Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Nova viagem pelos cinco continentes. Ao longo dos próximos minutos, o destaque vai para os assuntos que estão a marcar a geopolítica internacional, e são muitos. Eu sou o João Costa e Silva, contamos sempre contigo, o historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bem-vindo. Hoje à distância. Como é que estás?

Estou em Tomar, na minha terra.

Sim, e um bocadinho doente, vamos dizer assim.

Sim.

A recuperar ainda.

Destas gripes do costume destas épocas. Se a voz estiver pior que ao costume.

Exato, deixamos já aqui essa ressalva, mas as explicações valem por si. Bem, vamos já arrancar. Temos vários assuntos aqui em cima da mesa esta semana. Vamos começar com a guerra na Ucrânia. A marcar a atualidade estão os testes nucleares. Trump ordenou o início de testes de armas nucleares nos Estados Unidos, numa altura em que a Ucrânia parece estar com dificuldades na frente de guerra, mas também, Bruno, em destaque o cancelamento da Cimeira de Budapeste. Nós falámos disto na semana passada, esta cimeira entre Trump e Putin, após uma conversa alegadamente tensa sobre a Ucrânia. O que nos diz a relação entre estes dois e por que está tão difícil, no fundo, reuni-los?

São realmente alguns temas importantes. Por um lado, esta questão dá nota de que realmente a Ucrânia está com algumas dificuldades no terreno, sobretudo em Kramatorsk e em Kupyansk, parece realmente haver algumas dificuldades em Pokrovsk, três ou quatro sítios que temos referido aqui muitas vezes nos últimos meses, que são zonas mais fortificadas, que são também nós de comunicações, seja na zona do Donbass, seja um pouco mais a norte na zona também de Kharkiv. É sempre com um custo enorme pra Rússia, com enormes baixas, mas o próprio Zelensky reconhece realmente essas dificuldades e temos que ter alguma atenção, ver se eventualmente algum ou alguns destes pontos-chave na linha da frente podem cair e que implicações é que isso pode ter. Para já, de facto, o que temos visto sempre ao longo destes muitos meses é uma tendência para a continuação dos avanços russos, mas sempre muito lentos, com imensas baixas e sem a capacidade de levar a um colapso do sistema defensivo ucraniano. Também uma coisa que vale a pena notar é, no fundo, uma mudança na guerra que também torna mais difícil perceber exatamente o que está a acontecer e pra que lado é que as coisas estão a evoluir, que é de uma guerra de trincheiras que se aproximava um pouco daquilo que tínhamos visto na Primeira Guerra Mundial.

Sim.

Temos atualmente uma guerra, sobretudo, de drones, cada vez mais, e por causa disso uma espécie de uma linha da frente em nuvem, em que há uma kill zone, uma zona muito perigosa por causa dos drones de um lado e do outro, que varia às vezes três ou quatro quilômetros, às vezes mais, em que há forças dos dois lados, mas em quantidades relativamente limitadas e muito difíceis de detetar também porque essa é a chave pra sobreviver. Com infiltrações mútuas e uma linha da frente mais fluida, menos clara do que foi o caso durante os anos iniciais da guerra. Essa fluidez e essa incerteza, em certo sentido, também se estende à dimensão política e diplomática, que é não menos importante numa guerra prolongada. A chave pra vitória numa guerra prolongada, num