta página em termos da guerra contra a infraestrutura crítica, contra a rede elétrica da Ucrânia. Pode ser que isto seja um sinal de que realmente não é assim e que a Rússia terá capacidade de continuar a atacar e até com mais eficácia essa rede nas próximas semanas e nos próximos meses.

Esta semana voltou a falar-se bastante da explosão que danificou o gasoduto Nord Stream. Já sabemos o que aconteceu, Bruno?

Não sabemos o que aconteceu. Continua a haver imensas dúvidas e muitos aspectos estranhos. Em todo caso, surgiu uma investigação jornalística séria por parte de um consórcio de jornais na Alemanha, que parece ter tido realmente acesso a informação policial com algum interesse e com alguma credibilidade, muito longe de, por exemplo, um artigo muito sensacionalista do Seymour Hersh, um jornalista americano que já publicou algumas reportagens marcantes, mas que neste caso veio defender até que teria sido os Estados Unidos, e isso foi desmentido taxativamente pela Casa Branca. Se tivesse havido envolvimento americano, obviamente o presidente teria de ser informado, mesmo elementos no Congresso, naquelas comissões altamente secretas do Congresso teriam de ser informados. Tipicamente, não se faz um desmentido, faz-se uma declaração de que não se comenta esse tipo de assuntos. Aliás, ele inclusive fazia referências ao secretário-geral da NATO como parte da demonstração de que tinha boas fontes, era um importante colaborador da CIA desde o tempo da Guerra do Vietname. Ora, o secretário-geral da NATO tinha 6 anos quando começou a Guerra do Vietname, tinha 16 anos quando acabou a guerra. De facto, essa reportagem não me pareceu muito credível. Esta parece-me bastante mais e estarão aparentemente a inclinar-se para que teria sido um ataque com carga explosiva colocada por mergulhadores. Aparentemente, também a profundidade a que está o gasoduto não era tão grande como inicialmente foi dito, e isso faria alguma diferença. Teriam encontrado um barco com vestígios de explosivos. Ainda assim, as dúvidas são muitas, porque parece haver passaportes falsos das pessoas envolvidas com esse barco. Os investigadores falam da possibilidade que poderiam ser ucranianos, mas ainda assim também falam, um dos jornalistas que esteve envolvido nessa investigação refere que isso pode até ser um sinal de uma operação de falsa bandeira, ou seja, no fundo ser, por exemplo, os serviços secretos russos que teriam deixado essas pistas para deliberadamente apontar na direção da Ucrânia. Há aqui ainda muitas coisas que nós não conseguimos saber. Acho que estamos longe de conseguir saber exatamente, sobretudo quem é que foi. Aparentemente, como é que foi, já temos mais alguns elementos mais sólidos para dizer como é que terá sido, mas em termos de quem é que terá sido responsável e até há a hipótese de não ter sido um Estado, em última análise, poderia ter sido, por exemplo, um grupo pró-ucraniano ou de ucranianos, mas sem o envolvimento direto de um Estado.

Bruno, seguimos para o Médio Oriente para falarmos do acordo entre Irão e Arábia Saudita com a mediação da China. O que isto significa? A China a desafiar o Ocidente?

