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Força da técnica, técnica da força, sempre com o Gabriel Alves. Foi assim durante todo o Euro 2020. Chegamos hoje, dia 11 de julho, ao último episódio, depois da Itália se sagrar campeã europeia. Foi nos pênaltis. O jogo terminou com um empate a um gol, foi para prolongamento, não se desfez esse empate, seguiu para pênaltis e aí a Itália foi melhor, venceu por 3 x 2. Mais uma vez, boa noite, Gabriel.
Boa noite.
Vamos fazer a análise a este encontro. Fomos fazendo também na última hora nesta emissão especial da Rádio Observador. Mas o que dizer desta final? Foi um jogo emocionante?
Foi um jogo interessante. Acabou por ser emocionante, obviamente, era a final, incerteza do resultado, incerteza na atribuição do troféu, tudo até ao fim, com contra-pé na marca dos 11 metros, isto é, contra-pé na marca de grande qualidade. A Inglaterra pôs-se a jeito, marcou cedo e saiu tarde, mas saiu pelo cano. Porque a Inglaterra marcou, trouxe a sua tática que oscilou durante este campeonato, entre a linha de três e a linha de quatro defesas, trouxe a linha de três. Mas a verdade é que esta linha de três com os dois alas bem colocados, com o Trippier de um lado e o Shaw do outro, resultou, porque é de Trippier que sai o serviço. Ninguém foi fazer pressão da Itália e Shaw marca o gol que dá à Inglaterra a vantagem no marcador e que foi um gol que acabou por estar sempre no pano de fundo da partida. A Itália, muitas dificuldades na primeira parte para colocar a sua estrutura de jogo no tapete verde do Wembley, articular o seu futebol, perante uma defesa muito acostada da equipe inglesa, que praticamente desistiu de fazer jogo tão cedo para poder matar o encontro. Na segunda parte, a Itália entra melhor, mais articulada. O intervalo fez-lhe bem. A entrada de Cristante trouxe uma melhor articulação naquilo que é chamada sala das máquinas. A equipe ficou mais equilibrada. E depois surge, que já vinha da primeira parte, Chiesa, que faz uma excelente partida e que põe toda a prova o guarda-redes Pickford. E é Pickford que tem aquilo que se pode dizer, enquanto guarda-redes durante a partida, a chamada defesa da noite ao remate de uma grande defesa. Depois, numa outra bola parada, aconteceu aquilo que a Itália já merecia, o gol de igual.
Ia dizer, Gabriel, apenas pedir para aproximar também o microfone, mas ainda sobre esse momento. A Itália na primeira parte foi tentando criar situações de perigo, mas com muito pouco critério, muitos remates para fora. Na segunda parte, conseguiu ser melhor no jogo.
Sim, e nessa bola parada também, nos livres, a Itália também não foi fria e não esteve aquilo que é capaz de fazer. Houve, de facto, penso que a ansiedade acabou por tomar conta um pouco, ou demasiado, daquilo que é a estrutura da equipe. Mas a Inglaterra, na minha opinião, fez pouco. E depois, já no próprio prolongamento, trabalhou para os pênaltis. A Inglaterra acaba por ter o que mereceu, que foi ir a pênaltis, que depois foi nos pênaltis que falhou também.
Falhou na estratégia, Southgate?
Completamente. Aliás, há aqui uma discussão, já de há um tempo, que eu tive a oportunidade de ler. Não li agora, há um tempo. Que Southgate, e é verdade, que ele quando chega a esta equipe, vem das escolas de jogadores, das estruturas. Fez um grande trabalho aí. Ele foi o treinador da seleção sub-21. Depois assume os ases. A maior parte destes jogadores foram todos jogadores que trabalharam com ele durante vários anos. O Harry Kane, por exemplo, e o Sterling, são jogadores que estiveram naquilo que se pode chamar nas suas mãos. E depois há toda uma série, até, porque esta Inglaterra foi campeã do mundo sub-17 e campeã do mundo sub-20. Todos estes jogadores já têm títulos mundiais. Só que depois o salto para a alta competição, o outro patamar, as coisas são sempre um pouco mais. E como eu disse há pouco durante o programa, e diz bem, eu acho que o Jorge Valdano faz uma bela fotografia: há nestes jogadores o sentido do dever, mas falta-lhes o sentido do prazer. Porque eles cumprem, mas depois falta o resto. Tinha que ser mais ousada esta equipe, mais irreverente, porque tem jogadores para isso em todo o meio-campo para frente. Aquilo é um tubo de talento a sair, a projetar. E a verdade é que esse talento não se vê. Southgate, e eu por aqui, houve aqui como que uma discussão sobre se Southgate, depois de estruturar ou organizar, será de facto o melhor treinador para dar dimensão à qualidade futebolística de que a Inglaterra dispõe. E a questão que se levantava não era importar outro treinador inglês, não. Por que não um treinador estrangeiro Com outra dimensão da estrutura do futebol.
