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"Guerra Traduzida" na Rádio Observador. Olhamos para a imprensa russa e ucraniana deste dia 01 de junho de 2023, dia 463 da invasão. Começamos hoje com a imprensa ucraniana, um trabalho do jornalista Rui Casa Nova, que já aqui está. Boa tarde, Rui.

Boa tarde, João.

Com a colaboração da Tânia Olini, que começamos com mais um ataque noturno das forças russas à Ucrânia.

Tem sido recorrente aqui na Guerra Traduzida começarmos desta forma, ataques noturnos durante a madrugada da Rússia à Ucrânia. Falamos de mais um ataque que ocorreu esta noite. Pelo menos sete pessoas morreram durante o dia e outras 27 ficaram feridas. Falamos de vários bombardeamentos em várias regiões, como Kiev, Chernihiv ou Zaporizhzhia. Os dados são divulgados pelas autoridades ucranianas. O jornal ucraniano Pravda faz uma compilação destas informações e divulga o que aconteceu em cada cidade nas últimas 24 horas com detalhes sobre os ataques. Ao todo, há assim registro de sete mortos e 27 feridos na sequência destes ataques noturnos.

E Rui, há um caso que está a causar polêmica na Ucrânia. Durante um destes ataques a Kiev, um guarda não abriu as portas de um abrigo.

Sim, o guarda, o segurança deste abrigo antiaéreo em Kiev não abriu as portas do abrigo, ou seja, quando as sirenes que alertam para possíveis ataques aéreos começaram a soar, os moradores da capital Kiev dirigiram-se para este abrigo para se refugiarem e estar em segurança, mas o guarda não abriu as portas. O guarda foi, entretanto, encaminhado para a polícia. Não foi detido, foi apenas levado para a esquadra. Apresentava sinais de embriaguez, é o que avança a imprensa ucraniana, que cita a porta-voz da Procuradoria da cidade de Kiev. O Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia também já está a investigar o caso. É uma notícia em toda a imprensa ucraniana, ou seja, as pessoas tentaram refugiar-se neste abrigo por causa das sirenes e destes ataques, dos bombardeamentos, mas o homem, o segurança, não abriu as portas do abrigo.

Sendo que o jornal Pravda falou ou conseguiu falar com um morador que perdeu a mulher, precisamente na sequência deste ataque.

Aqui um testemunho emocionado. Falamos de Yaroslav, morador de Kiev, cuja esposa morreu durante o ataque das últimas horas das forças russas a Kiev. Este morador de Kiev explica que as pessoas correram para o abrigo durante a noite, mas ninguém abriu as portas.

Vamos ouvir o registro.

Ouvimos aqui em fundo Yaroslav a falar ao jornal Pravda. Explica que soou o alarme, as pessoas correram para o abrigo, mas as portas não foram abertas. As pessoas bateram, gritaram durante muito tempo. Havia mulheres e crianças presentes, mas ninguém abriu as portas. Yaroslav explica depois que a mulher acabou por morrer vítima deste bombardeamento. Para além da mulher de Yaroslav, outras duas pessoas morreram, incluindo uma criança. Todas estavam a tentar entrar neste abrigo.

E Rui, a imprensa ucraniana também não passa ao lado deste dia 01 de junho, Dia da Criança.

O jornal Pravda faz uma compilação de cartas. Crianças ucranianas escreveram dezenas de cartas sobre a vida durante a guerra. Estas cartas são uma iniciativa da Fundação de Caridade Vozes das Crianças. Os psicólogos desta fundação explicam que os pais ou os encarregados de educação não devem ter medo quando uma criança ucraniana fala sobre a guerra e que, se for preciso, devem levar as crianças aos psicólogos para ajudar a criança a experienciar e a contar, a explicar o que sente por causa da guerra.

E o que dizem as crianças?

São testemunhos emocionados também nestas cartas. Eu tenho aqui este artigo do jornal Pravda aberto, que cita as cartas destas crianças. Falamos, por exemplo, de Zakhar, um rapaz de 13 anos de Mariupol, que explica que para não congelar, ele e a família andavam constantemente agasalhados, faziam comida na fogueira, em abrigos. Isto se não houvesse bombardeamentos em Mariupol. E aos poucos, Zakhar e a família foram se habituando a viver sem internet, sem luz, sem eletricidade. E diz que o pior era mesmo a sensação de ter a boca seca por causa da sede, porque não havia água, não conseguia beber água. E isto é um rapaz de 13 anos a falar, é uma carta bastante emocionada. Depois temos a carta de Mykhailo, de Kherson, um rapaz de oito anos que explica que gosta de brincar com Legos, andar de bicicleta, pescar com o pai, mas que por causa da guerra deixou de poder fazer essas coisas. E diz que quando a guerra terminar e quando a paz chegar, e estou a citar, isto é uma criança de oito anos a escrever, que vai voltar para casa e convida todos para irem à terra natal comer as mais deliciosas melancias, que é a fruta preferida deste rapaz. A carta é acompanhada de um desenho de uma bandeira da Ucrânia e de uma fatia de melancia. Lá está, é uma criança de oito anos a explicar como é viver em guerra. Há aqui mais cartas, são todas muito fortes, são testemunhos fortes, porque são crianças a falar de como é viver em guerra e sob bombardeamentos constantes.

Pode ser quando a guerra acaba, possam voltar a ser crianças. É assim que fechamos este episódio de Guerra Traduzida. Já a seguir passamos em revista a imprensa russa.