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Começa agora o Cinco Continentes na Rádio Observador. Olhamos para o mundo para perceber os assuntos que estão a marcar a atualidade, a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva e claro, está comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, sê muito bem-vindo, hoje à distância. Como é que estás?

Olá, obrigado. Estou bem, vim à terra, vim a Tomar, portanto estou aqui satisfeito com a família e correu tudo bem. Conseguimos evitar os perigos de andar em Portugal com estes temporais.

Sim, ainda que hoje, este sábado, esteja de sol um pouco por todo o país, é uma luz de esperança depois de tantos dias de tempestade. Nós vamos começar esta nossa semana-

Sim, esperemos que continue.

Sim, vamos ver.

Esperemos que continue.

Vamos começar esta semana com a guerra na Ucrânia e com o cenário de eleições no país em cima da mesa. Bruno, aqui importa perceber se a Ucrânia consegue resistir militarmente e consegue resistir à pressão para eleições e um referendo até 15 de maio. Qual é a realidade que parece ser mais fazível neste momento?

Bem, eu por acaso estive há uns dias num briefing com um oficial americano que tem acompanhado a situação e aquilo que ele disse confirma muitas das análises que temos aqui feito. Ou seja, a Ucrânia está numa situação difícil, mas a Rússia também está numa situação difícil, está com muito mais dificuldades de recrutamento, financiamento. Apesar de tudo, a Europa fez um esforço enorme para compensar a perda de apoio norte-americano, nomeadamente apoio direto, apoio financeiro. Portanto, mesmo o armamento, as munições americanas que são fornecidas, são pagas pelos europeus. Aí, em particular, os países do norte e do leste, que são os mais diretamente ameaçados por uma Rússia mais agressiva, estão realmente a assumir o essencial desse custo. Mas, por exemplo, um país como a Alemanha, que no passado estava muito preocupada em manter boas relações, inclusive econômicas, com a Rússia, claramente virou nas suas prioridades e portanto também tem sido aqui muito importante. Isso é importante para dar condições à Ucrânia para continuar a resistir. Esta questão dos 90 mil milhões, que falamos há uns meses atrás, que os países da União Europeia mobilizaram para garantir um apoio durante dois anos muito significativo. Tudo isso significa que apesar de termos aqui, neste momento, sobretudo uma questão concreta complicada, que é o equilíbrio de forças, o tipo de táticas utilizadas tende a favorecer a ofensiva aérea dos dois lados, e em particular do lado ucraniano, isso significa que a Rússia tem conseguido com centenas de drones, às vezes dezenas, às vezes mais de 100 mísseis ao mesmo tempo, de fato saturar as defesas ucranianas e atingir alvos civis e muita infraestrutura crítica, em particular a energia, que neste inverno, que é especialmente difícil, que está a ser muito mais frio do que os invernos passados.

Também eles estão a passar por inverno mais intenso.

