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Viajamos pelos cinco continentes na Rádio Observador. É por aqui que todas as semanas, ao sábado, depois do meio-dia, analisamos os assuntos que estão a marcar a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva, comigo, já sabe, o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo.

Olá.

Uma semana tranquila?

Sim. Tudo correu bem, com a esperança de finalmente acabarem as aulas.

Está quase.

Que eu gosto muito, mas, de facto, este semestre foram um pouco aulas demais, demasiada quantidade. Estamos já naquele período de aquecimento para as férias. Começar a fazer planos de férias.

Sim, está quase. Ainda por cima vem aí um feriado, fim de semana prolongado, portanto vai passar rápido.

Aproveitar estes fins de semana prolongados para planear as festas.

Exatamente. Bem, temos muito pra falar hoje no programa deste sábado. Vamos começar com uma sondagem francesa em nove países europeus, em que Portugal está incluído. Uma sondagem sobre a forma como os europeus veem o mundo numa altura, Bruno, em que relativamente à ameaça russa, temos a conclusão oficial sobre o envolvimento russo na morte com uma arma química de uma britânica em Salisbury em 2018. Quais são as conclusões que podemos retirar?

É realmente uma sondagem muito interessante. Eu recomendo aos ouvintes que procurem uma nova publicação francesa que eu não conhecia, que se chama "Le Grand Continent", portanto, "O Grande Continente", uma espécie de tentativa de uma publicação paneuropeia, mas realmente tem esta coisa muito útil e rara, relativamente rara, de haver sondagens. São muito mais frequentes, por exemplo, nos Estados Unidos ou noutras grandes potências, ou num ou outro grande país europeu, mas realmente não é assim tão frequente entre múltiplos países europeus. Há um anual, Transatlantic Trends, que é também organizado, no caso de Portugal, pela FLAD, que é útil, mas em Portugal realmente é muito raro e neste caso realmente temos esta vantagem: são nove países, inclui Portugal, é a Bélgica, a França, a Espanha, Itália, Países Baixos, Alemanha, Portugal, Croácia e Polónia, portanto tenta ter aqui também alguma diversidade regional. Eu acho que talvez a sondagem mais interessante, em particular hoje, que sai uma estratégia nacional americana de que vamos falar depois, que diz bem os europeus basicamente apoiam o presidente Trump, querem seguir a linha do presidente Trump. Não é bem isso que dizem as sondagens. Realmente temos esta sondagem extraordinária, que está em linha com outras também sobre a impopularidade de Trump na Europa, mas há esta pergunta, que também não faria sentido aqui há uns anos atrás: Trump é visto como um inimigo ou como um amigo da Europa? Por exemplo, na Bélgica, 7% dizem que é um amigo, 62% dizem que é um inimigo. Por exemplo, em Espanha, 8%, em França, 9%, que é um amigo, 57% em França, 53% em Espanha, que é um inimigo. Por exemplo, em Portugal, 7% que é um amigo, 45% que é um inimigo e depois há uma percentagem bastante grande que ainda está a pensar.

Indecisos, não é?

Indecisos, 46%. O único país europeu onde a percentagem daqueles que dizem que Trump é um amigo, mais do que um inimigo, é a Polónia. 24% dizem que é um amigo, 19% dizem que é um inimigo, mas 48% dizem que nem é uma coisa nem outra. Na verdade, aquele número que eu estava a dizer em relação a Portugal, 46% é dos que dizem que não é nem uma coisa nem outra, portanto não está completamente definida essa questão, e 9% é que dizem que não sabem no caso da Polónia. Basicamente temos este dado que é realmente os europeus acham que não podem contar com os Estados Unidos ou com Donald Trump, pelo menos como amigo. Enfim, há muitas outras questões relevantes sobre o tipo de ameaças, mas talvez a mais impressionante seja sobre a questão de saber se considera que há um risco de guerra com a Rússia nos próximos anos. E eu aí acho que os números da Polónia são bastante reveladores. 36% dizem que há um risco muito elevado e 41% dizem que há um risco elevado. Portanto, 77% dos polacos acham que há um risco ou elevado ou muito elevado de guerra com a Rússia nos próximos anos. E mesmo países mais afastados Tem números significativos. Por exemplo, a França, risco elevado 54%; não há risco ou há um risco baixo, 43%. Portanto, são mais os que dizem que há um risco elevado do que os que dizem que não há um risco. A Bélgica, por exemplo, que agora está muito aqui na berra, por causa desta questão dos bens russos congelados e o que fazer com eles, 58% acham que há um risco muito elevado ou elevado, 40% que não há risco. E já agora, para darmos também Portugal, a percentagem de risco elevado em relação a Portugal é 39% e 58% acham que não há um risco muito elevado. Eu tenderia a situar-me nesta última categoria. Acho que realmente Portugal está suficientemente longe para não estar em risco muito elevado de haver um choque militar direto com a Rússia. Agora, é importante recordar que a Rússia não tem só carros de combate.

Claro, e somos um ponto estratégico de entrada na Europa, não é?

Exatamente. E, portanto, em termos sobretudo da nossa dimensão marítima, a Rússia tem estado muito ativa em termos de meios navais, submarinos, navios de superfície, etc. E depois há todo o tipo de ataques híbridos, onde a Rússia também tem estado muito mais ativa nos países do norte, do leste da Europa.