Sim, eu acho que é realmente um grande desafio chinês, em particular ao papel dos Estados Unidos, numa região em que os Estados Unidos se habituaram a ser a potência dominante há muitas décadas. De facto, houve aqui uma percepção de desinvestimento dos Estados Unidos e de retirada, até inclusive militar, dos Estados Unidos da região. Enfim, uma percepção e uma realidade, pelo menos em termos militares, depois da frustração com intervenções muito complicadas, como no Iraque, muitas hesitações, por exemplo, em relação ao que fazer na Síria. E também houve, pelo menos para regimes como o da Arábia Saudita, a gestão da Primavera Árabe, em que os Estados Unidos, por exemplo, deixaram cair aliados próximos, como o presidente Mubarak do Egito, e temos notícias que isso foi visto de forma muito crítica pela Arábia Saudita. Portanto, de facto, a China parece estar a aproveitar esse relativo vazio de poder. E a grande ironia aqui é que realmente os Estados Unidos inclusive tentaram justificar esta relativa retirada ou desinvestimento com a ideia de que isso era uma forma mais eficaz, mais estratégica, de se focarem na grande prioridade que seria conter a China, conter a ascensão da China. Eu já há vários anos que venho dizendo que isso me pareceu um erro. Quer dizer, pode haver razões para os Estados Unidos desinvestirem do Médio Oriente. Agora, esse argumento de que se devem retirar de zonas como o Médio Oriente para conter a China, para se enfocar na vizinhança próxima da China, parece-me realmente um disparate. Ou seja, se a China é cada vez mais uma potência global, é precisamente porque está cada vez mais presente em várias regiões do globo e não apenas na sua vizinhança próxima. De facto, aqui tínhamos esta questão, que era que a China tem uma parceria estratégica com o Irão desde março de 2021, um acordo com o prazo de 25 anos, anúncios de investimento, sobretudo em setores tão estratégicos como o da energia, da produção petrolífera, de 400 mil milhões. Isso era muito importante para compensar o déficit de investimento, nomeadamente por parte do Ocidente, de relações comerciais, mas também de investimento no know-how técnico, inclusive por causa das sanções ocidentais. Depois, de facto, foi significativo também que a primeira visita do presidente Xi, uma das primeiras ao exterior, foi precisamente à Arábia Saudita, onde teve também um encontro com os vários emirados do Golfo Pérsico em dezembro do ano passado, em dezembro de 2022. E portanto, aqui, no fundo, a dúvida era como é que eles iriam equilibrar estas relações, tendo em conta que, de facto, uma das coisas que tem caracterizado o Médio Oriente nos últimos anos, e em particular desde 2016, quando a relação entre o Irão e a Arábia Saudita atingiu o ponto mais baixo, com uma ruptura das relações diplomáticas, o fechamento das embaixadas nas respectivas capitais. Portanto, tem havido, de facto, aqui uma espécie de Guerra Fria e às vezes até quente entre Teerão e Riad nos últimos anos, em particular guerras indiretas, por exemplo, na Síria, em que os sauditas apoiam os movimentos contra o regime de Assad. O Irão tem lá inclusive milícias a apoiar o presidente Assad. No caso do Iêmen, há uma presença militar saudita, mas os iranianos apoiam os rebeldes houthis, inclusive fornecendo-lhe mísseis e drones com os quais eles atacaram até o território, refinarias sauditas e dos seus aliados nos Emirados. A última vez foi em fevereiro de 2022. E portanto, lá está. Em relação, por exemplo, a esses ataques, a Arábia Saudita queixou-se que os Estados Unidos não faziam nada. Mas, portanto, a China claramente teve também essa preocupação de procurar equilibrar estas apostas e, de facto, mediou aqui um processo negocial que, pelo menos para já, o que foi anunciado é que levará ao restabelecimento de relações diplomáticas e a expectativa é que levará, de facto, aqui uma tentativa de negociação destes vários conflitos de uma forma que se chegue a um compromisso entre os interesses da Arábia Saudita e do Irão. Temos de ver agora a implementação. Acho que não é pela China estar envolvida que de repente a política no Médio Oriente vai passar a ser fácil. Há profundas desconfianças entre estas duas teocracias islâmicas, mas de sinal oposto, uma xiita, o Irão, a outra sunita, a Arábia Saudita. Agora, acho que é realmente um grande sinal do peso crescente da China em múltiplas regiões muito importantes. E de facto, esta região é muito importante também para a China. Basicamente, é a região que fornece mais petróleo à China. A Arábia Saudita é o segundo maior fornecedor de petróleo, o Irão será o terceiro e, no conjunto, o Golfo Pérsico, os países desta região, fornecem mais de metade do petróleo e do gás que a China precisa. Portanto, é também muito importante para a China tentar estabilizar, pacificar esta região.

