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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de tensão geopolítica. Na edição desta noite contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar com a crise dos combustíveis e as ameaças de Donald Trump de suspender as exportações de combustível se os parceiros não libertassem as suas reservas. Vamos olhar primeiro para a ação do presidente dos Estados Unidos. Faz sentido esta decisão de Donald Trump?

Donald Trump, no fundo, está a fazer o que sempre nos habituou, que é olhar para as relações internacionais e para o sistema internacional sempre com a sua veia mercantilista. E isto vem mudar não só a perspectiva de Donald Trump, vem mudar também a perspectiva das próprias relações internacionais. A principal preocupação agora, tendo em conta que temos vários conflitos a grassar pelo globo e vários conflitos que impactam naturalmente o preço dos combustíveis e dos recursos naturais no geral, o que Donald Trump trouxe foi uma perspectiva, uma prioridade que os Estados agora oferecem relativamente àquilo que é a sua política externa. Portanto, a prioridade principal neste momento é a sobrevivência económica e só depois é que vem não só a sobrevivência bélica ou armamentista, e depois, em terceiro lugar, a sobrevivência normativa ou a exportação de normas, que sempre foi aquilo em que a União Europeia foi forte e que continua a ser, ou pelo menos continua a tentar imperar pela sua normatividade no sistema internacional. Se do ponto de vista prático isso faz sentido? Não faz, porque vai trazer mais flutuação ao mercado, ao mercado dos combustíveis. O que nós tivemos no início do conflito do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, que depois acabou por se desdobrar para um bloqueio também do Estreito de Bab-el-Mandeb, foram os preços dos combustíveis a flutuar com base na expectativa do mercado. Era ainda um preço especulativo e as flutuações que sofríamos eram de preços especulativos. Ora bem, o que está a acontecer agora é que estamos a encaminhar-nos para os seis meses, nesse caso já sete meses de conflito, e estava previsto que as reservas estratégicas, tanto dos principais países europeus como dos Estados Unidos, como também das principais monarquias do Golfo, desce precisamente para seis meses em fevereiro. Portanto, agora passados seis meses, estamos a começar a ter flutuações do preço, não com base na especulação, mas com base numa escassez de fato dos combustíveis, numa escassez de fato do petróleo, porque 15% dos navios que fazem esse transporte estão num dos extremos do estreito de Ormuz. Portanto, perante esta realidade, tem que se fazer alguma coisa e principalmente os países ocidentais, que serão os mais prejudicados em última instância, porque são aqueles que, na sua maioria, não têm estas reservas em território nacional, têm que tomar aqui uma decisão. Essa decisão tem que ser concertada com os Estados Unidos. Se houver, por acaso, uma fragmentação entre os Estados Unidos e os seus aliados relativamente à exportação de combustível, estamos numa posição muito delicada. Estamos numa posição muito delicada porque a Rússia e a China continuam a ter grandes negócios petrolíferos. A Índia continua também a ter aqui um papel de mediação a exportar petróleo, que muitas vezes vem da Rússia para a Europa e, portanto, continua a ter aqui um papel económico relevante na situação e a ganhar com a situação. E estes três países, que são três países que, quer se queira quer não, a sua ascensão ameaça sempre a postura ocidental ou o papel ocidental no sistema internacional. O que temos aqui é uma divisão que poderá ser entre os Estados Unidos e os seus aliados e que fará não só com que seja mais uma pedra ou mais um prego no caixão da NATO, como também, em simultâneo, vai trazer consequências económicas para todos os cidadãos e por isso podemos nos habituar aqui para uma terceira mudança. A primeira mudança foi o crescimento ou uma ligeira inflação nos combustíveis logo a seguir à invasão do Irão ou ataque ao Irão. Depois tivemos um segundo momento, que foi há cerca de um mês, em que os combustíveis subiram bastante mais. Por quê? Porque passamos de ter a especulação e passamos a ter uma escassez real. E foi quando, aliás, o governo português começou a falar da possibilidade de termos reservas que não chegam até o final do ano. E agora podemos ter aqui um terceiro impacto, caso esta medida de Donald Trump venha para frente, que é devido à fragmentação do bloco ocidental, termos o preço dos combustíveis novamente a subir na Europa. E isso seria um choque, não só para a aliança transatlântica e não só para os Estados Unidos e outros seus aliados que não estão no mundo ocidental, mas também para todos os cidadãos e para as suas carteiras.