Daí também essa preocupação da Polónia e esses números que falaste há bocadinho, da questão da guerra híbrida.

Não, aqui não é guerra híbrida, é mesmo guerra e guerra. Depois há, de facto, na sondagem também uma avaliação dos diferentes riscos e, por exemplo, os portugueses dizem que o risco mais elevado, ao contrário dos polacos, que são os únicos que acham que o risco mais elevado é realmente uma guerra, no sentido convencional. Por exemplo, os portugueses, a maior parte destes outros oito países, dizem que o risco mais elevado são nessas áreas dos ataques híbridos, ciberataques, sabotagens, etc. E, portanto, aí parece-me que realmente isso é acertado. E aquilo que referias sobre o caso britânico, realmente é revelador desse ponto de vista. Ou seja, finalmente houve esta informação sobre o que é que aconteceu em Salisbury em 2018. Esta senhora britânica que acaba por morrer vítima de uma arma química, Novichok, que é uma arma química que só existe na Rússia, por coincidência. E, portanto, como geralmente acontece, estes inquéritos demoram muito tempo. Enfim, a Grã-Bretanha já há anos que tinha dito que havia fortes indícios de envolvimento russo, até divulgou as fotografias dos agentes das informações militares. Depois aquele grupo alternativo de jornalismo de investigação, Bellingcat, que também tinha o envolvimento do Navalny, de facto, conseguiu provar que esses senhores eram, ao contrário do que eles diziam, não eram turistas que tinham ido ver a catedral, eram realmente agentes das informações militares russas, até tinham sido condecorados pelo Putin em certo momento. E, portanto, isso, no fundo, já se sabia, mas aqui temos a confirmação oficial com todo o tipo de detalhes. E isso realmente mostra que a ameaça russa não é uma novidade, não é apenas o resultado desta invasão da Ucrânia em 2022 e do apoio perfeitamente legítimo, à luz da lei internacional, dos países europeus a ajudar um país a defender-se de uma agressão ilegal, mas isso realmente já vem de trás. Portanto, a hostilidade da Rússia, esse tipo de ações de sabotagem, de ações, inclusive, que provocam mortes, já vem de trás, embora se tenha intensificado muito nos últimos anos e depois de 2022.

E falando aqui da ameaça russa, falamos precisamente do estado das negociações sobre a paz na Ucrânia e também, Bruno, das reações dos vários líderes europeus de um encontro que tiveram e em que reagiram ao plano inicial de 28 pontos. Essas declarações muito críticas, perguntar-te se vão criar muitos problemas a Donald Trump e também saber, no fundo, em que ponto é que estamos do progresso nestas negociações, que são lideradas pelos Estados Unidos, para a paz na Ucrânia.

