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Esta é a História do Dia da Rádio Observador: o que pediu Luís Montenegro aos portugueses na mensagem de Natal? "Caros compatriotas, na situação em que estamos, temos duas opções de caminho: ou nos contentamos com esta circunstância em que estamos bem, mas sabemos que se nos mantivermos assim a médio prazo, vamos perder face à evolução dos outros, ou aproveitamos a situação em que estamos e tratamos já de garantir a nossa própria evolução para continuarmos a crescer mais do que os outros no futuro. É a diferença entre jogar para empatar ou ter a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar. Uso esta metáfora desportiva porque ela expressa bem a opção que temos diante de nós. E quero dizer-vos que a minha opção e do Governo é claramente a segunda." Com recurso ao futebolês, o primeiro-ministro pede um país a jogar para ganhar sempre. E para isso, Montenegro quer os portugueses com a mentalidade do melhor do mundo. "Estamos num momento histórico em que temos de nos desprender da mentalidade do deixa andar e temos de adquirir e trabalhar a mentalidade da superação, a mentalidade de irmos mais longe e nos afirmarmos pela excelência, a mentalidade de não deixarmos para amanhã o que podemos fazer hoje, a mentalidade de não só fazermos diferente, mas de fazermos a diferença, a mentalidade de trabalharmos e desenvolvermos o nosso talento, a mentalidade Cristiano Ronaldo." O capitão da seleção nacional de futebol entra na mensagem de Natal do primeiro-ministro como metáfora para a ambição que Luís Montenegro quer ver entre os portugueses. O chefe do governo utiliza a habitual comunicação ao país em período festivo para destacar o crescimento da economia portuguesa e para pedir mais. Para além disso, Montenegro mostra-se, ele próprio, ambicioso ao dizer que Portugal vai enfrentar um período de três anos sem eleições nacionais. Neste episódio, esmiuçamos a mensagem de Natal do primeiro-ministro e explicamos o que está escondido nas entrelinhas. Vou conversar com o jornalista Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou Miguel Cordeiro e esta é a História do Dia de sexta-feira, 26 de dezembro. Bem-vindo, Rui.

Olá, Miguel.

Falámos os dois antes de ouvir a mensagem de Natal do primeiro-ministro e até apostámos que certamente iria ter uma referência à The Economist. Agora, não contávamos com uma referência a Cristiano Ronaldo.

É verdade, não contávamos de todo. Acho que o primeiro-ministro quer ser e tem essa ambição de ser o número um. E a The Economist elegeu Portugal como a economia do ano, a número um. À boleia disso, o primeiro-ministro está cheio de ambição e quer se comparar a CR7 no sentido que os portugueses devem ter uma mentalidade não a apontar para ser os melhores, mas imagine-se para serem os melhores de sempre. Temos aqui uma versão de Luís Montenegro para querer provar que o país está tão bem, que ele não quer ser só o melhor primeiro-ministro neste contexto, mas o melhor primeiro-ministro de sempre, uma espécie de GOAT de São Bento.

Sim, isso vai cair um pouco na ambição que Luís Montenegro tanto pede nesta mensagem natal. Mas vamos esmiuçar o que disse o primeiro-ministro nesta mensagem, que começa com mensagens dirigidas a quem está sozinho, a quem trabalha e a quem sofre em período de festas.

Sim, sem dúvida. Isso acaba por ser um habitué das mensagens de Natal, que é aproveitar o fato de estar na noite de Natal para se dirigir a quem está sozinho. É uma forma do primeiro-ministro, se quiseres, abraçar quem está na solidão. Depois também faz sempre o que é da praxe aos vários setores, às várias classes profissionais que estão a trabalhar, médicos, forças de segurança. Desta vez não diz comunicação social, até especifica que é jornalistas, ao contrário do ano anterior, e também com uma referência àqueles que também são vítimas de violência em casa. O ano passado esta referência tinha sido mais evidente, ou melhor, de mais relevo, por quê? O primeiro-ministro um mês antes tinha sido acusado de esvorizar o tema da violência doméstica. Então quando se referiu a estas pessoas, fez questão de dizer, em particular, as crianças e as mulheres. Desta vez não o diz, mas faz questão de dizer novamente que é também para esses que se dirige e deixar uma mensagem especial para essas pessoas que são vítimas dentro da própria casa, que devia ser um local seguro para quem passa o Natal e que muitas vezes não é.

