“Graças a uma pessoa, hoje há muitas oportunidades para ganhar mais dinheiro. Essa pessoa é claramente o nosso Presidente, Vladimir Vladimirovich Putin.” As palavras são de Umar Kremlev, o oligarca que pagou parte da festa de casamento de Donald Trump Jr., filho do Presidente norte-americano. Atual líder da Associação Internacional de Boxe, o homem de 43 anos teve um passado ligado ao crime. Mas hoje é um dos empresários mais bem-sucedidos da Rússia.
Umar Kremlev nasceu em Serpukhov, a sul de Moscovo, no seio de uma família natural do Tajiquistão — na altura, uma república pertencente à União Soviética. Prova dessas raízes é que se chamava Umar Lutfulloyev antes de mudar o apelido em 2010. Como conta o jornal investigativo russo Proekt Media, antes de se tornar um empresário, Kremlev dedicou-se ao boxe, mas nunca se profissionalizou. O seu percurso de vida está longe de ser linear: o oligarca foi condenado em 2004 por crimes de extorsão e em 2007 por crimes de agressão.
A mudança de nome terá sido uma tentativa de passar um pano sobre o passado criminal? Talvez. Mas o esforço seria, muito provavelmente, para se integrar num novo grupo. “Umar, um tajique e um muçulmano de nascimento, mudou o seu nome e religião para agradar” a membros do Kremlin, garantiu um conhecido ao Proekt Media.
Em meados de 2010, Umar Kremlev já tinha começado a interagir com membros da elite política russa. Foi no famoso clube de motards Night Wolves — do qual o próprio Vladimir Putin é membro honorário — que se encontrou com personalidades ultranacionalistas que mantinham ligações com o Kremlin. Foi aí que o agora oligarca conheceu Alexei Rubezhnoi, o atual líder do Serviço de Segurança Presidencial russo.
As ligações ao poder de Moscovo rapidamente deram frutos. Em 2015, Umar Kremlev fundou a empresa Patriot para organizar combates de boxe — um dos desportos mais populares na Rússia. Dois anos depois, por recomendação de Alexei Rubezhnoi, foi nomeado secretário-geral da Federação de Boxe da Rússia. Mas ainda chegaria mais longe: foi eleito presidente da Associação Internacional de Boxe (IBA, sigla em inglês).
Para alcançar um cargo de projeção mundial, o agora oligarca soube cativar o próprio Vladimir Putin. Como revelou um membro da Associação Internacional de Boxe (IBA) ao jornal de investigação ProPublica — responsável por dar a notícia sobre o financiamento da festa de casamento de Donald Trump Jr. —, “Umar é guiado por Putin”. O Presidente russo viu no boxe uma ferramenta perfeita de soft power e encontrou em Umar Kremlev a sua testa-de-ferro ideal: “É geopolítica. O boxe é apenas um pretexto.”
A gestão da IBA demonstrava precisamente uma certa submissão ao Kremlin. Em 2021, a associação assinou um contrato de patrocínio milionário e praticamente exclusivo com a Gazprom, a gigante energética estatal gerida por oligarcas do núcleo duro de Vladimir Putin. Com as dívidas que a IBA tinha liquidadas pela petrolífera, a federação internacional passou a depender totalmente do dinheiro oriundo de Moscovo.
A invasão da Ucrânia em 2022 gerou um mal-estar generalizado nas instituições desportivas. Enquanto a maioria dos organismos internacionais obrigava à participação de atletas russos e bielorrussos sob bandeira neutra, a IBA assumiu-se como uma clara exceção. Permitiu não apenas hinos e símbolos nacionais em competição, como também continuou com o financiamento da Gazprom.
O braço de ferro com o Comité Olímpico Internacional (COI) foi inevitável. Em 2023, a instituição liderada por Umar Kremlev foi alvo de um golpe inédito: sem independência financeira, tornou-se a primeira federação desportiva da história a ser formalmente expulsa do movimento olímpico. O aliado de Vladimir Putin não gostou nada do gesto e chegou a ameaçar os principais dirigentes olímpicos.