Bem, este documento estratégico americano, que mais uma vez vamos falar no final, portanto, esta nova estratégia americana, deixa muito claro que o grande objetivo norte-americano é chegar a uma paz a qualquer preço, que eles chamam uma normalização de relações, ou seja, voltar aos negócios com a Rússia, e que a Europa é vista aqui como um obstáculo a isso, que interfere nessa prioridade norte-americana de chegar a um acordo a qualquer preço com a Rússia. Portanto, desse ponto de vista, acho que isso já devia ser claro. Agora está oficializado e, portanto, aquilo que os líderes europeus aqui dizem não é mais do que exatamente isso, ou seja, que, no fundo, os Estados Unidos estão aqui a pôr de lado a sua aliança histórica com as principais democracias europeias, em nome de uma aproximação com a ditadura russa, com Putin, com os senhores do Kremlin, e as possibilidades de negócios que isso abre. Se isso criará problemas nas relações com Donald Trump? Bem, apesar de tudo aquilo que é dito, obviamente foi em privado, mas é divulgado, também temos aqui uma espécie de guerra de fugas de informação. Os europeus muito provavelmente terão divulgado aquelas conversas entre o Itkov e Dmitriev, portanto, no fundo, o homem dos negócios de Putin, e depois o Shakov, o principal conselheiro diplomático de Putin, mostrando que este plano dos 28 pontos era basicamente um plano russo com algumas concessões, nomeadamente econômicas, financeiras, alguns incentivos, digamos, em termos de negociatas para os Estados Unidos, mas realmente aquilo que se percebe aqui é uma crítica, sobretudo aos negociadores, não há propriamente críticas diretas a Donald Trump. Portanto, desse ponto de vista, não me parece que isso crie propriamente grandes problemas com o presidente norte-americano, que reage muito mal a tudo que sejam críticas a ele, mas enfim, a críticas aos seus próximos, aos seus ministros, às pessoas que trabalham para ele, eles, no fundo, estão lá para isso, exatamente, para serem uma espécie de para-choques ou de para-raios, e portanto, não me parece que por aí haja grandes problemas Realmente a grande questão, no entanto, é o que a Europa vai fazer. Sabemos que vai haver um encontro entre o líder alemão e o líder belga para tentar finalmente desbloquear a questão dos bens congelados. Isso seria muito importante para retirar um grande incentivo que a Rússia está a tentar usar para atrair os Estados Unidos, precisamente usar estes bens congelados que estão na Europa para comprar os Estados Unidos, para comprar o apoio norte-americano. Era crucial que os europeus mostrassem que realmente não podem ser ignorados, que ainda têm poder, nomeadamente nesta dimensão económica, e realmente vão usar esse poder para apoiar a Ucrânia no momento bastante difícil para a Ucrânia e criar problemas às manobras russas. Esse parece-me ser, neste momento, o teste decisivo em relação a este momento das negociações, não propriamente os detalhes do que é que está a ser dito em Miami entre os ucranianos e os norte-americanos ou o que foi dito em Moscovo. Aí parece-me bastante evidente que se confirma a atitude russa, que é uma atitude maximalista, deixar que realmente os americanos querem uma paz a qualquer preço e provavelmente têm alguma razão nisso. Desse ponto de vista, o tempo funciona a favor da Rússia. Eles confiam que os norte-americanos vão forçar a Ucrânia a ceder, vão forçar os europeus a ceder e a Rússia não tem nenhuma razão para fazer aqui concessões, cedências em relação aos seus objetivos mais maximalistas. Chegamos ao ponto, e termino só com isso, de termos uma declaração de Putin realmente extraordinária na Índia a dizer que a Rússia não quer a guerra com a Europa, mas se a Europa quiser a guerra, a Rússia está preparada e vai ser mais rápido do que na Ucrânia, porque aí não vai haver benevolência. Que é uma declaração que seria para rir se não fosse uma coisa séria, porque por um lado, alguém acredita que a Rússia não avança mais na Ucrânia porque está a ser benevolente, porque se está a conter no uso da força. E por outro, esta ideia também extraordinária que é, no fundo, Putin acha que pode, neste momento, está aparentemente tão convencido destas vantagens estratégicas e do apoio americano, que acha que pode ser o primeiro líder a conquistar toda a Europa. Eu recordo, nem os romanos, nem o Napoleão, nem o Hitler conseguiram conquistar a Europa toda, mas aparentemente o Putin está convencido que sim, e vai ser rápido, mais rápido do que com a Ucrânia. Apesar de tudo, convém lembrar que na Europa ainda há duas potências nucleares, além de outros meios militares relevantes e mais significativos até que no caso da Ucrânia, mas quer a Grã-Bretanha, quer a França, que eu saiba, ainda têm armas nucleares, mas aparentemente isso não será um problema para a rápida derrota da Europa pelo senhor Putin. Vamos ver se este tipo de chantagem, que é claramente do que se trata aqui também, de guerra psicológica, se este tipo de chantagem resulta, se os europeus realmente estão também numa posição de crise tal de autoconfiança que acham que isto é uma ameaça séria.

E o certo é que Donald Trump tinha estabelecido como deadline o Dia de Ação de Graças para termos finalmente paz neste conflito, mas acabou por não ser cumprido e o certo é que as negociações continuam. Bruno, destaque agora para a assinatura do acordo entre Ruanda e o Congo, com mediação de Trump e a presença de João Lourenço, o presidente de Angola. Nós já não tínhamos falado deste acordo e também perceber, no fundo, se este é um acordo de paz ou de exploração de terras raras e outros recursos minerais. Perguntar o que está aqui em causa e se desta vez vamos realmente ter paz. Temos quatro minutos até o final da primeira parte.

Este é um acordo que pode não estar a resultar na paz, porque ainda nestes dias tivemos notícias do recrudescimento dos conflitos no leste do Congo, envolvendo esta milícia M23 e também forças do Ruanda contra milícias que têm origem no Ruanda e até no genocídio dos Tutsis, que é quem está agora no poder, este Paul Kagame, o presidente do Ruanda, que esteve em Washington, é um Tutsi e que derrotou essas forças genocidárias em 1994, depois elas refugiaram-se na República Democrática do Congo, no leste do Congo. Há também aí etnias que vivem dos dois lados da fronteira e é muito esse também o problema muitas vezes em África e que também aqui se verifica. Mas o ponto, como dizias e como eu estava a tentar dizer, é que realmente este acordo já foi assinado várias vezes. Houve uma primeira assinatura em abril de uma espécie de declaração de intenções, depois houve uma assinatura em julho do acordo pelos ministros de Negócios Estrangeiros e agora temos a assinatura pelos chefes de Estado, pelos presidentes do Congo, do Ruanda, com o presidente norte-americano, a querer assumir aqui também o seu protagonismo de grande pacificador, inclusive num edifício que era o Instituto de Estudos para a Paz, que entretanto foi destruído pela administração Trump, como parte destas iniciativas para acabar com tudo o que são instituições mais ou menos independentes, ainda que sob algum tipo de tela do Estado. Mas o edifício, que era aliás muito próximo de onde eu vivia em Washington e que é muito próximo também do Departamento de Estado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros norte-americano, realmente, como Donald Trump disse, é um belo edifício e ficou ainda mais bonito, certamente para Trump, porque Marco Rubio decidiu dar o nome do próprio Donald Trump ao edifício. É a primeira vez na história dos Estados Unidos, em 250 anos, que temos um edifício público que recebe o nome de um presidente que ainda está em funções e não de um presidente que já saiu de funções. Mas em todo caso, isto mostra como para Donald Trump esta questão da paz é sobretudo um projeto também pessoal, no fundo, protagonismo, esta eterna procura do Prêmio Nobel da Paz. Há aqui grandes dúvidas sobre até que ponto é que os Estados Unidos se vão realmente empenhar na implementação do acordo e em fazer pressão sobre as partes. Até agora não há grandes sinais disso. Como eu digo, os combates continuam. E depois, o que é bastante também evidente, e isso é dito claramente por Donald Trump, ele aliás disse isso nas declarações quando da assinatura, é que isto será uma ótima oportunidade para fazer negócios. Associado a isto estão acordos que têm a ver com a exploração de minérios. Há aqui um lado que até faz algum sentido, que é uma exploração ilegal de minérios. A República Democrática do Congo É o segundo maior país de África, a seguir à Argélia. É o 11º a nível global, tem mais de 2 milhões de quilômetros quadrados. O Ruanda, ao pé disto, é um pequeno anão, é quase 100 vezes mais pequeno, tem 20 e poucos mil quilômetros quadrados, é um quarto do tamanho de Portugal. Até por isso é um país bastante bem governado, com forças armadas também muito competentes. E uma coisa que tem sido importante pro Ruanda é essa extração ilegal de minérios no Leste, que depois passam através do Ruanda e também ajudam a dinamizar a economia. E este acordo, de alguma forma, ajuda a formalizar e a legalizar isso, depois também com o envolvimento dos norte-americanos. O Congo é um país com imensos problemas, mas realmente tem enormes riquezas minerais. É dos principais produtores mundiais de cobre, de cobalto e de outros minérios e ainda poderia ser muito mais se realmente estivesse minimamente pacificado. À partida, ainda bem que há o acordo, mas temos todas as razões para ter reservas, para esperarmos, para ver se realmente ele será efetivamente implementado, se estas milícias se desarmam, se o Ruanda se retira e se conseguimos ter aqui uma pacificação, que, de facto, no caso do Congo, esta guerra civil que se arrasta desde 94 e depois de muitas tentativas de pacificação, já resultou provavelmente em mais de 7 milhões de mortos.

