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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Elon Musk pode influenciar as eleições alemãs de domingo?
First of all, I wanted to really say that I'm very excited for the AfD and I think you're really the best hope for Germany.
A 25 de janeiro, Elon Musk apareceu via videochamada num comício da AfD, a Alternativa para a Alemanha. O homem mais rico do mundo, e eventualmente também o mais poderoso do mundo, declara o apoio a Alice Weidel, a líder da extrema-direita alemã, que tem a expectativa de ficar num segundo lugar nestas eleições de domingo. Elon Musk já tinha participado numa conversa no X com Alice Weidel a 9 de janeiro. Musk apoia Weidel e fez críticas públicas ao chanceler Olaf Scholz, o líder dos socialistas. O país mais poderoso da Europa tem eleições este domingo, numa altura em que a Europa lida com a guerra na Ucrânia. Poderá este apoio de Elon Musk à extrema-direita alemã ter alguma influência no resultado destas eleições? É uma das perguntas para o enviado especial do Observador à Alemanha, José Carlos Duarte. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 21 de fevereiro. Bem-vindo, Zé Carlos, onde andas?
Neste momento estou em Hamburgo, na Alemanha.
Só para contexto e para percebermos melhor este episódio da história do dia, o que é o Governo Semáforo e por que este semáforo se apagou?
Este semáforo apagou-se porque entrou em divergência entre ele mesmo. O Governo Semáforo foi formado em 2021, após a vitória do SPD, o partido do chanceler Olaf Scholz, nas eleições, e juntava outros dois partidos, os Verdes e o Partido Democrático Liberal, e esta coligação formou-se apesar de haver interesses já muito divergentes. Portanto, havia um partido liberal na economia, enquanto que os Verdes e os Sociais-Democratas já não defendiam tanto esse liberalismo que o FDP defende. Aquilo que aconteceu foi que houve várias tensões ao longo dos últimos anos, também não foi fácil, houve a questão da guerra da Ucrânia, houve ainda os efeitos da pandemia, e portanto nunca foi uma convivência muito fácil entre os três partidos. Logo depois das eleições norte-americanas, o chanceler Olaf Scholz demitiu Christian Lindner, que era o ministro das Finanças do governo alemão, e foi aí que o governo caiu. O FDP retirou o apoio ao SPD e aos Verdes e ficaram apenas os Verdes e o SPD na coligação. Mas estes dois partidos não tinham número de deputados suficientes para formar uma maioria, portanto, a coligação acabou por cair. Houve uma moção de censura e Olaf Scholz acabou por ser derrotado.
Vamos olhar já para os eventuais resultados do próximo domingo e para os eventuais derrotados. Vão ser o SPD, os socialistas, que estão agora no poder?
Em princípio, serão os grandes derrotados, sim. As sondagens dão resultado na ordem dos 16%. Este resultado é bastante baixo. O SPD é um partido histórico na Alemanha, é um dos grandes partidos no país, e a confirmar-se as indicações das sondagens, será o pior resultado desde 1887.
1887? Século 19?
Sim. Exato. O partido já é bastante antigo, foi fundado em 1863 e, portanto, a confirmarem-se os 16%, será mesmo o pior resultado em bastantes anos.
E caso confirme esta derrota, o atual chanceler Olaf Scholz vai também sair? Ele continua à frente do partido para já, não é?
Para já, até 23 de fevereiro, sim, mas é provável que saia. Se não se demitir no domingo, deverá ser nos próximos dias, esta pelo menos é a expectativa. Uma derrota tão expressiva faz com que não tenha grandes condições para continuar no lugar. E neste momento, para substituí-lo, há dois nomes na calha. Um deles que até houve uma tentativa de certos setores do SPD para que se candidatasse ao cargo de chanceler e substituísse Olaf Scholz, porque as sondagens negativas já vêm de alguns meses. E essa pessoa é Boris Pistorius, o ministro da Defesa, que pode efetivamente substituir Olaf Scholz. Outro nome é um dos braços direitos do próprio Scholz, chama-se Lars Klingbeil e é o atual copresidente do SPD, portanto, já alguém que tem uma influência forte no partido e que é muito próximo de Scholz.
Já regressamos à conversa com o enviado especial do Observador à Alemanha, José Carlos Duarte. Conseguirá Elon Musk ter alguma influência nas eleições de domingo? Estamos de regresso à conversa com o enviado especial do Observador à Alemanha. José Carlos Duarte, vamos olhar agora para os prováveis vencedores e aqui temos que falar da CDU e um senhor chamado Friedrich Merz.
