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Está na hora de viajar pelos cinco continentes na Rádio Observador. É por aqui que todas as semanas eu, João Costa e Silva, e o André Maia nos juntamos ao historiador Bruno Cardoso Reis para analisar a geopolítica internacional. Ora diretamente a partir dos Estados Unidos, como vai isso, Bruno?
Olá, Bruno.
Bem-disposto?
Olá, tudo bem. Sim.
A tensão em torno das eleições já começa a crescer, já começas a sentir esse nervosinho miudinho?
Eu pessoalmente não vi nenhum episódio desagradável. Fui, aliás, assistir àquele comício da Kamala Harris aqui na capital, em D.C., que foi um pouco o comício para dar o mote para o final da campanha e realmente a única complicação era haver imensa gente e muitos controles de segurança. Isso realmente nota-se. Não é bem como um comício em Portugal.
Parece 1998.
Até parece que eles estão a temer algum tipo de atentado, alguma coisa assim.
É, parece. Sim, é um bocado estranho. Como se fosse acontecer. Sim.
Exatamente. Mas em termos do resto, já viajei aqui por vários estados, mais para o Trump, mais para o Kamala, não se nota nenhuma tensão, as pessoas são do modo geral bastante agradáveis. Em termos eleitorais, nota-se realmente a eleição já a decorrer, nomeadamente aqui também na capital, em D.C., até a eleição presencial, a votação presencial já está a decorrer, o voto antecipado presidencial desde o dia 28 e, portanto, por exemplo, nas bibliotecas que funcionam como centros de voto, já há sinais a designar que é uma zona de votação, já há observadores eleitorais, etc. Já se nota alguma dessa agitação de dia de eleições, embora não com o nível de afluência que será, imagina-se, no dia 5.
E Bruno, olhando precisamente para estas eleições, tic tac, tic tac, não é? Está quase dia 5 de novembro. Tu estás em Washington nesta altura também, como explicaste. Mas por onde é que andam os candidatos? E também te pergunto qual é que é o papel da geografia na política norte-americana.
Bem, a geografia realmente tem aqui um papel muito grande. Em todo lado, a geografia política está relacionada, a geografia e a história. Em Portugal, por exemplo, temos uma grande divisão Norte-Sul, em termos eleitorais, em termos de preferências políticas e partidárias, o Norte tradicionalmente mais conservador, mais à direita, o Sul mais à esquerda. Mas Portugal é um país pequeno. Num país como os Estados Unidos, que é o terceiro maior país do mundo, que é um país continente, tem quase 10 milhões de quilômetros quadrados, 9.800 mil milhões de quilômetros quadrados, é 100 vezes mais ou menos o tamanho de Portugal, realmente a geografia pesa bastante. Há várias formas, aliás, de olhar para a geografia dos Estados Unidos. Eu já recomendei aqui um livro, penso eu, "American Nations", de um geógrafo.
Creio que me lembro disso, sim.
Exatamente, um geógrafo político americano que no fundo faz um mapeamento, que não é o mapeamento mais tradicional, que é no fundo muito a questão do Oeste, da costa Oeste, a questão do Sul e do Sudeste, a questão do Midwest, que estão no meio dos Estados Unidos, que estão muitas vezes a 1000, 2000 quilômetros de qualquer das costas. Não é por acaso que estados como o Utah, por exemplo, ou Kansas, muitas vezes são vistos como estados tradicionalmente isolacionistas, quer dizer, convencê-los de que aquilo que está a acontecer na Ásia ou na Europa tem um grande impacto para eles, é bastante mais difícil do que alguém que vive em Nova York ou em São Francisco. Depois a questão da Nova Inglaterra no extremo Nordeste, os estados do meio Atlântico, que é a zona da Pensilvânia, Nova York, e depois lá está outra vez novamente a questão do Sul. Mas são realmente regiões muito diferentes, com histórias muito diferentes, que foram, nalguns casos, colonizadas por colonizadores diferentes, nomeadamente os espanhóis no Oeste, na Califórnia, no Sudeste, estados como Arizona ou Novo México ou Texas. Depois os estados do Sul, que foram colonizados a partir de Inglaterra, mas por colonos de origem, sobretudo, por exemplo, escocesa-irlandesa, depois os da Nova Inglaterra, onde tinham muito peso os puritanos ingleses. Por exemplo, os estados do Midwest, estes estados do Norte, como Michigan ou Wisconsin, não dá, até por razões climáticas, imensa imigração tradicionalmente dos países do Norte da Europa, dos países nórdicos ou da Alemanha. Tudo isso realmente faz uma grande diferença e estamos a falar de um universo total de 337 milhões de americanos, à volta de 155 milhões de eleitores. Isto obriga realmente a pensar na importância da geografia e também ajuda a explicar muitas vezes posições muito polarizadas. E obriga também os candidatos, já há muito tempo, a fazer campanhas usando comboio ou avião, com saltos pelos diferentes estados. Aqui o que mudou, eu diria, sobretudo, é que nas últimas décadas, graças ao progresso das sondagens, da ciência dos dados, etc, é possível fazer campanhas muito mais direcionadas. E aqui temos este paradoxo que é: temos 50 estados, distâncias enormes, mas em muitos casos, e vemos isso agora, os candidatos estão sobretudo a fazer campanha em sete estados. Nestes estados oscilantes que vão decidir a eleição, o Wisconsin e o Michigan, a Pensilvânia, sobretudo, e mais do que todos os outros, a Carolina do Norte e a Geórgia no Sul e depois no Oeste, o Arizona e o Nevada. É sobretudo essa a geografia eleitoral que interessa mais aqui para esta eleição, porque realmente o tempo e o dinheiro são, sobretudo o dinheiro É estranho dizer que é escasso, mas é escasso para a quantidade de coisas que se quer fazer. E portanto, aí há realmente uma grande concentração de esforço nesta geografia muito mais limitada, apenas sete Estados num conjunto de 50, num país enorme.