Mas o inverno é para todos, mas em particular pra população civil ucraniana é muito duro. Mas a Ucrânia também tem conseguido impedir a exportação, por exemplo, de petróleo a partir do Mar Negro, de petróleo russo, que representa volta de 30% das exportações. Algo muito importante seria os países europeus serem muito mais proativos neste combate à frota fantasma, muitas vezes com navios sem nenhuma condições legais, ambientais, etc., que os russos têm utilizado para contrabandear o petróleo. Around 70% passa pelo Báltico, portanto é o outro mar que a Ucrânia não consegue alcançar. E, por exemplo, a França tem estado um pouco mais ativa, até os Estados Unidos, mas a União Europeia tem este novo pacote de sanções que iria, à partida, também ter esse objetivo. Mas isto tudo significa que não há realmente sinais de um colapso iminente e generalizado da resistência ucraniana, um colapso significativo da linha da frente. Pode haver colapsos localizados e foram acontecendo ao longo do tempo, mas, por outro lado, a Rússia também não parece ter condições em termos de equipamento efetivos, de reservas treinadas para conseguir explorar, eventualmente, esses colapsos para fazer grandes avanços. Portanto, a expectativa realmente é que a Rússia poderá até continuar a ir avançando, mas com esta enorme lentidão, portanto, provavelmente teria de gastar mais um ou dois anos para ocupar os territórios que formalmente anexou e ter talvez mais 1 milhão de baixas. Portanto, em termos militares, não é um impasse no sentido de uma completa paralisia, mas há um relativo impasse na guerra. Em termos políticos, é que realmente as coisas estão mais dinâmicas e há, de fato, estas negociações a um nível mais elevado do que se viu no passado, com o envolvimento de um mediador que tem aqui muito mais capacidade de pressão sobre as duas partes do que era o caso da Turquia. Estamos a falar, obviamente, dos Estados Unidos. E é isso que explica também que se coloque esta questão das eleições Para mim, as eleições são reveladoras de que a Rússia não desiste deste objetivo de tentar desestabilizar a Ucrânia, tentar satelizar a Ucrânia. Não perde a esperança de conseguir afastar Zelensky e colocar lá algum tipo de fantoche. Não há sinais de que isso aconteceria, pelo menos em eleições livres e justas. O efeito desta guerra foi, pelo contrário, aumentar ainda mais a hostilidade ucraniana em relação ao regime russo e, portanto, de fato não há sinais disso, mas em todo caso, isto tem sempre este objetivo também de confundir as pessoas, de vir com argumentos de que as eleições já deviam ter acontecido, o que é verdade se não houvesse guerra, mas a Constituição ucraniana impede eleições em tempo de guerra. E isso não é um capricho, tem a ver com coisas como: temos milhões de pessoas deslocadas, não há condições de segurança, todos os dias as principais cidades ucranianas são bombardeadas. E portanto, em relação a essa pressão, aqui a novidade é que os Estados Unidos se associaram a isso, como a outros elementos da argumentação russa, ou seja, a administração atual, o governo norte-americano, a administração Trump, e portanto, isso reduz a margem de manobra de Zelensky. Aparentemente, aquilo que ele está a fazer, de uma forma muito hábil, é tentar dizer, por um lado, numa entrevista, aliás, ao Atlântico, que saiu na sexta-feira, tentar dizer a Trump fazer uma paz, forçar a Ucrânia a aceitar uma paz que seja favorável à Rússia, vai ser mau pra Ucrânia, mas também vai ser mau pra imagem de Trump, inclusive em termos dos Estados Unidos. E realmente as sondagens parecem apontar nesse sentido. A opinião pública continua a ser muito hostil em relação à Rússia de Putin, mesmo muitos republicanos. E insistir que ele não tem nenhum problema com eleições, que sim, senhor, acha que eleições é muito importante, e um referendo também pra aprovar algum acordo de paz, que foi o que ele prometeu, mas pra isso acontecer tem de haver condições, ou seja, tem de haver um cessar-fogo já em vigor, já a ser efetivamente implementado e não pode ser no próprio dia das eleições, tem que ser com alguma antecedência pra criar condições mínimas pra realmente se organizar eleições. Portanto, parece-me que é essa a jogada de Zelensky, e acho que é uma jogada hábil, e no fundo é tentar ver se é desta vez que os Estados Unidos fazem alguma pressão sobre a Rússia, por exemplo, em relação a isso, que é se é pra haver eleições e o referendo, tem de haver um cessar-fogo antes, que crie condições pra isso acontecer, o mínimo de condições.

Há várias coisas aqui em jogo e Zelensky está a tentar jogar também com isso. Bruno, no capítulo das guerras esquecidas, vamos até ao Sara Ocidental. Os Estados Unidos terão patrocinado as negociações secretas em Madrid e queria te perguntar o que é que está aqui em causa neste capítulo também.

É talvez dos mais esquecidos dos conflitos esquecidos, apesar de paradoxalmente ser o mais próximo provavelmente de nós, portanto, é, no fundo, este território que foi uma colônia espanhola até à transição espanhola, até 1975. Marrocos reclamou sempre aquele território como sendo historicamente seu, mas, de fato, a Espanha teve aqui uma atitude equívoca também com os problemas que derivavam da instabilidade política interna e da prioridade à transição. E portanto, isso levou a um conflito muito prolongado. Ele já teve períodos muitos intensos de guerrilha independentista Sahrawi, apoiada pela Argélia, que é historicamente o grande rival de Marrocos na zona do Magrebe. Atualmente, de fato, o conflito parece muito adormecido, mas não está completamente desaparecido. Continua a haver uma organização política Sahrawi, a Frente Polisário, baseada na Argélia, e continua a haver muitos refugiados desta zona que também viverem em campos. Marrocos controla a grande parte do território, as principais cidades, os principais recursos naturais, mediadamente esta exploração de nitratos, etc. Mas há muitas décadas o conflito se arrasta. Nos últimos anos, Marrocos tem apostado muito nas boas relações com a Europa e com o Ocidente, e as más relações da Argélia com a Europa e com o Ocidente, a sua aproximação à China, à Rússia, etc, para ganhar apoios importantes da Espanha, da França. No fundo, há esta ideia de uma autonomia de uma região autônoma, de uma autonomia reforçada, mas não da plena independência. Mas isso não foi até agora aceito pela Frente Polisário, não foi aceito pela Argélia. Aparentemente, os Estados Unidos estão realmente aqui a tentar avançar pra um compromisso, pelo que percebemos, essencialmente em linha com aquilo que é a proposta marroquina. E portanto, Marrocos realmente é um aliado norte-americano muito importante nesta região há muitas décadas. E realmente também não é muito de estranhar, porque apesar de haver resoluções das Nações Unidas no sentido de haver uma solução do tipo Timor-Leste, ou seja, haver um referendo pra realmente perceber se as pessoas querem ser marroquinas ou independentes, realmente isso são questões que não interessam muito à administração Trump e portanto, no fundo, aquilo que se percebe é que há aqui uma tentativa de um compromisso, de uma pacificação também de relações entre a Argélia e Marrocos, mas sobretudo nos termos do plano marroquino. Portanto, vamos ver isto. Enfim, supostamente eram negociações muito secretas, acabou por se saber alguma coisa. Vamos ver exatamente o que é que se confirma das negociações, dos termos em que aconteceu, mas terá envolvida, além de Marrocos, da Argélia, também a Mauritânia e portanto terão decorrido em Espanha, o que também mostra que a Espanha continua a ter aqui algum protagonismo e alguma capacidade de influência, alguma visibilidade, apesar das tensões recorrentes entre o governo espanhol de Sánchez e de Donald Trump. Pra Sánchez, diga-se também, haver tensões com Donald Trump não é propriamente mau do ponto de vista político.