Vamos fazer aqui uma pequena pausa no "Cinco Continentes". Na segunda parte falamos das viagens ao Oriente de Macron e Putin e conhecemos ainda o país em destaque esta semana, que é o Canadá. É logo depois das notícias. Estamos de regresso pra segunda parte do "Cinco Continentes", com o historiador Bruno Cardoso Reis. Voltamos a falar de Donald Trump, mas desta vez do tratamento diferente que está a dar em relação ao presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, e ao antigo presidente Juan Hernández, das Honduras. Este último, Bruno, foi condenado por tráfico de droga, mas agora foi perdoado. E temos a questão do regime chavista, que ainda não caiu. Será que isso se explica pela reação regional às ameaças norte-americanas? E que impacto está a ter também este regresso à diplomacia de canhoneira pelos Estados Unidos?

À partida, parece uma coisa muito paradoxal, porque temos um ex-presidente das Honduras, que foi presidente anterior à Xiomara Castro, que é a atual, sendo que agora estão a decorrer precisamente eleições. Há dois candidatos de direita, um mais à direita, precisamente do Partido Nacional do Juan Hernández, e outro mais centrista. Trump, como tem sido característico deste seu mandato, tem abertamente declarado apoio ou oposição a diferentes candidatos. Vimos isso, por exemplo, no caso das eleições na Argentina. No caso das Honduras foi exatamente a mesma coisa. O presidente Trump disse: "Se o Partido Nacional deste ex-presidente não ganhar, nós vamos cortar a ajuda." Para as Honduras, isso é muito importante, é a principal fonte de ajuda externa. Mas realmente há este lado paradoxal, que é este senhor é claramente direita, o Juan Hernández teve uma boa relação com a administração Trump no seu primeiro mandato, mas realmente foi condenado por ser cúmplice do narcotráfico. Aparentemente, o seu irmão tinha ligações àquele El Chapo, ao famoso líder do narcotráfico mexicano, etc. E estava a cumprir uma pena de várias décadas nos Estados Unidos. O Donald Trump de facto perdoa este ex-presidente das Honduras. A razão para isso é claramente a proximidade ideológica. A família de Juan Hernández mobilizou o Roger Stone, que é alguém muito próximo de Donald Trump. No fundo, foi a primeira pessoa que se lembrou de que Donald Trump devia candidatar-se a presidente, o primeiro grande promotor da campanha presidencial, das ambições presidenciais de Donald Trump. Juan Hernández escreve uma carta muito simpática a Donald Trump e ele, passado poucas horas, perdoa-o. No fundo, isto corresponde basicamente a esta mesma dinâmica, que é também o que ele está a fazer ao nível da política interna norte-americana, que é aquela lógica populista que é atribuída ao Getúlio Vargas ou a Trujillo. Não sabemos bem se é um, se é o outro, se ambos, porque eles os dois faziam coisas deste género, mas é esta ideia de que para os meus amigos tudo, e para os meus inimigos a dureza da lei. No fundo, é esta ideia de que não faz nenhum sentido a ideia da neutralidade da Justiça. No fundo, a Justiça é mais um instrumento da ação política, seja interna, seja externa. Agora, realmente o timing é bastante mau desse ponto de vista, que é: "Mas toda a questão da Venezuela não é o combate ao narcotráfico?" Mais uma vez, parece bastante evidente que não será bem isso.