Bruno, e falemos aqui também da política identitária. Por que esta política identitária tem tanto peso na campanha eleitoral? E também, já agora, quais é que vão ser os grupos decisivos este ano?
Eu sou crítico desta política identitária. Não gosto.
O que isso é? Para os nossos ouvintes, aqueles que não estão bem a perceber de que forma é que isto entra aqui.
No fundo, é esta ideia de que se faz o discurso político muito direcionado para determinados grupos, nomeadamente o mais evidente, grupos étnicos. Os afro-americanos, os latinos, os judeus, os árabes americanos. Realmente, eu vejo-me muito mais como universalista. Acho que esta política arrisca-se muito rapidamente a tornar-se bastante tóxica, a tornar muito difícil chegar a compromissos. Com este problema, que é se liga a identidade ao voto, parece que as pessoas não têm autonomia para votar como entendem. E isso, diga-se, é algo que fazem os republicanos, mas fazem os democratas também. Quer dizer, esta questão, por exemplo, do Obama dar a entender que é muito estranho que os homens afro-americanos, homens negros, votem em Donald Trump e não em Kamala Harris. Se calhar não é assim tão estranho, se eles acharem que, por exemplo, do ponto de vista dos seus interesses econômicos ou até da forma como veem a sua masculinidade, se calhar de uma forma tóxica, diriam muitos, mas enfim, é com o Donald Trump que se identificam e não com Kamala Harris, em termos de nível de educação, etc. Eu sou muito crítico, mas vamos ver, isso não interessa. Quer dizer, não interessa o que eu acho. E realmente é verdade, historicamente, que num estado como os Estados Unidos, com tantas vagas sucessivas de imigração, realmente a questão da política identitária sempre pesou bastante. No passado, por exemplo, o Tammany Hall era o grande centro de recrutamento dos irlandeses para votar no Partido Democrático em Nova York, para não falar, obviamente, de casos mais evidentemente questionáveis, como o Ku Klux Klan, por exemplo, que quer no século XIX, quer depois no século XX, teve um papel muito importante em mobilizar, por exemplo, votantes brancos no Sul e não só, aliás. E a verdade é que, de facto, depois de um período em que isso parecia estar numa certa regressão, voltou com grande força esta dimensão da política identitária, muito vitimista. É sempre essa ideia de quem é mais vítima. São os homens brancos que estão a lutar com a epidemia de opiáceos, são os porto-riquenhos que fazem parte de um território que nem sequer é um Estado, etc. Portanto, é muito esta lógica de uma certa política de vitimização identitária. Agora, a verdade é que isso é incontornável e realmente vai pesar, provavelmente, nas eleições. O que é interessante nestas eleições, nos últimos anos, a partir de 2016, é que parece haver alguma mudança nas identidades que mais contam do ponto de vista eleitoral, do ponto de vista de mobilização eleitoral e previsão também eleitoral. Sobretudo duas, que é a questão do gênero, portanto, a divisão homens, mulheres. Estamos a falar de diferenças entre 15 e 20% entre Kamala Harris e Donald Trump, favorável a Donald Trump nos homens, favorável a Kamala Harris nas mulheres, ou números que, por exemplo, em 2020, andaram à volta dos 10, 12% entre licenciados e não licenciados, aí favorável, no caso dos licenciados, a Biden, ou se quisermos, favorável entre os não licenciados, aqueles com menos qualificações e menos bem remunerados, a Donald Trump. E isso pode crescer para os 15 ou 20% nestas eleições, veremos. Isso realmente são mudanças importantes, sobretudo esta questão do nível educacional. Tradicionalmente era algo que não era relevante, não era, por exemplo, tido em conta nas amostras e nas sondagens, mas percebeu-se que a partir de 2016 que era realmente muito importante e resulta deste fenômeno que já falamos várias vezes, que é cada vez mais trabalhadores menos qualificados, que muitas vezes votavam tradicionalmente no Partido Democrático, agora estão cada vez mais a votar no Partido Republicano trumpista, populista economicamente, com o qual se identificam eventualmente em termos econômicos, protecionismo, nacionalismo econômico, etc. E até em termos identitários, esta questão de não gostarem daquilo que veem como um certo elitismo na linguagem. Esta questão muito woke do Partido Democrático, uma certa policiamento da linguagem, que, sobretudo para quem não tem uma formação universitária, parece uma coisa bastante esotérica e às vezes bastante difícil de passar nesse teste.