conflito que dura vários anos, que se torna numa guerra de atrição, numa guerra de desgaste, é quem é que tem mais homens, mais recursos para sustentar esse esforço. Isso muitas vezes depende também do apoio de aliados. E realmente aí o que vemos é, por um lado, sinais de que a Rússia está com dificuldades econômicas crescentes, que está basicamente a esgotar as suas reservas. Está com dificuldades também crescentes por via das sanções, nomeadamente as últimas sanções americanas, em exportar e em ter os rendimentos que precisava do petróleo, que são responsáveis por uma grande parte dos rendimentos do orçamento de Estado. Isso cria dificuldades à Rússia e, por outro lado, a própria Ucrânia também está com muitas dificuldades a esse nível. É por isso que temos ouvido falar tanto, por exemplo, da questão dos bens russos congelados na Europa, dos mais de 100 mil milhões que poderiam ser usados, encontrando aqui uma fórmula jurídica pra isso, algo que não foi possível até o momento. E obviamente, depois, esta questão crucial também do apoio, pra que lado é que está a pender os Estados Unidos. Os Estados Unidos de Donald Trump, que é alguém muito imprevisível em muitos aspectos, tem algumas obsessões recorrentes. Ele adora tarifas, adora fechar fronteiras a pessoas e bens, gosta de homens fortes, de líderes de muitas vezes Estados autoritários. Tudo isso são diferenças importantes em relação aos seus antecessores de décadas e décadas de líderes norte-americanos, mas tem sempre aqui algum elemento de imprevisibilidade e, aparentemente agora, esta informação oficial de que a cimeira não está simplesmente suspensa, mas que está realmente cancelada, que no fundo os Estados Unidos desistiram de um encontro Entre Trump e Putin parece ser mais um sinal de que os setores na administração que são liderados, nomeadamente por Marco Rubio, são eles que estão neste momento a controlar as relações com a Rússia e já não Steve Witkoff, pelo menos de momento. Isso significa uma linha mais dura, do meu ponto de vista, mais realista, ou seja, não vale a pena pensar que a Rússia está a negociar de boa fé. Os próprios termos que a Rússia apresentou formalmente através de Lavrov a Marco Rubio deixam isso claro. São basicamente as mesmas exigências completamente descabidas que surgiram no início da guerra, inclusive a condicionar a ação dos países europeus, dos países membros da NATO, etc. A possibilidade da Ucrânia se armar e, portanto, se poder defender, criando assim uma espécie de Estado satélite na Ucrânia. Aparentemente isso foi rejeitado pelos Estados Unidos e a expectativa é que signifique que os Estados Unidos continuarão a apoiar a Ucrânia militarmente, embora no modelo em que são os europeus essencialmente a pagar por esse apoio militar, por esse armamento americano. Mas apesar de tudo, é um cenário melhor do que realmente os Estados Unidos cortarem esse apoio ou começarem a fazer pressão à Ucrânia para uma paz basicamente a qualquer preço. Portanto, desse ponto de vista, parece-me que é uma boa notícia, mas sempre com este elemento também de enorme incerteza e imprevisibilidade. Há duas ou três semanas estávamos a dar como quase certo que houvesse esta cimeira, uma nova cimeira entre Trump e Putin. Temos de ver se isto é para durar, se é uma viragem durável.

