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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Há uma crise dos ovos?
"A brazen heist reflects the desperation over eggs in the US. Authorities in southern Pennsylvania investigating the theft of about 100,000 eggs from the back of a truck at this distribution center. The take, worth an estimated $40,000. It calmed the US. Authorities in southern Pennsylvania investigating the theft of about 100,000"
O preço dos ovos está a aumentar. E não é pouco. Lá fora e também por cá. Há mesmo quem já fale de crise dos ovos ou até em ovoflação. As galinhas continuam a ser nossas amigas e a trabalhar bem, mas não estão a chegar para as encomendas. O ovo é a proteína mais barata e acessível e nos Estados Unidos o preço da dúzia já chegou aos €15. É sobre a crise dos ovos que vou conversar com a editora adjunta de Economia do Observador, Ana San-Lees. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 25 de março. Bem-vinda, Ana.
Olá, Ricardo.
Como é que preferes os ovos?
Eu gosto muito de ovos mexidos.
Eu, por acaso, gosto de todos, mas sim, mexidos é bom. Fui ver as minhas contas de supermercado e no dia 1 de março paguei €3,89 por uma dúzia de ovos. No sábado, dia 22, pela mesma dúzia de ovos da mesma marca, paguei €4,59. Segundo as minhas contas, isto é um aumento de cerca de 18% de dia 1 pra dia 22. Ana, eu sou o que se pode chamar um grande consumidor de ovos. O que é que se passa aqui?
O que se passa é que se calhar vais ter que abrandar um bocadinho esse consumo, Ricardo. Não, é verdade. Os ovos ainda não são um bem de luxo, felizmente, mas a verdade é que estão mais caros. Acho que já toda a gente que foi ao supermercado nos últimos dias notou isso. O que explica isto? É a lei da oferta e da procura. Há muita procura pra uma oferta que diminuiu. E nós estamos num mercado global, até nos ovos, e se o preço aumenta muito numa parte do mundo, que foi o que aconteceu, os restantes países vão acabar por sofrer as consequências disso, como está a acontecer em Portugal. Já lhe chamam ovoflação.
Ovoflação. Mas essa quebra na produção deve-se a quê?
Esta quebra na produção deve-se, sobretudo, a um surto grande de gripe das aves, que é particularmente grave nos Estados Unidos. E desde 2022 já foram abatidas cerca de 166 milhões de galinhas só nos Estados Unidos.
166 milhões.
É muita galinha. E em 2025 já foram mais de 30 milhões. A Europa não tem escapado, felizmente não com estes números. Foram abatidas cerca de 12 milhões de galinhas na Europa por causa da gripe das aves.
12 milhões. E isso em preços, e falaste aí nos Estados Unidos, acho que os Estados Unidos podem ser um bom exemplo nesta crise dos ovos que estamos a falar, estamos a falar de aumentos de preços de que ordem?
Oficialmente, os números apontam para, imagina, no espaço de um ano, 180%. É uma brutalidade.
180%?
180%. E este ano ainda pode aumentar mais 80%. Isto são números oficiais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e acho que nós, fazendo um scroll nas redes sociais nas últimas semanas, já devemos ter apanhado aquelas etiquetas dos supermercados, $15 uma dúzia de ovos, $12. E isso realmente tem acontecido nas últimas semanas, nomeadamente na última semana, porque eles também já começaram a tomar medidas em relação a isso, os preços já começaram a descer um bocadinho.
Estão a importar ovos?
Verdade, estão a importar ovos. Foi essa uma das soluções que o governo encontrou. Já estão a importar de países como a Turquia, a Coreia do Sul e estão a fazer diligência junto de vários países europeus para comprar ovos, incluindo de Portugal.
Já regressamos à conversa com Ana San-Lees, editora adjunta de Economia do Observador, que prefere os ovos mexidos. Os preços por cá estão a subir e será que vão continuar a aumentar? Estamos de regresso à conversa com Ana San-Lees, editora adjunta de Economia do Observador. Ana, já aqui confessei que sou um bom consumidor de ovos. Estive a fazer contas, estive a fazer mais contas. Eu sou um menino para despachar 730 ovos por ano. É um número.
