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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como a guerra do Irão pode chegar à sua carteira. Este som que está a ouvir não é real. Há aqui sons de mar e de batalha, mas não é real. É só para tentar levar quem está a ouvir este episódio ao século XVI, para a Batalha do Estreito de Ormuz, em que uma frota portuguesa derrotou a frota dos otomanos e ganhou o controle deste importante ponto de passagem das especiarias e de outros produtos na lucrativa rota comercial entre a Índia e a Europa. É só para mostrar que a importância deste corredor marítimo entre o Irão e Omã, com pouco mais de 50 km de largura, vem de há muitos séculos e que hoje é fundamental para a passagem do petróleo do Golfo Pérsico. Não admira, por isso, que seja usado como arma de arremesso neste novo conflito com os Estados Unidos e Israel.

"The president posted on Truth Social: 'The US will provide political risk insurance to all shipping lines.'"

Para evitar maiores impactos econômicos, Donald Trump diz que os Estados Unidos vão garantir a segurança da passagem dos navios, mas, na prática, o estreito fechou quando o Irão ameaçou atacar qualquer navio que por ali passasse. E quando até o governo português admite já fazer descontos caso os combustíveis subam mais de 10%, é a altura de perguntar se este conflito vai ou não chegar rapidamente às nossas carteiras e como é que isso acontece com um conflito a milhares de quilômetros daqui. Eu vou falar com o Ricardo Marques, analista de mercados energéticos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 05 de março. Ricardo Marques, bem-vindo.

Obrigado pelo convite.

Vamos começar por esta questão que tem a ver com o Estreito de Ormuz, que se começou logo a falar à medida que começaram os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão. E a pergunta é, porque também houve logo reações dos mercados: o que este corredor, que é um pequeno corredor marítimo, tem para assustar tanto os mercados?

Tem pelo fato de tudo aquilo que é produzido e exportado nos países do Médio Oriente, cuja saída pelo mar tem que atravessar esse estreito, fica inibido de passar. O que se está a falar nas notícias é, sobretudo, o cru, o petróleo e o gás que sai do Catar, mas há, por exemplo, o produto refinado que sai das refinarias da Arábia Saudita, nomeadamente gasóleo, e outras matérias-primas como o alumínio, como fosfatos. Tudo isso fica em causa a sua saída. A dificuldade é de tal maneira que alguns produtores, nomeadamente de petróleo e gás, já estão a suspender a sua produção, porque ao não conseguirem exportar, já não têm espaço para armazenar.

Isso vai lançar uma série de outros problemas de que vamos falar precisamente agora. Para já, há aqui uma certa incerteza, porque, por um lado, o Irão já declarou que o estreito está fechado, embora aquilo não seja 100% da responsabilidade do Irão, em águas territoriais do Irão, o Irão já disse que está fechado. Os Estados Unidos, por seu lado, dizem que não e que vão garantir a proteção dos navios que circularem. Mas a verdade é que houve já aqui uma série de medidas. O Ricardo acabou agora até de falar de uma delas no que diz respeito aos países produtores. Isto já fez com que os preços começassem a mexer.

Sim, bastante. Ou seja, os preços já se tinham mexido na última semana, já antecipando esta possibilidade, e agora estão-se a mexer a refletir essa possibilidade. Hoje estão a recuar. Não sei se entretanto saiu alguma notícia ou alguma coisa que leve o mercado a acreditar que a situação está para uma resolução mais rápida, mas temos, por exemplo, o preço do gás natural já hoje a baixar 15%. Mas até que a situação esteja resolvida, e eu penso que antes de mais é necessário que os navios que vão circular para aquela região tenham garantias de que não são atacados e, se forem atacados, de que têm seguro. E eu penso que um dos problemas é exatamente as seguradoras não estarem dispostas a fazer seguros ou então cobrarem valores que são incomportáveis. Portanto, não adianta os Estados Unidos dizerem que protegem, se as seguradoras não aceitarem essa proteção como válida.