O certo é que já estamos habituados a este golpe de face entre os dois. Ora estão muito próximos, ora estão mais distantes, não é, Bruno? Tem-nos habituado a isto.

Exatamente. Desse ponto de vista, vamos ter de ver para que lado é que as coisas vão pender. Mas para já, é um sinal, de facto, que há esta fluidez também na dimensão diplomática, mas a esse nível diplomático e económico, talvez se possa dizer que, ao contrário daquilo que está a acontecer no terreno, a Ucrânia parece estar com uma certa vantagem, a Rússia com mais dificuldades. No terreno, a Ucrânia com mais dificuldades, a Rússia com uma certa vantagem, mas mais uma vez com esta ideia de que tudo isso também pode mudar com alguma rapidez.

E o certo é que o conflito continua. Vamos agora virar atenções para o Sudão. É o país em destaque esta semana, já lá vamos, mas antes dá-se um massacre anunciado. António Guterres até afirmou inclusive estar gravemente preocupado com a recente escalada militar, numa altura em que na outra ponta do Sahel, no Mali, a crise também se agrava com o cerco dos jihadistas. Bruno, o que é que tens a dizer sobre este escalar de violência nestas regiões? Nós já temos vindo a falar também do Sudão aqui no "Cinco Continentes".

Sim, é um conflito esquecido, mas não é esquecido aqui, como aliás também no Mali. Falamos muito de Gaza, falamos muito da Ucrânia, esses são dois de 61 conflitos armados, mas há muitos outros e alguns com um nível de violência que pode ser comparado, nomeadamente ao caso de Gaza. O caso da Ucrânia é realmente o conflito mais mortífero no mundo em 2024, mas por exemplo, quer no Sudão, quer na Birmânia, temos falado várias vezes disso, mas também noutros pontos do Sahel. O Sahel é esta faixa, Sahel quer dizer margem, não é uma margem do mar, é uma margem do mar de areia, ou seja, do Saara, do deserto. É aquela faixa que vai do mar Vermelho, ou seja, da África Oriental até ao Atlântico, até à África Ocidental, a sul do Saara, portanto, faz a transição entre o deserto e depois a zona da savana. Realmente temos aí uma quantidade de Estados, basicamente desde o Sudão até ao Mali, que estão de facto a braços com conflitos violentos, muitas vezes envolvendo grupos armados jihadistas. No Mali tivemos aquele golpe militar em 2021 que prometeu resolver o problema, como também tivemos no Sudão um golpe nesse mesmo ano, que depois vai dar origem à guerra civil em 2023. No fundo, são os líderes do golpe que vão passar a digladiar, não estão contentes com a divisão de poder a partir de 2023. Mas no caso do Mali, o que aconteceu foi também um apelo ao apoio russo do grupo Wagner e depois dos sucessores do grupo Wagner, que também prometeram resolver a questão rapidamente, ao contrário dos franceses e dos europeus que estavam no Mali e que foram convidados a sair. Realmente, o que temos assistido é uma degradação da situação. Temos assinalado isso aqui. Há várias semanas que estes terroristas estão a conseguir bloquear as comunicações terrestres do Mali com o Senegal. O Mali é um Estado encravado, portanto, a saída para o mar é garantida através do Senegal. O abastecimento de combustíveis é garantido através do Senegal e isso está a ser cortado, ao ponto, por exemplo, das escolas basicamente terem encerrado por não conseguirem funcionar por falta de combustível, por falta de geradores, por impossibilidade de fazer funcionar as instalações. Realmente a situação parece continuar a agravar-se. Vamos ver qual será o desfecho, mas à partida não será nada de bom. No caso do Sudão, o que temos é um massacre anunciado, ou seja, que é visível por satélite, as manchas de sangue dos milhares de mortos são visíveis por satélite. Temos vídeos na internet também a mostrar execuções sumárias acompanhadas de insultos racistas contra os africanos por estas milícias islamistas e árabes, os Janjaweed, que agora são a chamada Força de Apoio Rápido, nomeadamente na maternidade de uma das principais cidades do Darfur. Este grupo surgiu precisamente a fazer massacres no Darfur contra a população africana do Darfur. Transformou-se com o apoio das Forças Armadas num outro braço das Forças Armadas e depois esse monstro que as Forças Armadas criaram acaba por estar agora em choque com as próprias Forças Armadas. É isso que explica esta guerra civil no Sudão. De um lado temos as Forças Armadas convencionais e do outro lado temos esta Força de Reação Rápida, que é provavelmente ainda pior do que as Forças Armadas no seu lado sangrento repressivo E aqui realmente o que é trágico é que isto era mais do que previsível, tendo em conta este histórico, tendo em conta o facto da cidade de Faxoca estar cercada há vários meses em condições cada vez piores e confirmou-se que realmente se verificou uma saca ao ponto do próprio líder destas Forças de Apoio Rápido a reconhecer isso, que houve, segundo ele, alguns abusos que ele iria disciplinar. Enfim, acho que é pouco credível que isso realmente venha a acontecer. Não merece muita atenção, porque é um país periférico, porque é um país africano, se calhar porque não é possível culpar o Ocidente com facilidade do que está a acontecer, porque no fundo, nomeadamente este grupo, estas milícias mais violentas são apoiadas sobretudo pela Rússia e pelos Emirados. E de facto não há aqui um envolvimento direto do Ocidente que permita mobilizar grandes causas, grandes manifestações, grandes críticas, mas acho que é difícil realmente estarmos atentos a todos os conflitos no mundo, mas este é claramente os mais dramáticos. Estamos a falar de pelo menos 150 mil mortos, 12 milhões de deslocados, de fome generalizada e era bom que houvesse realmente da parte da comunidade internacional aqui algum tipo de ação mais eficaz do que aquela que tem sido o caso até aqui. Mas também é importante dizer que em muitos casos isso é tentado e depois há uma reação nacionalista local, populista, foi o caso do Mali, e aqueles que estiveram a tentar ajudar acabam por ser expulsos, acusados de colonialismo, etc., mesmo que depois a situação acabe por se agravar e piorar. Portanto, em muitos casos, estes problemas são muito difíceis de resolver. Há um livro, aliás, clássico, que iremos falar nas recomendações sobre estas dificuldades de lidar com situações, inclusive de genocídio, prevenir e evitar situações de genocídio.

Fica aqui prometida essa recomendação mais para o final do programa. Ainda assim, Bruno, o Sudão é o país que queres destacar esta semana. O que é que queres pôr aqui em evidência?