Tem algo que o favorece, não é?

Sim, pode ajudar em termos da sua própria coligação com partidos de extrema-esquerda, que tipicamente são mais antiamericanos. E na Espanha há historicamente algum antiamericanismo, tem a ver com coisas como, por exemplo, a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos em 1898. Foi a única guerra dos Estados Unidos com um país europeu ocidental. Enfim, obviamente, se excetuarmos a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, foi realmente essa guerra com a Espanha em 1898.

Bruno, já em África, há uma nova escalada na Etiópia-Eritreia. Notícias de que a Etiópia estará a treinar um dos lados na guerra civil, no Sudão, em parceria com os Emirados. Por que as tensões continuam a escalar nestas regiões?

Sim, alertámos para isso aqui, mas eu achei que valia a pena voltar a falar, porque há alguns dados novos. Temos uma espécie de ultimato da Etiópia, ou seja, a Etiópia veio dizer que era inaceitável que a Eritreia continuasse a ocupar alguns territórios e, ao mesmo tempo, também tivemos esta informação, como referias, de que a Etiópia estaria a treinar alguns milhares, fala-se em 4 mil soldados desta força de apoio rápido, no fundo, o outro lado da guerra civil no Sudão. Temos de um lado as forças armadas regulares, convencionais, e depois estas milícias que foram inicialmente criadas pelas Forças Armadas e depois se voltaram contra elas desde o início da guerra civil em 2013. E portanto, realmente aí temos este dado, que é também o envolvimento dos Emirados Árabes Unidos, que têm uma política muito pró-ativa em África. É mais um exemplo destas potências médias, no caso dos Emirados, sobretudo por força dos petrodólares, da riqueza acumulada do petróleo. Mas, de facto, os Emirados têm estado muito ativos, sobretudo nesta zona da África Oriental, também muito ativos na questão da extração do ouro, que é um recurso muito importante do Sudão, e os Emirados são um grande centro do comércio da ourivesaria, do comércio global em ouro. E foram os grandes aliados também do governo etíope no passado, nomeadamente na guerra civil que se verificou na Etiópia e também nas relações com a Eritreia. E portanto, parece haver aqui uma relação realmente de aliança consolidada, que depois se traduz também neste apoio conjugado a um dos lados na guerra civil no Sudão. Mas realmente é uma situação que acho que justifica mantermos a nossa atenção, porque à partida, quer a Etiópia, quer a Eritreia são gigantes em termos militares em África. O conflito entre elas em 93, nomeadamente, foi extremamente mortífero. A Eritreia e a Etiópia são um daqueles exemplos, por contraste com a Chéquia e a Eslováquia, que falámos a semana passada, um daqueles exemplos de uma solução que muitas vezes é falada até no comentário sobre política internacional, mas enfim, se há aqui uma guerra civil, por que elas não se separam? Bem, o problema, aquilo que a história nos mostra é que muitas vezes a separação também não é pacífica, porque depois onde é que se desenha a fronteira? Depois há grupos étnicos que muitas vezes têm presença "no lado errado da fronteira" e portanto, muitas vezes há conflitos fronteiriços entre os Estados que entretanto se tinham separado. O exemplo clássico e também com enorme relevância até hoje é entre a Índia e o Paquistão, que os dois faziam parte do Império Britânico da Índia e depois se separaram em 1947. Mas enfim, parece que a Eritreia e a Etiópia têm potencial também para replicar esse padrão frequente na política internacional de Estados que antes eram um, depois se separaram, mas depois continuam a lutar, a ter recorrentemente, frequentemente conflitos fronteiriços importantes.

Bruno, temos ainda cerca de dois minutos e meio para falar do impacto das presidenciais em Portugal. A segunda volta aconteceu no passado domingo, dia 8. Eleições que foram vencidas por António José Seguro, um candidato considerado mais moderado contra André Ventura. Estas eleições portuguesas tiveram algum impacto e atenção externa noutros países?

