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Muito boa noite, seja muito bem-vindo a mais um “A Força da Técnica e a Técnica da Força” com o Gabriel Alves, que já está aqui conosco. Muito boa noite, Gabriel.

Boa noite.

E foi feita história nesta segunda meia final, isto porque Inglaterra chega pela primeira vez a uma final de um Campeonato da Europa. Vai ser a segunda final de uma grande competição da seleção inglesa e novamente em Wembley, depois de 66 contra a Alemanha. Gabriel Alves, hoje os ingleses levaram de vencidos os apaixonantes dinamarqueses. Foi preciso o prolongamento. Venceu o mais forte no final dos 120, Gabriel?

Venceu o mais forte, mas venceu com polêmica. E vai haver polêmica. Para mim, não é pênalti de nada.

Sobre o Sterling.

Não, não é pênalti. Agora, a verdade é esta: o árbitro sinalizou, vai ao VAR, o VAR faz o seu trabalho, mas em pleno prolongamento, em Wembley, não é fácil voltar com a palavra atrás. Compreende-se, mas para mim, e já dei uma vista de olhos pela imprensa internacional, e há mais quem esteja de acordo comigo. De qualquer das maneiras, a Inglaterra venceu bem. É uma Inglaterra que, em termos de resultado, naturalmente, com polêmica, sim, mas foi a equipa mais pujante, a equipa mais possante, aquela que procurou mais a baliza contrária, foi a equipa de maior índice atacante, maior fluxo atacante. Schmeichel faz uma exibição fabulosa. O guarda-redes da Dinamarca tem três, quatro defesas monumentais. Eu não me esqueço do cabeceamento na segunda parte de Maguire, que ele vai buscar uma bola extraordinariamente difícil, e depois um remate de Kane em que ele também a cair para o chão, num remate apertado, num ângulo apertado do ponta de lança inglês, ele vai buscá-la praticamente à relva e dá-lhe um toque com a luva, mostrando toda a sua qualidade de reflexos, de agilidade, de saber estar, de colocação, de responder, de reação. Um grande guarda-redes dentro daquilo que são o espetáculo, digamos, nesta meia final, mas um grande guarda-redes dentro de todos os princípios, parâmetros do que deve ser um guarda-redes entre e fora as postes.

Cada vez mais esquecer o pai. Não esquecer, mas pelo menos muitos de nós lembramos da preponderância do Peter Schmeichel e esta segunda geração de Schmeichels não fica nada atrás.