O Sudão é um país independente desde 1956. O seu nome basicamente significa "o país dos negros" em árabe, "Bilad al-Sudan". É uma zona de contacto entre o Estado egípcio nas suas várias encarnações e depois Estados africanos mais para Sul. Muitas vezes foi uma zona controlada realmente a partir do Cairo, outras vezes não. Mas realmente no período colonial, foi uma espécie de condomínio entre a Grã-Bretanha e o Egito, que era ele próprio um protetorado britânico até 1956. Depois torna-se independente. É um Estado enorme, mas o Sudão atual já não é o Sudão de 1956, perdeu quase um terço do seu território, a metade sul, o Sudão do Sul, uma zona mais africana e mais cristã, depois de várias guerras civis. Mas realmente, o que há destacar é esta enorme dimensão, 1,7000 milhões de quilômetros quadrados, é o 15º maior Estado no mundo, é o terceiro maior Estado africano, apenas ultrapassado pela Argélia e pela República Democrática do Congo. Em termos de população, tem à volta de 50 milhões de habitantes, também é o quinto país mais populoso de África. Agora, esta enorme dimensão e população depois não se traduz realmente no tamanho da economia. Mesmo em termos africanos, é apenas a 11ª economia. Está muito dependente da extração de recursos. No passado, o petróleo, mas o petróleo ficou sobretudo com o Sudão do Sul. Agora, sobretudo o ouro, que é algo que é controlado por estas Forças de Apoio Rápido com o apoio russo, é uma das razões que explica a sua capacidade de combater com eficácia o exército convencional, apesar de serem supostamente uma simples milícia, é que realmente controlam a extração do ouro, que é o grande recurso exportável que o país tem. Tem um longo histórico de instabilidade política e de violência, seis golpes de Estado bem-sucedidos. É um dos países com mais golpes de Estado em África, que é o continente onde há mais golpes de Estado. É o terceiro em termos de número de golpes de Estado, só é ultrapassado pelas Comoras e pela Guiné. Seis golpes de Estado e três guerras civis, esta é a última, mas desde a independência só teve 10 anos de paz e praticamente não teve governos civis estáveis. A última ditadura, digamos assim, militar, de Omar al-Bashir, instaurada por um golpe em 1989, vai durar até 2019, quando é derrubada precisamente por estes militares, que depois supostamente transfeririam o poder para civis eleitos, mas em 2021 vão dar um golpe de Estado e manter-se no poder. O Sudão é realmente um exemplo deste problema muito frequente em África, que é a multiplicação de golpes de Estado, que impede realmente a existência de governos estáveis e vistos como legítimos, que muitas vezes leva a derivas autoritárias, que também muitas vezes acaba por levar a outros golpes de Estado. No fundo, se quem está no poder chegou ao poder por um golpe de Estado, por que eu não hei de fazer a mesma coisa? E quando esses golpes de Estado falham, o que acontece com alguma frequência, um dos resultados possíveis é uma guerra civil. Foi exatamente o que acontece em 2023, ou seja, no fundo, nenhum dos dois lados que está em choque consegue vencer o golpe e acabam por entrar num conflito mais prolongado. Isso obviamente leva a uma violência crónica que depois torna muito difícil atingir níveis mínimos de desenvolvimento.

O Sudão é o país em destaque esta semana aqui no "Cinco Continentes". Vamos ainda lá voltar na recomendação do Bruno Cardoso Reis, mais para o final deste episódio. Na segunda parte, falamos da semana concorrida de Donald Trump, andou pela Ásia, mas também falamos de eleições na Europa, em África, mas também na América. É já a seguir, na segunda parte do "Cinco Continentes". Estamos de regresso para a segunda parte do Cinco Continentes com o historiador Bruno Cardoso Reis. Nesta segunda parte vamos falar essencialmente de eleições um pouco por todo o mundo e não só, até porque vamos começar esta segunda parte na Ásia. Vamos falar da semana de Donald Trump, que andou por lá na Ásia, na ASEAN, na Malásia, na APEC, na Coreia do Sul, ainda também a assinalar as cimeiras bilaterais com Xi Jinping e Lula da Silva. Que balanço é que fazes destes encontros? É uma boa semana para Donald Trump?

Ele diz que sim, mas ele tem sempre aquele estilo muito hiperbólico.

Exatamente, era isso que eu estava a pensar.