Entretanto, há já várias reações por todo o mundo a esta questão. O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que o G7 vai libertar até 100 milhões de barris de gasóleo das reservas de emergência. Que leitura é que podemos fazer desta reação?

Perante isto que estava a dizer, e a Laura agora complementou muito bem com a questão do G7, perante a ineficácia ou a falta de capacidade de se abrir aqui uma ponte entre os vários aliados norte-americanos que permita escoar esse petróleo e garantir essas reservas estratégicas para os próximos anos. E a verdade é que Donald Trump não sabe em que condições é que irá sair e quando é que irá sair deste conflito com o Irão e por isso não sabe quando é que se vai desbloquear o estreito de Ormuz, não sabe quando é que os houthis vão deixar de ter um papel relevante no bloqueio do estreito de Bab-el-Mandeb e não sabe também até que ponto é que essa instabilidade não pode chegar, por exemplo, ao canal do Suez. E por isso é que o Egito também tem sempre muito medo que haja um spillover, que haja um transbordo deste tipo de conflitos. Esta instabilidade perante esta insegurança dos mercados petrolíferos, o que acontece? Há aqui uma transição, que é as organizações internacionais tentam ocupar um espaço de charneira para permitir esse escoamento. Agora, Macron é sempre a voz, ou quase sempre a voz mais vocal na Europa, sempre que Donald Trump afirma algo que não vai de acordo com os interesses europeus, no entanto, é preciso ter a capacidade material e económica para o fazer. E o G7 todo junto talvez a tenha, mas os interesses de todos os Estados que compõem o G7 não são exatamente os mesmos. E eu acho que por aí poderemos ter essa iniciativa a esbarrar nesse consenso à unanimidade e podemos ter algumas nações europeias realmente a tomar essa dianteira e a fazerem o esforço de conseguir escoar para os países onde, principalmente perante o conflito com a Rússia e essa energia que deixou de vir da Rússia para o centro e leste europeu, de alguns países que tenham essa necessidade mais imediata, que ainda, felizmente, não é o caso português neste momento, não quer dizer que no final do ano não o seja. E por isso, no fundo, é tentar aqui ocupar através não só da narrativa, mas através das organizações internacionais, um espaço que está a ser deixado em roda livre, que é o do mercado petrolífero. É interessante perceber aqui que o mercado petrolífero tem feito um caminho exatamente oposto a quase todas as outras dimensões da economia. Porque o que tivemos quando surgiu o mercado petrolífero? Tínhamos as Seven Sisters. As Seven Sisters eram as sete grandes empresas do mercado petrolífero, que depois, entretanto, reduziram para três, porque se foram associando em consórcios e ficaram monopolistas desse mercado, e que eram todas elas norte-americanas e que começaram por ter o grande monopólio, a grande hegemonia da exportação. E os Estados Unidos ainda vivem na ideia que essas Seven Sisters, ou o que resultou dessas Seven Sisters, podem dominar o mercado global petrolífero. Só que a verdade é que surgiram aos poucos nos últimos anos, ao contrário do que aconteceu noutros setores, em que a tendência foi de privatização e não nacionalização, no caso petrolífero, a tendência é quase sempre, e nos últimos anos tem sido, de nacionalização. Ou seja, o que acontece? Novas empresas como a Aramco, que é a empresa saudita petrolífera, como a Petrobras, que conhecemos bem do Brasil, como a empresa iraniana, nacionalizaram o petróleo, criaram cotas para os combustíveis e para o petróleo, principalmente através da OPEP. E não nos podemos esquecer que agora até a OPEP tem conflitos internos, que fez com que os Emirados Árabes Unidos saíssem há bem pouco tempo da OPEP, o que fez também com que aumentassem os combustíveis, não só naquela zona, mas também no Ocidente. E agora são estas empresas que têm a capacidade, não são as Seven Sisters, não são as empresas norte-americanas, são estas empresas estatais que muitas vezes estão nas mãos de líderes autocráticos, ditatoriais, e que têm a batuta, que têm pelo menos uma posição charneira naquilo que é a distribuição dos combustíveis e do petróleo a nível global.

