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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como funciona a máquina de comunicação do governo?

Esta é uma falha relevante que assumo, criada fruto de erros de comunicação e articulação dentro do governo, que são da minha inteira responsabilidade.

Depois de anunciar uma decisão sobre o novo aeroporto de Lisboa, no momento em que o primeiro-ministro estava em Madri numa cimeira da NATO, Pedro Nuno Santos apresentou desculpas públicas. O primeiro-ministro assumia pouco tempo depois que não teve conhecimento prévio do despacho do seu ministro das Infraestruturas. Um erro grave, diz António Costa.

Houve um erro grave, o ministro já o assumiu, teve a oportunidade para falar comigo. Está corrigido o erro e portanto agora é seguir em frente.

O episódio do novo aeroporto fez soar campainhas no governo sobre a necessidade de uma maior coordenação política e de comunicação. Foram tomadas medidas e traçado um rumo. Que medidas são essas? E quão importante é a comunicação para o sucesso do governo? Vou conversar com Rita Tavares. É jornalista da secção de política do Observador e há muito que acompanha o PS e o governo de António Costa. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Rita Tavares.

Olá, Ricardo. Obrigada.

Rita, o governo tem um grupo do WhatsApp?

Até tem vários. Pelo menos ao longo destes anos em que nós temos tentado fazer trabalhos de bastidores, acontece sempre sabermos de mais um. Ainda na pandemia, quando fizemos um trabalho sobre como é que o estado de emergência tinha sido vivido por dentro dos gabinetes, tanto em Belém como em São Bento, descobrimos até o nome de um, que era o Corona, onde no governo estavam aqueles elementos que tratavam mais diretamente, a ministra da Saúde, o primeiro-ministro, enfim, todos aqueles elementos que tratavam mais diretamente com a pandemia e com as medidas que era preciso tomar a cada momento.

E haverá um grupo mais restrito, imagino. Sabemos o nome desse.

Imagino que sim.

Será o núcleo, não?

Gostava. Podemos imaginar, podemos dar nós nomes, se calhar, somos mais criativos. Porque Corona não era muito, de facto.

A comunicação é uma parte importante da atividade política, é essencial. O que mudou neste governo no que toca à comunicação, quando comparado com o anterior?

A grande alteração que há é, de facto, haver aqui um diretor de comunicação nomeado, coisa que não existiu nos outros governos de António Costa. Não me parece que esta seja uma necessidade que António Costa sentiu hoje. Soubemos, por exemplo, que ele deixou logo uma ala livre no Palacete de São Bento para instalar aqui uma equipa de coordenação. E agora este elemento surge também para dar conta de uma área que tinha sido deixada num vazio e que é uma área importante, que pode gerar muitos contactos, como nós sabemos, que é a área das redes sociais e uma área de comunicação que o governo considerou que não estava a ser aproveitada devidamente. E houve essa tentativa, há esta tentativa de potenciar um bocado o que se pode fazer por essa via também para chegar às pessoas com uma mensagem mais decodificada, até porque a presença do governo hoje nas redes sociais não é a coisa mais expressiva. Pode haver algum trabalho a ser feito aí, sobretudo se compararmos com alguns outros governos noutros países. E a intenção, parece-me que tenha sido aproveitar esse espaço para avançar também no trabalho de comunicação.

E quem é esse diretor de comunicação?

Esse diretor de comunicação é o João Cepeda, que foi jornalista. Grande parte da sua carreira foi no Diário de Notícias, mas depois até se tornou se calhar mais visível e com mais impacto como diretor da Time Out. Depois, por causa até da questão do mercado Time Out, no Mercado da Ribeira, que foi onde ele se tornou empresário, quando a empresa que tinha a revista, de que ele também era acionista, se candidatou a um concurso público para a revitalização do Mercado da Ribeira. Foi uma candidatura única e na altura o presidente da Câmara de Lisboa era precisamente António Costa. Isto foi em 2010. Não digo que tenha sido aí, mas aí havia proximidade entre os dois e foi ganhando terreno.

E em relação ao trabalho específico e a esta máquina de comunicação, João Cepeda vai ser ou é uma espécie de chefe dos assessores de imprensa do governo?

