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"Guerra Traduzida" na Rádio Observador. Falamos neste programa diariamente da imprensa russa e da imprensa ucraniana. Traduzimos os principais destaques. Está conosco a jornalista Diana Rosa. Muito boa tarde, Diana.
Boa tarde, Miguel.
Começas hoje pela imprensa russa e com Moskovo a ser claro neste tópico: o envio de tropas da NATO para a Ucrânia é inaceitável.
Um cenário que tem sido colocado por algumas potências europeias, outras nem por isso, como é o caso de Portugal, que já recusou essa hipótese. Em declarações citadas pela TASS, o porta-voz do Kremlin critica o potencial envio de militares para o território ucraniano, mesmo que não seja para combater. A ideia é apenas garantir a manutenção da paz na Ucrânia. Só que para o Kremlin, Miguel, isso está fora de hipótese. Aliás, ainda ontem, o Kremlin tinha dito que essa ideia só seria aceita pela Rússia caso o contingente enviado para Kiev fosse oriundo de países que se declararam neutros desde o início do conflito, como a Hungria ou a Índia. Proponho que oiçamos Dmitri Peskov.
É uma questão que nos diz respeito, porque falamos acerca do possível envio de contingentes militares de países da NATO para a Ucrânia. Esta é algo completamente diferente do ponto de vista da nossa segurança. Por isso, trata-se de uma questão que estamos a seguir com muita atenção. Gostaria de recordar as palavras do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, quando disse que o destacamento de contingentes militares de países da NATO para território ucraniano, para nós, é inaceitável.
Dmitri Peskov a reforçar hoje que a estratégia de países da NATO em enviar tropas para a Ucrânia só ia perturbar a segurança da Rússia e, por isso, é um não rotundo.
E se França, Suécia e Reino Unido já mostraram disponibilidade para enviar militares para o terreno enquanto forças de paz para a Ucrânia, a Polônia é contra.
Foi o que admitiu hoje, Miguel, o ministro da Defesa polaco alerta que isso pode levar a um conflito entre a NATO e a Rússia. O governante considera que o envio de contingente militar para a Ucrânia não vai propriamente contribuir para a paz e dá até o exemplo da força de paz das Nações Unidas, que está no Líbano, que considera que não tem garantido propriamente a paz na região. Kosiniak-Kamysz deixa duas questões: o que acontece se houver militares de um Estado que faz fronteira com a Rússia e se os russos começarem a disparar contra eles ou a matar alguns deles? Outra, qual deve ser a reação dos países de origem desses militares? Vamos imaginar que há militares franceses que durante esse cessar-fogo são supostamente atingidos, o que não deveria acontecer, obviamente, se estamos numa fase de trégua, mas se são atingidos pela Rússia, o que acontece? Portanto, é esta a questão do ministro polaco, que obviamente não confia no Kremlin, e ele é claro, acredita que este envio vai significar o início de um conflito armado.
O terreno russo diz que já recuperou 60% do território de Kursk e deixa um aviso: as regiões ocupadas na Ucrânia nunca vão ser devolvidas.
Até porque agora, Miguel, há Donald Trump a dizer que face à quantidade de território ocupado pela Rússia na Ucrânia, Putin está em vantagem nas negociações. As forças russas reivindicam que foi recuperado o controle de mais de 800 km² do território da região de Kursk, que está ocupada pela Ucrânia desde o ano passado, parcialmente ocupada. O território em causa corresponde a quase dois terços do total que foi invadido inicialmente pela Ucrânia. De acordo com o coronel-general ao jornal Krasnaya Zvezda, a Rússia está também a avançar em todas as direções dentro da Ucrânia há já um ano, controlando agora 75% das regiões de Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson, que ficam a leste da Ucrânia, e perto de 100% da região de Luhansk, também na mesma faixa do país. Regiões que, sublinha, fazem parte da Rússia e nunca serão devolvidas à Ucrânia. Obviamente que o Ocidente não reconhece estas regiões como russas. Diz este coronel que o regime de Kiev nunca mais vai ser capaz de mudar significativamente a situação no campo de batalha e acrescenta que a Ucrânia perdeu em grande parte a capacidade de produzir armas, assim como equipamentos e munições que são necessários para combater.
Vamos agora ao título de um jornal russo, o Komsomolskaya Pravda, escreve em título: "Os Estados Unidos da América podem tirar o dinheiro offshore de Volodymyr Zelensky, podem expulsá-lo da cadeira presidencial ou podem até matá-lo".
Sim, é precisamente esse o título em causa, o mais recente apontar de dedo por parte de Donald Trump ao presidente ucraniano. Este é um artigo que merece aqui um especial desenvolvimento da nossa parte, dadas estas declarações tão fortes por parte da Rússia. Trump acusou Zelensky de ser ditador e responsável pela guerra e, consequentemente, por milhares de mortos. É algo que tem vindo a ser noticiado já desde terça-feira. A imprensa russa claro que pegou nisto, diz que estas declarações são uma ameaça real à vida de Zelensky. A Rússia acredita que pelas palavras do presidente norte-americano, Trump está finalmente a contar a verdade sobre os crimes de Kiev, visto porque o líder dos Estados Unidos está zangado por Zelensky não aceitar de mão beijada a cedência das terras raras ucranianas. Logo, diz o Komsomolskaya Pravda, Trump quer substituí-lo por um candidato pró-americano, ou Zaluzhny ou Porohenko.
Neste artigo, há duas hipóteses para o destino de Zelensky.
Sim, ou aceita o acordo dos metais raros e os Estados Unidos param de soltar os cães, estou a citar, ou os Estados Unidos impõem sanções contra os ativos milionários de Zelensky e tentam privá-lo do dinheiro que está depositado em contas no estrangeiro. Mas há ainda outra hipótese aos olhos da Rússia: é os Estados Unidos jogarem uma grande cartada de um escândalo de corrupção em que Elon Musk vai coordenar uma auditoria de toda a ajuda prestada à Ucrânia para saber o que foi feito com o dinheiro. A partir daqui, é simplesmente declarar Zelensky como um ladrão ao mundo inteiro, um traidor do povo ucraniano, o que também vai desencadear processos internos.
Curiosamente, neste artigo, a Rússia afasta a realização de eleições na Ucrânia que deem lugar a um candidato pró-russo.
Sim, Miguel, Moskovo acredita que face à pequena fatia de ucranianos que está sob o controle russo, é pouco provável que isso aconteça, até porque é possível que esse ato eleitoral seja altamente controlado pelas instâncias ocidentais, em particular pela Europa. Uma teoria que não é bem aquilo que, na realidade, o Ocidente teme, porque com eleições forçadas pelos Estados Unidos na Ucrânia, o Ocidente acredita que o objetivo é precisamente o contrário: é oferecer a Vladimir Putin um governo fantoche em troca da paz na Ucrânia. Certo é que para a Rússia, de acordo com este artigo, os Estados Unidos têm a faca e o queijo na mão e podem fazer com Zelensky o que bem entenderem.
São os destaques da imprensa russa deste dia 20 de fevereiro de 2025.