E Bruno, estamos mesmo a chegar à reta final para estas eleições. O que os candidatos têm de especial? Aliás, para mantermos até aqui o espírito do nosso programa, tem-se falado sobre os outros continentes?
Tem-se falado pouco, embora tenha havido um artigo recente na Foreign Affairs, que é a grande revista de política internacional, a dizer que, na verdade, a dimensão externa até conta mais nas eleições do que muitas vezes se diz. Eu diria sim, aliás, o próprio artigo também diz, no fundo é mais específico e mais concreto. Sim, se, por exemplo, houver conflitos armados em que há envolvimento de tropas americanas, se houver aqui uma relação muito direta com preocupações dos americanos, por exemplo, na questão de vida ou morte de soldados americanos ou eventualmente também questões econômicas. Mas eu diria, realmente nesta campanha, essa claramente não é a questão crucial, com uma ou duas exceções, a questão da Ucrânia, que aparece muito no discurso, por exemplo, de Kamala Harris, agora neste discurso que deu aqui o mote para a fase final da campanha em Washington, D.C. Ela voltou a referir que não vai abdicar do papel dos Estados Unidos histórico como defensor das democracias E atacando Donald Trump como sendo alguém que está disposto a fazer qualquer tipo de acordo com regimes autoritários, ou a questão de Gaza, de Israel, por exemplo, na campanha do Donald Trump, insiste muito nesta questão de que o Partido Democrático é hostil a Israel, que tem relações equívocas com os palestinianos, com os terroristas palestinianos, aproveitando também estas manifestações, sobretudo em universidades pró-palestinianas e muitas vezes com slogans altamente criticáveis, que são basicamente cópias de slogans, por exemplo, de grupos como a Hamas, que querem eliminar o Estado de Israel. Esses aspetos têm alguma importância, mas em termos de discursos, isso está muito pouco presente no caso do Donald Trump, a não ser sob a forma de hostilidade em relação aos estrangeiros e de insistir nesta questão que os aliados estão nos a enganar, não nos estão a pagar e nós vamos obrigar a que isso aconteça. E a questão das tarifas, das taxas alfandegárias, no fundo, o Donald Trump está a fazer uma campanha em que promete uma espécie de guerra económica com o resto do mundo, que ele depois diz que não vai ter consequências negativas, por exemplo, para a inflação nos Estados Unidos. Ninguém percebe como é que isso funciona, mas é essa a promessa. No caso de Kamala Harris, uma postura muito mais tradicional de valorização das alianças, dos compromissos, que também ajuda a alimentar a sua narrativa interna, que é também nesse sentido, de que ela é alguém que é capaz de negociar, de chegar a compromissos com o outro lado, inclusive com os próprios republicanos.
A preocupação é maior nesse sentido, não é?
Exatamente.
Bruno, temos de acelerar, porque estamos quase a chegar ao fim desta primeira parte. Temos até ao final desta primeira parte apenas dois minutos, mais um pouquinho, vamos aos três minutos. Vamos falar ainda das eleições norte-americanas. Aliás, vamos falar das guerras, desculpa. E vamos falar aqui, de certa forma, uma mistura, porque vamos misturar Estados Unidos com Ucrânia. Volodymyr Zelensky falou esta semana, criticou a Casa Branca pela fuga sobre o pedido de mísseis de longo alcance aos Estados Unidos, que foi publicado pelo New York Times. Também falou da falta de resposta à presença de tropas norte-coreanas na guerra com a Rússia. Zelensky tem razão nestas críticas, Bruno? Não era suposto Joe Biden e Kamala Harris, mesmo estando no fim do mandato, serem os grandes amigos, os melhores amigos de Kiev?