Sim, porque de facto Southgate colocou esta seleção já no Mundial de 2018 e agora no Euro 2020. Organizada, sim, de facto, isso aconteceu. Está novamente nas grandes decisões destas competições, mas falha nestes momentos decisivos. Já no Mundial houve essa contestação. Quanto à seleção italiana, com Mancini, uma seleção sem grandes estrelas, consegue ter este perfume todo, esta qualidade toda e sagrar-se campeã europeia com muita certeza. Chegamos a este dia de final e ninguém tem dúvidas que a seleção italiana foi das que jogou o melhor futebol durante toda esta competição.
E aqui o contraste. Enquanto a Inglaterra tinha necessidade deste título, que acabou por lhe fugir, não foi capaz de o trabalhar, para o ter, a Itália é a ressurreição, ela vinha da ressurreição. Portanto, depois daquela vergonha de não se qualificar para o Mundial de 2018, que foi muito mau para o futebol do país, naturalmente a Itália acaba por ressurgir. E quando se apresenta neste campeonato, apresenta-se muito bem. E aqui algo que me parece que é preciso dizer. Roberto Mancini, que chegou ao banco da seleção italiana em maio de 2018, depois daquela situação que já referi, do facto de a seleção não ter sido qualificada. Mancini que foi um grande jogador, que vinha dos bancos do Manchester City, onde venceu a Premier League, vinha do Inter de Milão, onde venceu três campeonatos italianos e esteve a treinar também o Zênit de São Petersburgo, da Liga Russa. Este seu périplo, portanto, naquilo a que podemos chamar a elite do futebol da Europa, parecia estar terminado. E ele é chamado para a seleção italiana, depois dessa não classificação para o Mundial de 2018. O Mancini que havia, enquanto jogador, sido 36 vezes internacional entre 1984 e 1994, criou uma estrutura. Essa estrutura com antigos companheiros de equipe da Sampdoria. Portanto, ele sabe quem eram os companheiros que deveria trazer, com a mentalidade que ele traz dessa equipe. Eu acompanhei muito essa equipe há algum tempo. Lembro que em 1992 esteve em Wembley com o Barcelona, na final da Taça dos Campeões, que o Barcelona venceu então pela primeira vez. Portanto, desde a sua chegada a este banco, a equipe utilizou o sistema 433. Portanto, é esse sistema, esse perfil e foi esse sistema que ele, com mais variante, menos variante, de dinâmica, depende, é este o sistema. A única vez que ele utilizou o 442 foi frente a Portugal e perdeu, mas também foi o último jogo que ele perdeu. Também foi o último jogo em que ele alterou o sistema. Voltou outra vez ao 433 e daí para cá, sabe-se que tem recorde de vitórias seguidas. Não sei se foi a 33ª, se a 34ª vitória hoje, e hoje com o título. É uma equipe que sofre muitíssimo poucos gols. Donnarumma esteve 1100 e muitos minutos, portanto, bateu o recorde de Zoff, sem sofrer gols. Só os veio a sofrer no decorrer deste certame. Constituiu aqui uma equipe onde Bonucci e Chiellini são os jogadores mais veteranos, os mais velhos. De resto, a maioria dos jogadores estão abaixo dos 26 anos. E há que dizer, destes 26 jogadores convocados, reparem, 17 estão a estrear-se num grande torneio de seleções, num grande certame internacional. Portanto, houve aqui mudanças estruturais muito grandes e aquilo que de facto se nota é que ele conseguiu construir um coletivo, construir uma equipe sem jogadores testados, portanto, jogadores das diversas formações. Aliás, é um pouco o que aconteceu com aquelas equipes que chegaram às semifinais do certame.
Sim. Vamos agora às nossas rubricas habituais. Começamos pela força da técnica.
Força da técnica, reportando ao jogo de hoje.
Sim.
Todo aquele trabalho que o Chiesa fez. Chiesa teve aqui momentos muito fortes. E aquele ponto alto é aquele remate, depois de uma grande jogada, que ele põe à prova Pickford, com a defesa da noite no decorrer do jogo.
Vamos à técnica da força?
Vamos à técnica da força. Houve alguns momentos em que essa força teve que se sobressair, mas acima de tudo, no âmbito do futebol da equipe inglesa. Eu protagonizo aqui, porque foi de facto um belo jogo, nada a dizer, Rice.
E olhando também para a última rubrica, estilo inconfundível, neste último episódio.
Olha, vamos falar de 2016, agora do campeonato anterior.
Saudades essas.