Depois destas mensagens iniciais, Montenegro dá início a uma mensagem que se centra mais na esperança e arranca com esta frase: "A família portuguesa, enquanto país e nação, tem motivos para se reunir e olhar com esperança para o futuro". E explica por quê.

Sim, na verdade, é na mesma linha daquilo que ele quis referir sempre, que está relacionado com a tal distinção da Economist, que é nós fizemos muito bem, nós estamos a fazer um grande trabalho, o país está com ótimos números e não há razão para os portugueses não confiarem que vão ter um futuro risonho. Aí ele até acaba por ser, se quiseres, um bocadinho à Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente tem muito aquela coisa de ser uma espécie de fazer coaching motivacional. E ele faz isso um bocadinho também, vai pela mentalidade de ser português e diz que os portugueses não têm que se acanhar, porque vêm coisas muito boas. Esta ideia de vender um país que está muito bem não é nova também. Os primeiros-ministros aproveitam para isto, exceto quando estão em períodos de grande pressão, têm que fazer o contrário, dizer: "Isto é difícil, mas vamos dar a volta". Aqui neste caso, como os números são positivos, o primeiro-ministro aproveita apenas para pintar um país cor-de-rosa Só numa ou noutra circunstância e dando uma pincelada para aqueles que são os mais pobres, que estão a sofrer, para não ser acusado de ignorar os problemas do país.

Sim, mas de facto este sentimento de esperança fica sustentado em muitos dados. Luís Montenegro dá muitos dados, fala até dos rendimentos estarem a crescer, não só por causa de aumentos que o governo definiu, mas também devido à baixa dos impostos sobre o rendimento. Aponta para essa economia a crescer e acaba por lançar uma intenção, diz que quer garantir mais produtividade e eficiência. Rui Pedro, o que está aqui a fazer o primeiro-ministro está a dizer sem dizer que é preciso avançar com a reforma laboral?

Sim, de uma forma velada, diz que quer essa veia reformista. A certa altura, diz que é preciso essa coragem política, porque ele sabe que é difícil fazer reformas e a capacidade reformista. Não se dirige diretamente, por exemplo, às centrais sindicais que protestam as alterações ao Código do Trabalho, porque vai reunir com elas no início do ano e também não era adequado ao momento natalício, mas fica essa ideia. É claro que depois também refere, por exemplo, a reforma do Estado, que faz parte desse processo que ele quer para tornar o Estado mais ágil e o país mais competitivo. Mas isto vai levar-nos novamente àquele que é a mensagem geral do primeiro-ministro quando diz que não é por termos estes dados que está tudo bem, é preciso continuar a mexer, porque ideia é Cristiano Ronaldo. Não se fica contente com apenas conseguir fazer aquilo que é melhor, mas partir desse melhor para ser excepcional. Ele utiliza até esta expressão e, portanto, parte muito daí esta ideia de Luís Montenegro de que o país está bem. Porque uma acusação que lhe fizeram foi: "Então, se é a melhor economia do ano, por que é que vai mexer no código laboral? Se é a melhor economia do ano, por que precisa estar a reformar o Estado e a reduzir o peso do Estado se as coisas estão a funcionar?" E o que Luís Montenegro está a querer dizer é que há areia na engrenagem, que, no entender dele e na perspectiva dele, mudando essas questões, o país fica ainda mais competitivo, os salários ficam maiores e as pessoas vão viver alegremente no país de Luís Montenegro, claro.

Já regressamos à conversa com o Rui Pedro Antunes, vamos fazer apenas uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, e estávamos a falar da forma como Luís Montenegro aponta para a necessidade de avançar uma reforma laboral. Mas há mais que isso. Montenegro continua a recorrer a metáforas futebolísticas, diz até que não quer um país a jogar para o empate, para apontar outras reformas, como por exemplo, a reforma do Estado.

