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Esta é a história do dia da Rádio Observador: as armas que travaram os russos são suficientes?

"Ukraine needs weapon supplies. We need heavy artillery, armed vehicles, air-defence systems and combat aircrafts."

Em abril do ano passado, Volodymyr Zelensky, em inglês, fazia uma verdadeira lista de armas, como se fosse uma lista de compras. O presidente da Ucrânia era muito específico. Além de carros de combate, aviões de combate, sistemas de defesa antiaérea como o Buk, pedia HIMARS e pedia também canhões 155 mm. Conseguiu quase tudo. Faltam os caças.

"T-72 or similar tanks from the USA or Germany. Air-defence systems S-300, Buk or Western equivalents. Military aircrafts must have to deadlock our cities and save millions of Ukrainians as well as-"

Kiev foi pedindo e recebendo armamento que se revelou essencial para travar a invasão russa. A parada foi subindo ao longo deste quase primeiro ano de conflito. Volodymyr Zelensky quer agora caças, aviões de combate, mas ainda não há consenso entre os aliados. Que armas são estas que têm permitido à Ucrânia travar os russos? E estas armas são suficientes para a nova fase da guerra depois do inverno? Vou conversar com o major-general Isidro Morais Pereira, doutorando de Relações Internacionais do ISCSP e presença habitual na Rádio Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, senhor general Isidro Morais Pereira.

Muito obrigado, Ricardo, pelo convite. É sempre um prazer colaborar convosco.

Durante praticamente um ano, Zelensky foi pedindo armamento e foi pedindo armas e recebendo. Diria que na primeira fase do conflito, os Javelin e os Stinger foram essenciais para os ucranianos? E aqui peço-lhe que nos explique um pouco que armas são estas.

Quer os Javelins, quer os Stinger foram armas essenciais para possibilitar às forças ucranianas resistirem ao primeiro embate das ofensivas por parte da Federação Russa. O Javelin é uma arma anticarro com 4500 metros de alcance prático e já é uma arma anticarro da última geração. Já não é fio guiada, é uma arma dotada de inteligência artificial, que chega a um determinado momento, quando reconhece uma ameaça, faz uma ligeira curva, levanta na vertical e ataca os carros de combate de cima para baixo, onde eles são mais fracos, que é exatamente no lugar da torre. E foi uma arma que conseguiu parar praticamente todas as colunas blindadas. Daí tão importante.

E o Stinger?

O Stinger são os chamados MANPADS, também naturalmente a ameaça aérea face à superioridade do potencial aéreo russo, quando comparado com o ucraniano, foi fundamental porque a Força Aérea Ucraniana não tinha capacidade para se defender suficientemente bem em luta aérea de igual para igual com a Federação Russa. Portanto, a única forma de deter a ameaça aérea foi utilizando os MANPADS, os Stinger, e não apenas estes. É preciso recordarmos que há uma evolução excelente do Stinger, que foi desenvolvida pela indústria de defesa inglesa, a que se chamam Starstreak. São basicamente mísseis Stinger, mas com um alcance superior a cerca de sete quilómetros e com uma velocidade que atinge os 3.5, a velocidade do som, portanto, Mach 3.5.

E depois temos o sistema HIMAR e também Caesar, francês. Aqui já estamos a falar de outros tipos de arma, mas que também foram importantes ou estão a ser importantes.

Essa foi outra grande necessidade, porque a distorção em termos de artilharia, ou seja, de fogos indiretos das forças atacantes relativamente aos defensores ucranianos, era abismal. Era necessário dar mais capacidade de fogos indiretos e com mais alcance. Então os Estados Unidos forneceram os HIMARS, que são sistemas de lança-foguetes múltiplos. Portanto, só que são de uma geração muito mais evoluída que os sistemas ainda do tempo da União Soviética, os conhecidos Grad ou Órgãos de Stalin, como eram conhecidos, que lançam cerca de 21 rockets de uma vez, mas exigem mais uma hora para voltarem a efetuar outra salva. E agora o Caesar. Os HIMARS são lança-foguetes múltiplos, lançam vários foguetes ao mesmo tempo ou mísseis.