E é uma incoerência no discurso.

Há uma clara incoerência no discurso, na prática, mas já sabíamos, por exemplo, no caso da Venezuela, há um envolvimento bastante evidente de figuras ligadas ao regime no narcotráfico, mas o tráfico de drogas que parte da Venezuela é sobretudo heroína, cocaína, mas heroína destinada através da África pra Europa. Só uma pequena porcentagem, estima-se talvez uns 10%, é que vão para os Estados Unidos e E sobretudo a grande droga atualmente nos Estados Unidos é o fentanil que vem através do México e não da Venezuela. Mesmo em termos destas drogas mais clássicas, é sobretudo a Colômbia que é o grande problema. Portanto, realmente aqui o que temos é, no fundo, uma demonstração de força. Temos esta questão que Donald Trump também tem deixado muito clara, que é uma tentativa realmente de interferir na política interna dos países do continente americano, e não só, mas do continente americano, no fundo para promover figuras simpáticas alinhadas com Donald Trump e para tentar afastar figuras que lhe são hostis e, portanto, obviamente Maduro está aqui nessa categoria e é sobretudo isto que explicará este esforço para o forçar a sair. Dito isto, eu não tenho nenhuma simpatia pelo regime Maduro, acho que seria ótimo que ele saísse. Acho que no caso da Venezuela há razões pra acreditar que uma mudança de regime até podia resultar, porque não só temos os resultados das eleições do ano passado, 67% votaram na oposição, só 30 e pouco é que terão votado no regime. Mas além disso temos uma outra sondagem mais recente em que 95% dos venezuelanos dizem que consideram que Edmundo González, o candidato da oposição, venceu, é o presidente legítimo da Venezuela e não Maduro. Portanto, há sempre a possibilidade de haver aqui grupos armados, milícias, estas milícias pró-regime a criarem problemas. Mas em todo caso, são duas questões separadas. No fundo, uma coisa é querermos a democratização na Venezuela, outra coisa é reconhecer que a questão das drogas ou até da democratização não é propriamente uma grande prioridade pra Donald Trump, senão ele não teria as boas relações que tem com a Arábia Saudita, senão não fazia a pressão que faz, por exemplo, no caso do Brasil, para tentar que o seu amigo Jair Bolsonaro, que tentou no fundo resistir à sua derrota eleitoral, não fosse punido por isso, etc. Portanto, claramente a questão da promoção da democracia não é aqui a grande questão. Para terminar, eu diria isso também, este momento estratégico, esta nova estratégia norte-americana que foi publicada esta sexta-feira, também deixa isso bastante claro. Fala explicitamente na doutrina Monroe, que já falamos aqui, fala explicitamente haver aqui uma espécie de corolário de Donald Trump, portanto, no fundo uma revisão dessa doutrina por Donald Trump. E portanto é muito claro nesse documento a ideia da hegemonia americana no continente. O controle de acesso a recursos naturais, nomeadamente minérios, terras raras, etc., em que o continente é muito rico. Aí também há que dizer que o petróleo venezuelano é aqui muito relevante, mas se Trump quisesse fazer um negócio com Maduro em torno do petróleo, poderia fazer, e se calhar ainda poderá vir a fazer, vamos ver. Mas realmente há esse objetivo muito claro de afirmar a hegemonia norte-americana no continente e de ajudar a promover, no fundo, governos, partidos que estão alinhados com o trumpismo.

Muito aqui em causa e que vamos continuar a analisar no Cinco Continentes nas próximas edições. Para já, falamos de viagens ao Oriente. Macron vai à China, Putin à Índia. Bruno, qual é o significado destas visitas e o que é que podemos esperar de cada uma delas, no fundo?