Sim, eu obviamente não consigo ver tudo, mas tento ver muita imprensa internacional. Aquilo que parece evidente é: enfim, notícias há um pouco por todo lado, com algum destaque, sobretudo em jornais, em sites, às vezes em canais televisivos de alguns países com relações mais próximas com Portugal. Portanto, desse ponto de vista também é uma espécie de forma de avaliar isso, onde Portugal ainda tem algum interesse, alguma visibilidade, alguma importância. Espanha é um dos exemplos. Outro exemplo, o Brasil, Angola, um pouco França. E depois há alguns sites internacionais que realmente procuram ter uma cobertura muito ampla, por exemplo, a Al Jazeera, inclusive organizou um pequeno debate sobre as eleições presidenciais portuguesas. E, por exemplo, também o Político deu algum destaque a esta questão, que é o site noticioso que tem uma edição americana originalmente, mas depois tem uma edição também europeia a partir de Bruxelas e portanto até pegou no fundo pelo ângulo de como é que isto de alguma forma tem a ver com o legado de António Costa. Mas obviamente António Costa sendo presidente do Conselho Europeu, portanto sendo um dos dois presidentes que quisermos da União Europeia, obviamente isso é mais interessante para este tipo de sites. Mas genericamente a cobertura foi muito no sentido, como dizias, de destacar esta vitória da esquerda e sobretudo de uma esquerda moderada, muito centrista, portanto um candidato moderado, institucional como António José Seguro, face a um candidato populista mais radical, mais nacionalista e nativista como Ventura. Também a ideia de que é um candidato muito pró-União Europeia, favorável a boas relações, à manutenção das relações tradicionais, históricas com os países lusófonos e que Ventura eventualmente iria perturbar mais isso Portanto, no fundo, uma vitória da continuidade na política externa portuguesa e, em termos globais, também esta ideia de que as vitórias destes movimentos mais populistas, mais nacionalistas, também não estão sempre garantidas.

Muito bem. Ficamos por aqui nesta nossa primeira parte do Cinco Continentes. Regressamos daqui a pouco também para olhar mais uma vez para eleições, mas noutros pontos do globo. De regresso para a segunda parte do Cinco Continentes com o historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Costa e Silva. E Bruno, ficou pendente da semana passada falarmos de eleições noutros pontos do globo, que não Portugal. Japão e Tailândia, e uns dias depois também no Bangladesh. Foram os resultados esperados? E também pergunto quais os reais impactos na ação externa destes Estados que estamos aqui a falar.

Bem, os resultados mais inesperados foram na Tailândia. Mas realmente no Japão esperava-se a vitória da primeira-ministra, até já tínhamos um pouco falado disso, da primeira-ministra Takeshi, desta dama de ferro japonesa. Ela é bastante mais popular que os seus antecessores imediatos. É a líder do Partido Liberal, que tem dominado a política japonesa desde que o Japão recuperou a sua soberania, portanto a partir de 1952, com alguns intervalos, mas tem dominado largamente a política japonesa, mas nos últimos anos estava a descer, até tinha perdido a maioria absoluta. Agora não só recuperou a maioria absoluta, mas conseguiu uma maioria de dois terços, portanto foi uma vitória esmagadora que excedeu as expectativas mais otimistas, em linha um pouco com o que se esperava, mas excedendo as expectativas mais otimistas. O que se pode esperar daqui? Como nós já falámos, esta primeira-ministra é uma falcão, é alguém que quer apostar muito, ainda mais no reforço do investimento em defesa. É alguém que, por exemplo, se recusou a excluir completamente a possibilidade de o Japão ter um programa nuclear, por exemplo, que até aqui é um completo tabu. Já tivemos uma crise bastante séria com a China por causa de declarações também da primeira-ministra japonesa a dizer que havendo um ataque a Taiwan, isso será uma ameaça ao Japão. Taiwan e o Japão estão separados por entre 100 e 200 km, obviamente uma das ilhas, as ilhas mais a sul do Japão. E isso levou a uma espécie de guerra comercial entre a China e o Japão. Portanto, aqui uma das possibilidades é que certamente ela irá continuar a apostar muito na defesa, numa relação próxima com os aliados ocidentais, Estados Unidos, países europeus. Falámos, por exemplo, de uma visita da primeira-ministra italiana Meloni, cooperação