Não, é um grande guarda-redes, com uma grande escola e obviamente que isso mostrou hoje, e não só, tem vindo a demonstrar. Mas o jogo não se centrou e sumiu só ao guarda-redes Schmeichel, que teve situações interessantíssimas, teve também trabalho de treinadores, e é sempre importante olhar isso. E teve toda uma dinâmica, é uma grande meia final. É um belo jogo de futebol, muito interessante, bastante diverso daquilo que tivemos a oportunidade e o prazer de seguir ontem, mas uma final que começou logo com grande agressividade competitiva e grande intensidade com a Inglaterra a querer marcar território e marcar espaço, portanto a tentar submeter logo a Dinamarca. De repente a Dinamarca foi inteligente na forma como pautou o jogo, como procurou ter a posse de bola, como procurou ser esclarecida, como procurou tirar o ritmo de jogo ao seu adversário e pautar futebol, jogando futebol, face a uma Inglaterra mais ansiosa, digamos, mais agressiva, mais acutilante, mas também mais ansiosa e nervosa. Mais esclarecida, mais calma, mais tranquila no seu 3-4-3, a formação dinamarquesa, face ao 4-2-3-1 da formação inglesa. Kane foi um jogador muito importante na manobra da equipa, olhando para o jogo. É, de facto, um jogador de grande dimensão, é um jogador que para além de ser ponta de lança, eu chamo de os mordedores. Mas o ponta de lança não é só marcar gols, o ponta de lança tem toda uma outra função extremamente importante no futebol e Kane é um jogador de grande qualidade na procura dos espaços, na procura dos apoios, na procura do desbloquear do sistema adversário, o que ele hoje fez, na forma como cria linhas de passe, como interliga com os seus companheiros, tirando partido das suas características, o caso de Sterling, que é um jogador fantástico, para mim, o melhor jogador da Inglaterra, dado que ele aos 119 minutos fez um sprint como se fosse o primeiro minuto do jogo. E de resto, Sterling faz toda esta campanha até à final com muita importância em todo o futebol da equipa da Inglaterra, dado que ele esteve praticamente nos gols todos. Até hoje, no desbloquear do pênalti, é sobre ele, e também no autogolo do capitão da equipa dinamarquesa. Aliás, de jogo exterior com Saka e Sterling. Mas atenção, quem é que está no vértice da jogada? Kane. Daí eu chamar a atenção para o trabalho de Kane, muito importante. Gostei muito também do trabalho de Mount e do treinador Southgate. Entraram em Inglaterra 4 x 2 x 3 x 1, 3 x 4 x 3 a Dinamarca. Quando a Dinamarca sofre o empate e tem o assédio da equipe inglesa, altera, tira os jogadores mais criativos e coloca jogadores mais sólidos, mais estáveis para conter e controlar a questão do meio-campo, tirando Damasium, como eu disse, que fez um gol fora de série e fez jogadas e trabalho dentro do encontro extremamente interessante. E foi o Nørgaard que fez, de facto, um jogo, desde que entrou, muito útil, muito competente no controle e na estabilização do meio-campo da equipe da Dinamarca. Mas a Inglaterra foi, de facto, a equipe mais forte fisicamente. Apertou, não queria o prolongamento. A verdade é que a Dinamarca quis o prolongamento, mas depois faltou-lhe no prolongamento. É verdade que a grande penalidade foi aquilo que se pode dizer, para a Dinamarca, uma situação extremamente difícil. Ainda aí, uma vez mais, o treinador mudou, deixou a defesa a três, passou a defesa a quatro. Criou ali uma nova situação, colocando o Wind ao lado de Poulsen, que entretanto já tinha chegado anteriormente para dar tranquilidade ao ataque. Há aqui um fator que é preciso também ter em relação a esta Inglaterra, por isso eu falei dos treinadores. A entrada de Grealish e depois no prolongamento de Foden. Isto quer dizer, a equipe orientada por Southgate acabou por trazer dois tecnicistas, dois jogadores extremamente importantes na manobra do futebol técnica, e eles trouxeram muitos problemas e foram eles que fizeram com que a Inglaterra, mais fisicamente, também tivesse mais assédio para a área nórdica. Um bom jogo da Inglaterra, sem dúvida, uma chegada à final bem no fator, mas uma palavra para esta Dinamarca que nunca se entregou. E mesmo após o gol do penalti, ainda foi lá, só que a força já não deu para muito. E aí, atenção, a Inglaterra que acaba por fazer uma substituição, tira o criativo Grealish e mete Trippier, e aí a Inglaterra sai da defesa a dois para defesa a três para segurar o resultado num 5 x 4 x 1. Os treinadores todos funcionaram em função do resultado, da estratégia, daquilo que era importante, que era o resultado do jogo. Ganhou a Inglaterra, vai discutir com a Itália, vamos ter uma final, se calhar, muito interessante, dado que são fenômenos futbolísticos completamente dispares.

Gabriel, deixe-me só ouvi-lo sobre, que ainda não falou hoje, não sei se terá sido de propósito ou não, do seu Damasium, que marcou um gol.

Falei. Eu disse que o Damasium marcou um gol fabuloso.

Exato.

Eu falei já dele. Falei que ele marcou um gol fabuloso e mais do que isso. Naquela fase do jogo de esclarecimento da equipe da Dinamarca, ele foi o jogador que pautou o ritmo da equipe. É, de facto, um jogador fantástico. Tem 21 anos, vai crescer, vai ser um futebolista de primeiríssimo plano.

