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O som não é o melhor. É retirado de um vídeo publicado na internet em 2013. José Eduardo dos Santos surpreende a mulher na festa de aniversário de Ana Paula, a 17 de outubro. Pega na viola e ao microfone canta-lhe "Alma, Coração e Vida". Mas há aqui um pormenor: José Eduardo dos Santos omite o verso "eu que não tenho fortuna". A canção é um clássico dos anos 60, de Lindomar Castilho.
José Eduardo dos Santos é um homem muito inteligente. Ele consegue construir um império pessoal e um império familiar, digamos assim, assente neste estado de petrodólares, mas não se lhe conhece a fortuna. Isto está tão bem feito que quando vamos à procura da fortuna de José Eduardo dos Santos, nós não encontramos. E por isso seria muito estranho que ele, mesmo a cantar, tivesse dito outra coisa. Tivesse dito: "eu que não tenho fortuna". Seria demasiado. Eu penso que ele aí estaria a dar muito o flanco.
Esta é a voz de Dulce Neto. É editora-executiva do Observador.
Mas é curioso como até nestes pequenos pormenores, nós vemos o homem cuidadoso, aquilo a que Pepetela chama de xadrezista, mas sem dúvida, um homem muito inteligente.
Bem-vindos à Corte de Luanda. Este é um podcast da Rádio Observador. Em quatro episódios, vamos contar as histórias de algumas das personagens centrais dos últimos 50 anos de Angola. José Eduardo dos Santos, a filha, Isabel dos Santos, e o atual presidente, João Lourenço. Os dois primeiros episódios são dedicados ao homem que liderou Angola durante 38 anos, José Eduardo dos Santos. Como chegou à presidência? Como exerceu esse poder? Neste primeiro episódio, vamos até 1979, o ano em que assume a Presidência da República. É uma história repleta de pormenores, alguns pouco conhecidos. Vamos ficar a saber, por exemplo, que José Eduardo dos Santos foi presidente do MPLA em dois momentos diferentes. E vamos ainda perceber como começou a construir a rede de poder.
Sim, mas ele pensou que tinha que criar uma classe de ricos, porque na lógica dele, era essa classe de ricos que defendia os interesses nacionais, para serem os parceiros dos estrangeiros nos investimentos. Nem que fosse apenas investimentos sem porem lá capital nenhum, é só darem o nome.
Justino Pinto de Andrade saiu do MPLA ainda antes da independência de Angola em 1975. Hoje é o líder do partido Bloco Democrático. Justino Pinto de Andrade foi entrevistado por Dulce Neto, em Angola. Para esta série, recolhemos e cruzamos informação. Conversamos com muitas pessoas, 89 pessoas, para ser exato. Poucos aceitaram gravar. Analisamos também documentos, entrevistas, dados, para conseguir chegar às histórias que vamos contar nestes quatro episódios. Eu sou o Ricardo Conceição, sou editor-executivo do Observador. Bem-vindos à Corte de Luanda. Primeiro episódio: o viajante. Bem-vinda, Dulce Neto.
Obrigada.
Vamos começar pelo fim desta história. José Eduardo dos Santos é hoje, dirias, um homem isolado no exílio confortável em Barcelona?
José Eduardo dos Santos é uma figura misteriosa, foi sempre e continua a ser. Por isso, continua a ser muito difícil perceber exatamente o que se passa com ele. Eu lembro-me que o escritor angolano, José Eduardo Agualusa, diz que ele é uma figura opaca. Ele é muito discreto, mas mais do que discreto, há até um sociólogo angolano, Paulo Inglês, que tem uma imagem muito curiosa sobre ele. Ele diz que ele é uma caixa de vidro embaciada, por isso é muito difícil ler José Eduardo dos Santos e sempre foi. Por isso, agora que ele está em Barcelona, é muito difícil perceber o que se passa com ele, mas é inevitável aquela imagem de um general no seu labirinto. Sozinho, numa mansão de € 6 milhões, num bairro da elite de Barcelona, que se chama Pedralbes, pedras brancas em catalão, e o que me dizem em Luanda é que ele está muito isolado Tem os seguranças, tem alguns fiéis que ainda o visitam. Um ou dois dos seus generais, pelo que me disseram, ainda o visitam em Barcelona e receberá, muito de vez em quando, a visita de uma das duas filhas.
Os nossos pais nos diziam que ele viveu aqui no bairro de Sambizanga, mas nós, com 40 e tal anos, queremos saber onde ele viveu, a casa em que ele viveu. Isso tudo nós queremos saber, mas nunca ninguém conseguiu nos dizer, porque: "Não, viveu aqui no bairro do Sambizanga, os pais foram fulano e não sei o quê". Nunca ninguém conseguiu nos dizer isso.
Nem o senhor que vive cá há tantos anos?
Nem eu conhecia.
Não conheceu nem o pai, nem a mãe dele.
Não, não conheci.
Porque o que dizem é que eles iam vender ali no mercado de São Paulo.
Sim.
Engraçado. Eu pensava que aqui os mais velhos saberiam.
Para contarmos a história deste homem, temos de regressar a uma Luanda dos anos 40, a este bairro onde estamos agora, o bairro do Sambizanga. Dulce Neto, que bairro é este?
O bairro da Sambizanga é um dos grandes bairros de Luanda. É um musseque que fica próximo do mercado de São Paulo, onde a mãe de José Eduardo dos Santos, que era quintandeira, ou seja, que vendia fruta, trabalhava onde ela ia vender os seus produtos. É curioso que as pessoas que vivem no Sambizanga, os mais velhos, como eles dizem, não se recordam dos pais de José Eduardo dos Santos, nem de José Eduardo dos Santos. Eles dizem que é impossível que ele tenha nascido ali.