Sim, a CDU, o histórico partido de Angela Merkel, deverá voltar a vencer as eleições, pelo menos é o que dizem as sondagens. O partido obterá cerca de 30% dos votos e voltará ao poder depois de ter saído em 2021, com também uma derrota bastante expressiva na altura. Friedrich Merz tem 69 anos, é advogado e foi político a vida toda. Portanto, ele começou muito cedo na política, ele inscreveu-se na Jungen Union, que é a J da SDU e da SCU Que é o partido irmão da CDU na Baviera. E ele sempre esteve neste círculo político. O pai dele também já pertenceu ao partido, foi alguém que cresceu dentro do partido. Foi trilhando um caminho dentro da CDU. Começou como eurodeputado no Parlamento Europeu, depois passou para o Parlamento Alemão, foi deputado durante vários anos e acaba por sair da política, no momento em que também tinha sido líder da bancada parlamentar da CDU, sai da política porque entra em rota de colisão com a Angela Merkel. Friedrich Merz nunca escondeu que quis chegar a chanceler, nunca escondeu que quer ocupar um cargo de destaque dentro do partido e incompatibilizou-se com as ambições da Angela Merkel. E os dois nunca tiveram uma relação muito fácil, nem hoje em dia têm, apesar de Angela Merkel já ter saído da política, a antiga chanceler não tem qualquer pudor em criticá-lo publicamente. E há aqui uma relação bastante conflituosa que faz com que ele saia da política. Ele volta a ser advogado, volta a ser consultor, volta para o ramo profissional e só regressa à política quando a Angela Merkel diz que a abandona.
Teve à espera desse momento para poder voltar, é isso?
Sim, esteve pacientemente à espera. Ele é uma pessoa considerada bastante insistente, determinada e esteve este tempo todo à espera. Ele é consultor, ele é advogado e um dos fatores que muitos alemães até mostram algum desagrado com, é o fato de ele ser milionário. Friedrich Merz é muito rico, ele confessou numa entrevista que ganha bastante dinheiro por mês, e este fator de ser milionário dá uma impressão de que é uma pessoa que está num pedestal e que não compreende as preocupações do eleitorado. E esse é um ponto que não abona muito a favor de Friedrich Merz. Para além disso, é católico, o que é típico na CDU, tem três filhos e é do oeste da Alemanha, ou seja, é uma pessoa completamente diferente da Angela Merkel, são um bocadinho antítese um do outro.
Exato.
E também outra diferença face à Angela Merkel é o fato dele ser da ala mais conservadora da CDU. Ele é mais à direita do que a antiga chanceler, principalmente na questão dos valores sociais, na questão do aborto.
E isso nota-se no discurso?
Sim, nota-se. Friedrich Merz é muito mais duro no discurso contra as migrações, quer uma política muito restritiva nesse aspecto, o que entra em contradição com aquilo que Merkel defendeu desde 2015, com a política de braços abertos, e ele é bastante mais conservador, apesar de na economia ser mais liberal, ou seja, ele economicamente tem uma visão que o Estado deve ser mais magro, é muito crítico, por exemplo, de subsídios de desemprego, é uma pessoa que está mais à direita do que a Angela Merkel, e que é bastante diferente da antiga chanceler e há aqui uma rutura no partido, e Friedrich Merz vem ocupar aqui um lugar diferente do que ocupava a Angela Merkel.
Mas isso numa altura, e já vamos olhar mais em pormenor para a AFD, em que a AFD está com bons resultados nas sondagens, também pode ser visto como um piscar de olho a um eleitorado mais descontente que esteja mais à direita. É isso?
Sim, sem dúvida, é isso. Também essa estratégia é captar a base eleitoral da AFD, e transferir alguns votos, porque a direita, se formos a ver os resultados das sondagens, tem cerca de 50% dos votos. É uma maioria expressiva, e também depois há os liberais, que também são meio direita e, portanto, há aqui realmente uma vontade da CDU de captar votos da AFD. Mas se por um lado há essa tendência, por outro o partido arrisca-se a perder os eleitores de centro. Na Alemanha é muito importante manter esses eleitores que estão entre o centro-esquerda e centro-direita na base eleitoral.
E por falar em resultados previsíveis, Zé Carlos Duarte, a CDU apesar de estar como favorita nas sondagens, vai precisar de parceiros para conseguir formar governo, ou não?