Isso também contribuirá para esta instabilidade nos preços que estamos a assistir por estes dias. Isto não tem ainda a ver, ou tem já a ver, com falta de petróleo ou falta de gás, ou, como o Ricardo falava, tem a ver já com uma espécie de antecipação ou uma reação àquilo que está a acontecer?

Não tem a ver com falta. O mercado de petróleo já há alguns meses está com excedente de produção, ou seja, está-se a produzir mais do que o que se está a consumir. Há bastante petróleo, nomeadamente russo, que anda em navios à procura de cliente. Os chineses estão há três anos a aumentar bastante as suas reservas estratégicas, a colocar cerca de 1 milhão de barris por dia nas reservas estratégicas. Ou seja, numa situação de curto prazo, não vai haver escassez de petróleo. Se a situação perdurar, estamos a falar em Em cerca de 20% do petróleo que circula globalmente, que passa por ali, e mesmo se abrir o Estreito de Ormuz, uma pergunta que eu coloco é até que ponto o Irão, que produz 3 milhões de barris por dia, vai continuar a produzir e exportar. Estamos a falar 3%. A produção mundial anda perto dos 105, 106 milhões de barris por dia. Três milhões de barris, estamos a falar cerca de 3%. Nesta altura, o desequilíbrio de mercado anda perto disso, andará nos 2 milhões de barris por dia, ou seja, que se anda a produzir mais do que se consome. Mas há muitas dúvidas sobre como é que a situação vai ficar quando isto acalmar, se acalmar.

O que me está a dizer é que aquilo que estamos a assistir agora, em termos de aumentos de preços ou de instabilidade, pelo menos subidas e descidas, tem mais a ver com uma reação àquilo que está a acontecer, mais do que propriamente a falta de matéria-prima por não estar a circular.

No caso do petróleo, sim. Há aqui uma situação especial que é a situação do gasóleo, porque a Europa, nesta altura, não está a produzir gasóleo suficiente para consumo, ou seja, tem que importar gasóleo. E grande parte das importações de gasóleo vem exatamente do Médio Oriente e vem da Ásia. O que acontece é que os preços do gasóleo estão a subir muito mais no mercado europeu do que os preços do petróleo. Falando em dólares por barril, o preço do petróleo desde sexta-feira está a subir cerca de $8. O preço do gasóleo está a subir 30. Coisa que não acontece na gasolina. Na gasolina, como o que se produz na Europa é mais que suficiente para o consumo europeu, e até a Europa é exportadora líquida de gasolina, não temos essa situação. Eu olhando agora para os preços de mercado, tirando os impostos e as margens de comercialização, que eu tenha uma subida de cerca de €0,20 por litro no preço do gasóleo e uma subida de €0,06 por litro no preço da gasolina. Ou seja, a situação de gasóleo já pode refletir alguma escassez.

Ricardo, já voltamos a falar. Estamos de novo à conversa com o Ricardo Marques, analista de mercados energéticos. Falávamos daquilo que se está a passar no Estreito de Ormuz. Para já, a situação é muito incerta. Se houver um bloqueio efetivo e se este bloqueio durar vários dias ou até várias semanas, onde é que o impacto se vai sentir primeiro? É na Ásia, que é o maior beneficiário daquilo que circula por ali, é na Europa, é nos Estados Unidos?

Sim, o impacto em termos de preço será global, porque a Ásia, se não comprar ali, vai comprar onde os europeus estão a comprar. Aliás, é um pouco o que está a acontecer com o gás natural. Grande parte do gás natural para a Europa está a vir dos Estados Unidos e da Noruega, mas o fato de o gás não estar a fluir para a Ásia faz com que a Ásia vá comprar onde a Europa está a comprar. Ou seja, a grande maioria destas matérias-primas funciona numa lógica global.