Mas dizer que foi nascido cá, é impossível. Ninguém conhece a casa dele.
Mas viveu cá?
Nem viveu aqui. Os antepassados também dizem que não conhecem a casa dele, não sabem onde ele vivia. Ninguém conheceu os pais dele, nem a casa dele. É isso.
Mas José Eduardo dos Santos ia sempre a este bairro do Sambizanga jogar futebol.
Ele gostava muito de jogar à bola, não era?
Ele gostava muito de jogar à bola e eles contaram-me que ele ia lá, que na véspera dele ir, o bairro ficava logo todo cercado.
Ele, quando vinha aqui, se enchia de tropa pra segurar, pra ele guardar. Quando ele vem pra jogar aqui, ninguém se mexe, isso tudo fica cheio de tropa.
Então, com quem é que ele jogava?
Jogava com os amigos dele, ele tem os amigos dele.
Ah!
Os amigos dele do partido.
Não era com as pessoas do bairro.
Não. Ele, pra vir aqui, tem que ser muito acompanhado. Antes dele vir, isso aqui tem que cercar, dorme já a tropa cercado.
Perante tudo isto, há dúvidas sobre o local onde cresceu nos primeiros anos José Eduardo dos Santos. Temos, Dulce, pelo menos algum grau de certeza sobre o local onde nasceu?
Não, há uma controvérsia sobre o sítio onde ele nasceu. Há quem diga que, na verdade, ele é um imigrante de São Tomé e Príncipe, que há uns anos houve uma polêmica em que a oposição, inclusive, terá mostrado uma cédula de nascimento, que depois foi dito que era falsa, que dizia que ele teria nascido em São Tomé e Príncipe.
Porque agora põe-se a questão: é angolano ou é santomês?
Esta é a voz de Jonas Savimbi, o líder da UNITA no comício.
Angola não pode ser governada pelos angolanos, tem de ser pelos estrangeiros? Não! Desta vez tem de acabar.
A biografia oficial dele diz que nasceu em Luanda. Ponto.
E até sobre o nome, há algumas dúvidas ou, pelo menos, algum mistério envolvido no nome de José Eduardo dos Santos?
Durante algum tempo, não se soube que ele era da família dos Van Dunen, uma família muito importante em Angola. Um jornalista angolano explicou-me que ele pertencia à parte mais pobre, ao ramo mais pobre da família. Ele até usou uma expressão muito interessante, dizia que era um Van Dunen do quintal, por oposição aos Van Dunen de dentro de casa. E José Eduardo dos Santos ter-se-á sentido ostracizado por parte da parte mais rica da família e, por isso, como bom estalinista, teria apagado o apelido do seu nome. Porém, quando o pai morreu e se tornou público que o avô se chamava Avelino Francisco Pereira dos Santos Van Dunen, ficou claro que ele pertencia à família e nessa altura José Eduardo até terá comentado para um amigo: "Então pensavam que eu não tinha família? Pois eu também sou Van Dunen."
Temos a certeza absoluta, porém, que nasceu num contexto de pobreza.
Sim, ele nasceu numa circunstância de extrema pobreza. O pai, Eduardo Avelino dos Santos Van Dunen, tinha sido imigrante em São Tomé e quando regressou a Luanda com a mulher, Jacinta José Paulino, ficaram a morar numa casa de adobe com os dois primeiros filhos, Isabel e Avelino, uma casa que acabou destruída por uma chuva torrencial. E então eles ergueram uma de chapa, e foi aí que o futuro inquilino do Palácio da Cidade Alta nasceu a 28 de agosto de 1942. E ele veio alegrar o casal, porque o casal perdera há pouco tempo uma filha. Isto contou o irmão mais velho do José Eduardo dos Santos, Avelino, ao Jornal de Angola há algum tempo. E foi muito curioso porque coube a Avelino escolher o nome para aquele bebê. Era um bebê débil, ele diz que ele era um bebê débil. E ele contou a um historiador angolano, ao Patrício Batsikama, que ninguém contava que ele fosse viver. E então ele, como já era crescido, chamou-lhe Viajante. Viajante no sentido de alguém que apenas vem e vai embora.
E como foi a infância nesse ambiente, ainda sob o domínio colonial português?
O irmão contava que o pai era calceteiro da Câmara de Luanda e a mãe era quintandeira, vendia no mercado de São Paulo, que é um mercado que ainda hoje se impõe, muito frenético na paisagem do bairro. Saiu muito cedo de casa. Diz que o pai era muito estrito e que tinha um feitio complicado. Acordava às cinco da manhã e mais ninguém podia ficar na cama e que lhes incutiu uma educação muito rígida. Ele diz que no bairro, na rua, eles tinham que respeitar as pessoas e que essa rigidez moldou o caráter dele. Mas quem cuidou muito de José Eduardo dos Santos, como os pais saíam muito cedo, ele ficou à guarda da irmã Isabel. Esta irmã Isabel tinha uma força muito grande em José Eduardo dos Santos, tanto que quando ele tem a primeira filha, resolve homenagear a irmã dando o nome à primeira filha, a Isabel dos Santos.
E ele acaba por entrar depois no Liceu Salvador Correia, estamos a falar dos anos 50, que é tido como uma espécie de liceu mais reservado às elites de Luanda dessa época, mas ele consegue entrar nesse liceu.
É verdade. Ele, antes de entrar no liceu, frequenta a escola primária do bairro e depois vai para a missão evangélica, porque os dois avós dele eram pastores metodistas e ele chega a fazer parte do grupo de jovens dessa igreja.