Estás bem acima da média per capita em Portugal, que é 175 ovos por pessoa, por ano.
Sim, então como mesmo muitos ovos, são 61 dúzias. Também estive a fazer esta conta. Se isto continua a aumentar desta forma, portanto, segundo aqui a minha conta de supermercado aumentou 18% em menos de um mês, achas que é melhor investir numa galinha ou em três a quatro galinhas?
Sabes que há empresas, pelo menos nos Estados Unidos, penso que cá não, que alugam galinhas e que estão a ganhar grande popularidade.
Ora aí está uma coisa que eu nunca pensei, alugar uma galinha.
Alugam galinhas, os preços são razoáveis e tens a garantia de ovos frescos todos os dias.
Tratam da manutenção da capoeira também?
Sim, acho que está incluída. Por acaso, acho que está incluído. E o preço da alimentação também é um bom negócio.
Ótimo, sim.
Se tiveres espaço.
Chicken renting.
Exato, chicken renting. Mas em relação a preços, dizias ao início que notaste um aumento de 18% nos teus gastos, que é muito. Os dados que nós pedimos à DECO Proteste indicam que o aumento foi de cerca de 5% entre a primeira e a segunda semana de março. Os preços estiveram estáveis durante algumas semanas. Estamos a falar da meia dúzia. A meia dúzia de ovos custava, no início do mês, cerca de €1,62 e passou de repente para €1,70.
Isso provavelmente naqueles ovos mais básicos.
Os ovos classe M, que julgo que será a mais comum nos supermercados.
E uma pergunta que eu nunca imaginei fazer, Ana Sanlés: nós, Portugal, somos autossuficientes ao nível do ovo?
Eu também nunca esperei responder esta pergunta, mas diz que sim, somos autossuficientes. Isso é positivo, pelo menos não consta que o ovo nos vai faltar. Podes continuar a fazer as tuas omeletes. Importamos alguma quantidade de Espanha, mas é sobretudo para a indústria, para a produção dos chamados ovoprodutos, não sei se já viste esta designação, que são aquelas embalagens que vemos nos supermercados de claras e gemas pasteurizadas. Mas ovos com casca, somos praticamente autossuficientes, não dependemos de ninguém para ter os nossos ovos.
E se há esta escassez de ovos nos Estados Unidos e noutros países europeus, também há noutros países europeus este problema, não podemos exportar? Deve ser complicado exportar ovos, não é?
Eu acho que não é assim tão complicado, bem acondicionados. Nós podemos exportar, sobretudo para a União Europeia, só que nós não produzimos quantidade suficiente para isso. E mesmo as empresas cá têm vindo a aumentar a quantidade que produzem, mas é para responder às necessidades do nosso país, que continua a aumentar. As pessoas realmente passaram a consumir muitos ovos, seja porque o preço da carne aumenta e o ovo é uma alternativa de proteína mais barata.
É uma maravilhosa proteína.
Exato. Fazia dessa pergunta também, acho um dado curioso. Podemos exportar? Podemos. O caso dos Estados Unidos é diferente. Se quisermos vender ovos para os Estados Unidos, como já fizemos há alguns anos, aí já são necessárias certificações especiais, porque eles têm condições de importação diferentes. Se fôssemos agora exportar ovos para os Estados Unidos, tinha de ser a DGAV, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, a tratar desse processo, mas para a Europa não seria preciso.
Este problema agravou-se com a questão da gripe das aves e volta e meia temos alguns casos cá. Está controlado por cá, há, por exemplo, alguma vacina para isto que possamos usar?