Sem dúvida. É muito difícil um partido ter maioria absoluta na Alemanha, o sistema não o permite tão facilmente, por causa da história do país, e a CDU deverá ter de se unir. Há dois parceiros em cima da mesa, o SPD, o partido do Olaf Scholz, e faz, nessa lógica, sentido que o chanceler saia, porque estar aqui a coordenar o processo de transição tendo em conta o cargo que ocupou, é um pouco estranho, e poderá haver aqui um bloco central, ou então pode ser os Verdes. Mas será um pouco difícil, são partidos um bocadinho diferentes, mas a porta não está completamente fechada. De resto, Merz insiste que não se vai coligar com a AFD, está fora de questão, o cordão sanitário à extrema-direita vai manter-se, pelo menos é aquilo que promete. E os partidos de esquerda não deverão, obviamente, fazer parte desta coligação. E os liberais, que são o parceiro mais ou menos natural da CDU, podem nem sequer atingir os 5%, que é a marca para chegar e para eleger para o Parlamento alemão. Merz terá muito provavelmente de escolher entre os sociais-democratas ou os Verdes.
A grande vencedora poderá ser mesmo Alice Weidel, da Alternativa para a Alemanha. Falamos desta senhora aqui na História do Dia, no episódio de terça-feira contigo, Zé Carlos. O segundo lugar será uma vitória para ela? E, por ora, como é que lhe tem corrido a campanha?
A campanha tem corrido mais ou menos. É uma campanha muito protegida. É muito difícil chegar, por exemplo, aqui na Alemanha, entrar em contato com membros da AfD. Eles não respondem a jornalistas, eles têm uma bolha muito protegida, não querem que haja escândalos, porque são um partido também que tende a que certos escândalos aconteçam. Mas a Alice Weidel tem feito uma campanha consistente, tem mostrado a sua mensagem, tem tentado normalizar o partido, tem tentado que ele entre no mainstream político, e eu acho que essa será a grande vitória da Alice Weidel. E o segundo lugar será uma prova disso. Será que votar na Alternativa para a Alemanha já é uma coisa que um quinto dos alemães ou um quinto dos eleitores alemães faz. E portanto, é cada vez mais natural que o partido ganhe preponderância na cena midiática, ganhe preponderância também política, e isso realmente é uma vitória para um partido que é visto como sendo muito extremista, muito radical. Convém lembrar que, por exemplo, no Parlamento Europeu, a AFD não está na mesma família política do Chega, o Vox, a União Nacional da Marine Le Pen. Portanto, é um partido que ainda está numa família política mais à direita do que a família dos patriotas europeus, que é onde está, por exemplo, o Chega.
Alice Weidel participou numa conversa com o Elon Musk, que foi transmitida online, e o empresário criticou, também tem criticado abertamente o chanceler Scholz, e declarou mesmo apoio à AFD, à extrema-direita. Este apoio, Zé Carlos, está a ter alguma influência no debate? Isto poderá ter alguma influência nos resultados deste domingo?
As sondagens provam que depois dessa conversa, a AFD cresceu nas intenções de voto. Portanto, eu acho que sim. Acho que o apoio do homem mais rico do mundo, com uma plataforma que chega a tantos eleitores e tantas pessoas, é realmente um bônus para a Alice Weidel, que acaba por assim ganhar um palco que dificilmente teria. Torna-se mais conhecida na Alemanha, torna-se mais conhecida internacionalmente e ganha aqui uma série de possíveis seguidores que não teria se não tivesse tido aquela conversa. Ao mesmo tempo, é muito importante a ideia de a Alternativa para a Alemanha estar a aproximar-se do mainstream político e estar a aproximar-se de mais eleitores. E esta conversa com o Elon Musk dá-lhe essa visibilidade, dá essa montra que também é importante para ganhar votos e para ganhar apoios. E realmente esta conversa pode ter impacto, mas o que é certo é que também Elon Musk tem apoiado certos candidatos de direita e seria aqui uma espécie de uma internacional de extrema-direita que ele estaria a formar. Por exemplo, eu falo na questão da Roménia. Em várias eleições, ele apoia sempre o candidato mais à direita. No Reino Unido já apoiou, apesar de depois ter se chateado com o Nigel Farage. Alice Weidel acaba aqui por se juntar à constelação de políticos que Elon Musk quer que governem o mundo. Isso dá-lhe, talvez, alguma visibilidade e alguma normalização do partido. Mas um eleitor que não gosta dessas ideias e que seja contra essas políticas dificilmente vai votar só porque Elon Musk conversou com a Alice Weidel. Portanto, sim, ganha visibilidade, mas não acho que seja assim tão preponderante para que dê um impulso tão forte à campanha da AFD.
Obrigado, Zé Carlos.
Obrigado, Ricardo.
José Carlos Duarte é o enviado especial do Observador à Alemanha. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.