Não eram católicos.
Ele não era católico. Mas há um episódio muito curioso da entrada dele no Salvador Correia, que o irmão dele conta, e que podíamos ver aqui já uma das características de José Eduardo dos Santos, que os seus adversários dizem é que ele é muito dissimulado, mas também já o esquema angolano de conseguir as coisas. O irmão conta que isto era o liceu das elites, e que o prazo para ele se inscrever, depois de feita a quarta classe, terminava naquele dia, mas ele não tinha o certificado pronto. E o irmão pediu-lhe então para ele usar a saliva para simular um choro e um desespero e assim convencer a funcionária a ser flexível.
Umas lágrimas falsas.
E pelos vistos resultou. Mas os problemas não acabaram aí. Depois ainda faltava o dinheiro para pagar as propinas e o Avelino pediu isenção para o irmão e não conseguiu. Mas ele não desistiu. Ele conta que fez duas mesinhas de cabeceira e um beliche para oferecer aos dois chefes da administração central. E isso resultou.
Pagou com mobília a entrada do irmão no liceu.
Ele foi um dos primeiros negros a frequentar aquela escola nos anos 50.
E é nesse liceu que o viajante, assim lhe chamava o irmão, José Eduardo dos Santos, se torna também um atleta.
É verdade. Temos um político português, o Miguel Anacoreta Correia, que foi contemporâneo dele nesse liceu e que se lembra dele muito reservado e que as pessoas o conheciam fundamentalmente do futebol. Acho que ele era um excelente interior esquerdo.
E é aí no liceu que ele desperta para a vida política?
É durante o liceu que ele começa a juntar-se com um grupo de amigos, ao fundo do quintal. O irmão Avelino também conta isso, e onde eles começam a sua luta política na clandestinidade, claro. E onde ele começa a desenvolver uma veia musical, digamos assim, porque ele começa a cantar canções que nós chamaríamos de intervenção, ou seja, canções de cariz político.
"Kaputu Mwangole" é uma canção contra os colonos portugueses em Angola, que diz mais ou menos isto: os portugueses estão a matar-nos.
Foi o irmão que lhe ofereceu a primeira viola, uma viola que foi feita por ele. E ele revelou-se como cantor e compositor nos Quimbandas do Ritmo e depois no conjunto Nzagi, que significa trovoada.
Isso é muito curioso, porque tendo ele essa personalidade fechada, reservada, de que já falaste, torna-se cantor e escreve, ou pelo menos são lhe atribuídas algumas letras importantes dessas canções de protesto e de intervenção.
Sim, é verdade. Dizem que ele é o autor de uma canção muito popular em Angola, que é Kaputu Mwangole, mas que também são dele alguns trechos e alguns arranjos do hino do MPLA, criado ainda antes de 1963.
Ele é claramente um apaixonado por música e por cantores brasileiros, e não só. Ao longo da história, teve vários episódios de fã De alguns nomes importantes da música, não é?
Sim, ele era fã incondicional da brasileira Roberta Miranda, que disse numa entrevista que uma vez foi acordada às três horas da manhã por um telefonema do presidente, que queria a sua opinião sobre a política e o povo locais. Aliás, ele depois convida-a para o seu casamento com a Ana Paula dos Santos. Ele continuou a escrever e interpretar canções de intervenção na República Democrática do Congo, então Zaire, na altura ainda Léopoldville, onde ele dava aulas de português aos refugiados angolanos e formou um clube de futebol, o Ngola Livre, e mantinha a banda Nesagi. E depois, quando ele vai para a União Soviética estudar, ele lança um disco com quatro canções suas. E foi muito curioso, quando ele fez 72 anos, o filho, Koryandu, e o cantor angolano Matias Damásio ofereceram-lhe um CD que reeditava essas canções revolucionárias, como uma que se chamava "A Doutor Neto".
Já falaste das canções revolucionárias da Roberta Miranda, mas também sabemos, e é público, que José Eduardo dos Santos é um grande fã de Roberto Carlos e até de Seal, que cantou em Luanda, não é?
É verdade, ele foi a um jantar de angariação de fundos para a Fundação Luíni, que era da então primeira-dama, isto em 1998, e até ofereceu um livro de fotografias de Angola depois de o ver dançar com a Ana Paula dos Santos.
Ninguém sabe quanto custou esse concerto.
Não é conhecido, mas todos sabemos que o cachê de Seal não é propriamente muito baixinho.
Vamos, Dulce Neto, regressar ainda ao quintal, porque tu deste um salto muito grande no tempo e queria voltar ao quintal de casa, onde ele começa a ter essa consciência política numa Angola e numa Luanda ainda nos finais dos anos 50, ainda sob domínio português. Como é que vai parar ao Congo? Conta-nos essa parte da história.
Segundo o irmão, que morreu no ano passado, o irmão alistou-se no MPLA em 1956, quando o movimento surgiu, e a 7 de novembro de 1961, ele abandonou Angola com medo da PIDE.
Saí clandestinamente de Angola para o Congo Léopoldville, onde pouco tempo depois recebi o cartão de membro do MPLA, nos escritórios deste Movimento de Libertação Nacional, na cidade de Léopoldville, hoje Kinshasa.
O irmão lembra-se perfeitamente que se estava a preparar para ser operado a uma hérnia e que José Eduardo, que nada comunicou aos pais, apareceu com um amigo para se despedirem. E ele foi, e ele diz que lhe ofereceu algumas roupas, algum calçado e que lhe desejou boa sorte e que ele foi. E que nunca mais, e que só muito mais tarde é que voltou a ter notícias do irmão. Ele nem se apercebeu que o irmão, em 1962, integrou a guerrilha do MPLA, o Exército Popular de Libertação de Angola, a EPLA.