São aqueles cubos gigantes que estão instalados e que nós vemos disparar.

Exatamente. Aliás, estes que estamos a falar, que foram fornecidos pelo Ocidente, são de carregamento automático e lançam seis foguetes ou mísseis de uma só vez, mas passado cerca de dois minutos estão prontos a lançar novamente outros seis.

E o Caesar?

O Caesar é um outro tipo de arma. O Caesar é um obus de 15,5 centímetros, um obus 15 e meio, uma arma de artilharia mais moderna que os M777 fornecidos pelos Estados Unidos. É um obus 15 e meio assente numa viatura de, salvo erro, seis rodas e que com munição Excalibur, que é uma munição de elevadíssima precisão de artilharia guiada por GPS Consegue atingir distâncias que vão para além dos 40 km, enquanto os HIMARS estamos a falar de 70 ou 80 km com foguete convencional. Portanto, uma e outra permitiram levar o combate por parte das forças ucranianas na profundidade e obrigaram as forças russas a reorganizarem a forma como estavam a atacar.

E senhor general, os drones, por outro lado, também têm sido fundamentais, tanto de um lado como do outro.

Têm sido armas fundamentais em dois aspectos essenciais. Um deles, que já era conhecido de todos nós, que eram armas fundamentais para reconhecer, para planarem no ar e designarem objetivos. Segundo aspecto, reconhecimento dos efeitos provocados, portanto, avaliar depois de serem feitos os bombardeamentos, verificar se de fato os objetivos foram atingidos e que grau de destruição foi conseguido. E um outro aspecto extremamente importante, que é o aparecimento dos drones armados e os drones kamikaze. Nós temos fundamentalmente assistido à utilização de drones kamikaze, que são autênticas bombas voadoras guiadas por GPS, que voam a uma velocidade relativamente baixa, que planam e que chegam ao objetivo designado, despenham-se sobre ele e são por isso que chamam kamikazes, um pouco aludindo àquilo que foram os pilotos kamikaze na Segunda Guerra Mundial, no Japão.

E se falamos de ataques aéreos, temos que falar dos Patriots também, não é?

Temos que falar dos Patriot. É importante falarmos dos Patriot e também de um outro sistema de defesa antiaéreo, que é o sistema Aster 35 Samp/T, também conhecido por Mamba, que é de fabrico francês e italiano. É o único sistema produzido na Europa que é eficaz contra mísseis balísticos. E é isso que está a faltar no campo de batalha na Ucrânia. Já tem capacidade para bater outros tipos de ameaças, desde foguetes, aviões voando a alta altitude ou baixa altitude, até helicópteros, mas esta capacidade de ser capaz de interceptar mísseis balísticos que voam a grande velocidade, tem sido uma das vulnerabilidades do sistema de defesa antiaérea da Ucrânia, que vem ser colmatado com a chegada de quatro a cinco baterias Patriot e também uma a duas baterias Samp/T. Aliás, se já os tivessem em produtivo no campo de batalha, os mísseis S-300 que fustigaram Kharkiv e Zaporizhzhia, não teriam tido os efeitos nefastos. Portanto, estes sistemas Patriot e o Mamba Samp/T serão fundamentais para que a Ucrânia, no futuro, se consiga defender também dos ataques de mísseis balísticos.

Senhor general, para fecharmos aqui esta lista muito pouca exaustiva sobre o armamento que foi sendo fornecido durante este último ano à Ucrânia, temos também de falar de carros de combate, que a custo, lá veio a luz verde. E aqui destacaria os AMX-10 RC franceses e os Abrams norte-americanos e claro, os Leopard 2 germânicos?

Bom, eu destacaria fundamentalmente pela sua altíssima qualidade, os Leopard 2, que são por muitos considerados o melhor carro de combate do mundo e naturalmente o Abrams, que também é um carro de combate que se equivale. O Abrams tem alguns problemas fundamentalmente derivados à sua motorização, porque a peça, e eu devo dizer muito rapidamente, o armamento principal, quer do Abrams, quer do Leopard, é o mesmo. É uma peça de 120 mm, L44, produzida por uma fábrica alemã, a Rheinmetall. É uma peça de alma lisa e que tem um alcance máximo de 6500 metros.