com o Coreia do Sul também para conter a China, mas a grande dúvida é se isto vai levar a uma escalada rápida de tensões com a China ou se a China, muito pragmaticamente, percebendo que tem aqui uma líder forte que não vai a lado nenhum, porque realmente tem uma supermaioria, acabará por talvez preferir recuar um pouco nesta estratégia de escalada e chegar a algum compromisso. Mas certamente, em termos de relações entre o Japão e a China, é alguém que defende aqui uma linha dura, a nova primeira-ministra agora com uma autoridade política reforçada. No caso da Tailândia, houve um impacto externo na própria eleição, ou seja, nós também tínhamos especulado um bocadinho que isso poderia acontecer, mas parece ter-se confirmado. Houve aqui uma vaga nacionalista patriótica por causa destas guerras fronteiriças intermitentes com o Camboja, que fomos falando. E portanto, o atual primeiro-ministro Anutin, que lidera o partido da direita mais nacionalista, conseguiu vencer pela primeira vez as eleições, ter o maior número de deputados. Até aqui tinham sido partidos populistas mais à esquerda que tinham vencido as últimas eleições na Tailândia e portanto essa tendência inverteu-se. Ele prometeu mão dura também com o Camboja, inclusive falando de construir um muro, também uma coisa muito trumpista, se quisermos, um muro entre a Tailândia e o Camboja. As expectativas à partida potencialmente serão de mais tensões, mais problemas, mas também pode acontecer que, tendo ele estas credenciais nacionalistas e percebendo o Camboja também que há aqui um risco de escalada, que eventualmente isto até possa levar a algum tipo de compromisso mais pragmático, sobretudo se houver empenhamento das potências regionais, da ASN, desta organização regional, uma espécie de União Europeia do Sudeste Asiático, que faz parte da Tailândia e o Camboja também, mas também a China e os Estados Unidos têm mostrado algum interesse em que não haja aqui um conflito descontrolado. Em relação ao Bangladesh, por fim Foi um daqueles casos das revoluções de jovens, destas revoluções também utilizando muito as redes sociais. Sheikh Hasina, que dominou a política no Bangladesh durante duas décadas, foi forçada a fugir pra Índia, a exilar-se. Portanto, à partida, era garantido que haveria aqui uma mudança significativa, porque o seu partido, a Liga Awami, foi excluída das eleições. Mas havia a dúvida sobre um partido mais islamista e um partido mais nacionalista secular. E realmente é esse partido nacionalista, que se chama mesmo assim, Partido Nacionalista do Bangladesh, que era o partido que tinha estado no poder há 20 anos, que agora recupera o poder com uma maioria expressiva. Portanto, a promessa é uma política de liberalização econômica, de tentar contrariar este grande problema, que é o Bangladesh é um país que tem tido taxas de crescimento extraordinárias, muito à custa da exportação, nomeadamente é o grande centro de exportação da indústria têxtil à nível global, mas isso agora tem problemas. Neste contexto de guerras comerciais entre grandes potências, o Bangladesh conseguiu negociar umas isenções de tarifas com os Estados Unidos, o que não é um feito fácil com o Donald Trump, mas aparentemente a aposta continua a ser nessa linha mais liberal e em termos de política externa, abandonar uma posição de grande alinhamento com a Índia, que era o que acontecia com a Sheikh Hasina, que aliás não por acaso está refugiada na Índia. Portanto, tentar diversificar um pouco relações. Apesar de tudo, eu diria isso, pode criar algumas tensões com a Índia. Tem criado algumas tensões, alguma desconfiança da Índia, que sente muito que não tem aliados, que está a perder os aliados que tinha tradicionais, o Nepal, o Bangladesh, por exemplo, na sua vizinhança, basicamente resta-lhe o Butão, que até já falamos aqui. Mas apesar de tudo, o cenário alternativo, que era o partido islamista subir ao poder, provavelmente seria um cenário ainda pior desse ponto de vista, porque havia suspeitas de que isso pudesse levar a uma aproximação com o Paquistão. O Bangladesh já fez parte do Paquistão, era o Paquistão Oriental até 1971, mas atualmente com governos mais pró-islâmicos no Paquistão e no Bangladesh, poderia haver aqui uma reaproximação e isso seria obviamente um péssimo cenário para a Índia. Portanto, apesar de tudo, essa possibilidade parece um pouco mais afastada com este resultado eleitoral.