É o diretor de comunicação. Ele coordena, centraliza a informação que exige uma resposta coordenada por parte do governo. Já teve reuniões com os assessores de imprensa do governo, uma conjunta, várias individuais para cada área, para se inteirar daquilo que existe. Com a tal ideia sempre de potenciar até eventos e anúncios que cada uma das áreas esteja a prever fazer. Os ministros têm a sua própria agenda e ele acaba por centralizar isto. Eu não disse há pouco, mas há aqui uma mudança que existiu neste governo, quando me perguntaste logo no início, esta coordenação, este trabalho de articulação entre os assessores dos vários ministérios era centralizado nos secretários de Estado adjuntos do primeiro-ministro. Foi Mariana Vieira da Silva, Duarte Cordeiro muito pouco tempo e depois, mais recentemente, Tiago Antunes. E eram eles que faziam este trabalho. Tinham assento no Conselho de Ministros, tinham assento na coordenação política do governo, que são reuniões um pouco mais restritas, e eram as pessoas que depois, sabendo tudo o que se passava dentro, procuravam trazer para aí todos os inputs que vinham dos vários ministérios e faziam essa antecipação de problemas, preparação de debates, preparar argumentos para o primeiro-ministro utilizar no combate político. Isso deixou de existir na atual orgânica do governo, porque já não existe um secretário de Estado adjunto, existe uma ministra adjunta e dos Assuntos Parlamentares, que não ficou com a pasta da coordenação. Portanto, António Costa arranjou aqui um elemento que é um outsider, não é um político, e que desta vez é esse elemento que vai fazer este trabalho.

Vai fazer esse trabalho. Diz-me só uma coisa, António Costa tem duas assessoras de imprensa. Quantos assessores tem o governo, tem alguma ideia?

São quase quatro dezenas, 40 assessores, entre o gabinete do primeiro-ministro e os dos 17 ministros. Há uma média entre dois elementos por gabinete. Alguns têm mais, outros têm menos, mas é em torno disso.

Também depende do número de secretário de Estado. E na prática, como é que um antigo jornalista, agora empreendedor, entra na coordenação de um governo?

É importante perceber o perfil de António Costa, que gosta desta ideia de personagens que são mais inovadoras, que pensam fora da caixa, que são características que são apontadas a João Cepeda. Portanto, acho que este perfil pode ser considerado interessante por António Costa para fazer esse trabalho. É até aquela ideia de surpreender também, de criar algum impacto, ter uma pessoa que não tem nada a ver com o meio da política e de repente está no centro político. Mas para quem observava, se calhar, isto mais de perto, não é propriamente uma coisa surpreendente, precisamente porque António Costa aprecia estes perfis e depois porque João Cepeda tinha proximidade com António Costa. Por exemplo, a 21 de janeiro, em plena campanha eleitoral, António Costa, depois de sair aqui da entrevista da Rádio Observador-

Feita por ti.

Sim, exatamente, foi para um encontro com independentes, pessoas da área da cultura que o apoiavam, que lhe estavam a manifestar apoio, e entre eles estava precisamente João Cepeda. O vídeo até está no Facebook.

Aquilo que foi feito pelos partidos mais à esquerda, de facto, é uma coisa que não tem qualquer explicação, mas seja como for, esperamos que isso não seja uma consequência, porque queremos muito que continue a fazer aquilo que fez 15 a 19, porque continuar a ter Portugal com a reputação que tem durante pelo menos mais quatro anos, seria uma coisa absolutamente extraordinária para todos.

Já explicaste que Cepeda trabalha neste núcleo próximo do primeiro-ministro. Há outros elementos neste núcleo que fazem esta coordenação, este trabalho?

Sim, foram mudando ao longo dos anos, desde 2015, por saídas do governo, porque assumiram outras funções. Há elementos que se têm mantido desde o início. Carlos César, que é um conselheiro muito importante de António Costa e presidente do Partido Socialista, tem lugar quase cativo nessa coordenação política, que é um grupo que se reúne, também é importante dizer, todas as semanas, desejavelmente é uma vez por semana que se reúnem, às segundas-feiras, e no fundo, o que é que faz? Alinha estratégia, antecipa problemas, define prioridades, enfim, debate político puro e duro sobre aqueles que devem ser os argumentos e os fios condutores da ação do governo e do Partido Socialista, coordenada com a ação do governo. Faz parte Carlos César, faz parte Pedro Nuno Santos, por exemplo, que era um secretário de Estado dos assuntos parlamentares no tempo da Jerónimo Sá e que acabou por ficar desde então na coordenação política, mas por exemplo, Duarte Cordeiro também tem lugar aí, Ana Catarina Mendes, tem Fernando Medina, que agora é ministro das Finanças, entrou diretamente. António Costa também fez triar neste grupo Pedro Adão e Silva, que entrou para ministro da Cultura e também entrou para este círculo de confiança mais apertado. Também o secretário-geral adjunto do Partido Socialista, o líder parlamentar. Enfim, há elementos que são importantes para a definição da estratégia e que António Costa quer que estejam sempre a par daquilo que se passa no centro do governo e que fazem parte dessas reuniões, estão presentes nessas reuniões, onde agora também está João Cepeda. E é uma novidade haver ali um elemento extrapolítica que acaba por se sentar naquele que é o núcleo central da política do governo.