Por outro lado, não foi apenas ele, por exemplo, o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, que é o chefe do governo da Malásia e preside à ASEAN, que é uma associação regional um pouco no modelo da União Europeia, com 10, ou melhor, 11 países a partir da passada semana. Mas ele também veio dizer que isto é o reconhecimento da importância da ASEAN pelos Estados Unidos, é uma grande vitória, é um reset das relações com os Estados Unidos. Houve uma série de acordos comerciais com os vários países da ASEAN, porque realmente desde 2017 que um presidente norte-americano não ia à cimeira, portanto não é apenas Trump que faz esses autoelogios. Em muitos casos, outros líderes também participam desse esforço de rodear Donald Trump de enormes elogios e louvores. Também se percebe que em muitos casos é uma forma de tentar conquistar as suas boas graças mesmo no curto prazo. Temos de ler isso com algum cuidado. Eu acho que isso não é exatamente assim. A ASEAN continua a aproximar-se também muito da China. Está longe de poder concluir que há aqui uma espécie de viragem. Estivemos a discutir isso na semana passada. A Indonésia, por exemplo, se aproximar muito mais da China do que alguma vez no passado, é um país chave, é metade basicamente da ASEAN. Ainda antes de continuar com Donald Trump, em relação à ASEAN, é muito importante assinalar que realmente passou de 10 para 11 Estados membros, é o primeiro alargamento desde o Camboja, em 2009, e é um alargamento que é especialmente importante para Portugal, no sentido que é o primeiro país lusófono que entra na ASEAN, ou seja, Timor-Leste passou a ser membro também desta organização regional do Sudeste Asiático. O presidente Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão, como sabem, Xanana também já desempenhou as funções de presidente, mas agora é primeiro-ministro. Os dois estiveram na cimeira. O primeiro-ministro Xanana inclusive emocionou-se depois de um processo muito longo de 14 anos de processo de adesão, Timor entra. Isso é bastante importante para a sua integração regional. É um pequeno Estado rodeado de dois grandes gigantes, a Indonésia e a Austrália, portanto é bastante importante que se integre, que diversifique relações, que encontre aqui outros investidores, outros mecanismos de cooperação. Voltando agora a Donald Trump na Ásia, em relação à Ásia, realmente, mais importante que estas cimeiras bilaterais da ASEAN ou da APEC, como nós prevíamos, foram os encontros bilaterais. Houve vários, o mais importante foi obviamente com o presidente da China, à margem da cimeira deste fórum da Ásia-Pacífico, da APEC, Fórum Econômico da Ásia-Pacífico, de cooperação da Ásia-Pacífico. E realmente dessa cimeira saiu a promessa de uma nova cimeira em abril em Pequim, saiu a promessa de um abaixamento das tarifas por parte dos Estados Unidos em 10% em relação à China. Eu basicamente sou tentado a concluir que a China venceu esta primeira ronda de guerra comercial, ou seja, mostrou que consegue reagir e coagir os Estados Unidos a um nível que nunca se tinha visto. Já falámos aqui das terras raras, que foram uma arma decisiva aí.

Ouça o episódio da semana passada.

Exatamente. E isso obrigou Donald Trump claramente a recuar. Ele gaba-se de ter extraído enormes concessões que a China vai comprar mais soja, mas os chineses, por exemplo, aparentemente vão conseguir muito mais chips, coisas que até o próprio Biden tinha restringido. Portanto, entre soja e chips, eu acho que apesar de tudo, os chips são capazes de ser um pouco mais importantes. E basicamente, Trump é forçado a parar com estas ameaças de escalada contínua, sem que tenha propriamente obtido nenhuma cedência da China em aspeto-chave. Portanto, acho que a conclusão a tirar é que Donald Trump declara vitória, mas na verdade, quem está a sair vitorioso deste conflito, para já, é a China. Obviamente, toda a gente perde uma guerra comercial, os dois lados perdem, mas à partida, em termos de estratégia negocial, quem parece estar a conseguir fazer recuar o outro lado sem dar grandes concessões, realmente é a China, pelo menos para já. Portanto, vamos ver se isto dura. É uma guerra comercial que interessa ao mundo todo, inclusive à Europa. Esta guerra tem consequências. Por exemplo, em Portugal, a fábrica da Bosch em Braga teve de entrar em lay-off porque deixou de ter chips que vêm da China e que a China está a restringir em relação a todo o mundo, e em particular aliados dos Estados Unidos, mas em relação a todo o mundo. Outro problema que temos também e que ficou aqui bastante evidente é que os Estados Unidos não querem saber dos aliados para nada nestas guerras e portanto a Europa realmente tem de se cuidar, tem de cuidar dos seus próprios interesses e não pode pensar que vai contar com os Estados Unidos numa frente comum contra a China Pelo contrário, pode muito bem ser sacrificada nisso. A Europa e Taiwan, que obviamente está aqui numa situação bastante mais vulnerável e frágil. Ou seja, Donald Trump fez questão de dizer: "Eu não falei sobre Taiwan com o presidente Xi." Apesar da situação em torno da ilha se ter continuado a agravar, com vários episódios de alguma tensão, Trump fez questão de deixar claro que isso não lhe interessava. O que interessava realmente eram os interesses econômicos americanos, tal como ele os interpreta. E já agora, e só pra terminar, a cimeira entre o Lula e Trump à margem da ASEM, foi apresentada como muito cordial. Em termos concretos, o que saiu dali foi que as negociações vão continuar. Portanto, ao contrário do encontro entre Xi e Trump, realmente não houve nada de concreto no anúncio de abaixamento das sanções de 50%. Portanto, vamos ver se realmente há aí algum avanço. À partida, as indicações são que realmente na administração americana há um setor importante, mais preocupado com a economia, que percebe que esta guerra comercial com o Brasil é má para os Estados Unidos, leva a mais inflação em produtos importantes, como por exemplo, o café, e portanto está a procurar aqui alguma saída, alguma forma de atenuar esta guerra comercial com o Brasil, mas realmente não houve aí resultados decisivos, embora a cimeira aparentemente tenha corrido bem.