E perante todo este cenário, a Rússia poderá vir a aliviar restrições à exportação do gasóleo. Moscovo está aqui a tentar aproveitar este problema para arrecadar negócio?

Claro, a Rússia, tal como aconteceu no início do conflito com o Irão, vai beneficiar com isto, porque se não há o escoar normal, se não há o fluxo normal entre os aliados convencionais e característicos, e é também importante perceber que essas alianças, por estarmos a viver num mundo muito mais mercantilista neste momento, essas alianças reconfiguram-se quase diariamente, dependendo dos fluxos e das bolsas e dependendo dos fluxos do comércio internacional. O que é que acontece? A Rússia agora vai beneficiar porque os Estados que a certo ponto dependeram da Rússia e que cortaram esse laço económico e esse laço energético com a Rússia deviso ao início do conflito em 2022 e da invasão da Ucrânia, muitos desses países podem ter que retomar esses laços económicos e energéticos, porque também não nos podemos esquecer que há muita culpa europeia aqui no meio, porque a Europa, principalmente a Europa da Merkel, sempre viveu nesta ideia utópica que a Europa precisava apenas e só de exportar a normatividade, como eu explicava, mas a nível industrial não tinha que fazer grande coisa. Por quê? Porque dos Estados Unidos vinha a segurança, da Rússia vinha a energia e o petróleo e da China os laços comerciais permitiam então um escoar de vários mercados e de várias dimensões económicas que não careciam de uma indústria forte europeia. O que percebemos agora com os vários conflitos e com os problemas que temos tido a nível energético, é que precisamos de uma indústria energética e de uma indústria bélica fortíssima. Enquanto a Europa não consegue desenvolver esses dois aparelhos, a Rússia vai beneficiando. Por quê? Porque consegue vender aos chineses, consegue vender aos indianos, como explicava, e depois os europeus vão comprar aos indianos, ou vão comprar à Índia, o que faz com que, a certo ponto, a Europa vá comprar mais caro à Índia. Por quê? Porque passa por um intermediário, portanto, pagamos não apenas o petróleo russo, mas também pagamos o preço desta intermediação que passa pela Índia, e a Rússia vai conseguindo alargar os seus potenciais clientes, sabendo que a grande doutrina europeia sempre foi até aqui, desde o início do conflito, portanto, desde o início de 2022 e até aqui, sempre foi não estabelecer mais laços económicos com a Rússia. Mas perante esta escassez energética, o que vai acontecer é o que aconteceu, por exemplo, com o cortiço, que é não estabelecermos europeus laços energéticos com a Rússia, mas estabelecermos laços energéticos com o Cazaquistão, estabelecermos laços energéticos com a Turquia, estabelecermos laços energéticos com a Índia, mas de onde é que vêm todas essas componentes energéticas, de onde é que vem todo esse petróleo? Pois bem, vem da Rússia, só que simplesmente, como não podemos comprar diretamente à Rússia, vamos comprar mais caro a estes intermediários. E este é o grande desafio da Europa nos próximos anos. O G7 pode tentar combater isto, mas creio que é um problema se Donald Trump Não conseguir resolver a questão iraniana, creio que é um problema mais macro, em que as suas consequências e as suas causas acabam por extrapolar, por ultrapassar aquilo que é a jurisdição e a própria capacidade industrial e económica da Europa.