E depois, já falámos aqui da questão do gasóleo e como é que o gasóleo está agora a subir bastante mais. Se tivesse de fazer uma previsão, diria que é aí que os portugueses poderão ter de se preparar para sentir mais o impacto disto que está a acontecer em termos da sua própria carteira.

Eu penso que sim. Eu não sei como é que as petrolíferas vão refletir estes aumentos nos preços, se vão refletir exatamente o que o mercado está a fazer ou se vão dividir um pouco pelos produtos, mas olhando ao que o mercado está a fazer, realmente, nesta altura, é o gasóleo a principal preocupação.

Não tanto a gasolina, não tanto, por exemplo, o gás.

Não tanto a gasolina. O gás é uma situação diferente, porque eu se por um lado vejo os preços do gás nas bolsas a subirem bastante, eu consulto os negócios que estão a ser feitos no gás natural líquido que está a chegar à Europa e esses preços não se alteraram muito. Eu ainda não percebi muito bem onde é que está realmente o preço do gás, mas, por exemplo, Portugal tem os estoques de gás, nesta altura, acima de 75%. E estamos numa altura do ano em que o gás é menos consumido para produção de eletricidade, por causa da produção de renováveis tende a ser maior. Temos as barragens cheias e começa a vir o sol, ou seja, a produção solar na Península Ibérica começa a aumentar. E, por outro lado, o gás que é usado para aquecimento também sazonalmente baixa. Eu diria que para os consumidores portugueses, nesta fase, não me parece que o gás seja uma grande preocupação.

Deixe-me fazer-lhe aqui só mais uma pergunta que tem a ver com a memória recente que os portugueses têm quando começou a guerra na Ucrânia e houve, de fato, um aumento substancial dos preços dos combustíveis. Daquilo que está a haver neste momento, antecipa que isso possa vir a acontecer também com esta questão do Irão, ou acha que os indicadores que temos mostram que haverá seguramente um impacto, mas será de dimensão menor?

Sim, o impacto que estamos a ver agora é de uma dimensão muito menor. Eu estava a falar de preços de gás que ontem, no limite, chegaram aos €60, hoje já estão nos 45. Para ter uma ideia, em 2022 chegaram a €160, ou seja, praticamente o triplo. No caso do petróleo, o Brent está nesta altura a negociar a $81. Nessa altura, se não atingiu os 100, esteve lá muito perto. E mesmo as margens de refinação também. A margem de refinação é aquilo que o gasóleo está a negociar em cima do Brent. Portanto, nesta altura estamos com uma margem de cerca de $35. Eu cheguei a ver estas margens acima dos 50. E tudo isto com o dólar mais forte. O dólar no ano passado baixou bastante, portanto, tudo aquilo que é cotado em dólares, este ano, nos últimos meses, tem sido atenuado por essa circunstância de o dólar no ano passado ter perdido cerca de 15%. Agora, tudo depende da duração desta situação. Se for uma coisa para uma semana, duas semanas, lá está, há stock, há muito stock guardado, não é algo que fosse completamente inesperado, ou seja, os mercados já estavam a reagir em alta para esta possibilidade. Portanto, penso que rapidamente, numa questão de semanas, se pode voltar à normalidade. Se estivermos a falar numa situação que se arraste meses, aí sim, poderemos ter uma escalada de preços muito considerável.

E razão para nos preocuparmos. Para já, há aqui alguma incerteza. Ricardo Marques, obrigado pela ajuda que nos deu a perceber e a navegar aqui nestes mares conturbados de mais um conflito. Obrigado.

De nada. Muito obrigado, boa tarde.

Ricardo Marques é analista de mercados energéticos e ajudou-nos a perceber o que devemos esperar das consequências desta nova guerra. Esta conversa foi gravada na tarde de quarta-feira. Para já, vivem-se dias de grande incerteza. Não sabemos quanto tempo vai durar o conflito. O que se sabe já é que o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz reduziu 90% desde o início dos ataques americanos e israelitas. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana de Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.