Em que Portugal campeão da Europa, aquele em que Éder, que hoje voltámos a ver, apareceu, trazendo o troféu conquistado por Portugal para entrega ao futuro campeão. Éder que ficou falado para a história pelo seu gol, levando Portugal para a cadeira do trono de rei da Europa e por cinco anos, devido ao Covid. A verdade é que em 2004, Portugal, no seu Euro, havia sofrido o seu Maracanazo com a Grécia. Já aqui referido na anterior edição de A Força da Técnica. Mas em 2016, contra tudo e contra todos, a equipa lusófona superou-se e em casa do anfitrião campeão europeu marcou um golo. Marcou um golo que lhe deu o título. Portugal perdeu a sua superestrela, é preciso dizer, nesse jogo, ao minuto 25, mas sagrou-se e face aos favoritos, vestiu a sua glória naquele prolongamento, naquele grande jogo e naquele golo que Éder acabou por marcar. No momento chave, a seleção de Deschamps, tal como neste ano, não esteve à altura dos acontecimentos. Sendo a favorita e face a um Portugal sem a sua principal unidade, a estrela CR7, a maior parte do desafio não se conseguiu afirmar. Foi uma seleção francesa, portanto, uma fiada de estrelas abaixo de si, sem mostrar o brilho do talento, só mesmo aquilo que poderemos dizer no músculo, eu chamarei a técnica da força. Griezmann e Sissoko puseram ainda Rui Patrício à prova, que se mostrou então no palco dos campeões como um grande campeão. O caso do jogo entre o choque entre CR7 e Payet sobre o minuto 15. Foi o pânico para Portugal, a dor invadiu Ronaldo face ao medo da equipa que estava, treinador, adeptos. Ronaldo foi à linha, fora das quatro linhas tratar-se, regressou disposto a ser exemplo de capitão na luta pelo título, mas pouco tempo depois pediu a sua substituição. Diminuído, sofredor, saiu em lágrimas, tal como em 2004, só que estas tinham a dor física, para além da dor da alma. No banco, no prolongamento, foi a vedeta TV com a ansiedade com que viveu aqueles momentos e quis ajudar. No final, as lágrimas voltaram, mas estas então lágrimas da glória de campeão. Detalhes que ficam para a história, é preciso notar. Ricardo Carvalho, grande profissional português, 38 anos e 53 dias, convertia-se no jogador mais velho a sagrar-se campeão da Europa. Renato Sanches, 18 anos e 327 dias, o mais jovem a jogar uma final, superando Cristiano em 2004, já que Cristiano tinha então 19 anos e 150 dias. Ricardo Carvalho despedia-se da seleção 89 vezes internacional, esteve no Europeu 2004, 2008 e 2016 e no Mundial 2006 e 2010. Entre 2011 e 2015 esteve fora. Não se entendeu, não se acertou com Paulo Bento. Lembra-se? Sempre com a dignidade de um grande senhor. Éder recordava Ronaldo fora e cita Éder: "Disse-me que seria eu que iria fazer o gol da vitória. Passou-me a força, passou-me a sua energia, a energia de um campeão", citei. Griezmann tinha 25 anos. A UEFA deu-lhe o título de melhor jogador do torneio. Seis gols também fizeram dele o melhor marcador. A história dos europeus tem dados no social, político, desportivo, que desenham quadros fantásticos para estudar as histórias da história. E saiba que a grande vitória com o sete campeão da Europa, de Ronaldo, sete nas costas, foi em 10/07/2016. Reparem que Lionel Messi, com quem esgrimiu Ronaldo durante uma década em Espanha, confrontos memoráveis com o 10 nas costas, foi campeão da Copa América a 10/07/2021. Eu acho que essa história do futebol é de coisas muito boas. Portanto, pense sempre em coisas boas que o futebol tem, nos traz, que origina e não se permita, nem permita que o adulterem.
Gabriel Alves a recordar essa conquista portuguesa em 2016, quando Portugal conquistou o primeiro grande troféu internacional com esse gol de Éder nessa final frente aos franceses. Portugal sabe, de facto, nesta noite, qual o sentimento dos ingleses e qual o sentimento dos italianos. Sabe o que é perder uma final em casa e sabe o que é conquistar uma final na casa do adversário. Termina aqui a força da técnica e a técnica da força. Neste último mês, analisamos os 51 jogos deste Europeu de 2020, sempre com o Gabriel Alves. Gabriel, foi um prazer acompanhar este Europeu aqui na Rádio Observador, com os preciosos comentários e com estes momentos a recordar também aquilo que foram os Europeus passados.
Para além de um gosto, foi um enorme desafio. Obrigado.
Obrigado, Gabriel. Termina aqui a Força da Técnica e a Técnica da Força.