Uma semana bem concorrida para Donald Trump. Vamos agora focar-nos e falar essencialmente de eleições. Começamos na Europa, nos Países Baixos, Bruno. A extrema-direita de Wilders sai derrotada destas eleições. Isto tem implicações para lá da Holanda?

É uma derrota um pouco peculiar, no sentido que o partido de Wilders até pode ter o maior número de votos. Mas a verdade é que realmente perdeu deputados, perdeu em porcentagem de votos, portanto, nesse sentido é um derrotado. Mas realmente, para já os resultados apurados são: um partido liberal, de centro, reformista, progressista, muitas vezes até descrito como liberal de esquerda, o D66, de Rob Jetten, teve 16,9% e tem 26 deputados. O partido de Geert Wilders, partido da Liberdade, 16,7%, ou seja, 0,2 de diferença.

Margem muito curta.

Uma margem muito curta, o mesmo número de deputados, aparentemente, mas enquanto os liberais sobem 17 deputados, esta direita mais radical populista perde 11 deputados. E depois temos o partido de centro-direita do anterior primeiro-ministro Mark Rutte com 14,2%, e depois o partido de centro-esquerda, os socialistas ecologistas, 12,7%, e, portanto, 22 e 20 deputados. Ou seja, será preciso formar uma grande coligação. Aí por que se diz que há uma clara vitória? Porque realmente foi um pouco uma surpresa, porque os liberais subiram muito, têm um líder muito carismático, com um slogan à Obama, "Sim, podemos.", promete resolver o problema da habitação, centrou-se nessa questão, diz: "Vamos construir quatro cidades novas." Os Países Baixos é um país rico, nós somos muito criativos, somos muito bons a gerir e não há nenhuma razão para não conseguirmos resolver o problema. E portanto, isso aparentemente terá sido decisivo. A mim parece-me que é uma boa lição para os partidos deste centro moderado, mas que eu acho que pode ser popular, que se concentrem nos problemas concretos das pessoas e façam promessas de realmente resolver problemas concretos. E acho que isso pode ser eficaz contra populistas que realmente prometem tudo e mais alguma coisa, mas em muitos casos depois percebe que não conseguem resolver realmente os problemas, têm muita retórica, uma retórica muito agressiva, soluções muito apelativas, mas muito simplistas e depois em muitos casos impossíveis. E realmente, Geert Wilders teve um governo em que o seu partido dominou o governo anterior nos Países Baixos e realmente acabou num completo impasse. Portanto, aparentemente chumbou nesse teste da governação, pelo menos para muitos holandeses. Agora, continua a ser um partido popular importante, mas realmente há esta questão que é não consegue, tem muita dificuldade em formar coligações. Já havia grande desconfiança em relação ao partido antes. A experiência desta coligação correu muito mal, terá confirmado isso, ou seja, aparentemente a generalidade dos partidos, mesmo da direita, não querem formar coligações com o partido de Geert Wilders e, portanto, isso abre espaço a que haja aqui uma espécie de bloco central, mas liderado por este partido liberal, que até aqui tinha sido sempre um partido mais pequeno mas liderado por um jovem também, este Rob Jetten. Isto tem algumas implicações mais amplas em termos europeus? Sim, no sentido que mostra que a ascensão da direita populista não é irreversível, mostra que pode haver alternativas. E os Países Baixos são um país importante, são um país médio, são o mais rico dos países pequenos, se quisermos, são o mais populoso dos países pequenos e portanto, muitas vezes têm um papel de alguma liderança na política europeia, enfim, nomeadamente na questão da gestão das finanças, são sempre tendencialmente mais austeros. Desse ponto de vista, pode representar uma certa mudança no sentido que parece haver, da parte dos holandeses, mais abertura a gastar-se mais, a mais investimento público, ainda que bem gerido, à holandesa, e isso também ser assim ao nível da Europa, políticas industriais de promoção da inovação também mais ativas. Portanto, eu diria que abre-se aqui espaço, realmente, que a Holanda tenha um papel mais ativo e mais positivo na política europeia, embora também para ser justo, os holandeses, mesmo o partido do Geert Wilders, não eram propriamente os mais eurocéticos dentro destes partidos da direita radical. Portanto, não houve aqui uma mudança radical na política holandesa neste período anterior Mas claramente agora, à partida, será de esperar uma política mais pró-europeia, mais pró-ativa e mais favorável a uma Europa também mais pró-ativa nestas áreas da inovação, do investimento.