Bruno, já que falaste do Japão, é o país em destaque esta semana. Que dados e que datas queres trazer para cima da mesa?

O Japão tem realmente uma relação histórica importante com Portugal, é um país onde Portugal tem bastante visibilidade, há muitas palavras portuguesas, portanto muitas das coisas ocidentais, coisas como pão, etc. No Japão, a palavra japonesa é derivada do português. Isso obviamente é o resultado do fato que é muito conhecido no Japão e é muito importante na história japonesa de o primeiro contato entre europeus e o Japão ser através dos navegadores portugueses a partir de 1543. Depois há um processo de relações econômicas muito intensas. Nagasaki basicamente é fundada ou cresce como uma cidade, um entreposto comercial desenvolvido pelos comerciantes portugueses. O chamado Navio Negro, que é uma nau anual que vai de Macau para o Japão ao longo da segunda metade do século XVI. Depois, uma presença dos jesuítas extraordinariamente importante, São Francisco Xavier como o primeiro grande evangelizador do Japão, com muito sucesso. Portugal está muito associado, e a tecnologia militar, as armas de fogo estão muito associadas também ao processo de reunificação do Japão. Portanto, o Japão tem a monarquia, a dinastia mais antiga do mundo que continua em funções. Esta dinastia Yamamoto, se acreditarmos nas lendas, tem mais de 2500 anos e descende da deusa do sol. Mas à partida, temos indicações de que haverá uma família real japonesa de chefes japoneses, pelo menos há 2000 anos, mais ou menos, e depois começamos a ter mais dados a partir da volta do século VI. Mas de fato, é uma dinastia que vai ter um papel muito importante na identidade japonesa, mas na política japonesa, logo a partir daquilo que nós chamamos de Idade Média, é muito marginalizada por chefes guerreiros e alternam períodos em que há uma fragmentação, de fato, do país, em que estes múltiplos chefes guerreiros com seus samurais, com seus guerreiros, controlam diferentes partes do território, embora todos reconheçam a autoridade última do imperador, que funciona como uma espécie de papa. O imperador é também o líder, o chefe da religião nacional politeísta do Shinto japonês. Portanto, no século XVI, realmente estamos num desses períodos de guerras civis muito intensas, mas no final do século XVI, com o armamento também que os portugueses trazem, de fato, há uma reunificação do país que acaba por se depois formalizar nos chamados xogunato dos Tokugawa. Os portugueses ajudaram por essa via do armamento, mas complicaram pela via da religião, ou seja, o cristianismo começa a ser visto como demasiado popular, demasiado estranho às tradições japonesas e como uma potencial quinta coluna das potências europeias. Portanto, vai haver um processo basicamente de genocídio, de eliminação dos cristãos japoneses, que são um número muito significativo no final do século XVI, de expulsão dos portugueses também, a partir de 1639. O Japão mantém apenas relações comerciais com a China e com os holandeses, com a Holanda, que só está interessada em relações comerciais, não quer fazer evangelização. Mas realmente Portugal tem realmente um portanismo muito grande. Depois, há todo um período até meados do século XIX, desde meados do século XVII até meados do século XIX, em que o Japão está basicamente cortado, corta relações ou só mantém relações comerciais mínimas com o resto do mundo. Isso é alterado pela força, com um exemplo daquela diplomacia de canhoneira, de que temos falado agora bastante vezes, por parte dos Estados Unidos, o famoso Commodore Perry, em 1853, 54, vai com uma esquadra de navios de guerra a vapor, vai impor a abertura do Japão a relações diplomáticas e comerciais. O que é extraordinário, realmente, é que o Japão, a partir de 1867, com a chamada Restauração Meiji, vai fazer este processo extraordinário, que é usar a sua figura mais tradicional de todas, que é o imperador. No fundo, vai depor este xogum Tokugawa, este generalíssimo que governava de fato o país, vai restaurar o poder do imperador, mas vai usar isso para legitimar um processo de modernização extremamente intensa, acelerada, de industrialização, de modernização militar. E o Japão vai ser o primeiro grande caso de sucesso em termos de modernização tecnológica e industrial de um país não ocidental. Como resultado disso, no final do século XIX, temos o Japão a vencer a China, que era tradicionalmente a potência hegemônica desta região do mundo. 1898, a guerra sino-japonesa. Como resultado disso, já falamos aqui disso algumas vezes, o Japão vai anexar Taiwan, vai começar a ter uma presença também na Coreia, isso leva depois a um choque com a Rússia, a guerra russo-japonesa, 1904, 1905. É a primeira guerra em que uma potência asiática vai derrotar uma potência europeia. O Japão vence, vai ocupar a Coreia depois, como resultado disso, e partes importantes do norte da China, da Manchúria, etc. E depois isso vai obviamente culminar, esse processo de expansão vai levar ao choque com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, Pearl Harbor e tudo isso a partir de 1941, e depois, obviamente, a ocupação norte-americana e este processo de redemocratização do Japão, por via de uma Constituição que é imposta, que é ditada pelos Estados Unidos, mas que resulta muito bem. Essas são as datas fundamentais. Em termos de dados, o que aqui se destaca, e até comparando um pouco com Portugal. Nós vemos que Portugal também é um país arquipelágico, mas obviamente tem uma parte continental na Europa importante, mas o Japão é apenas um país arquipelágico, é um conjunto de ilhas. Temos cinco grandes ilhas, nomeadamente Honshu e Hokkaido são as mais importantes. Honshu é onde fica a capital, Tóquio. São tantas ilhas que eles perderam a conta, vamos dizer assim, são à volta de 360 mil km², eram milhares de ilhas, já sabíamos disso, mas até há três anos atrás, até 2023, quando eles fizeram uma nova cartografia digital por satélite, sistemática, pensava-se que seriam à volta de 7 mil ilhas, afinal serão à volta de 14 mil. Como eu estava a dizer, são tantas ilhas que se pode perder um pouquinho a conta, mas realmente há estas cinco principais. Em termos de população, à volta de 120 milhões de habitantes, um pouco mais de 10 vezes a população de Portugal. Em termos de economia, já foi a segunda economia global nos anos 80. Donald Trump e muitos americanos tinham grande receio de serem ultrapassados pelo Japão na altura. Tem tido crescimentos anêmicos nos últimos 20 anos, também como resultado do envelhecimento da população, dificuldades de gerir a imigração, etc. Mas a verdade é que atualmente a economia japonesa é mais ou menos 10 vezes o tamanho da portuguesa, o que faz sentido tendo em conta a população. Em termos de PIB per capita, Portugal já não está assim tão longe do Japão, nós andamos à volta de 31 mil dólares, o Japão à volta dos 34 mil. Em paridade de poder de compra, há até quem diga que já estamos mais ou menos a par do Japão. O Japão obviamente é aqui uma potência econômica significativa, mas só pra terminar, o dado mais relevante do ponto de vista de equilíbrios de poder a nível global e regional é que esta descida do Japão de segundo pra quatro, para número quatro em termos das maiores economias do mundo, corresponde também à ascensão da China para número dois, pra segunda maior economia e portanto, no fundo, de alguma forma, o restaurar daquilo que era o equilíbrio de poder tradicional nesta região, com a China como a potência dominante. O Japão conseguiu, com esta modernização muito acelerada, esta restauração Meiji, este processo muito bem-sucedido a partir de meados do século XIX, conseguiu ultrapassar a China durante muito tempo, mas realmente agora a China recuperou e o Japão, no fundo, está a lidar com este dado, que é uma China emergente a investir muito também em meios militares, muito mais assertiva e até agressiva na sua região e com os Estados Unidos, um aliado muito menos seguro do que aquilo que era o caso desde o final da Segunda Guerra Mundial. E é por isso que vemos coisas semelhantes às da Europa, que é um aumento muito significativo do investimento em defesa, ultrapassar os 2%, e até discussões sobre, eventualmente, algum tipo de programa nuclear.