Ele vai para o Congo, onde fica na clandestinidade. Falaste da PIDE. Ele estava debaixo da atenção da PIDE? Há registos?
Não muito. Nota-se como ele sempre foi esta figura subterrânea, esta figura calada e discreta, que não dava muito nas vistas.
Eu até dizia que ele era daquelas pessoas que você podia estar à procura: "Onde é que está o chefe?" Não está, porque não era de exposição. Muito discreto, muito sereno.
Esta é a voz de David Mendes. É presidente da Associação Angolana Mãos Livres e deputado independente eleito pela UNITA.
Nos ficheiros que eu consultei na Torre do Tombo, vê-se que a 28 de fevereiro de 1966, a PIDE solicita alguma informação ao serviço de ficheiros sobre José Eduardo dos Santos. Se houve alguma resposta ou não, isso não consta nos documentos da PIDE DGS. O nome dele só aparece em listas de angolanos que então estudavam na União Soviética.
Então vou já aproveitar esse ponto, porque é já a partir do Congo, é já na clandestinidade, que recebe esse prêmio, não sei se posso usar a palavra prêmio, de ir estudar para a União Soviética.
Não é bem um prêmio. O MPLA mandava os seus quadros estudar para a União Soviética, para o Bloco de Leste, para os preparar. Em 1963, ele consegue uma bolsa para estudar na antiga União Soviética e com outros jovens angolanos, ele apanha um avião da Air France até ao Gana, faz escala em Bamako e em Lagos, depois muda para um avião soviético que o leva a Moscovo, ainda passa por Casablanca e por Belgrado e depois em Moscovo, eles são distribuídos por várias cidades e José Eduardo segue para Baku, a grande cidade costeira do mar Cáspio e centro de treino ideológico.
Baku, capital do Azerbaijão, uma das 15 repúblicas da União Soviética.
E é em Baku que conhece Tatiana Kukanova.
Exatamente. Ele licenciou-se em 1969 em Engenharia de Minas, segundo os documentos da PITE, ou Engenharia de Petróleos, eu penso que aqui é só uma questão de nomenclatura, no Instituto de Petróleo e Gás de Baku, e ele já nessa altura liderava a secção dos estudantes angolanos na União Soviética. Eu gosto de o imaginar nesta capital do Azerbaijão, talvez com o crachá da MPLA ao peito, que era um emblema de liga leve dourado, tinha um fundo azul e um faixo vermelho. E aí ele conhece a Tatiana Kukanova. Ela, por si só, uma personagem. Ela era campeã de xadrez. Ela estudava geologia.
Russa?
Russa, sim. E ele queria muito casar com aquela russa loira, mas ele teve de esperar seis a sete anos para conseguir casar com ela.
Explica-nos essa história, porque é importante para percebermos também como tudo se desenrola a seguir.
Aqui, como em muitos outros momentos da vida do ex-presidente angolano, as versões variam muito. Uns, como uma amiga de Tatiana, com quem eu falei sob reserva de identidade, dizem que a dificuldade veio do racismo do meio em que vivia, da sua família e dos seus pais. Ninguém via com bons olhos que uma branca se casasse com um negro. Outros, como Margarida Paredes, que é uma investigadora portuguesa e antiga guerrilheira do MPLA, amiga do casal, diz que a família se deve ter oposto porque a sociedade soviética era profundamente racista. E eles esperaram seis anos por uma autorização do casamento, porque o MPLA tinha como política não permitir o casamento dos camaradas com mulheres estrangeiras. Isto é a visão da investigadora Margarida Paredes. Mas a filha, Isabel dos Santos, atribui a responsabilidade da demora ao KGB. Ela disse isso numa entrevista ao Financial Times.
Já com Tatiana Kukanova, depois de terminados os estudos na União Soviética, o que é que acontece, José Eduardo dos Santos?
Há aqui um pormenor que é muito importante e que há quem, como Justino Pinto de Andrade, justifique a sua permanência no poder. Há várias qualidades ou há várias características de José Eduardo dos Santos que permitem explicar que ele tenha sido o senhor absoluto de Angola durante 38 anos, e esta é uma delas. Justino Pinto de Andrade, que foi do MPLA, é um dissidente do MPLA e hoje é dirigente do Bloco Democrático, lembra isto: quando acaba os estudos de engenharia, ele faz durante um ano um curso militar de telecomunicações.
Ainda na União Soviética.
Ainda na União Soviética. E os russos gostaram tanto, ficaram tão agradados com as suas atividades, que lhe deram um prêmio, agora sim, uma medalha chamada Patrice Lumumba. E ele daí segue para Brazzaville, no Congo. Ele só volta a pisar Angola em 1970. Por isso ele sai em 1961, quando começa a guerra colonial, na verdade, e ele só volta em 1970. E o irmão Avelino diz que quando ele regressou, não entrou logo em casa dos pais, que chegou de madrugada e que foi dormir pro jardim, que não bateu à porta e que quando acordaram e ele estava ali, foi uma alegria enorme. Ficaram espantados, porque ele trazia com ele uma mulher branca, Tatiana Kukanova. Depois disto, o MPLA coloca-o em Cabinda como o quê? Como operador do centro principal de comunicações da Frente Norte e depois como responsável adjunto dos serviços de telecomunicações na Segunda Região Político-Militar do MPLA, de cujas finanças ele depois vai cuidar mais tarde. Ou seja, José Eduardo dos Santos é um homem das comunicações, é um homem da segurança. E isto é uma característica muito importante. Não lhe conhecemos nenhum currículo no mundo do petróleo, a não ser o uso dos petrodólares, mas a experiência dele e a prática dele é nas comunicações, de fato.