Vamos olhar também para o Médio Oriente. O Irão classificou hoje como desumano e ilegal o bloqueio aéreo imposto pelos Estados Unidos. Há motivos de queixa por parte de Teerão e que efeitos práticos é que tem este bloqueio?

A nível de efeitos práticos, não há grande coisa, não é significativo o que pode vir a acontecer. É mais um episódio, no fundo, de tentar diplomacia por outros meios. Já percebemos que neste momento não se ouve falar nem do Paquistão, nem de Omã, não se ouve falar do Qatar, portanto, todos aqueles países que tentaram fazer a mediação a certo ponto, e o que Donald Trump tem procurado, o que a administração norte-americana tem procurado, é diplomacia por outros meios. O facto de termos tido durante esta semana, a nível da indústria da aviação, dois ou três pequenos incidentes que poderiam ter sido grandes, que felizmente foram pequenos, fez com que houvesse agora aqui um redefinir de ideias e de prioridades relativamente aos respectivos espaços aéreos. Tivemos primeiro um episódio num aeroporto ou numa base aérea militar, que está com uma concessão norte-americana, mas que é britânica, em Welford, a chamada base de Fairford, no norte de Inglaterra, junto à fronteira com o País de Gales. E tivemos aí o caso, eram três carrinhas com homens encapuzados lá dentro, que acabaram por não ter qualquer efeito ou qualquer ação, porque foram denunciados antes ainda de entrarem nessa ação, que se previa ser uma ação também de terrorismo e que configuraria terrorismo. E depois tivemos mais recentemente, e tem sido o tema da beira, o tema mais discutido, o avião da FlyDubai, que depois de uma luta no cockpit foi aterrado em segurança, mas que se desconfia que possa haver ali um ímpeto terrorista por parte do copiloto e, curiosamente, de um copiloto de Omã, que até é dos países que têm níveis de radicalização mais baixos no Médio Oriente relativamente ao Estado Islâmico, relativamente a estes ramos da crença islâmica que se radicalizaram, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, como dizia. E isto foi pretexto primeiro para Netanyahu conseguir consolidar a sua campanha com a ideia de que apenas e só o Likud, apenas e só Netanyahu e a coligação que sair das próximas eleições israelitas é que terá a capacidade de garantir a segurança do território israelita perante ataques terroristas, perante uma ameaça constante, que já sabíamos que existia por parte dos proxies do Irão, mas que agora os proxies do Irão diversificam também os seus métodos, claro, a confirmar-se que o objetivo seria um ataque terrorista deliberado contra a sociedade israelita, que isso ainda está sobre investigação e não vale a pena entrar aqui em teorias da conspiração ou em futurologia. E depois Donald Trump aproveita também, tal igual como a Arábia Saudita já tinha feito e como o próprio Iémen já tinha feito à boleia da Arábia Saudita, de bloquear o seu espaço aéreo relativamente a voos provenientes de certos destinos, principalmente dos destinos que os norte-americanos identificam como potencialmente danosos ou perigosos para a segurança nacional desde o 11 de setembro. E o 11 de setembro aqui também acaba por ter um papel, porque foi muito recente o assinalar do aniversário do 11 de setembro, onde tivemos várias cerimônias, onde foram visíveis várias cerimônias nos Estados Unidos, onde se discutiu bastante isso na esfera pública norte-americana. E depois disso ter aqui uma situação que não está nem de perto nem de longe relacionada, nem sequer é parecido no modus operandi com o 11 de setembro, mas ter aqui uma nova ameaça terrorista por via aérea de um avião civil, traz aqui memórias que invocam ou que legitimam, de alguma forma, esta precaução extra. Não estou a dizer que é legítima, mas que pelo menos aos olhos da sociedade civil, tem aqui uma justificação para o bloquear do espaço aéreo.

Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, Bernardo Valente. Obrigada, boa noite.

Obrigada, boa noite.