Muito brevemente, era suposto, mas a verdade é que se Trump, claramente seria uma péssima notícia para a Ucrânia, uma grande notícia para a Rússia e para Putin, em termos da guerra da Ucrânia, porque Trump é crítico a qualquer tipo de apoio, de qualquer tipo de ajuda a aliados, e prometeu basicamente acabar com a guerra de um dia para o outro. Isso só seria possível com grandes cedências em relação à Rússia e forçando, no fundo, a Ucrânia a uma espécie de paz, quase de rendição. Mas isso está longe de querer dizer que está tudo bem com a administração Biden ou eventualmente com a futura administração Harris. E realmente, eu acho que Zelensky tem muita razão nestas críticas, ou seja, os Estados Unidos até podiam ter recusado esses mísseis Tomahawk, são mísseis de mais longo alcance, à volta de 1500 km, mas vir dizer isso no New York Times, explicitando qual era esta componente até aqui secreta do plano de vitória da Ucrânia para dizer que isso não faz sentido e que vão recusar, realmente parece um nível de hostilidade desnecessária. E realmente, sobretudo no contexto atual, em que temos esta notícia de milhares de tropas norte-coreanas a entrarem no conflito. Qual é a lógica de linhas vermelhas para evitar o alargamento, se é a própria Rússia que está a alargar o conflito, se é a própria Rússia que está a intensificar o conflito e a envolver outros países. Realmente, parece-me que Zelensky tem aqui razões de queixa legítimas. O grande problema da Ucrânia é que depende, sobretudo a nível militar, muito da ajuda norte-americana. Não há substituto para isso e a capacidade de pressão da Ucrânia é também bastante limitada.
Bruno, viajamos então até à outra guerra, vamos ao Médio Oriente. No último episódio, já não fomos a tempo de falar disto, mas entretanto tivemos a retaliação de Israel ao Irão. Foram disparados mais de 200 mísseis. Quais é que são as implicações deste ataque israelita?
Confirmou-se aquilo que falámos na semana passada, que era realmente não havia perspectivas de paz no curto prazo, até porque faltava esta retaliação israelita prometida em relação ao Irão.
Estava pendente.
Estava pendente, ela concretizou-se. É um ataque bastante significativo, mas limitado, ou seja, consegue combinar de forma hábil uma demonstração de poder bastante significativa. Basicamente, Israel eliminou muitas das fábricas de mísseis e drones iranianos, o que é aliás uma ótima notícia para a Ucrânia também, porque uma parte é fornecida depois à Rússia, eliminou os seus sistemas de defesa aérea, mas basicamente atingiu alvos militares e não foi além disso, que era muito a pressão da parte dos Estados Unidos, dos Estados Árabes moderados e de muitos outros Estados, até por causa das implicações em termos da economia mundial, do preço do petróleo, implicações também eleitorais nos próprios Estados Unidos. A par disso, Israel anunciou que realmente estava a terminar a fase da sua intervenção militar também no Líbano contra o Hezbollah, que tinha atingido o essencial dos seus objetivos, depois de um grande ataque também contra a Baalbek. E o líder do Hezbollah e os líderes iranianos, embora sempre com uma retórica muito agressiva em relação a Israel, nas entrelinhas deixavam entender que também estavam dispostos a algum tipo de esforço de contenção e até, eventualmente, no caso do Hezbollah, algum tipo de compromisso, algum tipo de cessar-fogo. Vamos ver se é realmente assim e sobretudo, qual é que o grau de ligação disto a Gaza e até que ponto é que realmente o atual governo israelita, Netanyahu, estará interessado em chegar a algum tipo de compromisso que implique também um cessar-fogo em Gaza, obviamente com a libertação de reféns. Acho que estamos a entrar aqui numa fase realmente crítica, decisiva, em que pode haver mais possibilidades de acordos negociados, mas eles estão longe de estar garantidos.
Exatamente. Vamos ficar por aqui atentos aos desenvolvimentos e também ficamos por aqui nesta primeira parte. Regressamos já a seguir para viajar mais pelos cinco continentes na Rádio Observador com o Bruno Cardoso Reis. Até já.
Até já, Bruno.
Estamos de volta à segunda parte de Cinco Continentes na Rádio Observador, como sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis, que nos ajuda sempre a analisar a geopolítica internacional. E Bruno, começamos a viagem desta segunda parte na Europa. Tivemos uma conferência internacional organizada pela França sobre o Líbano para mobilizar fundos e negociar a paz. Como é que correu esta conferência e qual é que é o histórico da França nesta região? É o que vamos tentar perceber.