Estamos a falar do enclave de Cabinda, aqui já anos 70, é nessa altura que estamos?
Anos 70, sim. Estamos nos anos 70.
Deixa-me só fazer-te aqui uma pergunta, por curiosidade. Ele falava com a Tatiana Kukanova em português, em francês?
Ele fala russo. Segundo a amiga Margarida Paredes do casal, investigadora que falou com o Observador, terá sido esta portuguesa que ensinou a Tatiana a falar português já no Congo, porque em 1974 ele volta a Brazzaville e aí ele vai representar o partido. E aqui nós já vemos uma ascensão de José Eduardo dos Santos dentro do partido.
Em novembro de 1974, fui eleito membro da direção do MPLA.
Nesse mesmo ano, ele é eleito para o Comitê Central e para o Bureau Político do MPLA e fica a coordenar o setor político e diplomático. Isto é muito importante, porque José Eduardo dos Santos vai movimentar-se muito bem nos palcos internacionais. Ele mais tarde vem a ser o que nós chamamos Ministro dos Negócios Estrangeiros. Por isso, ele aos 32 anos já é um alto dirigente do movimento.
E vai acumulando poder já dentro do MPLA.
E Tatiana e Isabel acompanham-no. A casa deles também era muito modesta nesta altura. Há uma amiga deles, não a Margarida Paredes, uma outra amiga, que diz que a Tatiana uma vez se virou pra ele e disse: "Mas isto é a nossa casa ou é um jardim zoológico?" Porque tinha baratas, tinha osgas, tinha lagartos, tinha ratos, tinha formigas, tinha aranhas, tinha lacraus, cobras, morcegos. Bem, eram tantos bichos a partilhar com eles as paredes, quanto há de comum em Brazzaville, que ela não deixou de protestar, como contou mais tarde a uma amiga angolana que falou com a Observador.
Entretanto, estávamos aqui em 74, 25 de abril em Portugal, precipitam-se as independências nas colônias portuguesas em África. José Eduardo dos Santos regressa a Luanda quando?
José Eduardo dos Santos só regressa a Luanda em junho de 1975.
Portanto, alguns meses ainda antes da independência, que é 11 de novembro.
Que foi em 11 de novembro de 1975.
O Comitê Central do Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA
Proclama solenemente perante a África e o mundo a independência de Angola.
Eles ficam a viver numa moradia com quintal e com recheio espartano, na rua que hoje se chama Comandante Stone, no conhecido bairro de Alvalade.
Dulcinete, tu estiveste em Luanda agora recentemente e foste lá bater à porta.
Fui. É uma casa branca, com arcadas, curiosamente mesmo ao lado da casa do ex-primeiro-ministro que José Eduardo dos Santos humilhou publicamente, o Marcolino Moco. E eu fui bater à porta para ver quem é que estava lá a viver.
Estava lá alguém?
Estava. Veio primeiro uma jovem, que depois foi chamar um outro senhor e que disseram que não podiam responder a nenhuma pergunta, mas os guardas das casas vizinhas dizem que aquela casa é agora de Isabel dos Santos.
Da filha de José Eduardo dos Santos, que viveu com o pai e com a mãe nesse bairro, nessa casa, não é?
Sim. Eu falei com alguns vizinhos e alguns amigos dessa altura, que contaram que eles nesta altura tinham uma vida modesta também. Até contam um episódio de que tiveram que ir buscar umas bolachas e uns bolos à loja dos diplomatas. Isto é a altura em que havia muita falta de alimentos. Havia a Loja do Povo, havia a loja dos diplomatas, e há uma vizinha que vai à loja dos diplomatas buscar umas bolachas, porque o aniversário da Isabel dos Santos tinha uns baldes de gelado do Baleizão. Ela recorda-se bem disso. A vida deles era muito modesta. José Eduardo dos Santos só compra um carro algum tempo depois e graças a um esquema engendrado por Tatiana. A Margarida Paredes conta este episódio, que é: depois de os brancos portugueses terem saído, não havia comida, conta Margarida Paredes. E Margarida recebia todas as semanas um caixote que a mãe lhe mandava de Lisboa pela TAP. Mandava-lhe queijo, bacalhau e sempre duas garrafas de vinho. E ela distribuía aquilo pelos amigos. A Tatiana sabia sempre quando é que o caixote dela chegava e pedia-lhe o vinho. Ela só queria o vinho, não era para beber, era para servirem como moeda de troca. É por isso que Rafael Marques diz que é nesta altura que começa o que se chama a candonga. Quem arranjasse uma grade de cervejas nessa altura, diz a Margarida Paredes, e o vinho, tinha um grande valor. Então a Tatiana arranjou um esquema de trocar as garrafas de vinho por um carro e há uma outra amiga que também conta que a primeira vez que ouviu falar em dólares foi exatamente com a Tatiana. Há quem diga que o jeito para o negócio de Isabel dos Santos e para os esquemas, terá surgido com a mãe.