Apesar do golpe na reputação internacional da federação, Umar Kremlev manteve-se nas boas graças do Kremlin e ganhou bastante dinheiro com isso. Em 2024, o oligarca adquiriu a Rolf, o maior grupo de concessionárias de automóveis da Rússia. A empresa foi expropriada e nacionalizada pelo Estado, sendo retirada a Sergei Petrov, um empresário crítico de Vladimir Putin que acabou por fugir para o estrangeiro.
Na guerra da Ucrânia, o oligarca nunca escondeu que apoia a ofensiva militar. De acordo com o ProPublica, Umar Kremlev tem ligações estreitas à organização Healthy Fatherland, acusada pelas autoridades ucranianas de participar no sequestro e deportação ilegal de crianças dos territórios da Ucrânia ocupados pela Rússia. Mais: a organização juvenil que oficialmente promove o desporto é gerida pela irmã gémea da namorada de 23 anos do próprio aliado de Vladimir Putin.
As ligações ao regime do Kremlin tornaram-se ainda mais óbvias em maio de 2026. Umar Kremlev esteve na China ao lado de Vladimir Putin, integrado na comitiva que acompanhou o Presidente russo durante a viagem de Estado.
A amizade com Donald Trump Jr.
As relações de amizade com o filho do Presidente norte-americano começaram a consolidar-se no início desta década. A aproximação fez parte de um movimento mais amplo em que várias figuras alinhadas com o Kremlin estabeleceram pontes com rostos-chave do movimento Make America Great Again (MAGA), entre os quais Donald Trump Jr. Os dois conheceram-se, segundo a ProPublica, entre 2023 e 2024 através de um amigo em comum em eventos de caça.
A relação entre ambos evoluiu rapidamente. Em 2025, durante o fórum da Associação Internacional de Boxe em Istambul, Donald Trump Jr. defendeu publicamente a gestão do oligarca russo: “O que o Umar está a fazer — a restaurar a justiça, a trazer de volta a pureza do boxe e a dar à juventude de hoje a oportunidade de sair dos computadores e ir para o ringue — é extraordinário”, declarou. “Estou orgulhoso de chamar ao Umar não apenas um líder, mas também um amigo”, acrescentou.
Em 2026, a dimensão da proximidade entre os dois homens tornou-se evidente. Segundo a investigação jornalística da ProPublica, baseada em documentos e no testemunho de fontes familiarizadas com o evento, Umar Kremlev pagou o aluguer de uma das duas ilhas privadas onde decorreram as celebrações do casamento de Donald Trump Jr. com Bettina Anderson. O financiamento incluiu o alojamento dos convidados e despesas de luxo, como um espetáculo de fogo de artifício.
Após as revelações jornalísticas, Bettina Anderson desvalorizou os eventuais interesses geopolíticos, garantindo que o gesto foi apenas a prova de uma “amizade que não exige motivação política”. Umar Kremlev, o homem que ainda é a testa de ferro de Vladimir Putin no mundo do boxe, também confirmou esta versão: “O senhor Kremlev nunca discutiu quaisquer assuntos políticos com os amigos e conhecidos norte-americanos”.
[Outubro de 1965. O diplomata suíço Raymond Quendoz espera pela mulher na pista do aeroporto de Havana, mas a portuguesa Annie Silva Pais simplesmente não aparece. O desaparecimento dela vai dar origem a um mistério de dimensão internacional que vai mobilizar o responsável da CIA em Cuba, o chefe dos serviços de segurança suíços, o mais alto representante de Portugal no país, e até Salazar e Fidel Castro. Porque Annie não é só casada com um diplomata suíço. Também é filha de um dos homens mais importantes do Estado Novo, Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE. Já estreou “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]