Sim, é uma boa pergunta, até porque eu acho que é uma informação que não está muito generalizada. Nós tivemos, de facto, algumas situações pontuais no início do ano em capoeiras domésticas. Houve alguns casos em aves selvagens, que são o principal risco na gripe das aves, e houve algumas explorações em Sintra, acho que as pessoas se lembram disso. Foram controladas, não houve grandes danos, não foi preciso matar muitos animais, felizmente, mas foi um alerta e claro que deixou os produtores preocupados, porque, como eu dizia, esta doença é propagada pelas aves migratórias. São selvagens, logo o controle é muito difícil. Perguntavas sobre a vacina. Há uma vacina para humanos, mas não é geral, ou seja, não podemos ir ali ao centro de saúde tomá-la. É para pessoas que trabalham com aves infetadas ou que estão expostas a elas. E também há vacinas para as próprias aves. E França é um país que tem estado a apostar muito no estudo destas vacinas, mas ainda não oferece muitas garantias. Por exemplo, um animal vacinado pode propagar a doença na mesma. A vacina ainda não está num estado suficientemente avançado para que possa começar a ser administrada a todas as aves. E depois ainda há a questão comercial. Há muitos países que simplesmente não querem importar ovos que são provenientes de animais vacinados pela mesma questão, por não terem garantias de segurança. Portanto, ainda há muitas dúvidas em relação a este tema.
E Ana, prevê-se que o preço vá continuar a subir?
É a lei da oferta e da procura, estamos sempre um bocadinho dependentes dela. O que eu posso dizer é que nós falámos com algumas pessoas do setor, que nos dizem que os produtores negoceiam com os supermercados, não nós vamos, e nós consumidores finais, e portanto, o que me permite ter uma certa previsibilidade em relação aos preços. É uma pergunta legítima, até porque vem aí a Páscoa e nós pensamos nos folares, que têm lá os ovos e começamos logo: "Então os preços ainda vão aumentar mais?"
Aumenta muito o consumo na Páscoa?
Diz que não. Ao contrário do que se calhar seria de esperar, o Natal, sim, é o grande responsável pelo aumento do consumo de ovos, bolos e todas aquelas sobremesas do Natal que levam ovos. A Páscoa, não tanto. Em relação ao aumento de preços, sem certezas, não podemos estar aqui a dizer que não vão aumentar, mas este aumento grande que houve no início, agora em março, já foi significativo e não se esperam grandes aumentos, pelo menos nas próximas semanas.
Ainda bem, pelo menos para mim, grande consumidor de ovos.
Podes continuar a comer as tuas omeletes.
Obrigado, Ana.
Obrigada, Ricardo.
A prova viva de que tendo ovos e dos bons, se fazem boas omeletes também aqui na História do Dia. Ana Sanlés é editora adjunta de Economia do Observador. Deixo ainda três notas que merecem atenção esta terça-feira. Luís Montenegro e André Ventura trocam acusações públicas devido ao cartaz do Chega, que coloca José Sócrates e o atual primeiro-ministro lado a lado com a frase "50 anos de corrupção". Montenegro apresentou uma providência cautelar a exigir a retirada dos cartazes e €10 mil de compensação, mas o tribunal não avança com a ordem antes de ouvir o presidente do Chega. Uma das perguntas do momento é se um tribunal pode ou não ordenar a retirada de um cartaz de propaganda partidária. Outro ponto a ter em atenção, os polícias voltam esta terça-feira aos protestos em Lisboa e Porto, ao final da tarde, junto dos comandos respetivos, um protesto contra o adiamento por dois meses do pagamento de suplemento especial aos polícias que trabalham na investigação criminal. E nesta terça-feira falamos ainda de adolescência. A série do momento da Netflix que está a provocar um intenso debate. Há muitas dúvidas e pais assustados. Esta terça-feira, na Rádio Observador, temos uma edição especial do "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá, precisamente para discutir os perigos da adolescência. E segundo os dados provisórios do Relatório Anual de Segurança Interna, o RASI, divulgados pelo Expresso, a delinquência juvenil aumentou 12% de 2023 para 2024. Estamos a falar de cerca de 2000 casos que envolvem jovens entre os 12 e os 16 anos. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.