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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que muda para a comunidade portuguesa com as mortes em Boston e na Universidade Brown?

É sempre um choque. Os portugueses aqui estão bem adaptados. E ninguém imaginava que fosse um português. Quando recebi a notícia que vi na televisão, no canal americano, até pensei que fosse na América Latina ou espanhóis, por causa do nome. Mas depois quando confirmaram que era um português, uma pessoa fica sempre em choque.

Fernando Gomes, dono da Casa de Portugal, na Cambridge Street, em Boston, é uma espécie de porta-voz do sentimento da comunidade portuguesa. A morte do físico português do MIT, Nuno Loureiro, à porta de casa, deixou todos em choque. Nada fazia prever também que este homicídio estivesse relacionado com um tiroteio, dias antes, na Universidade Brown, em que morreram duas pessoas. Entre a comunidade portuguesa, o sentimento ganhou maior dimensão quando se soube que Cláudio Valente, também português, era o principal suspeito dos dois ataques, o que levou mesmo o presidente norte-americano a suspender o programa de lotaria de vistos, que deu o green card a este português. Vou conversar com Miguel Pinheiro Correia, jornalista da seção de sociedade Observador, enviado especial a Boston, para perceber como a comunidade portuguesa e acadêmica viveram este momento. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quarta-feira, 24 de dezembro. Bem-vindo, Miguel.

Viva, Luís.

Miguel, tens passado estes últimos dias junto da comunidade portuguesa em Boston. Foste também visitar a Universidade Brown. Mas vamos começar por Boston, onde vivia Nuno Loureiro. Estiveste junto à casa do português em Brookline, o local onde ele foi baleado. Ainda há marcas daquilo que aconteceu, Miguel?

Em Brookline, que é uma zona residencial nos arredores de Boston, a cerca de 20 minutos, pouco mais de carro, fica muito perto, há uma comunidade, sobretudo de reformados, pessoas mais velhas, também adultos, mas sobretudo pessoas que vivem só em Brookline e que trabalham em Boston, tal como o Nuno Loureiro. E naquele local não há grande movimento, além de pessoas a passear os cães, a vida comum das pessoas perto de casa, mas na rua exata onde vivia Nuno Loureiro com a família, com a mulher e as três filhas, nota-se ainda aquele que é o local onde o Nuno foi baleado. Nas escadas que dão pra casa, tem velas e flores. Muitas pessoas têm passado lá, pessoas que estão a passar de carro e param o carro pra olhar, porque sabem o que aconteceu ali, sabem que alguém morreu ali, um português, um físico do MIT, e por isso há muitas pessoas que vão lá. Os vizinhos contam que nos dias anteriores houve ainda mais movimento, além de muitos jornalistas e até polícia, mais no dia em que isto aconteceu, mas tem havido sempre mais movimento do que é normal. É uma zona bastante calma, uma zona residencial, perto tem a casa onde nasceu John F. Kennedy, que é o único sítio onde concentra mais movimento, tem turistas, mas mesmo assim é muito residual. Portanto, é uma zona com pouquíssimo movimento e onde as pessoas estranham aquilo que foi acontecer, porque é uma zona calma demais pra ter um acontecimento destes.

De resto, falaste com alguns vizinhos, algumas pessoas que encontraste ali por aquela zona. O que te contaram sobre o dia em que tudo aconteceu, Miguel?

Uma área das pessoas recorda-se melhor, uma área não ouviu tiros, mas recorda-se, sobretudo, do que aconteceu depois de ver as sirenes da polícia. Há uma vizinha, em particular, a Melissa, que me disse com os olhos tristes e com a voz também um bocado, notava-se que ainda estava abalada por aquilo, aliás, como quase todos os vizinhos, porque mesmo aqueles que não conheciam o Nuno Loureiro, que ainda são alguns, lembravam-se de vê-lo com as filhas, com a mulher, ali a passear, e tinham-no como uma pessoa educada, sem grandes contactos com ele, mas tinham esse respeito, pelo menos. E essa vizinha, a Melissa, estava em casa no dia em que o Nuno Loureiro foi baleado e lembra-se de ouvir os tiros. Ouviu os tiros, imediatamente, tendo em conta que é uma zona onde nada acontece, foi à janela correr pra ver se via alguma coisa, já não viu grande movimento. Depois de passado pouco tempo, disse ela, começou a ver as luzes das polícias e então os policiais começaram a ir à casa das pessoas, a perguntar o que tinham visto, o que sabiam. Ela, como a maioria dos vizinhos, que depois falaram comigo, não viram grande coisa, não viram o suspeito a balear e a fugir. Viram só esta-

O aparato.