Um grande craque. Agora viramos também a ampulheta para a final, antes de irmos à nossa rubrica habitual. Creio que vai ser uma final inédita entre a Itália e a Inglaterra. É a segunda final da história da seleção inglesa, uma vez mais em casa, ganhou em 66 contra a Alemanha. E o Gabriel, na semana passada, no lançamento destas semifinais e da final, falava de uma final entre os rapazes da Europa do Norte e os rapazes da Europa do Sul. São os melhores representantes da atualidade do futebol do Sul, do velho continente e do Norte?

Neste campeonato, são eles que, de facto, demonstraram o melhor futebol. E não só por isso, há que reportar, não é por acaso que estão na final do certame. A Itália muito bem, tem uma equipe muito interessante. Tudo que fez foi de agrado, trouxe um ar fresco, trouxe um futebol diverso, trouxe uma Itália com outra dimensão e com outra estratégia, outro pensar do jogo, alegria. Transversalizou a constituição da equipe através de jogadores de um campeonato que não são os clubes estado e tem ali uma formação extraordinariamente coletiva, equipe cheia de talento, muito unida. Eu diria que é uma equipe onde não contam as estrelas. O mesmo acontece com esta Inglaterra, que é uma formação também de um coletivo, de uma unidade extraordinária. Aliás, o próprio Southgate fez referência a isso. É uma equipe onde todos estão por todos. Estão lá os 26 chamados e os 26 são titulares, mesmo que não sejam utilizados para o jogo, mas sempre prontos. Repare que hoje Grealish entrou e depois saiu. Mas a saída dele não é porque não tivesse dado o tratamento ao jogo. Não, Grealish chegou, fez o que tinha a fazer e depois retirou-se porque era preciso dar outro andamento à equipe, diferente daquele que o Grealish lhe poderia dar. E isso faz parte do trabalho do treinador. E por isso é que ela é um treinador, para tomar decisões. Agora, a verdade é que parece que sim, a Itália é, de facto, uma grande formação Tem grande inspiração, tem um grande treinador, tem uma grande projeção, uma grande dimensão e tem um pensar e executar do futebol que agrada. E esta Inglaterra é uma Inglaterra cheia de talentos, não é só aqueles que vimos jogar. Se saírem uns, entrarem outros, esses mesmos talentos continuam a sobressair. Portanto, para mim são as duas melhores seleções. Uma representa, se quiser assim chamar, o futebol anglo-saxónico. Hoje é um termo já muito esvaziado, dado que tudo o que se passa hoje por esses países teve uma evolução enorme com a entrada de novas metodologias, de novos treinadores, de novo pensar, de novas estruturas, o amadurecimento de tudo o que naturalmente acontece em termos globais ao nível do futebol. E a Itália, a nível sul, traz aquilo que eu já falei, aquele futebol fresco, bonito, mexido, coletivo, compacto, cheio de vontade de agradar, agradar aos jogadores, agradar ao público, à procura do futebol atacante, o mesmo que faz a Inglaterra na sua essência. Cada um com as suas armas, entre aspas, as suas unidades, todas elas de grande qualidade futbolística.

E vamos lá ver se as 24 horas a mais de descanso da Itália também não somam.

O fator físico poderá ter aqui, e terá sempre, porque o futebol tem índices físicos hoje muito fortes, muito apertados. A sua intensidade de jogo e a constância que se exige, naturalmente, pede-se respostas. Mas isso hoje também no próprio jogo pode ser, aliás, a Dinamarca fez isso de alguma maneira, pode ser controlado. E a Dinamarca quando sentiu, tentou controlar essa situação e até determinado ponto conseguiu fazê-lo.

Vamos então às nossas rubricas habituais, olhar para essa segunda meia-final entre a Inglaterra e a Dinamarca. Quem teve, Gabriel Alves, a força da técnica hoje?