Vamos só parar aqui um pouco a conversa para dar um salto até a atualidade. Hoje, a vida de Tatiana Kukanova será bem diferente. Para já, viverá em Londres e até o nome mudou. Hoje chama-se Tatiana Sergevna Regan. Tatiana continua misteriosa. Não se consegue encontrar uma única fotografia dela na internet. O nome de Tatiana surge agora também envolvido nalgumas suspeitas de crimes de branqueamento de capitais, por exemplo, em Portugal. Segundo o Correio da Manhã, há uma suspeita que estará a ser investigada e que estará relacionada com transferências de dinheiro do estrangeiro para o Banco BIC em Portugal, banco que tinha como principal acionista a filha, Isabel dos Santos. Estamos a falar de transferências de cerca de € 10 milhões feitas sobretudo em 2012. Estas transferências estarão nesta altura a ser investigadas.
Ela adquiriu, ela comprou as cadeiras do episcopado e queria que esta amiga as vendesse em dólares.
Mas é nessa altura que ele vai a ministro, não é? Ministro das Relações Exteriores.
Sim, ele depois vai a Ministro das Relações Exteriores do MPLA, assume a coordenação do Departamento de Relações Exteriores do MPLA e ele visita várias capitais africanas e acumula também com o Departamento de Saúde. Isto vai ser muito importante para ele, esta experiência internacional, para o futuro. E aí a vida da família foi melhorando um bocadinho. Só uma coisa é que não mudava, é que ele continuava muito pouco sociável. As pessoas descrevem-no como uma figura quase desprovida de afetos, com exceção para a filha, com exceção para Isabel dos Santos, com quem ele gostava muito de passear de mão dada.
O arquiteto Paz como está. Então, como eu prometi há bocado, esta vai ser a última pergunta que eu vou responder, que é sobre o meu pai. O meu pai está preocupado. O meu pai acredita que em Angola tem que vencer a verdade. Eu falei com ele hoje e o que ele me disse foi: "A luta continua. Muita coragem".
Esta é a Isabel dos Santos num direto feito no Instagram no início de 2020.
José Eduardo Santos nunca teve uma ligação forte a ninguém. Talvez só à Isabel dos Santos ou aos filhos e a ele próprio. Ele é uma figura muito ambígua, mesmo dentro das alas do MPLA. Sim, ele era um ministro importante de Agostinho Neto, ele depois é ministro do Plano, que é a segunda figura do governo Mas não se lhe conheciam facções. Na verdade, não se lhe conheciam opiniões. E isso é um traço que permanece com ele até hoje. Ele falava pouco, dava muito poucas entrevistas, os discursos eram trabalhados, muito pouca espontaneidade, e isso permite que os outros se enganem sobre ele.
Portanto, nunca se sabia bem o que ele pensava.
Exatamente.
E isso perdurou ao longo da vida, como vamos perceber.
Ele era um delfim do Agostinho Neto. Repara, havia muito poucos quadros formados do MPLA, e ele era um quadro formado, tinha estas relações muito boas com a Rússia, era um homem calado, não se lhe conhecia o que pensava, era um dos delfins de Agostinho Neto, de facto. Mas José Eduardo dos Santos fica mais próximo de Agostinho Neto a partir da independência de 11 de novembro de 1975, como tu referias. Ele é primeiro-ministro das Relações Exteriores da então República Popular de Angola e, como tal, ele obteve o reconhecimento internacional do governo e a entrada do país na ONU em 1976. E ele depois é nomeado vice-primeiro-ministro de 1977 a 1978 e ocupou a seguir um cargo importantíssimo, o tal que eu estava a referir há pouco, o de ministro do plano. Isto no governo. Mas no partido ele também ascendia. Ele ascendia a secretário do Comitê Central para a Educação, Cultura e Desportos, para a Reconstrução Nacional e para o Desenvolvimento Econômico e Planificação. Por isso, já estava numa escala ascendente.
O rude golpe sofrido pelo povo inteiro, com o desaparecimento físico do nosso querido guia, fundador da nação e do MPLA, Partido do Trabalho, o camarada presidente doutor António Agostinho Neto, provocou uma dor profunda que permanecerá em cada momento da nossa vida de povo soberano e independente.
Como é que José Eduardo dos Santos, poucos anos depois de 75, chega à presidência e chega àquele papel preponderante na liderança do MPLA?
Por várias circunstâncias. Agostinho Neto morre subitamente em agosto, em 1979 e, na verdade, o MPLA, quando anuncia no seu aerograma urgente número 522 que José Eduardo dos Santos sucedia Agostinho Neto na direção do partido, do país e das FAPLA, na verdade, dá a ideia de que seria uma escolha provisória até encontrarem um novo líder, mas como se viu, o transitório quase se eternizou.
Juro respeitar e fazer cumprir a lei constitucional, as leis que regem e regerão a vida nacional.
Por que ele, quando havia figuras mais emblemáticas? E também aqui as explicações divergem. Há pessoas como Rafael Marques, o conhecido jornalista e ativista, o rosto anticorrupção de Angola e que foi fundador da organização não governamental UFOFALO. Ele diz que mais de metade dos quadros do MPLA tinha sido dizimada no 27 de maio de 1977. Por isso, não havia muito por onde escolher e havia que encontrar um nome que não acirrasse mais os ânimos. E como ele era muito calado e pouco se sabia das suas verdadeiras opiniões, ele servia. Por outro lado, ele tinha boas relações com os soviéticos, não era do Huambo e não era nem mulato nem branco.
A profundidade com que analisava e ajudava a solução dos diferentes problemas da luta fez com que, em todos os momentos difíceis do movimento, a sua participação tivesse decisiva influência.
Este é Lúcio Lara, em setembro de 1979, na tomada de posse de José Eduardo dos Santos.
Sabe-se, por exemplo, que o Lúcio Lara estava autoexcluído por não ser negro. E também Lopo do Nascimento, que foi o primeiro-ministro pós-independência, diz que eles foram aconselhados por dois países amigos, o Congo e a Argélia, a não escolherem nem militares, nem mestiços.
