Sabem o que quer dizer as siglas AfD? Alternativa para a Alemanha. É isso mesmo, o partido da direita nacionalista alemão afirma que é a única alternativa para a política alemã. O que fazem todos os outros partidos na Alemanha? Dão razão à AfD. A recusa de fazerem entendimentos, coligações, de simplesmente conversar com a AfD, faz do partido a única alternativa para a Alemanha. Seria muito difícil imaginar uma estratégia mais teimosa, mais cega e mais estúpida do que esta.
Vejamos o que aconteceu nas últimas eleições regionais alemãs. Na Alta-Saxónia ganhou a AfD com cerca de 44% dos votos, ficando a três deputados da maioria absoluta. Acabará no governo regional de uma das duas maneiras seguintes: três deputados regionais da CDU juntam-se à AfD, ou um dos partidos da extrema-esquerda alemã (o BSW, igualmente anti-imigração, pró-Rússia e anti-UE) deixará passar um governo minoritário da AfD. Acho muito bem, e espero, que a AfD governe na Alta-Saxónia. Em democracia, os partidos que vencem eleições devem governar e depois avalia-se o seu desempenho.
No último domingo, houve mais duas eleições regionais. Uma, noutro Lander da antiga Alemanha de Leste, Mecklenburg-Vorpommern (Meck-Vop), onde a AfD voltou a ganhar, desta vez com 38%, ficando longe da maioria absoluta. Haverá um governo de coligação entre o SPD, os Verdes e a extrema-esquerda do Die Linke. Como nenhum outro partido alcançou os 5% dos votos, o mínimo para eleger deputados, haverá uma situação extraordinária: o partido mais votado será o único partido da oposição. Numa democracia representativa, é legal e legítimo, mas não melhora a qualidade do regime democrático. Pelo contrário.
Em Berlim (um Lander independente), ganhou a extrema-esquerda, o Dei Linke, também sem maioria absoluta. Há duas coligações possíveis. Uma entre a CDU (segundo lugar), o SPD e os Verdes, para afastar a extrema-esquerda do poder. Outra entre o Die Linke, o SPD e os Verdes. Espero que a CDU não alinhe com as esquerdas e deixe o SPD e os Verdes governarem Berlim com a extrema-esquerda. Repito o que disse sobre a AfD: quem vence eleições deve governar e depois ser avaliado pelo que fez.
Mas há uma conclusão que se retira destes três exemplos. A AfD é mesmo a única alternativa para a Alemanha. Nenhum partido se entende com eles, e todos os outros governam uns com os outros, com a excpção honrosa da CDU que se recusa a fazer acordos com o Die Linke. Eu também entendo que o SPD e os Verdes recusem fazer acordos com a AfD. Por isso, compete à CDU resolver o problema chamado AfD.
Para o fazer, a CDU tem que entender três questões fundamentais. A primeira é histórica. A AfD é um partido que defende posições detestáveis, a começar pela guerra na Ucrânia, tem militantes racistas, é contra a União europeia, mas não é um partido nazi. Mais, não pode ser um partido nazi porque a actual Alemanha nada tem a ver com a República de Weimar. Hoje, existe uma tradição democrática que nunca existiu em Weimar. Há instituições e uma Constituição fortes, respeitadas pela grande maioria dos alemães, que nunca houve em Weimar. O contexto internacional é completamente diferente, e a Alemanha não saiu de uma enorme derrota militar. Quem quiser saber mais, e se recusar a usar chavões históricos para tácticas políticas rasteiras, leia um livro publicado este ano, de uma historiadora alemã (Katja Hoyer), Weimar: Life on the Edge of Catastrophe. O título do capítulo da conclusão chama-se: “Berlin is not Weimar.”
Em segundo lugar, a CDU tem que respeitar a democracia. Mais do que o regime dos partidos, a democracia é o regime dos eleitores. A CDU não pode recusar conversar com um partido que vence eleições regionais, que lidera as sondagens e que ficou em segundo lugar nas últimas eleições. Não só essa recusa condena a CDU a governar sempre com o SPD, como a prazo ameaça a legitimidade democrática. Uma democracia não pode viver sempre com o mesmo governo independentemente dos resultados eleitorais.
Finalmente, a CDU tem a obrigação de incluir a AfD no interior da “ética da responsabilidade política” (relembrando um conceito de um grande pensador alemão, Max Weber), e não deixá-la num estado permanente de “irresponsabilidade demagógica.” A responsabilidade política adquire-se nas negociações com outras forças políticas habituadas a exercer o poder, neste caso a CDU, e assumindo obrigações políticas. A CDU tem que começar a conversar rapidamente com a AfD. O respeito pelas regras da democracia não permite linhas vermelhas contra partidos. É uma ofensa aos eleitores desses partidos. As linhas vermelhas só se aplicam a políticas concretas. Mas isso exige negociações democráticas.