O Damzinho. Aquele gol é uma coisa fantástica, fabulosa. É um gol de antologia, de qualidade técnica, a forma como a bola é batida, a dimensão da força, a dimensão do encaminhamento da bola, da projeção com que ela vai, é na realidade. E depois, a intencionalidade e a convicção com que dá o Damzinho. Há uma imagem, 15 segundos, 20 segundos antes da bola ser batida, em que se vê Damzinho, eu estou lhe a chamar Damzinho.

É a sua forma carinhosa.

É o Damsgaard. Damsgaard olha, vê-se ele a olhar, a dimensionar o posicionamento da barreira no espaço em relação à baliza, o posicionamento do guarda-redes inglês e depois sai aquela obra-prima, na realidade, algo fantástico.

E quem teve a técnica da força nesta meia final, Gabriel?

A técnica da força foi o que é, de facto, o central de dois metros da equipa dinamarquesa. É, de facto, um jogador de grande categoria, de grande qualidade. Só a presença dele quase é um esteio e uma oposição a qualquer adversário.

E até onde nos leva ou até quando nos leva no estilo inconfundível esta noite?

Olha, leva ao nosso Campeonato da Europa. Vamos recordar o nosso Euro 2004, agora que estamos à beira de chegar, de ver a final, aquilo que a Grécia venceu e que começou com gregos a vencer Portugal e que terminou com gregos a vencer Portugal. E os gregos a levantar o chamado caneco. Aquele ponta de lança com um nome muito esquisito, muito difícil. Como é que é? Charistés. Foi um verdadeiro verdugo e foi um jogador que ao bater Ricardo, naturalmente, deu à Grécia um campeonato, o único que tem, e pôs um país naturalmente todo belo e uma geração fora daquilo com que desesperava e ansiava e amava. Foi uma final com polémica, Mert. Um possível vínculo entre doente e dentista, Reagle, que era o treinador alemão da Grécia e dos gregos, portanto o treinador dos gregos e o árbitro Mert. Este negociou sempre que o treinador alemão o tivesse solicitado para consulta dentista. A imagem do menino então Cristiano Ronaldo, banhado em lágrimas, foi capa da imprensa lusa e não só na altura. A geração de ouro de Portugal, que sonhava com o título, acabou por viver no seu Euro uma tragédia grega com duas derrotas frente aos gregos. E Rui Costa despediu-se também nessa altura da seleção. O gol aconteceu aos 57 minutos e há que reportar que Ricardo e Costinha ficaram marcados no lance a partir do pé de canto apontado por Basinas ao não desfazerem a jogada e ao ponto do ponta de lança aparecer para de facto bater com a força toda de uma Grécia para o gol que lhes deu o único título que ostentam, um título que subiu ao Olimpo dos deuses do futebol. Zagarakis, Theodoros Zagarakis, 32 anos, foi eleito pela UEFA como o melhor futebolista do Euro 2004. Baros, com cinco gols pela República Checa, foi o rei dos marcadores. Portanto, foi o Euro que Portugal organizou, o único que Portugal organizou, onde a Grécia venceu o seu único título face ao país organizador, Portugal.

Uma viagem até 2004 no "A Força da Técnica e a Técnica da Força" de hoje. Gabriel Alves, voltamos a falar nessa final de domingo, Inglaterra e Itália medem forças numa final inédita. Quem será o vencedor do Euro 2020? Um grande abraço.

Vai ser, para já, penso eu, uma grande final. Espera-se que sim, porque tem grandes intérpretes de jogo, de um lado e do outro, à procura de poderem ter o Olimpo do futebol, obviamente, o seu Olimpo do futebol. E obviamente que esperamos, todos nós, à escala mundial, porque o jogo é bonito, que seja uma grande partida de futebol.

E que venha essa final e venha a força da técnica e a técnica da força desse domingo. Até lá, Gabriel, um abraço.

Um abraço, boa noite a todos.

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