E há, de facto, uma viragem, ainda que a margem, como falaste, Bruno, seja muito curta. Olhamos agora para a África, é por aqui a nossa próxima paragem. Isto porque aos 92 anos, ouviu bem, o presidente dos Camarões foi reeleito para um oitavo mandato. Uma reeleição que ficou marcada, mais uma vez, por protestos e acusações de fraude eleitoral por parte da oposição. Este presidente, Bruno, é campeão dos chefes de Estado há mais tempo em funções. Quem são os outros?

É realmente uma questão que eu me coloquei. O Paul Biya é o presidente dos Camarões, este país da África Ocidental muito interessante, depois poderemos falar também mais disso, eventualmente mais pra frente, acompanhando a evolução da crise nas próximas semanas. À partida, é um país inclusive bilingue, francês e inglês, com uma história colonial bastante mais complexa do que é costume. Foi uma colónia alemã, depois esteve dividida entre mandatos franceses e ingleses. Mas realmente Paul Biya domina a política nos Camarões há 50 anos, é presidente há 50 anos, tem 92 anos de idade, portanto é o campeão, quer em termos de ser o chefe de Estado mais velho, mais idoso, se quisermos, com 92 anos e também o que está há mais tempo no poder. A seguir temos, em termos de idade, Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana, há 22 anos também no poder e com 89 anos. Depois temos o rei da Arábia Saudita, que na verdade não reina, é o regente de facto com 89 anos, o rei da Noruega, o rei Harald, com 88 anos, que está no trono há 34 anos, e depois o guia supremo do Irão, o Aiatolá Ali Khamenei, que está há 44 anos no poder e tem 86 anos. Mas realmente o que é aqui extraordinário é que não seja um monarca, porque apesar de tudo, esses à partida são vitalícios, a não ser que abdiquem. Portanto, não ser o rei da Arábia Saudita ou da Noruega, mas é realmente um presidente. E realmente ele dominou a política nos Camarões. Os Camarões é um regime, vamos dizer assim, semiautoritário, está longe de ser dos mais repressivos em África. Ele, no fundo, funciona há anos como uma espécie de rei constitucional, ou seja, dá uma grande autonomia aos seus ministros, até há ministros às vezes mais eficazes e mais dinâmicos, mas realmente, ao mesmo tempo, e cada vez mais, é também um elemento de bloqueio, de frustração pra população mais jovem, que realmente não consegue escolher o seu presidente. Houve aqui obviamente alegações de fraude que parecem ter alguma credibilidade, porque nomeadamente o presidente Paul Biya passa a maior parte do tempo atualmente na Suíça em tratamento médico e não nos Camarões, portanto basicamente não fez campanha eleitoral. Isso realmente justifica as suspeitas de que as eleições não terão sido inteiramente justas. O problema aqui realmente é que, ao mesmo tempo, talvez como resultado dele também estar cada vez menos presente e ser menos eficaz neste jogo de equilíbrios que ele também foi fazendo ao longo de muitos anos, entre as várias regiões, entre a zona de fala inglesa e de fala francesa, o norte muçulmano, o sul mais cristão, etc. Realmente surgiu também uma insurreição armada nessa zona de maioria inglesa, de fala inglesa e há realmente receios de que possa haver aqui mais violência política, um escalar desta guerra civil e os Camarões que apesar de tudo, apesar de vários problemas, tinham alguma estabilidade ao longo destes anos, possa eventualmente isso também estar em questão.

Bruno, temos três minutos até o final. Vamos ainda falar de Javier Milei, da sua vitória também nas eleições. Os resultados deste ato eleitoral argentino são também uma vitória para Donald Trump?

Sim, sem dúvida. Javier Milei surpreendeu a generalidade dos observadores, teve melhores resultados do que aquilo que a maior parte das sondagens previam. Teve quase 10 pontos de diferença em relação aos peronistas, 40% dos votos. Reforçou muito a sua bancada no Senado e na Câmara dos Representantes, embora no sistema argentino, estas eleições são só pra metade da Câmara dos Deputados e depois para um terço do Senado. Mas em todo o caso, isto significa que ele passa a ter uma minoria de bloqueio que impede que ele seja afastado pelo Parlamento, o famoso impeachment, o afastamento do presidente, que é uma prática muito generalizada na América do Sul. Falámos ainda há poucas semanas do caso do Peru. Isso deixa de ser possível, é preciso uma maioria superior a dois terços pra esse afastamento. Também tem a capacidade de vetar iniciativas do Parlamento e sobretudo recupera aqui alguma iniciativa política. Isto está longe de querer dizer que os problemas econômicos da Argentina estão resolvidos. A situação da dívida externa continua desesperante. O próprio peso da moeda argentina, que foi aqui aguentada por este apoio americano, muitos analistas dizem, acabará por ser desvalorizada. Mas em todo caso, sobretudo, o que também parece evidente é que não há grande alternativa a Milei. As pessoas não querem voltar ao peronismo. Preferem, apesar de tudo, arriscar com este novo líder. Pode ser que ele dê algumas soluções pros problemas crônicos da Argentina.