São desde logo muito reveladoras do protagonismo crescente da Ásia, ou melhor, de países asiáticos. Eu digo sempre isto, a Ásia não é um ator, portanto a Ásia não se vai tornar mais relevante nesse sentido. É um palco mais relevante, mas há realmente atores asiáticos que têm um peso crescente, e realmente o caso da Índia e da China é bastante evidente. São os dois países mais populosos do mundo, os dois com mais de 1,3 mil milhões de habitantes. São cada vez mais economias muito relevantes. No caso da Índia, é a grande economia que mais cresceu no último ano, à volta de 6%, mais do que a China. E portanto, há aqui uma evidente relevância e isso traduz em uma atenção de outros atores. No caso da China, já é o terceiro líder europeu nos últimos meses que vai à China. Nas próximas semanas irá também o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, mas já tivemos o primeiro-ministro Sánchez da Espanha, já tivemos o primeiro-ministro Montenegro de Portugal e agora temos o presidente Macron. Macron, o que procurou foi sobretudo defender um esforço para reequilibrar as relações econômicas, que estão muito desequilibradas em favor da China. É pouco provável que isso resulte. A China, no fundo, o que fez foi prevenir a Europa de que se entrar numa lógica de diversificação, de afastamento da China, que isso terá custos, que isso levará a perturbações, portanto uma espécie de ameaça mais ou menos velada ou não tão assim velada. E depois a segunda questão pra Macron era tentar apelar a que a China usasse a sua enorme influência sobre a Rússia, que já falamos aqui muitas vezes. A Rússia está, em termos econômicos, completamente nas mãos da China e um pouco também da Índia, mas sobretudo da China, em termos de mercado, de exportações, em termos de importações, por exemplo, tecnologias, em termos de investimento, etc. Mas aí também não parece que essa estratégia tenha grandes possibilidades de sucesso. Aliás, muito menos a da França, mas nem sequer a dos Estados Unidos, porque também percebemos que um dos objetivos destes esforços negociais entre a Rússia e os Estados Unidos em torno da Ucrânia seria, no fundo, afastar a Rússia da China. Ora, não parece que haja nenhum sinal de interesse da parte da Rússia ou da China em que isso aconteça. Há aqui uma enorme convergência de interesses estratégicos, nomeadamente em contrariar a hegemonia norte-americana e também contrariar o peso Tradicional da Europa nas questões globais. E a própria linguagem que Xi utilizou no encontro com Macron vai nesse sentido. Ele utiliza uma expressão que, por exemplo, também usou no encontro com Putin: "Estamos a assistir a mudanças que não víamos há mais de 100 anos". Isso traduzido por miúdos, quer dizer: estamos a assistir ao fim do período da hegemonia ocidental, da hegemonia americana e ocidental. Ele não disse aqui isso, mas disse quando se encontrou com Putin: "E os nossos dois países são os grandes protagonistas dessa mudança", a Rússia e a China. Portanto, não vejo muitos sinais de que esta viagem possa ter grande sucesso. Em todo caso, tem esta vantagem também de mostrar aos Estados Unidos, da parte da França, que há aqui possibilidades de diversificação e que uma hostilização da Europa pelos Estados Unidos vai ter também como preço que a Europa procure outros parceiros.

Novas alianças, não é?

Inclusive, não se afaste tanto da China como se poderia afastar, não se alinhe tanto com os Estados Unidos contra a China como poderia alinhar. É um objetivo, no fundo, também um pouco semelhante nesse aspeto, nesta visita de Putin à Índia, a Modi. A leitura que tem sido muito feita é dizer: "Isto mostra que a Rússia não está isolada, portanto, está tudo normal". Ora, na verdade, esta visita mostra exatamente o contrário. Não está nada tudo normal, porque isto é uma cimeira anual que existe há 25 anos. Durante os últimos dois anos, depois da invasão da Ucrânia, esse encontro anual foi interrompido por duas vezes, é a primeira cimeira deste tipo que se realiza desde a invasão da Ucrânia. Isto mostra que, por exemplo, na relação com a Índia, houve aqui um preço a pagar. Eu recordo que ainda há uns meses atrás, por exemplo, Lavrov veio tentar promover aquela propaganda russa de que na verdade os agressores eram os ocidentais e a Ucrânia, enfim, isto na capital indiana, em Nova Déli, e basicamente a audiência indiana começou a rir-se na cara dele, dessa tese completamente delirante, de que de alguma forma foi a Ucrânia que começou esta guerra e não a Rússia. Agora, é verdade que a Índia é muito pragmática, nisso também é típica dos países do Sul, países como o Brasil, por exemplo, que gostam muito de dar lições à Europa sobre bom comportamento, sobre como é que devem lidar com Israel. Não é propriamente o caso da Índia, que tem uma boa relação com Israel, mas noutros casos. Mas, na verdade, o que esta guerra mostrou é que estes países não estão dispostos a sacrificar uma aliança, uma parceria, um tostão de relações econômicas lucrativas para defender o direito internacional, as normas, para combater o imperialismo também, de que estes países gostam muito de falar na sua retórica, neste caso, o imperialismo russo, se há uma guerra imperial clara é esta guerra de conquista russa na Ucrânia. E, portanto, a Índia o que fez foi aproveitar para comprar petróleo barato russo, passou de 5% do seu consumo para 35%, é petróleo russo. No entanto, isto não quer dizer que haja aqui uma espécie de alinhamento completo da Índia com a Rússia, seja em relação à Ucrânia, seja em relação a outras questões. A Índia, eu sublinho sempre isto, é um país que tem uma cultura estratégica de não alinhamento. Não vai querer ser um membro de nenhum bloco, nunca quis, a não ser que seja o seu próprio bloco. E portanto, o que está aqui a fazer é mostrar a Donald Trump que esta guerra comercial, que Donald Trump também comprou com a Índia, tem custos, que a Índia tem alternativas, que pode comprar menos armamento americano e mais armamento russo. Em todo o caso, e para terminar nesse ponto, realmente um dos acordos que foi aqui assinado é esta ideia de uma espécie de leasing, de empréstimo de submarinos nucleares russos à Índia, o que é bastante relevante, é uma capacidade que é muito difícil de desenvolver, mas isso não significa que a Índia volte a estar sequer tão dependente como esteve no passado, por exemplo, em termos de armamento da Rússia. Há dez anos atrás, à volta de 80% do armamento indiano era russo, hoje em dia já estamos à volta de 35%. E a Índia está a comprar mais equipamento militar à Rússia, mas também está a comprar mais a Israel, está a comprar mais à França. E isto tudo explica-se também porque a Índia está sempre a pensar na sua rivalidade estratégica com a China, nas suas disputas territoriais nos Himalaias com a China, no conflito com o Paquistão, há aqui uma corrida ao armamento, quer do Paquistão, quer da Índia. E nesse contexto, sobretudo a questão da proximidade e da dependência crescente da Rússia em relação à China, suscita também desconfianças da Índia. A Índia não se pode dar ao luxo, não só porque não gosta de alinhar em um bloco, mas porque realmente há este problema. A Rússia está muito alinhada com a China, que é um rival estratégico muito importante da Índia, nomeadamente até em termos territoriais na zona dos Himalaias.