Naquela altura, ele era um candidato de compromisso.
Vale a pena ouvir aqui, Filomeno Vieira Lopes é dirigente do Bloco Democrático e conheceu José Eduardo dos Santos em 1975.
Ele quase que é posto lá para depois as outras correntes terem tempo de fazerem suas estratégias e tomarem o poder. Mas ele foi mais esperto. De qualquer maneira, penso que também houve ali uma mãozinha da União Soviética.
Ou seja, José Eduardo dos Santos encaixava no perfil necessário naquele momento, daí ter sido uma transição tranquila, pacífica, dentro do MPLA? É isso que estás a explicar?
Sim, o ex-primeiro-ministro Marcelino Moco diz que ele era o delfim do Agostinho Neto, o ministro do plano, o mais relevante do governo, já que não havia primeiro-ministro nessa altura. E o fato de ele ser muito introvertido e não saber o que ele pensava, permitia que os outros pensassem que o poderiam manipular de alguma maneira.
E sabemos, por exemplo, o que a UNITA pensava dele ou não?
Sim, o Jonas Savimbi não tinha uma grande opinião sobre ele.
Eu não respeito o Dos Santos de forma nenhuma!
Aliás, várias pessoas o subestimaram, mas Jonas Savimbi, o líder da UNITA, qualificava-o à CIA, nesta altura. Dizia que ele era fraco, passageiro e inofensivo. A história, como se sabe, provou o contrário.
Não podia estar mais enganado. Ó Dulce, parece que estás aí a descrever aquilo a que chamamos um lobo na pele de cordeiro.
Sim, é verdade. Uma outra qualidade que ele tinha e que tem a ver com as fações existentes dentro do MPLA, com o problema do 27 de maio de 1977, onde José Eduardo dos Santos tem uma posição, um papel muito ambíguo.
Fazemos aqui mais uma breve paragem, porque importa explicar rapidamente o que foi o 27 de maio de 1977. Uma tentativa de golpe de Estado que tinha à cabeça Nito Alves, o então ministro da Administração Interna de Angola, e José Van-Dúnem, o irmão da ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van-Dúnem. Tinham sido acusados de fraccionismo e foram afastados do MPLA. Nito Alves e os apoiantes alegavam que o partido se estava a afastar da União Soviética. Nesse final de maio de 77, apoiantes de Nito Alves invadiram a cadeia de Luanda para libertar companheiros detidos e tomaram ainda a Rádio Nacional. Com o apoio de tropas cubanas, Agostinho Neto, então presidente, esmagou a revolta de forma muito violenta. Os nitistas, os apoiantes de Nito Alves, foram perseguidos, torturados e mortos. A Amnistia Internacional aponta para 30 mil mortos entre apoiantes e não apoiantes de Nito Alves, na sequência de uma verdadeira purga. Os corpos de José Van-Dúnem e da mulher, Zita Valls, e também de outros apoiantes da revolta, nunca foram entregues às famílias, nem foram sequer emitidas as certidões de óbito. Este é um dos mais violentos episódios da história recente de Angola. Voltamos agora à conversa com a Dulce Neto para tentar perceber qual foi o papel de José Eduardo dos Santos no 27 de maio.
A questão é tudo menos pacífica. Agostinho Neto nomeou, antes da matança, José Eduardo para fazer o inquérito sobre Nito Alves. Havia ou não havia fraccionismo no MPLA? Do relatório, que nunca foi oficialmente apresentado, só se conheceu uma palavra: inconclusivo. Um antigo membro do MPLA, que esteve preso e foi torturado sob as ordens de José Eduardo dos Santos, e falou com o Observador com reserva de identidade, ele está convencido que o inquérito foi mesmo entregue ao bureau político, mas nunca se sabe de que lado é que José Eduardo estava. Ele era um político florentino, com um arsenal de técnicas e ambiguidades, que parecia estar com todos, mas não estava com ninguém, a não ser consigo próprio. Justino Pinto de Andrade, quando conversou com o Observador em Luanda, traz aqui uma outra leitura. Vai para trás, vai para 1972, e diz que quando José Eduardo veio da União Soviética e desceu para o Congo, não estava muito agradado com aquilo que encontrou. Ele era adjunto do Lúcio Lara em Brazzaville e Lúcio Lara tinha uma série de contestatários, porque era Lúcio Lara que dava as bolsas de estudo, que determinava quem é que ia estudar para o estrangeiro. E segundo Justino Pinto de Andrade, havia pessoas que queriam ir para o estrangeiro tendo apenas a quarta classe, pensando que iam conseguir ter um grau universitário e o Lúcio Lara não queria isso, queria que pelo menos as pessoas tivessem o liceu ou parte do liceu feito. E faz parte do próprio regime colonialista, eram os mestiços, os mulatos ou os brancos que conseguiam estudar mais. E por isso ele mandava mais brancos e mais mulatos para fora, na verdade. Então ele tinha aqui uma oposição, por parte de alguns contestatários e eles quando estavam no Congo, prendem o Lara no quarto de banho. E o papel do José Eduardo aí foi muito enigmático, conta o Justino Pinto de Andrade.
É um papel enigmático. E por quê? Porque quando o grupo de contestatários ao Lara impõe a saída do Lara da direção, então o José Eduardo não agiu com a presteza que seria, em princípio, expectável.
O que Justino Pinto de Andrade me contou é que o avisaram de que ele estava a ser sequestrado pelos companheiros e que lhe disseram para ele comunicar ao presidente Neto, que estava na Tanzânia, aquilo que estava a acontecer em Brazzaville.