A França tem uma longa história nesta região, desde basicamente o século XVI, quando a França faz um acordo, uma aliança muito controversa com o Império Otomano, com os turcos, que eram vistos como uma grande ameaça muçulmana e islâmica contra a Europa cristã. E realmente a Turquia otomana continua a expandir-se basicamente até o final do século XVII pela Europa Central, chega a estar às portas de Viena. Mas realmente a França e o Império Otomano, apesar dessas diferenças, partilhavam um inimigo comum, que era a grande potência dos Habsburgos, seja na Áustria, seja em Espanha. E, portanto, a forma da França procurar justificar um pouco isso é apresentar-se como o protetor do cristianismo das comunidades cristãs neste Império Otomano, nomeadamente na zona do Levante, do que é hoje o Líbano, a Síria, a Palestina e Israel. E, portanto, tem esse papel desde o século XVI. Em 1860 também há uma espécie de início de genocídio dos cristãos maronitas, dos cristãos libaneses, e a França vai intervir evocando, aliás, esse histórico. Depois da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano alinha com o lado errado, com a Alemanha do Kaiser e perde a guerra, a França e a Grã-Bretanha vão dividir uma parte dos seus territórios no Médio Oriente, o famoso acordo Sykes-Picot, e a França vai utilizar esta ligação histórica, sobretudo aos cristãos libaneses, para ficar com um mandato, com uma espécie de colônia sobre o Líbano e sobre a Síria. Com um estatuto interessante, que é, por exemplo, os libaneses podiam pedir, podiam requerer a cidadania francesa, mas há aí uma grande influência francófona, que nós muitas vezes não temos a noção sobre o Líbano. O Líbano torna-se independente ainda durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, portanto não houve um conflito em torno da questão da independência, e mantém-se uma grande influência francesa pelo menos até aos anos 70, 80, quando começa a guerra civil. A França continua a procurar reter aí grande influência. Agora, esta conferência ilustra bem qual é o problema dos países europeus, mesmo um país como a França, que tem alguns meios militares, alguma presença cultural, histórica e econômica nesta região, que é basicamente contam em termos do dinheiro, mas contam muito pouco em termos dos conflitos. Ou seja, esta conferência conseguiu quase mil milhões de compromissos de financiamento pro Líbano, e isso é bastante importante, 200 milhões só da França, mas em termos de negociações de paz não avançou nada, não conseguiu nada. Se calhar elas até vão avançar pelas razões que referimos anteriormente, mas nenhum dos principais beligerantes, nem o Hezbollah, nem o Irão, nem Israel estavam presentes. Os próprios Estados Unidos enviaram um representante de segunda ordem e portanto isto é muito a imagem do papel da Europa, dos países europeus nestes conflitos no Médio Oriente.
Bruno, vamos continuar na Europa, porque vamos até à Geórgia, no Cáucaso, que está mergulhada numa crise. Há suspeitas de fraude nas eleições desta semana, sendo que a oposição e também a Presidente da República não aceitam os resultados. O que é que se passou, afinal, nesta votação muito contestada e também pergunto que implicações externas é que pode ter?
É mais uma de dezenas de eleições muito importantes ao longo deste ano. Vamos falar, aliás, de outras.
Sim, estamos a bater um recorde, acho eu, este ano.
Sim, exatamente, é um ano recorde mesmo, foi algo que falámos logo no início deste ano, que era preciso prestar atenção a isso. No caso da Geórgia, do Cáucaso, é uma região de conflito de influências entre a Europa, a União Europeia e a Rússia, um pouco como acontece na Moldávia ou na Ucrânia. A Geórgia foi, aliás, a primeira vítima desta fase mais agressiva da Rússia com Putin, logo em 2008, tem uma parte do seu território ocupado. Mas realmente o que vimos foi um partido mais conservador também em termos de costumes, mais alinhado com a Rússia, visto como pró-russo que está no governo, que reclama ter ganho as eleições, mas com imensas alegações de fraude. Tivemos observadores internacionais da União Europeia a falar de intimidação, violência sobre os próprios observadores, sobre votantes. Vimos imagens filmadas de urnas a serem preenchidas com montes de votos por elementos ligados ao governo. Não sabemos exatamente qual é o impacto no resultado, mas claramente que houve aqui bastantes episódios de fraude, de intimidação, que não foi uma eleição livre, justa, isso é bastante evidente. Qual é o problema? É que a Europa está muito limitada naquilo que pode fazer, os Estados Unidos também. Temos os Estados Unidos no meio de eleições em que pode ser eleito um presidente, Donald Trump, conhecido pela sua simpatia por Putin. Na Europa temos na Alemanha e França governos extremamente frágeis. Portanto há aqui pouca disponibilidade para ter uma posição muito assertiva. A oposição georgiana e a presidente têm se queixado disso. Basicamente o que a Europa fez foi apelar a que a fraude fosse anulada, que as dúvidas fossem esclarecidas. Entretanto suspendeu o processo de adesão da União Europeia, mas realmente isto mostra bem o grau de fragilidade Da influência europeia, mesmo numa região que, em princípio, ainda é da Europa, mas realmente o Cáucaso em termos geopolíticos, geoestratégicos, é uma zona bastante complicada. Se nós achamos que é complicado apoiar a Ucrânia, muito mais complicado seria apoiar, sobretudo em termos militares, a Geórgia, que não tem qualquer tipo de ligação física com o resto da Europa Ocidental, com a União Europeia. E isto também é um sinal daquilo que acontece quando, sobretudo, temos os Estados Unidos em retração, quando temos potências autoritárias, em particular a Rússia aliada à China, a aproveitarem esse vazio de poder para promover o seu modelo de governação, para consolidar a sua influência.