E quanto ganha João Cepeda?

O salário bruto de João Cepeda está público na página do governo, onde estão publicadas todas as nomeações que são feitas para os gabinetes. O salário bruto é de 5600 euros, são mais de 3000 euros líquidos. Acima dele, por exemplo, no gabinete do primeiro-ministro, só mesmo o chefe de gabinete. Portanto, entre as várias pessoas que trabalham lá, assessores, técnicos especialistas, adjuntos, é ele o chefe de gabinete que estão à frente quando se fala de valores salariais. Depois também seria importante dizer aqui que há obrigação de registro de interesses, mas não se aplica, por exemplo, a um elemento ou a uma figura como esta. Aplica-se até chefes de gabinete, mas aí para baixo-

Ou seja, ele é um civil no governo, não é?

Exato, com acesso a muita informação, e informação é poder. Portanto, esse escrutínio já não é feito desta forma direta, porque não há nenhuma obrigação de fazer o registro de interesses.

Falaste aí numa palavra-chave: poder. Tem acesso a muito poder. Como é que o PS olha para esta decisão, e aqui vou repetir a expressão civil, de colocar nas mãos de um civil a coordenação da comunicação do governo?

É engraçado, porque quando comecei a fazer contactos para tentar perceber um pouco como é que isto se fazia, porque tentamos sempre perceber como é que é feita a gestão das coisas Comecei a perceber que havia alguns, não diria anticorpos, mas há pelo menos algum desconforto entre alguns elementos do Partido Socialista sobre a presença de um outsider num ponto tão sensível como o nervo político. É ali onde a coisa se define, porque de facto é um acesso imenso a poder e normalmente quem está fora do meio político aí? O chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, mas já tinha trabalhado no gabinete do primeiro-ministro José Sócrates, de António Costa, é um elemento que está totalmente integrado nesta engrenagem política e já não é propriamente estranho a estes ambientes. No caso de João Cepeda é um bocadinho diferente. Não sei, no decorrer destes tempos, se isso não criará alguma areia nessa engrenagem.

E Rita Tavares, este desenho de coordenação política e comunicação já tinha sido tentado ou não?

Já tinha sido tentado por António Costa, que chegou a ter logo no início um elemento que era um diretor de comunicação, que era o Mário de São Vicente, mas não tinha grande ligação às equipas de assessoria. Enfim, aquilo evaporou-se, o trabalho e as funções dele, e ele próprio saiu do governo muito pouco tempo depois de ter começado. Portanto, não criou ali propriamente marca.

Este modelo é igual ao de outros países? Há modelos semelhantes?

Em todos os países não sei. Agora ando muito viciada numa série que tem 20 anos, estou a rever tudo.

Estás a revisitar?

O West Wing.

Ok.

Que é uma série incrível sobre a comunicação e como é que se faz essa gestão toda na Casa Branca. Digamos que é um bocadinho diferente. Aqui não há Toby, não há Josh, não há CJ, é toda uma outra dimensão e ritmo. Mas, por exemplo, basta irmos aqui ao lado, a Espanha, para vermos que é bastante mais institucionalizada a gestão da comunicação. Há uma Secretaria de Estado da Comunicação, que está integrada na Presidência do Governo, que tem funções da coordenação política, de preparação e divulgação de comunicados, com as relações com os meios de comunicação social, enfim, tem uma série de funções que estão mesmo estipuladas, está tudo muito definido organicamente, está ali na dependência direta da Presidência do Governo. Portanto, logo aqui ao lado se vê como há uma institucionalização que se calhar António Costa está a tentar, mas parece que ainda são os primeiros passos, muito primeiros mesmo, de uma coisa um bocadinho mais profissionalizada.