E parece que o José Eduardo assumiu pro lado. Não agiu com a presteza que seria expectável naquela altura. Significa que ele, em princípio, devia estar em parte também de acordo com algumas das reivindicações feitas pelos contestatários.
O que é que aconteceu? Estes depois apresentaram as suas reivindicações ao Neto, mas Neto afastou liminarmente a limpeza, digamos, entre aspas, da direção.
Segundo, que a própria Maria Eugénia Neto, que era branca, tinha que ser afastada porque eles não queriam uma primeira-dama branca numa Angola independente. Que o Lúcio Lara também fosse afastado mais à route. E o Neto então reage, diz: "Ó camaradas, não me revejo numa organização com esta cultura". Até usou a expressão: "Pelos vistos, isto agora já é UPA também".
Que era a União das Populações de Angola, que esteve na origem da FNLA, o outro movimento de libertação de Angola.
E que está na origem também da guerra colonial e da independência.
Ele dizia: "Isto já parece a UPA, já não é o MPLA". O MPLA tinha um slogan que era: "Um só povo, uma só nação, não há raças, não há tribos".
Uma só!
Uma só!
A luta!
Continua! Este grupo de comandantes, liderado pelo Monstro Imortal, como é conhecido, não gostou nada do que ouviu.
E então o Neto disse: "Se é sim, eu abandono a direção. Escolham outro presidente". E a resposta deles foi: "Ok, já temos outro, o camarada José Eduardo".
Por isso é que Justino Pinto de Andrade diz que José Eduardo dos Santos foi presidente do MPLA por duas vezes.
Eu tenho dito que o José Eduardo foi presidente do MPLA duas vezes. Dessa vez, porque ele sentou-se na cadeira. Durante aquele curto período de demissão. Eu tenho dito que essa era a segunda presidência de José Eduardo, porque ele foi presidente do MPLA durante o momento em que aqueles revoltosos, quando o Neto bateu com a porta, o indivíduo que eles puseram na cadeira foi o José Eduardo. E o José Eduardo sentou.
Figuradamente.
Figuradamente.
Isso não deixa de ser curioso, Dulce, que ele terá sido presidente pelo menos duas vezes do MPLA. Mas aqui foi no momento, não é?
Foi um momento, porque o Neto depois deu-lhes a volta, mas ele sentou-se por pouco tempo, entre aspas, na cadeira. O que é que aconteceu? Por que esta ligação ao 27 de Maio? É que alguns destes indivíduos que fizeram isto ao Ara e que puseram o José Eduardo dos Santos, por pouco tempo, como presidente do MPLA, deram depois corpo ao 27 de Maio. Deixa-me só dizer ainda um aspecto, que é por isso que algumas pessoas dizem que José Eduardo dos Santos partilhava algumas ideias dos netistas, mas outras dizem que não, de todo. Margarida Paredes, por exemplo, diz que não, de todo. A verdade é que quando ele assume o poder, ele consegue fazer a ponte entre as duas facções. António Monteiro, diplomata português, salienta muito isso. É que ele tinha essa característica, ele faz a ponte entre as duas facções e ele até recupera alguns dos homens do Neto.
E consegue integrá-los.
Sim.
Neste primeiro episódio, percorremos quase de forma cronológica o caminho de José Eduardo dos Santos até à Presidência da República. No próximo episódio, vamos tentar perceber como exerceu esse poder.
"The Angolan government says the rebel leader Jonas Savimbi, a key figure in one of Africa's longest running wars, has died."
O futuro é agora, o futuro é Angola.
Esta palavra simples, com apenas três letras, é a essência da vida para nós, os angolanos. É a paz.
E ele começa a cultivar esta imagem de arquiteto de paz.
Amamos muito, muito o nosso pai. É um homem extraordinário, um homem inteligente, um homem calmo.
Ele quis criar uma classe empresarial, uma classe de ricos.
Um homem que mata o seu povo pela corrupção, pela incúria, pela incompetência.
José Eduardo dos Santos é o rosto, porque é ele que cria o sistema, é ele que permite o sistema, é ele que alimenta o sistema.
Se for para prender toda gente, vai todo mundo para cadeia, não sobra ninguém na governação.
Estes são alguns dos sons que vamos ouvir no próximo episódio, o segundo: "O Chefe". Neste primeiro episódio, usámos sons das entrevistas feitas por Dulce Neto, em Luanda, e também vários registos de arquivo que estão disponíveis na internet. Nem todos os sons estão nas melhores condições, mas a importância do conteúdo levou-nos a usá-los. Ouvimos sons da televisão angolana TPA e também do MPLA. E há sons do 27 de Maio de 77. Estes, que ouvimos aqui, foram registados pela televisão francesa, a TF1. As músicas deste primeiro episódio são de Lindomar Castilho, "Alma, Coração e Vida", que ouvimos na abertura. Também ouvimos Muchima, dos Ngola Ritmos. Do Duo Ornero, escutámos "N'jimba". E do disco "Angola, a Vitória é Certa", usámos três canções: "Kaputa Mangole", o hino do MPLA e "Doutor Neto". E depois temos também o "Balu Maikeno", de Bonga. É esta canção que estamos a ouvir em fundo e que nos vai acompanhar em todos os episódios. E há ainda um som retirado da conta pública de Isabel dos Santos no Instagram. A sonorização é da Beatriz Martelo Garcia, do Diogo Casinha e do Bernardo Almeida. "A Corte de Luanda" é um podcast da Rádio Observador. Está disponível no site e nas plataformas habituais. Eu sou o Ricardo Conceição.