Bruno, tu também queres falar de uma cimeira bilateral entre Singapura e Malásia, uma série de acordos entre Singapura e o México, e há ainda a questão do Canadá, que avança com a entrada no mecanismo europeu de aquisição de armamento. O que é que podemos retirar de tudo isto?

O que podemos retirar é: eu fiz aqui uma seleção um bocadinho fora da caixa, porque este encontro anual entre Singapura e a Malásia, que são países vizinhos. Singapura já fez, aliás, parte da Malásia. A Malásia é uma federação. Singapura fez parte da Malásia até 1965, creio que já falámos aqui disso, depois foi forçada a sair, precisamente por conflitos, por tensões. Singapura é uma ilha chinesa, basicamente etnicamente. A Malásia tem uma minoria chinesa importante, mas é sobretudo de malaios. É uma federação de monarquias, de sultanatos. Singapura é uma república, etc. Havia aqui demasiadas diferenças, divergências, mas depois muito pragmaticamente os dois lados foram se aproximando e sobretudo nos últimos anos, isso tem acontecido muito. E sobretudo neste contexto atual, quer o primeiro-ministro da Malásia, Ibrahim, quer o primeiro-ministro de Singapura, Wong, têm insistido neste ponto que é Os países do sudoeste asiático, todos estes países fazem parte daquele grande mercado, uma espécie de União Europeia do sudoeste asiático que falamos muitas vezes, a ASN, têm de se aproximar muito mais, têm de cooperar muito mais, têm de abrir mais as suas economias, porque grandes potências como a China e os Estados Unidos estão mais em choque, estão muitas vezes a fechar-se mais. E num mundo onde há mais protecionismo, estes blocos regionais ainda ganham mais importância. Esta é uma primeira tendência muito importante. A segunda é mostrar que há alternativas, ou seja, não passa tudo pelos Estados Unidos, nem pela China, nem pela Rússia. Por exemplo, o presidente de Cingapura foi ao México e assinou uma série de acordos. O México, obviamente, vizinho dos Estados Unidos e que está a ter problemas por causa também deste protecionismo americano. Há aqui esta ideia de que há muitos países que querem continuar a cooperar, a apostar na cooperação, querem continuar a apostar também no comércio e em relações comerciais que vão para além dos mercados nacionais. No fundo, todos estes exemplos correspondem a reações de potências pequenas, médias, a um mundo mais conflituoso, que mostra que realmente há alternativas. No caso do Canadá, isso também é muito revelador neste sentido. O Canadá, que tem historicamente uma grande proximidade, sobretudo no campo da defesa, em relação aos Estados Unidos. Basta pensar que, por exemplo, a defesa aérea é conjunta entre os Estados Unidos e o Canadá. Em termos de compras de armamento, a mesma coisa, grande parte do equipamento militar canadiano é norte-americano. No fundo, está aqui a tirar consequências desta hostilidade, desta ruptura promovida por Donald Trump, uma postura muito agressiva em relação ao Canadá. E o primeiro-ministro canadiano Carney várias vezes tem referido isso, inclusive há poucos dias. No fundo, neste mundo mais conflituoso, nós temos de procurar novas parcerias com países que partilham os valores, partilham os interesses do Canadá. E há esta intenção de reforçar a cooperação com, por exemplo, a Austrália, já falámos aqui disso em relação à mineração. São duas grandes potências nesta área da mineração, o Canadá e a Austrália, mas também com a União Europeia, com a Europa. De facto, o Canadá é o primeiro país não europeu e não membro da União Europeia a aderir a este programa de rearmamento, o ReArm, que passa por projetos cooperativos. A ideia também é não só gastar mais, mas gastar melhor, gastar de forma coordenada, gastar em conjunto. E o Canadá aderiu também a esse projeto europeu.

Canadá, que é o país em destaque esta semana, Bruno, é o país que queres destacar. Que datas, aliás, dados queres trazer aqui para cima da mesa, para a discussão?