Dados e datas importantes para entendermos aqui o crescimento e os avanços e recuos do Japão, que é o país em destaque esta semana pelo Bruno Cardoso Reis. Bruno, vamos ainda avançar para outro tema, a Cimeira dos Ministros da Defesa da NATO, sem o ministro americano Hegseth. Também a Conferência de Munique, sem J. D. Vance, mas com Marco Rubio, que depois vai à Eslováquia e à Hungria. Que leitura é que podemos fazer destes encontros?

É um pouco mais do mesmo, mas num estilo um pouquinho mais diplomático do que foi, por exemplo, há um ano atrás. Ou seja, o fato de J. D. Vance não ir a Munique Acho que é um alívio para toda a gente. Ele foi lá no ano passado dizer que não nos devíamos preocupar com a Rússia, porque não era um problema para a Europa. O grande problema da Europa era não votar nos partidos favoráveis ao Donald Trump ou que o Donald Trump gosta na Europa. Portanto, uma interferência descarada na política interna europeia, numa conferência que supostamente não tem nada a ver com esse tipo de temas e ainda por cima com este argumento absurdo de que a Rússia não era uma ameaça.

Ou seja, no meio disso tudo, até é um alívio ele não ter ido.

Eu penso que sim. Marco Rubio é alguém com muito mais experiência na política externa e na política americana em geral, como senador inclusive. É alguém que é visto como mais favorável à manutenção das alianças, à NATO, à Aliança Atlântica, ao apoio à Ucrânia, portanto, é uma figura um pouco mais aceitável para os europeus. A expectativa é que ele terá um tom talvez mais alinhado com aquilo que são as expectativas de uma conferência de segurança. A Conferência de Segurança de Munique foi criada em 1963 precisamente para estabelecer e consolidar pontes entre os países europeus e os Estados Unidos. Depois globalizou-se muito nos temas, mas nunca deixou de ter também essa prioridade, que agora ganhou renovada importância. A expectativa é que será uma postura eventualmente mais diplomática, mas sem alterar as prioridades essenciais de Trump. É significativo, como disseste, que ele vai à Eslováquia de Robert Fico e à Hungria de Orbán, onde aliás vai haver eleições em abril, os dois grandes trumpistas que temos a liderar governos na Europa, aqueles mais hostis também em relação à União Europeia. Apesar de tudo, Meloni ideologicamente pode ter algumas proximidades com Trump e com a direita americana, mas tem sido uma jogadora de equipe no contexto da União Europeia. Em relação à Cimeira da NATO, o que é significativo da desvalorização da aliança é realmente não vir o ministro, não vir o secretário da Defesa, Pete Hegseth. Não só isso, mas vir o Colin Kahl, que é o número três do Departamento da Defesa, que eles agora chamam de guerra, que é o grande defensor de que os Estados Unidos devem desinvestir da Europa. Escreveu um livro inteiro em torno disso, e devem investir é na Ásia. A grande preocupação é conter a China, como se deixar cair a Ucrânia ou dar a mensagem de que os europeus, de que os aliados não interessam assim tanto para os Estados Unidos, não criasse enormes problemas, não levasse a uma desestabilização, provavelmente incentivasse a China a ser mais agressiva na Ásia ou em relação a Taiwan. Mas essa é a postura dele e foi muito essa a linha que ele veio repetir, que os europeus têm de fazer mais pela sua defesa, ou até dando a entender que não fazem, que quem defende a Europa são os Estados Unidos. Isso é uma tese absolutamente risível. Não são 60 mil tropas americanas sozinhas que defendem a Europa. Se fosse assim, estávamos todos com grandes problemas. A Europa no seu conjunto, a Europa NATO tem quase 2 milhões de soldados, tem forças altamente capazes, das forças militares mais capazes do mundo. Não tem as mesmas capacidades que os Estados Unidos, como nenhum país do mundo tem, e não tem porque os Estados Unidos não querem que tenham, porque é uma prioridade estratégica dos Estados Unidos há muitas décadas terem investimento em defesa e capacidades militares que mais ninguém tem, para serem a principal potência a nível global, que é uma ambição que os europeus não têm. É uma confirmação de que, num tom um pouco mais diplomático, porque o Colin Kahl não é propriamente mal-educado, há aqui esta ideia de que, sem querer hostilizar desnecessariamente os europeus, há realmente uma mensagem da administração Trump no sentido de que vão desinvestir, vão dar menos importância e menos prioridade à Europa, e na medida em que dão, é sobretudo a certos governos que eles veem como alinhados ideologicamente com o trumpismo.