Sim, era o que dizíamos há pouco. Ou seja, essa mudança que o governo está a tentar fazer com a fusão e com a extinção de alguns organismos, passa precisamente por tornar o Estado menos pesado. Para já, isso ainda não se materializou na dispensa de pessoas, mas certamente que vai haver um travão a novas entradas na função pública, pelo menos na administração central do Estado, precisamente para tornar o Estado mais eficiente e logo menos dispendioso. E o primeiro-ministro acredita que isso é importante para aquilo que é o caminho que o país vai seguir. Não é uma visão absolutamente liberal, porque ele continua a ser defensor da intervenção do Estado em diversos setores, em diversas matérias, mas traz essa metáfora futebolística também na linha daquilo que estávamos a dizer, de que acreditem que podemos ser melhores. E é aí que lhe entra a tal veia, como eu dizia, Marcelo, de os portugueses são os melhores do mundo. Depois, ele não está a fazê-lo propositadamente, mas está a citar António e Variações quando diz que não se pode deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. E utiliza exatamente a mesma expressão dessa popular música. E isso é no sentido de, e também é um provérbio português, deixe-me trabalhar, deixa o Luís trabalhar, deixa-me executar estas reformas, porque amanhã é tarde demais. E, portanto, deixa-me fazer isto agora que as coisas estão a correr bem, porque não é depois, debaixo de uma situação financeira difícil, num contexto em que as coisas possam correr pior por causa da conjuntura internacional, que nós vamos mexer no estado das coisas. Portanto, tudo isso acaba por ser uma espécie de um apelo coletivo a: "Confiem em mim, nós ainda podemos ser melhores se não ficarmos agarrados àquilo que é atualmente, no fundo, as estruturas do Estado e algum medo de mudar."

Uma mensagem muito dirigida aos portugueses, mas que tem aqui também muitos detalhes para o cenário político, para aquilo que é a vida política. E falamos disso porque estamos à beira de uma eleição que pode ter duas voltas, muito provavelmente vai ter duas voltas, mas Montenegro diz nesta mensagem que o país está a entrar num ciclo de três anos e meio sem eleições nacionais. Está certamente a focar essa mensagem já num período pós-presidenciais, mas podemos dizer que está a ser demasiado otimista ao projetar um cenário sem eleições no espaço de três anos e meio?

Claro que está. Eu já abusei aqui, até me troquei todo com a questão dos anglicismos, mas eu acho que ele está com wishful thinking, isso é o que ele quer, que é que, na verdade, chegue até 2029, que é o limite do mandato, se as coisas correrem bem. Agora, na verdade, ele aqui faz vários apelos. Fala, por exemplo, em unidade nacional, não confundir com a União Nacional, que é outra coisa. Fala, por exemplo, nos políticos, ele não diz a palavra, mas colocarem o interesse nacional à frente daquilo que é os seus interesses particulares ou o interesse de cada um. E depois diz isso dos três anos e meio sem eleições nacionais e que permite a todos Que se foquem nesse grande desígnio que é o país. Isto é música para os ouvidos da oposição. André Ventura não quer saber se Luís Montenegro precisa ou não dele para o país crescer mais. José Luís Carneiro também fará as contas dele daqui para frente com base naquilo que forem as sondagens e se calhar em determinado momento também não resistirá a tentar ir a eleições. Portanto, é muito bonito que o primeiro-ministro ache que fique três anos e meio, e até pode acontecer, mas não há garantia nenhuma, é um governo sem maioria, não tem quem lhe aprove o orçamento para 2027, 2028 e 2029. Há três orçamentos, no mínimo, até lá, não contando obviamente com retificativos.

E com outras crises que possam surgir.

E com outras crises que possam acontecer. Pode haver, por exemplo, moções de censura, moções de confiança, essas suscitadas pelo próprio governo, mas pode haver essa circunstância. Casos judiciais que hoje ninguém conhece, podem ter a ver com quem quer que seja, pode até nem ser o primeiro-ministro, pode acontecer com um ministro, com um escândalo qualquer. Tudo muda muito rápido e, portanto, todos esses três anos e meio acaba por ser mais um desejo de Natal do primeiro-ministro, que pode não ter correspondência com a realidade. Agora, deixa-me só voltar ao início da tua pergunta, que é: também dependerá muito se esses três anos e meio se vão concretizar, de quem for o futuro presidente da República. E acho que se for Luís Marques Mendes, é mais provável Luís Montenegro chegar ao fim do mandato do que provavelmente seja o caso de ser outro presidente da República, que poderá eventualmente ser menos simpático com o governo, porque todos vão dizendo que não dissolvem, que o orçamento não passar não é razão para dissolver, mas depois na prática é outra coisa. E portanto, nada nos garante num cenário desta fragmentação do Parlamento, que neste período não há eleições. Eu, por acaso, por razões profissionais, desejava que não acontecessem, para podermos fazer também outras coisas que não seja só andar atrás de eleições.