E que são muitos.

De sobreendividamento, de incapacidade realmente sair desta armadilha da dívida externa. Agora, é verdade que é uma vitória de Donald Trump neste sentido, também a maior parte dos analistas consideram que houve aqui um efeito, de facto, no eleitorado, esta ideia de que o apoio americano, que é desesperadamente necessário num país numa situação econômica desesperada, só viria se realmente Milei ganhasse essas eleições e isso terá ajudado a reforçar eventualmente aqui esta maioria. Não é garantido que realmente, como eu digo, isto resolva os problemas da Argentina e a Argentina se torne aqui uma economia modelar alinhada com os Estados Unidos. Apesar de tudo, significa sim que a Argentina é claramente o grande aliado de Trump na América do Sul E está agora alinhada com os Estados Unidos de uma forma que não estava com o governo anterior, em que se tinha aproximado bastante da China e até dos BRICS.

E Bruno, está agora na hora de ficarmos com a tua habitual recomendação para esta semana. O que é que tens para sugerir aos nossos ouvintes?

É um livro já relativamente antigo, de 2002, "A Problem from Hell: American and the Age of Genocide". Tem o interesse de ser escrito por Samantha Power, que veio a ser depois a responsável de USAID, no fundo, o Ministério da Cooperação durante o mandato de Biden, que foi também embaixadora das Nações Unidas durante o mandato de Obama, alguém que teve um papel importante nas décadas seguintes. Mas ela como investigadora, de facto, a sua tese é publicada com este título, "A Problem from Hell", ou seja, no fundo, o que ela explica é que apesar dos Estados Unidos serem, até Donald Trump, pelo menos durante há muitas décadas, uma potência declaradamente comprometida com a defesa dos direitos humanos e da Carta das Nações Unidas, comprometida com a convenção de combate aos genocídios, a verdade é que múltiplas vezes falharam em ser eficazes a prevenir ou travar genocídios. Os exemplos que ela dá são obviamente até 2002, portanto incluem, nomeadamente, a Bósnia e o Ruanda. E o que ela explica é que realmente isso não é uma espécie de acidente, não é porque de facto ninguém conseguia fazer nada, é porque, em muitos casos, os genocídios acontecem em conflitos armados esquecidos, em zonas periféricas que não interessam particularmente a ninguém e portanto ninguém quer arriscar o capital político, a necessidade de enviar tropas em quantidade com os riscos que isso implica para travar realmente um conflito armado em que há o risco do genocídio. E isto sem que o genocídio se tenha concretizado, ou seja, no fundo temos aqui o problema da prevenção dos conflitos, do problema mais geral da prevenção dos conflitos. A prevenção é algo que toda a gente defende, mas que na prática muito pouca gente pratica, porque implica fazer uma espécie de investimento preventivo, sem que haja ainda uma razão muito clara, dramática ou urgente para que isso aconteça. Sobretudo, lá está, quando estamos a falar de um de dezenas de conflitos armados que proliferam pelo mundo, muitas vezes em zonas remotas, bastante periféricas e em que não há um envolvimento ou interesse direto, nomeadamente das grandes potências ou de outras potências com capacidades relevantes. Isto quando não há cumplicidades com um ou outro dos lados envolvidos por algumas dessas grandes potências, que também é uma tendência que verificamos aqui em alguns casos. Mas é um livro bastante interessante, este livro da Samantha Power.

"A Problem from Hell".

"A Problem from Hell". E portanto recomendo, apesar de ser já uma edição relativamente antiga e dos casos serem um pouco históricos.

De 2002. Bruno, nós ficamos por aqui nesta edição. Ainda assim, se tiver dúvidas, envie para o nosso e-mail ouvinte@observador.pt. O Bruno Cardoso Reis tem todo o gosto em responder a essas dúvidas num próximo episódio, quem sabe, já no próximo sábado. Bruno, um grande abraço e as melhoras. Cuida bem de ti. Até lá.

Obrigado. Boa semana e obrigado aos ouvintes que toleraram aqui esta voz mais fanhosa.

Agasalhem-se, é melhor.

Exato, cuidado. Obrigado.