Seguimos para África, ao encontro de Macron.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a Angola pelo papel de parceiro estratégico que desempenha para a França em toda a região, e esse é o propósito da minha visita. Este é um parceiro que durante muitos anos trabalhou com grande empenho, em particular o presidente, a título pessoal, para a estabilidade da região.

Bruno, o que o presidente francês foi fazer à Angola no final da semana passada?

Isto fez parte de um tour africano, é a 18ª viagem de Macron à África. Começou no Gabão, depois foi aos dois Congos e depois à Angola. Veio anunciar uma viragem de página no papel da França em África. Isso tem sido obviamente um pilar da ação externa da França em muitas décadas. Depois da descolonização, a França fez questão de deixar claro que isso não era um desinvestimento ou uma saída da África, portanto criou o chamado sistema Focart ou sistema da França Afrique, ou seja, relações muito próximas com regimes, com elites pró-francesas, muitas vezes muito apostada na dimensão militar, na dimensão mais securitária. Portanto, aquilo que Macron veio dizer é que se procura aqui alterar os termos dessa relação muito neocolonial e que tem sido muito criticada e tem levado inclusive a manifestações populares, a ruturas com elites em países, em colónias antigas onde a França tem tido uma grande influência, como por exemplo o Mali. Veio anunciar a redução da presença e da aposta na dimensão militar, embora não o seu completo fim. Veio anunciar a transformação de cinco das seis bases que a França tem em África em bases de gestão conjunta e a ideia de que serão, sobretudo, não para projecção de poder francês, mas para cooperação, para treino. E sobretudo vir aqui dizer que quer apostar muito mais em parcerias mais diversificadas, mais na dimensão também económica e que vão para além das 14 antigas colónias francesas. É aí que aparece muito a questão de Angola, desta parceria estratégica com Angola. De facto, é um país obviamente bastante interessante em termos económicos, é um dos grandes produtores de petróleo de África, a par da Nigéria. Há aí uma presença importante da França já com a Total, mas é anunciado, por exemplo, a ideia de que a França irá ajudar a desenvolver uma refinaria em Angola, parceria também, por exemplo, no campo agroalimentar. Desse ponto de vista, de facto, Angola surge aqui como um exemplo de que a França tem alternativas, não precisa apenas depender de relações com as antigas colónias que eventualmente já não são afinal desejadas. Se não são desejadas, a França tem outras possibilidades em África. Acho que do ponto de vista de Angola, faz também parte de uma estratégia clara do presidente João Lourenço, nomeadamente diversificar relações, diversificar investimentos, diversificar a economia. A primeira visita do presidente João Lourenço à Europa como presidente em 2018 foi precisamente à França. Acho que para Portugal deve ficar claro e evidente que Portugal não tem aqui nenhum exclusivo nas relações com as suas antigas colónias, nomeadamente com um país tão importante como Angola. Portugal nunca teve os meios para fazer esta opção neocolonial que a França procurou fazer e já se percebeu que até a França tem problemas com esse tipo de mentalidade e de postura. Acho que nunca tivemos a oportunidade de fazer isso e devemos certamente abandonar esse tipo de mentalidade, que há aqui uma espécie de concorrência desleal, porque a França se está a envolver mais em Angola. Acho que, pelo contrário, devemos ver nisto duas opções. Por um lado, eventualmente até de cooperação também trilateral, ou seja, de nos envolvermos também, sendo isso útil para as partes e fazendo sentido com outros países, inclusive com a própria França também na cooperação em Angola. E por outro lado, também se calhar devemos seguir o próprio exemplo francês e investir também noutros parceiros africanos para além dos próprios PALOP.

Bruno, seguimos com eleições na Nigéria e no México. Na Nigéria parece que não acabaram. No México estão a começar mal. Por quê, Bruno?