Eleições. Rui Pedro, há alguma mensagem que tenha ficado nas entrelinhas e que possa ter escapado a um olhar menos atento?

Deixo só aqui dois pequenos reparos, mesmo na parte final. Há uma altura em que Luís Montenegro diz: "Neste Natal, a melhor prenda que podemos dar a cada um de nós é acreditar mais em Portugal". Isto é curioso porque prenda de Natal foi precisamente uma expressão que levou o procurador-geral da República a pedir escusa no processo Spin Viva, por ter sido mal interpretado nessas palavras. Óbvio que temos uma mensagem de Natal, o primeiro-ministro pode ter feito isto inocentemente. Eu gosto é de acreditar que ele é muito profissional e que até fez isto como um pequeno detalhe, quase maquiavélico, e portanto, para dizer que também não se importa muito com isso e que também ultrapassou, e quando ele dá a perspetiva dos três anos e meio, também está a lembrar que ultrapassou a Spin Viva. Segundo detalhe, que é um detalhe, mas que não é assim tão pequeno. O primeiro-ministro deseja, como desejou em 2024, um santo Natal para todos. Há já algumas escolas, alguns locais, tendo em conta a multiculturalidade, que se aconselha a desejar, por exemplo, boas festas ou algo alternativo, para não melindrar judeus, muçulmanos. O primeiro-ministro não quer saber disso e portanto, ele sempre fez afronta àquilo que era um movimento que pedia alguma sensibilidade ou o chamado wokeismo e não está muito preocupado com isso. E na sequência disso, ainda diz outra coisa, que não disse em 2024: "Um Natal com orgulho em sermos portugueses." Isto também vai um bocadinho ao patriotismo. Vai também um bocadinho ao sentido do patriotismo e no orgulho da nação portuguesa. E isto também é o Luís Montenegro que gosta nestas matérias, porque eu acho que ele profundamente é patriótico, de exaltar estas matérias em determinados momentos. Portanto, também não fugiu disso. E isso é bom quando ele quer falar para a direita, para o centro-direita e também para a direita conservadora e patriótica. E portanto, ele não abdica de dizer santo Natal, mesmo que o país seja laico, tendo em conta a tradição do país, que é altamente católica, e também não abdica de dizer aos portugueses para neste Natal, que também acaba por ser um fim de um ano e início de outro, tenham orgulho de ser portugueses.

Obrigado, Rui.

Obrigado, Miguel.

Rui Pedro Antunes é o editor de política do Observador. Nesta história do dia, deixe ainda três destaques que marcam esta sexta-feira. Hoje é o Boxing Day. É um feriado que se celebra em vários países com ligações ao Reino Unido e é um dia que começou a ser assinalado como um dia de folga para quem trabalha no Natal ou até com ligações à caridade, o dia em que se abriam as caixas de esmolas. Atualmente, o Boxing Day tem uma natureza muito mais comercial. Muitas lojas aproveitam o dia para dar início aos saldos e para baixar os preços dos produtos que não foram vendidos até ao Natal. É também, em muitos países, um dia com o desporto no centro das atenções. No Reino Unido, há maratona de futebol a partir de hoje. Nos Estados Unidos da América, entram hoje em vigor as novas medidas de segurança. As autoridades americanas passam a recolher fotografias e dados biométricos, como impressões digitais e características faciais de estrangeiros nos aeroportos, nas fronteiras terrestres e nos portos marítimos. Isto é feito na entrada e na saída dos Estados Unidos. A administração norte-americana diz que um dos principais objetivos é combater o terrorismo e explica que as novas medidas ajudam também a combater o uso fraudulento de documentos de viagem, a permanência para além do prazo permitido e a existência de informações incorretas ou incompletas sobre os viajantes. Para fechar, uma sugestão cultural. Arranca hoje em Lisboa a sétima edição do Festival Emergente. É um festival que procura dar palco à nova geração de música portuguesa independente. Até dia 28 de dezembro, há 18 concertos. Começa hoje o Festival Emergente em Lisboa. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bom fim de semana.