E que não abana quando o carro se desloca, não é?

E que é completamente estabilizada, permite fazer fogos eficazes e ajustados sobre alvos em movimento ou parados, ou estacionários, até cerca de 4000 metros. É uma arma tremenda. Portanto, este tipo de carros de combate, não tanto o AMX-10 RC, que é um carro de combate em rodas e é, sobretudo, um carro de combate para o reconhecimento e cuja peça tem um alcance mais pequeno de cerca de 2000 metros. No entanto, é sempre bem-vindo, porque os T-72, que existem em grande profusão no campo de batalha, têm um alcance eficaz de 1500 metros.

Os T-72 são russos, não é?

São russos e que a Ucrânia também tem na sua posse, obviamente. São carros de combate do tempo da União Soviética. E esquecemos do Challenger inglês, que é um carro de combate também da mesma classe, que é o Leopard 2 e o Abrams. E têm um poder de fogo incomparavelmente superior à maioria dos carros de combate russos que se encontram a combater no campo de batalha. Imaginemos um carro de combate que é uma ameaça, que tem um alcance eficaz cerca de 1500 a 2000 metros, a combater contra um carro de combate que, mesmo em movimento, consegue bater de forma eficaz. Mais de 90% dos alvos são batidos a cerca de 4,5 km.

Já voltamos à conversa com o major general Isidoro Morais Pereira. Temos ainda de falar, obviamente, de aviões de combate e perceber se estas armas são suficientes para a nova fase da guerra Vasco da Gama chegou à Índia em 1498. Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500. E Henrique Leitão chega à Academia Observador em 2023. Prepare-se para redescobrir os descobrimentos e a ciência portuguesa que os possibilitou. Suba a bordo para uma viagem fascinante. Inscreva-se em academia.oobservador.pt. Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Estamos de regresso à conversa com o Major-General Isidoro Morais Pereira. Senhor General, nas últimas edições da História do Dia, temos falado bastante dos aviões de combate, nomeadamente dos F-16 e depois também há os Typhoon britânicos. Qual é, em sua opinião, o grande receio dos aliados que leva àquele não rotundo de Joe Biden?

Primeiro que tudo, o não rotundo de Joe Biden foi um não a que Joe Biden já nos habituou. Eu julgo que acrescentaria aquele não seco a um órgão de comunicação social que lhe faz uma pergunta repentina e ele diz: "Não". Mas eu julgo que faz falta uma vírgula, não por agora. Aliás, a própria Casa Branca logo a seguir veio, de alguma forma, acalmar, suavizar um pouco este não e a dizer que, como todas as situações, têm que ser devidamente pensadas.

Qual é o grande receio, em sua opinião?

O grande receio é sempre o mesmo, é que o fornecimento deste tipo de armamento ofensivo, porque o F-16 não é um caça qualquer, é um caça da quarta geração, principalmente a última versão do F-16, que é o F-16 MLU, como aqueles que nós temos em Portugal, e que equivale ao F-16 Block 50 da United States Air Force. Portanto, é um avião que passou por uma atualização que lhe permite, por exemplo, entre outras coisas, um ciclo de vida de 8 mil horas de voo da fuselagem e foi equipado com um novo computador designado por Modular Mission Computer, que é diretamente derivado do F-22 Raptor, além de um novo radar que foi atualizado e que permite detetar ameaças a uma distância praticamente semelhante àquela que conseguem os F-22 Raptor. E o receio era que a própria Ucrânia, na posse deste tipo de poder aéreo, deste tipo de capacidade, pudesse tentar atingir na profundidade da Rússia algumas instalações.

Oleksiy Danilov, o secretário do Conselho de Segurança e Defesa da Ucrânia, diz que os principais combates nesta guerra ainda estão para vir. O que podemos esperar desta nova fase da guerra, depois do degelo, e depois da situação se ter mantido mais ou menos na mesma durante este inverno?