O aparato, sim, as luzes das polícias, os polícias a ir à casa e depois, como disse, jornalistas e muitos vizinhos que participaram em vigílias, em homenagens, ali à porta do número 9 da Gibbs Street.

Estiveste também numa rua que é a mais portuguesa de Boston, a Cambridge Street, que de resto não fica muito longe desse local que estavas a descrever, do local onde vivia Nuno Loureiro. Que rua é esta exatamente, a Cambridge Street, Miguel?

A Cambridge Street, em relação à casa ou à rua onde vivia Nuno Loureiro, fica uma zona bem mais central e é uma rua muito grande, que, segundo me contam os portugueses que encontrei nesta rua, dantes era dominada praticamente pelo comércio português. Tinha cafés portugueses, restaurantes portugueses, lojas onde vendiam artigos portugueses, sobretudo E é esta a rua mais portuguesa de Boston, assim me descreveram. E num dos locais, entrei na Casa de Portugal e o dono desse estabelecimento disse que agora já não, que agora há muitos menos portugueses, sobretudo as segundas gerações ou terceiras gerações, que já não estão tão ligadas a Portugal e que, por isso, já não comem tanto os produtos típicos, já não compram tanto os produtos portugueses. Mas é uma rua, efetivamente, com muitos portugueses, sobretudo Açores e Madeira. Há vários clubes açorianos e madeirenses nesta rua. E esta comunidade sentiu mais de perto esta perda do Nuno Loureiro, que aliás também frequentava algum destes sítios.

Nomeadamente o Café Fayalense, onde estiveste, Miguel, e onde se realizou também uma homenagem a Nuno Loureiro. Mas o certo é que um pouco por todos os locais onde se fala português nessa rua, o que aconteceu na semana passada é tema de conversa ainda.

Sim, ninguém esquece, sobretudo a comunidade portuguesa nestes vários cafés não esquece o que aconteceu a Nuno Loureiro, os que conheciam e os que não. Aqui nestes espaços, alguns já tinham visto Nuno Loureiro, porque ele era presença, pelo menos no Café Fayalense. Havia uma associação de portugueses nos Estados Unidos, que tem um núcleo muito forte em Boston, uma associação de pós-graduados que realiza, volta e meia, convívios neste Café Fayalense e o Nuno Loureiro era membro desta associação. E também por isso, e por essa ligação a Portugal, foi este o espaço que a família e os amigos escolheram para fazer um almoço de convívio, uma espécie de funeral, como descreveram algumas pessoas com quem me cruzei à porta do Clube Fayalense. Um convívio para homenagear um colega, um amigo, pai, que partiu. Mas fora do Café Fayalense, também noutros cafés, as pessoas falam do que aconteceu e o fato ter sido um português a morrer e o principal suspeito ser também um português, tudo isto afetou muito estes portugueses que já vivem nos Estados Unidos há algum tempo, como o Nuno Loureiro, mas que têm esta ligação inabalável a Portugal.

E de resto, qual é o sentimento dos portugueses com quem falas? Há receio, por exemplo, de que aquilo que aconteceu possa dar má imagem à comunidade portuguesa, que possa ter algum tipo de consequência?