Bruno, antes de fecharmos com a tua recomendação, na América Latina, situação muito grave e preocupante em Cuba, que está em crise. Era perceptível que isto pudesse acontecer depois do ataque dos Estados Unidos à Venezuela. Aqui em perspectiva, temos o embargo de petróleo, precisamente dos Estados Unidos, que pode limitar o país em termos de produção de energia, mas temos aqui a promessa de ajuda da Rússia e da China, que são sistemas favoráveis ao que vigora neste momento em Cuba. Acreditas que esta ajuda fará realmente a diferença ou que o regime pode realmente cair nesta altura em Cuba?

Começando pelo que deve ser mais evidente, o regime cubano é terrível. É uma ditadura repressiva, comunista, incompetente economicamente há muitas décadas, usa há muitas décadas esta desculpa do embargo norte-americano, a ideia de que o capitalismo norte-americano é péssimo e é a grande causa dos males de Cuba, mas depois sem o capitalismo americano, tudo corre mal em Cuba, porque não há mais capitalismo americano, não há comércio com o mercado americano. Mas a verdade é que ainda não tinha acontecido isto. E eu estive a ver os números e basicamente, à volta de 61% do petróleo de Cuba no ano passado veio da Venezuela, 25% do México, 10% da Rússia. Atualmente, há zero. Não há nenhum petróleo a chegar à Venezuela, e isso significa que basicamente não há energia, porque as centrais elétricas cubanas funcionam basicamente a diesel, derivados do petróleo, se quisermos. Está praticamente tudo parado, e isto realmente cria uma situação dramática, muito complicada, não apenas para o regime, mas para a população. E o problema é quando a população está no limiar da sobrevivência, quando o próprio turismo, que era a única atividade econômica e que animava um pouco a economia da ilha, está também praticamente paralisado, porque inclusive não há combustível para os aviões turísticos aterrarem e poderem voltar a reabastecer e a voltar a levantar. Realmente, a situação é absolutamente dramática para a população. Se eu achasse que havia aqui um real empenho em mudar o regime, eu até podia achar que isto podia ser um mal menor temporário, desde que realmente se resolvesse rapidamente a situação, porque inclusive isto põe em questão coisas como hospitais, por exemplo.

Que já não funcionam bem.

Que já não funcionam bem. A situação da população é absolutamente desesperada e eu espero que realmente a administração americana perceba isso e que isto se resolva com alguma rapidez. Infelizmente, não parece que a prioridade de Trump seja a democratização de Cuba, que seria o meu desejo e suponho que de muitos ouvintes e certamente da grande maioria dos cubanos, e um desenvolvimento económico realmente sustentável, mas será provavelmente uma obsessão de Donald Trump com o imobiliário, com os casinos. Cuba até Fidel Castro, até 1959, tinha uma presença muito importante de investimentos americanos, por exemplo, nessas áreas do imobiliário, do turismo, dos casinos. Se calhar será um negócio desse tipo e se for só isso, não vai mudar a natureza do regime, como não está a mudar no caso da Venezuela.

É um país praticamente ao abandono neste momento e a passar por uma situação muito complicada. Bruno, vamos ainda à tua recomendação para esta semana.

Sim, a minha recomendação é o relatório da Conferência de Segurança de Munique. Vamos voltar a falar certamente da conferência e tentar fazer um certo balanço. Todos os anos, a Conferência de Segurança de Munique tem também uma espécie de think tank, de instituto de investigação, que trabalha durante todo o ano e vai organizando alguns outros eventos e também prepara sempre um relatório sobre o estado do mundo, que é um pouco o mote também para a conversa depois na Conferência de Segurança de Munique, com muitos dados, com muitas estatísticas, com sondagens, com recolha também de testemunhos, de citações de líderes mundiais, etc. É sempre bastante útil. Este ano, convido os ouvintes a consultar, está disponível online, o título é "Under Destruction". Basicamente, é esta ideia de que, de facto, não é uma mudança radical, é realmente uma destruição da ordem global como nós a conhecíamos. Eles utilizam este conceito de wrecking ball politics, a política da demolição, literalmente. E obviamente, Donald Trump tem aqui um papel central, mas convido os ouvintes que têm interesse por estes temas a lerem o relatório, porque tem também muitos dados, muitas estatísticas, muitas sondagens, muitas citações pertinentes sobre o estado da política global atual.

É com a recomendação do Bruno Cardoso Reis que fechamos esta edição do "Cinco Continentes". Se tiver alguma dúvida ou alguma pergunta, já sabe, pode enviá-la através do e-mail ouvinte@observador.pt ou até mesmo através do Spotify. Pode deixar também os seus comentários ou perguntas a cada novo episódio. Se for ainda mais fácil, através do 91 002 41 85, é o WhatsApp da Rádio Observador. Pode enviar inclusive mensagens de voz com a sua pergunta. O Bruno Cardoso Reis tem todo o gosto em responder num próximo episódio. Bruno, encontro marcado no próximo sábado. Até lá, um grande abraço.

Bom fim de semana, boa semana. Até breve. Obrigado.