Nós sabemos que, por um lado, os objetivos maximalistas da Rússia, nós sabemos quais eram, eles são praticamente claros. Era conquistar a Ucrânia, colocar no lugar deste regime um outro regime que lhe fosse favorável e fazer da Ucrânia um pouco aquilo que é a Bielorrússia. E se neste momento esse objetivo maximalista não está imediatamente nos horizontes de Putin, pelo menos o objetivo de conquistar todas as regiões que ele por decreto já anexou, essas ele vai tentar a todo o custo conquistá-las. Aliás, já fixou ao comandante do teatro e concomitantemente o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Russas, já lhe tinha fixado até finais de janeiro como data limite para conquistar todo o Donbass. E agora deu-lhe, digamos assim, utilizando uma linguagem um bocado mais do desporto e do futebol, um prolongamento de cerca de 30 dias. Disse-lhe: "Bom, até março o Donbass tem que ser conquistado". Eu não sei o que vai na cabeça de Putin, mas diria que ele neste momento já estaria arrependido de se ter metido nisto. Agora, a única possibilidade que ele tem é de fuga pra frente. E é por isso que Danilov acredita que a Rússia tudo fará para concretizar, no mínimo, a conquista daqueles territórios que anexou por decreto. E isso vai levar a combates completamente sangrentos e violentos como nunca, como ainda não assistimos até agora.

E Danilov, o responsável pela segurança da Ucrânia, diz isso que o senhor General estava a dizer. Diz isso à Sky News, que Kiev se prepara para qualquer cenário, porque cheira a desespero do outro lado. Este armamento que foi vital para travar os russos durante este ano chega para esta nova fase?

Nesta fase, aquilo que temos visto, eu traria rapidamente um exemplo, é involerar a imagens, e elas circulam nos media, de um battle group completamente obliterado. E ele foi obliterado da mesma forma que foram obliteradas formações blindadas no início desta invasão, pela utilização de armas anticarro, pelos Javelins, fundamentalmente, e pelos NLAWs. Portanto, eu julgo que nesta fase, a Ucrânia, enquanto não chegam, e estamos a pensar que no início de março, nas primeiras semanas de março, chegarão os carros de combate Leopard 2, os Challengers, tal como foi prometido, e as viaturas Bradley e Marder já estão a chegar à Ucrânia. Nessa altura, a Ucrânia terá uma outra capacidade. Até lá, vai continuar a responder com aquilo que tem, já que Trata-se de uma guerra mecanizada e blindada, porque a Rússia terá reforçado o leste com cerca de três divisões desta natureza. Portanto, estas armas vão ser fundamentais para quem defende parar o avanço destas formações blindadas.

E os aviões?

Os aviões são naturalmente importantes, porque têm a ver com aquilo que nós sabemos que a Ucrânia tem declarado. A Ucrânia quer restaurar a integridade do seu território. A Ucrânia não quer atacar a Rússia. A única coisa que a Ucrânia quer é expulsar as forças invasoras do seu território. E necessita também de superioridade aérea enquanto essas ofensivas forem levadas a efeito, porque não está apenas no nosso espectro e na nossa ideia de que a Rússia se vai lançar numa ofensiva em grande escala. Também sabemos que a Ucrânia tem planeado para lá da primavera, vamos assistir agora ao degelo, vamos ter os lamaçais e depois vamos ter o verão, vamos ter a primavera a fazer-se e vamos ter os terrenos novamente a terem traficabilidade razoável. E nessa altura, julgo que a Ucrânia estará em condições para lançar uma contraofensiva em grande escala para poder paulatinamente começar a expulsar as forças russas do seu território.

Muito obrigado, senhor General Isidro Morais Pereira.

Obrigado eu e é sempre um prazer colaborar convosco.

O Major General Isidro Morais Pereira é presença habitual na Rádio Observador. Esta foi a história do dia. Este episódio contou com a colaboração da jornalista Marta Amaral, a sonoplastia do Bernardo Almeida, a música é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.