As pessoas não pensem que é pela existência de meios aéreos que não há incêndios. Só não há incêndios se a mãozinha humana não provocar o incêndio.

E aqui chegados, Rita, apesar de existir uma máquina pensada para a comunicação e o tal núcleo duro, é António Costa quem decide e é ele também quem tem assumido o protagonismo em várias frentes.

Sim, e pode parecer que é óbvio, porque é o primeiro-ministro, afinal, mas não tem de ser necessariamente assim e pode dar o palco mais setorial aos ministros, por exemplo, mas ele tem aparecido e até nesta maioria absoluta tem-se notado isso, se calhar, com mais evidência em alguns capítulos. Não vou falar sequer do despacho de Pedro Nuno Santos, porque aí era demasiado óbvio que tinha que haver uma intervenção dele de alguma maneira, mas aparece ao lado da ministra da Saúde logo depois do caos nas urgências no SNS. Nos incêndios, desmarca uma visita oficial para estar presente naquela que seria a semana mais quente ali do mês de julho e, portanto, teve ali alguma cautela.

E esteve no terreno.

E esteve no terreno, sim, esteve no IPMA, esteve na Proteção Civil, enfim, fez uma série de contactos para mostrar essa presença e dar esse peso, porque houve ali uma altura, precisamente antes da crise de Pedro Nuno Santos e ali naqueles primeiros meses da maioria, em que começou a existir até no Partido Socialista, e nós escrevemos sobre isso, eu e a Mariana Lima Cunha, ali da secção de política, que havia ali um desconforto no Partido Socialista e um receio até sobre o cansaço que existia num governo que tinha acabado de ter uma maioria absoluta, era recém-eleito, mas era eleito pela terceira vez, já tem quase sete anos em funções, António Costa como primeiro-ministro, portanto havia ali uma preocupação sobre o desgaste que isso já trazia e com a descoordenação a que se estava a assistir, sem respostas atempadas para problemas que já poderiam ter sido previstos e a questão da saúde foi um deles. Portanto, António Costa aparece ali nas semanas seguintes em força na estrada, digamos assim, e em várias áreas para mostrar esse pulso, que se calhar andava ali um bocadinho mais ao sabor do vento.

E isso já é resultado de uma nova estratégia de comunicação ou é um lado mais controlador, algo que é mais característico da personalidade do próprio António Costa?

Eu aí só vejo características de António Costa mais do que qualquer diretor de comunicação, até porque ele chegou em junho, precisamente a meio do problema da saúde. A saúde até foi um dos primeiros desafios que teve ali de gerir em termos de comunicação. Mas António Costa ainda na semana passada teve uma declaração engraçada, que foi lembrar, ali sorrateiramente numa declaração, que ele já vai fazer para o ano 30 anos, que ele se candidatou pela primeira vez a umas eleições, foi à Câmara de Loures e perdeu, por poucochinho, disse ele, mas perdeu. Um político com 30 anos de candidaturas e ele para trás disso já tinha começado muito cedo no Partido Socialista, é um político tão batido que não é propriamente por haver um diretor de comunicação que lhe muda esses tiques e essa necessidade que ele tem de controlar, porque o perfil do autarca ficou ali muito colado. Ele tem um perfil executivo e de mão na massa, que se calhar o cargo de primeiro-ministro dá mais do que um cargo de Presidente da República. Ele até tem dito precisamente que o cargo de Presidente da República não é nada que o anime, porque lhe falta essa parte. Mas o de primeiro-ministro, apesar de tudo e apesar de ter essa parte, também tem ali uma parte de representação institucional muito pesada, mas ele não consegue conter essa tentação de pôr a mão mesmo em áreas, e sobretudo quando são áreas em que ele até pode estar mais à vontade, caso da administração interna e dos incêndios, porque ele teve essa pasta no governo já. Portanto, ele acaba por não conseguir travar essa sua veia mais controladora e executiva e de querer estar em todo o lado, quase uma omnipresença ali no seu próprio governo.

Obrigado, Rita.

Obrigada, Ricardo.

Rita Tavares é jornalista da secção de política do Observador e há muito que acompanha o governo de António Costa e também o Partido Socialista. Esta foi a História do Dia. O jornalista João Santos Duarte ajudou na pesquisa para este episódio. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia e a música do genérico, do João Ribeiro. Até amanhã.