Sim, precisamente sobre essa questão, ainda ontem, a regressar da Universidade de Brown, onde também fui, estava a falar com um senhor chamado Alp, se não me engano, e que ele dizia que ele vive numa zona em Providence, que é já aqui afastado de Boston, já pertence a outro estado. E ele vive numa zona com muitos portugueses e ele manifestava mesmo essa preocupação de não crer que isto afetasse os portugueses, de quem tem boa imagem e com quem tem uma relação. E a verdade é que, voltando a Boston e sobretudo à Cambridge Street, os portugueses com quem falei disseram mesmo isso, que esperam que isto não tenha nenhum impacto na forma como é vista a comunidade e eles acreditam mesmo que não vai ter impacto. E eles sustentam isso com o facto de Portugal ter uma ligação, sobretudo esses imigrantes portugueses, então dos Açores e da Madeira, como referi, terem uma ligação já muito antiga, de há muitos anos, aqui a Boston e não só, mas aos Estados Unidos. E por isso eles acreditam que já é uma ligação tão antiga e a comunidade portuguesa está tão bem instalada e com respeito e com pessoas de todas as áreas, seja neste comércio, nestes cafés, seja professores, investigadores no MIT. Ou seja, é uma comunidade que está bem integrada e, por isso, a maioria dos portugueses acredita que não vai ter impacto, que as pessoas sabem distinguir um possível atirador português do resto da comunidade. Ficaram mais tristes, porque os portugueses têm boa imagem aqui e ninguém suspeita ou ninguém acreditava que pudesse ter sido um português. E acho que essa dor que estes portugueses transmitem ao falar sobre este acontecimento, vai mais por aí do que um possível impacto que possa ter na imagem da comunidade.

Já vamos continuar a conversa com Miguel Pinheiro Correia. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Miguel Pinheiro Correia. Visitaste também a Universidade de Brown, como dizias há pouco. O ambiente que encontras por estes dias ou que encontraste por estes dias, também porque estamos aproximados no Natal, era bastante calmo, o que contrasta com os momentos de tensão que te relataram.

Sim, a Universidade de Brown, como eu estava a dizer, em Providence, já afastada cerca de uma hora de comboio de Boston, tem um campus bastante grande. A universidade é muito antiga, é uma das mais antigas dos Estados Unidos, e estava quase deserta. Passeavam por lá alguns alunos que não regressaram a casa ou por não ligarem muito ao Natal ou porque simplesmente é mais económico ficar nos Estados Unidos. Cruzei-me com alguns e todos me diziam que, de facto, era incomparável o movimento que tinha ali, que tinha na semana passada ou quando foi o atentado. De facto, ainda está muito presente nas pessoas com quem falei, todos ainda muito comovidos, mesmo os que conhecem amigos entre as vítimas e os que não conhecem. Todos sentiram este tiroteio de uma forma muito particular, porque Eles destacam que é uma universidade e é uma zona, Providence e Rhode Island, muito calma, não há tiroteios como há noutras zonas dos Estados Unidos e essa razão fê-los ficar mais comovidos e mais abalados com este acontecimento. Ontem, quando estive na universidade, nesta segunda-feira, alguns memoriais, algumas homenagens, pessoas a levar velas, flores, notava-se que há ali uma ligação da comunidade de estudantes, e não só, ao que aconteceu e à tragédia que aconteceu.

Entre os relatos que tiveste, Miguel, conseguiste falar com um aluno que escapou por muito pouco do momento do tiroteio.

Sim, um jovem vietnamita. Todos os jovens com quem eu falei, todos os estudantes com quem eu falei, que presenciaram, de alguma forma, este ataque, que estavam no campus ou perto dele, preferiram falar sem o nome. E este jovem, em particular este vietnamita, conta que frequenta muitas vezes o edifício onde foi o atentado. Ele é estudante de engenharia biomédica e disse que tinha acabado de chegar a casa quando começou a receber as mensagens da universidade. Até me mostrou o telemóvel e eram dezenas de mensagens de alertas da universidade, a dizer primeiro que havia um atirador, depois a dizer para os alunos se esconderem, com várias recomendações da segurança da universidade. E ele disse que tinha acabado de sair desse edifício onde está regularmente e que, por isso, teve sorte, nas palavras dele, por não ter estado lá quando isto aconteceu. E como ele, há outros relatos de outros jovens que passam por ali, que conhecem a comunidade e que ficaram muito abalados por tudo o que aconteceu e acho que ainda está bastante presente em todos eles.

E apesar da morte do suspeito ser o autor do ataque, ainda notaste bastante segurança nesse campus, Miguel.