Bruno, vamos manter-nos na Europa, mas com escala na Ásia. Vamos falar sobre a guerra das tarifas no mundo automóvel entre a União Europeia e a China. Os carros elétricos vindos deste país para a Europa vão ter agora uma taxa de até 35%. A China já disse que vai contestar. Qual é o significado deste caso? O que isto significa realmente? O que aqui vem?
É um sinal de que mesmo a União Europeia, que tem sido tradicionalmente uma campeã do comércio livre, a Europa depende muito das exportações também e do comércio externo, cada vez mais está a fechar, está a adotar políticas mais protecionistas, também em reação àquilo que é a tendência geral. Nos Estados Unidos, por exemplo, os impostos alfandegários que já existem sobre estes carros elétricos, não estamos a falar das novas de Donald Trump, que isso pode ir até aos 500%, já são de 100%. No Brasil, que é aliás um membro dos BRICS, juntamente com a China, também existem tarifas muito elevadas sobre estes veículos elétricos. Portanto, estamos a falar, por um lado, de uma transformação tecnológica, parte de muitas outras, com enorme potencial impacto económico e no emprego, numa indústria que é crucial a nível europeu. Nós podemos queixar em Portugal, que quando a questão era pijamas e não carros, quando era a indústria têxtil portuguesa e não a indústria automóvel alemã ou francesa, a narrativa toda era: o comércio livre é ótimo, os preços vão descer e quem não for capaz de competir, paciência. Agora aqui a narrativa muda, mas realmente não é bem a mesma coisa. E já agora, convém lembrar que Portugal tem alguma coisa a ver com isto. A Volkswagen, que tem autour de 300 mil empregados na Alemanha, acabou de anunciar pela primeira vez na história um despedimento autour de 10% das pessoas, por causa destes desafios. Mas a Volkswagen tem a Auto Europa em Portugal, que representa autour de 1% do nosso PIB. Entre 3% e 4% das nossas exportações, não só 4 mil empregos diretos, mas depois muitos outros indiretos, de empresas que fornecem a Auto Europa. E, portanto, isto é realmente um enorme desafio para a Europa. Aqui, apesar de tudo, a tentativa é serem impostos alfandegários que ajudem a ganhar tempo para a indústria europeia se tornar mais competitiva neste setor e não excluir completamente a competição externa e tentar algum tipo de compromisso. Claramente, não foi o suficiente para a China achar que não valia a pena contestar isto. Obviamente, do lado da China, há também um enorme grau de hipocrisia. Já falámos aqui disto muitas vezes. A China, há muitos séculos, tradicionalmente sempre na sua cultura política, foi muito protecionista do seu mercado, do seu gigantesco mercado. Tem bem a noção de como esse mercado é altamente apetecível e como é altamente vantajoso também. E portanto, toda a história das relações entre os países europeus, a começar por Portugal no século XVI, até à atualidade, tem sido em boa parte uma das questões centrais é precisamente esta questão de conseguir algum acesso ao mercado chinês.
Bruno, agora é a mesma série, vamos até à Ásia. Já sabemos o resultado das eleições no Japão. Já falámos delas aqui várias vezes. O partido do primeiro-ministro Ishida perdeu a maioria absoluta. Qual é que pode ser o impacto, principalmente externo, deste resultado, Bruno?