Desde logo, digamos, a enorme proximidade, mas também diferença entre o Canadá e os Estados Unidos. No fundo, o Canadá é uma espécie de alternativa aos Estados Unidos e historicamente, desde o início, os dois estão muito ligados. A formação dos Estados Unidos está ligada à conquista pelos britânicos do Canadá. O Canadá basicamente emerge a partir do Quebec, ou seja, da única zona francófona ocupada pela França a partir de inícios do século XVII, a fundação da cidade de Quebec em 1607, até um pouco anterior a Jamestown, a primeira colônia britânica na América do Norte. Mas depois, de facto, naquilo que nós conhecemos como a Guerra dos Sete Anos, que também envolveu Portugal, aliás, ao lado da Grã-Bretanha contra a França, a Espanha. Na verdade, uma das grandes vitórias britânicas é a conquista da cidade do Quebec e do Quebec e da América do Norte francesa em 1759. Qual é a questão? É que isso, obviamente de forma involuntária, mas vai levar a uma série de crises que vão precipitar a independência da América do Norte, dos Estados Unidos. Os ingleses acharam: "Bem, nós livrámos os nossos colonos nas Américas da ameaça francesa. Isto teve enormes custos, eles agora têm de pagar." E é aí que começa toda aquela crise de taxas sobre o chá, sobre o imposto do selo, etc., que vai levar à revolta dos colonos norte-americanos, à Declaração da Independência em 1776. Nessa guerra da independência, o apoio francês também é crucial. A grande motivação da França é precisamente vingar-se da perda do Quebec, do Canadá, da sua colônia na América do Norte. Depois, o Canadá torna-se uma colônia com autogoverno, muito por causa das lições aprendidas por Londres. Esta ideia "não vamos repetir os erros dos Estados Unidos, vamos permitir aos nossos colonos governarem-se dentro da tradição parlamentar britânica". Mas, além disso, a criação da Confederação do Canadá em 1867, com autogoverno, segue um pouco o modelo americano. Por um lado, é uma federação também, esse modelo federal americano. Por outro lado, é muito uma reação à percepção de ameaça de uns Estados Unidos muito reforçados e muito militarizados depois da Guerra Civil Americana, que termina em 1865. Um ano depois, em 1866, há uma série de veteranos norte-americanos que vão invadir o Canadá. Esta ideia de o Canadá devia ser norte-americano é uma ideia muito antiga, vem desde a Guerra da Independência, não surge só com Donald Trump. E até certo ponto percebe-se porque realmente são países com muitas semelhanças culturais, linguísticas, enormes ligações econômicas, têm a maior fronteira do mundo. São quase 9 mil km de fronteira, basicamente desenhada à regra e esquadro ao longo do paralelo 49. Agora, a grande questão é que realmente o Canadá, em certo sentido, construiu a sua identidade em oposição aos Estados Unidos. O Canadá é o segundo maior país do mundo Só é ultrapassado pela Rússia. Desse ponto de vista, tem de fato uma enorme relevância, sobretudo também no Ártico. Em termos de área, como eu dizia, o segundo maior país do mundo, tem quase 10 milhões de quilômetros quadrados. No entanto, em termos de população, não chega aos 40 milhões, portanto está muito longe da população norte-americana, que ultrapassa os 300 milhões. Há realmente aqui esta assimetria de poder, de dimensão, mas os canadenses realmente não mostram nenhum sinal de querer ser norte-americanos, bem pelo contrário, sobretudo com Donald Trump, que provoca particular aversão entre os canadenses.

Bruno, vou te propor deixarmos a Austrália para a próxima semana. Estamos aqui mesmo no limite do nosso tempo, mas vamos avançar pra tua habitual recomendação. O que é que tens para sugerir esta semana?

Temos a tal estratégia de segurança nacional, National Security Strategy, dos Estados Unidos. É o documento estratégico mais importante nos Estados Unidos. Todo novo presidente, uma nova administração elabora um novo documento orientador a este nível, de prioridades estratégicas, e eventualmente voltaremos a falar dele na próxima semana com mais tempo. Mas recomendar, por um lado, aos nossos ouvintes que leiam, porque ele está disponível online. Mas realmente o que eu diria é que não há propriamente aqui grandes surpresas, mas ao mesmo tempo é um documento extraordinário, porque basicamente assume que o grande objetivo é normalizar relações com a Rússia e na relação com a Europa, assume também uma espécie de estratégia de interferência na política interna europeia. Basicamente é um documento assumidamente, ideologicamente trumpista, fala do risco de colapso civilizacional na Europa. Eu devo dizer que acho isso de uma extraordinária arrogância, quer dizer, um país como os Estados Unidos. E aliás, vou seguir o conselho do próprio documento, que diz: os europeus devem ser orgulhosos dos seus países, e os Estados Unidos devem promover isso. Eu vou seguir esse conselho e vou dizer que parece-me extraordinário que um país como os Estados Unidos, que tem 250 anos, esteja a dar lições a países como Portugal, que tem 800 anos, ou à Inglaterra ou à França, que têm mais de 1000 anos, ou à Dinamarca, que tem mais de 1000 anos, ou à Polônia, que sobreviveu como uma nação apesar de dois séculos de ocupação estrangeira, sobre como é que se resiste a colapsos civilizacionais. Aqui o que é extraordinário é que aparentemente a estratégia americana é dizer aos europeus: "Não se preocupem com a Rússia, a Rússia não é uma ameaça, a Europa é muito forte em relação à Rússia. O vosso grande problema é a vossa política interna e a nossa estratégia vai ser apoiar os partidos da linha trumpista." Se quisermos partidos em Portugal como o Chega, no caso da Alemanha como a Alternative für Deutschland, a Frente Nacional na França. A estratégia do aliado norte-americano é interferir abertamente na política interna europeia. Isso realmente nunca vimos num documento estratégico, muito menos num documento estratégico norte-americano.

A sugestão do Bruno Cardoso Reis a fechar este Cinco Continentes. Se tiver alguma dúvida, já sabe, envie para o e-mail ouvinte@observador.pt. Estaremos cá no próximo sábado, Bruno. Até lá. Um abraço. Boa semana.

Obrigado. Boa semana.