Sim, aqui é importante dizer, em nome do rigor, que tecnicamente, formalmente, as eleições presidenciais na Nigéria, que falámos aqui e da importância desse país, realmente terminaram, ou seja, há um vencedor anunciado do partido do atual presidente e um novo presidente, Bola Tinubu, que à partida dará aqui garantias de continuidade, nomeadamente ao nível da política externa, e que foi aceite pela generalidade da comunidade internacional, desde logo pelos Estados Unidos, que têm, de facto, na Nigéria um dos seus grandes parceiros em África, inclusive no combate ao jihadismo. Mas há contestação, de facto, dos dois principais candidatos da oposição e, sobretudo, também há eleições para governadores, que foram aliás adiadas, mas que se irão realizar no próximo mês. A Nigéria é um Estado federal com 36 Estados que têm muito poder. Não por acaso, todos os candidatos presidenciais eram antigos governadores e essa será eventualmente uma ocasião para, nomeadamente, na principal cidade, no principal centro económico da Nigéria, Lagos, onde a oposição ganhou, digamos assim, as eleições presidenciais, perceber se aí consegue ganhar, de facto, também a posição de governador e se isso será uma espécie de compensação. Em relação ao México, as eleições serão só em 2024, mas estão a começar mal porque o presidente atual, que é um populista de esquerda, o presidente Obrador, apesar de ser bastante popular, tem taxas de aprovação da volta de 65%, e de ter um histórico de se queixar durante anos de fraude eleitoral até ganhar as eleições, em vez de investir mais no combate à fraude eleitoral, está a anunciar um desinvestimento massivo na Comissão de Eleições, na comissão que organiza de forma independente as eleições, que vai obrigar provavelmente a despedir quase 80% do staff dessa comissão. Isso, obviamente, levou a grandes protestos e não deixa ninguém descansado sobre a possibilidade daqui de uma viragem liberal, antipluralista, populista nas próximas eleições, o que obviamente seria muito negativo. O México e a Nigéria são dos países mais populosos do mundo e são muito importantes para a manutenção de um limiar mínimo de democracias pluralistas pelo mundo e nomeadamente no sul global.

Seguimos, Bruno, neste Cinco Continentes com uma viagem até à Oceania. A Austrália vai ter submarinos nucleares. Os países vizinhos dos australianos podem estar descansados?

Os governantes australianos estão muito preocupados em que fiquem descansados. O ministro da Defesa, esta semana, fez questão de dizer que a Austrália não é uma potência agressiva e que portanto este investimento, como aliás todos os seus investimentos em defesa, são feitos precisamente para se defender e com preocupações com a estabilidade, a segurança coletiva da região. E também veio recordar que a China está a levar a cabo o maior aumento de forças militares que se via desde a Segunda Guerra Mundial. Acabou agora de ser anunciado no Parlamento chinês, que se reúne uma vez por ano, um aumento da despesa do orçamento em defesa em 7,5% durante este próximo ano. Mas é verdade que de facto este acordo para fornecer submarinos nucleares à Austrália, a Austrália será o sétimo país do mundo a ter submarinos com propulsão nuclear, em conjunto com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, e que ficou conhecido como AUKUS, realmente gerou grandes tensões com a França, que foram muito comentadas, porque implicou o fim de um acordo que a França tinha feito com a Austrália para fornecer submarinos sem nenhum tipo de pré-aviso, mas também, e isso foi menos comentado, levou a grandes dúvidas e críticas na própria região. Da própria Nova Zelândia, por exemplo, que é um país com uma grande tradição antinuclear, ou de países tão importantes como a Indonésia e como a Malásia. E portanto é evidente que, sendo previsto que na próxima segunda-feira vão ser anunciados novos detalhes práticos e de calendário em San Diego pelo presidente Biden, pelo primeiro-ministro albanês, pelo primeiro-ministro da Austrália e pelo primeiro-ministro britânico Sunak, houve aqui esta preocupação de preparar o terreno na região e procurar acalmar alguns receios dos vizinhos da Austrália.

Bruno, por hoje estamos então conversados. Obrigada e até para a semana. Bruno Cardoso Reis e Cinco Continentes, para ouvir todos os sábados na Rádio Observador e também disponível em podcast.