Em termos do resultado, penso que é a primeira vez que falamos, mas realmente confirmou-se aquilo que era uma possibilidade, que era ele iria perder deputados. O partido Liberal Democrata que realmente já tinha como objetivo apenas ter mais um deputado do que o necessário para ter a maioria absoluta, mas realmente foi o segundo pior resultado de toda a história. É a primeira vez que eles perdem a maioria absoluta desde 2009. Importa recordar que o Japão, apesar de ter eleições livres e justas, é basicamente um sistema de partido dominante. Portanto, desde 1955, só com duas interrupções é que este partido Liberal Democrata não esteve no governo, sozinho ou em coligação, e portanto é realmente uma perda muito significativa. Não se sabe o que é que vai acontecer. A oposição também não consegue facilmente formar governo, precisaria de garantir o apoio de alguns independentes e teria uma maioria curta. Pode haver um governo minoritário, portanto, sabemos que em 11 de novembro haverá uma votação no novo Parlamento para decidir isso. Poderá acontecer um pouco o cenário que vemos em Portugal, um governo minoritário, que não tem a certeza que vai conseguir ou não aprovar o orçamento. Isto tem implicações externas importantes, porque o Japão é crucial nesta Segunda Guerra Fria, nesta disputa entre a China e os Estados Unidos. É o grande aliado dos Estados Unidos, mais próximo da China. Uma das prioridades anunciadas deste primeiro-ministro Ishida, que foi ministro da Defesa, era reforçar muito o investimento em defesa, era o Japão ter uma postura mais proativa também em termos da defesa regional. Ora, esta perda de maioria absoluta e o crescimento de partidos mais à esquerda, que tradicionalmente contestam esse tipo de prioridades, vai tornar mais difícil avançar naquilo que eram as linhas anunciadas da estratégia japonesa.
E Bruno, vamos terminar a nossa viagem em África, mais concretamente até Moçambique, outro país onde houve eleições recentemente e que tiveram consequências graves, tu bem sabes. E como é que tem evoluído esta situação destas eleições? Até foi apresentado um recurso no Conselho Constitucional pela Oposição Unida. Como é que tem sido a reação externa também?
Temos aqui uma contestação sem precedentes. Há um apelo do candidato da oposição, Venâncio Mondlane, para uma greve geral de uma semana e depois uma marcha sobre a capital. Há a disponibilidade para algum tipo de diálogo, mas não é claro quais são os termos desse diálogo. O próprio Mondlane veio dizer que havia linhas vermelhas nesse diálogo, dando a entender que não estaria disposto simplesmente a aceitar algum tipo de concessões como principal partido da oposição. Realmente, eu diria que o grande problema aqui foi que os resultados não são credíveis. Ninguém acredita que depois de tantos anos da FRELIMO no poder, desde 1975, com níveis grandes de insatisfação, que eu também pude verificar até in loco quando estive lá uns meses atrás, que a FRELIMO tenha reforçado a sua maioria, que tenha tido 70% dos votos, que tenha ganho todas as províncias. Tudo isso realmente parece demasiado e quando se retira qualquer esperança de evolução dentro do sistema político, o risco é que haja depois estas explosões de violência, obviamente sempre criticáveis, qualquer explosão de violência, seja pela polícia, seja por manifestantes, mas realmente essa questão mantém-se, continua em cima da mesa. Em termos de reações externas, eu diria que o que é relevante é haver várias potências autoritárias, em particular a China, que já vieram dar os parabéns a Daniel Chapo, ou seja, ao candidato do governo, ao candidato da FRELIMO, e do lado dos países ocidentais, no fundo, apelos a que se esclareça as dúvidas, os problemas, mas sem haver aqui também propriamente uma grande pressão. Isto mais uma vez ilustra bem o contexto em que estamos, em que é muito mais difícil aos países ocidentais exercer uma pressão forte, por exemplo, em favor da democracia, porque há muitas alternativas, porque os governos que estão no poder e que se querem manter no poder, sabem que podem contar com regimes autoritários que não se interessam nada por essas questões. O que interessa é que haja depois acordos que lhe sejam convenientes, que os seus interesses estejam bem acautelados por quem está no poder. E isso é um contexto muito diferente, por exemplo, daquele que existiu nos anos 90.
Bruno, o árbitro vai dar aqui um tempinho de compensação, portanto ainda vamos tentar ir muito rapidamente até a América Latina, vamos dar aqui mais um bilhete de avião. Vamos até a Argentina em um minuto. Javier Milei demitiu a sua ministra dos Negócios Estrangeiros, substituiu-a pelo embaixador do país em Washington. Isto depois do voto contra o embargo a Cuba na ONU, uma ilha que tem tido vários apagões. O Brasil também foi acusado pela Venezuela de ser porta-voz do imperialismo. Ou seja, temos aqui muita confusão na América Latina. O que se está a passar aqui neste continente?
Realmente, é verdade, é extraordinário, começando por aí, ver o regime chavista, o regime cada vez mais autoritário da Venezuela a acusar o braço direito do presidente Lula, Celso Amorim, de ser um porta-voz do imperialismo americano. Estou certo que nem um nem outro esperaram ouvir isso, mas realmente não é propriamente inesperado neste sentido, que o regime venezuelano sabe que pode sobreviver com base no petróleo, com base nestas redes de ligações à Rússia, à China, ao Irã, outras potências autoritárias, mas não deixa de ser importante algum tipo de apoio da parte da esquerda mais respeitável latino-americana. E durante muito tempo, realmente, Lula prestou-se a esse papel, ou seja, tinha sempre posições muito equívocas na condenação daquilo que era esta clara deriva autoritária na Venezuela. Eu já aqui disse que até percebo a dificuldade em fazer uma pressão eficaz sobre a Venezuela, pelas razões que eu acabei de referir. Se isso é difícil para os Estados Unidos ou para a Europa, também é difícil para um país como o Brasil. Agora, era muito mais criticável, sobretudo esta falta de clareza, estes equívocos em relação a dizer claramente que houve fraude, que as eleições foram roubadas, que o regime chavista é claramente e cada vez mais um regime autoritário, portanto, honra seja feita ao governo brasileiro, eles deixaram isso claro, vamos ver se essa clareza continua. E o resultado foi este tipo de acusações, este tipo de retórica, que é o habitual da Venezuela e também de Cuba. Todos os problemas nestes países são sempre culpa dos imperialistas americanos. E é também isso que justifica esta fixação no embargo norte-americano a Cuba. Aqui, obviamente, isto foi algo que Milei, um presidente que tem dificuldade até em lidar com a esquerda moderada latino-americana, quanto mais com a esquerda radical cubana, achou completamente inaceitável. A sua ministra dos Negócios Estrangeiros foi nomeada como sendo uma moderada. Agora, o problema é que aparentemente deixou passar este voto contra nas Nações Unidas ao embargo americano. É uma posição que é partilhada por muitos países na América Latina, diga-se, não apenas quando tem governos de esquerda, mas realmente a verdade é que isso para Milei é inaceitável. E já agora, e só mesmo para terminar, é evidente que não é por causa do embargo que Cuba passa por todas estas dificuldades. Claro que seria muito importante para a economia cubana ter boas relações com o grande mercado mais próximo, que são os Estados Unidos, mas Cuba optou em 1959, com Castro, por entrar em rutura com os Estados Unidos, nacionalizar tudo o que eram empresas americanas sem qualquer tipo de indemnização e, sobretudo, é extraordinário que Cuba, que diz que o grande problema da América Latina é o imperialismo e o capitalismo americano, depois diga que o problema em Cuba é a falta de capitalismo americano.
Bruno, mesmo para fechar, e temos apenas alguns segundos, queres nos deixar, como é habitual, obviamente algumas recomendações. Hoje temos dois livros e um filme, portanto dose tripla aqui e tudo sobre os Estados Unidos, por que será, não é? O que nos contas? O que nos trazes?
Para estar no sofá enrolado numa manta e a comer castanhas.
É isso, tal e qual.
Em termos dos livros, "The Divider: Trump in the White House" é uma obra do Peter Baker e da Susan Glasser, são dois excelentes jornalistas, é talvez a melhor, do meu ponto de vista, análise da presidência do Donald Trump, muito nesta mote da divisão de alguém que aposta sistematicamente em polarizar, em dividir, que tem problemas até em deixar dividir dentro do seu próprio governo. E depois, "The Internationalists" é sobre a questão da política externa americana, da diplomacia americana no período de Biden, que acabou agora de sair por um jornalista também, o Alexander Ward. E o filme é o "The Apprentice", não sei qual é a tradução já em português ou até se já estreou em Portugal, mas é o novo docudrama sobre Donald Trump, muito centrado no período em que ele está em aprendizagem e na relação que ele tem com o seu mentor, um advogado muito famoso ou notório, se quisermos, nos Estados Unidos, Roy Cohn, que esteve ligado a defender casos, por exemplo, da máfia ou que esteve ligado também ao maccartismo nos anos 50, mas que terá sido uma figura com uma enorme influência em Donald Trump, sobretudo nesta linha que é nunca pedir desculpa, ir sempre a tribunal, apostar sempre no contencioso, no litígio, em contestar qualquer tipo de crítica que nos é feita.
Olha, em Portugal chama-se "The Apprentice" também. Está neste momento nos cinemas com o Sebastian Stan a fazer o papel de Donald Trump e fica aqui também essa dica.
Essa sugestão.
É isso.
E nós terminamos por aqui. Bruno Cardoso Reis, vais ter uma semana, acredito, muito intensa e nós na próxima semana vamos querer saber tudo. Fica aqui encontro marcado para a próxima semana. Lembrar também os nossos ouvintes que podem enviar as sugestões, perguntas para o e-mail ouvinte@observador.pt. Bruno, um grande abraço e até à próxima semana.
Um forte abraço, Bruno. Até à próxima semana.
Até breve. Um abraço.