Sim, havia mais polícias, até mais jornalistas, sobretudo aqui dos Estados Unidos e de Boston, do que estudantes. Eram poucos. A polícia passava quase a cada cinco minutos, passava um carro da polícia a controlar o local, a confirmar se estava tudo bem. E nota-se ainda muito essa presença policial, muitos locais ainda vedados ao público. A universidade também tem reagido a estes acontecimentos. Recentemente ordenaram duas avaliações internas para avaliar tanto a resposta ao atentado em si, tanto a resposta da polícia, que teve algumas críticas, sobretudo pela demora em identificar o autor dos disparos, mas também há uma avaliação à organização em si da polícia, que entretanto também já levou ao afastamento, a uma licença sem termo. Pelo menos vai ficar afastado durante algum tempo um dos chefes da polícia e a universidade anunciou isto agora. Ainda se saberão mais coisas no futuro sobre se a resposta poderia ter sido outra, mas para já acho que é azar destes alunos que viram este espaço que frequentam todos os dias ser atacado desta forma e agora restam as flores, as velas e as lembranças destes alunos, que foram homenageados com vigílias, missas, até uma aluna que pertencia a uma comunidade católica e o outro aluno, as duas vítimas mortais, e o outro aluno que pertencia a uma comunidade de muçulmanos tiveram as suas homenagens e acho que é isso o mais importante a reter.

E também, à semelhança do que acontece em Boston, também entre a comunidade académica em Brown, se procuram respostas para aquilo que aconteceu.

Tanto em Boston como em Providence, ou seja, tanto as pessoas ligadas a Nuno Loureiro como os estudantes que conviveram com este ataque, preferem neste momento o silêncio. Têm algum receio de falar, não sei se para comprometer alguma coisa ou só para poder fazer o luto da forma devida, mas há algum silêncio em torno do que aconteceu. Agora, quando falam, é sobretudo para apontar esta confusão com o que aconteceu. Por que é que este homem, este português, aparece na vida de Nuno Loureiro passado tanto tempo? E por que este homem, este português, que estudou também na Universidade Brown há algum tempo, volta lá? E há relatos também, esta terça-feira, saiu na comunicação social americana relatos de um porteiro que disse que viu o suspeito a passar várias vezes ou a passear várias vezes pelo campus e que achou suspeito e reportou às autoridades, mas que não resultou em nada. E há esta dúvida: por que isto aconteceu? Qual é a relação entre os dois locais? Qual é a relação entre a Universidade Brown e Nuno Loureiro? Há muitas dúvidas, ou são bem mais as dúvidas do que as respostas que estas pessoas têm e que acho que para fazerem o luto ou para poderem encerrar, de vez, este assunto, claro, e algumas pessoas disseram-me que não se sentem propriamente aliviadas com a morte do suspeito, porque é a morte de uma pessoa, evidentemente, e até preferiam que ele fosse julgado e condenado, se se confirmasse o que fez, mas querem perceber mais do que quem fez, perceber por que fez. E acho que é essa a pergunta que as pessoas mais vão fazendo aqui nos Estados Unidos, tanto em Boston como em Providence.

É a pergunta que fica. Obrigado, Miguel. Bom regresso.

Obrigado eu e bom Natal.

Miguel Pinheiro Correia é jornalista da secção de sociedade do Observador, que por estes dias esteve em Boston e na Universidade Brown. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas a ter em conta esta quarta-feira, véspera de Natal. Em Fazendas de Almeirim, a Paróquia de São José dinamiza a fogueira de Natal. Vai ser acendida às 16h, no terreno da igreja paroquial, e assim vai ficar até 3 de janeiro, num dia em que vai ser oferecido à população um bolo rei com mais de 50m. Um pouco por todo o país, pode aproveitar para passear pelos mercados de Natal e fazer aquelas compras de última hora antes da noite de consoada, sem esquecer a Missa do Galo, à meia-noite, em várias igrejas. Pode também seguir o percurso do Pai Natal, por exemplo, através de um tracker no site do Observador, que mostra o percurso dos presentes pelos vários pontos do globo. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos no início do programa foi recolhido pelo Miguel Pinheiro Correia em Boston. A sonoplastia é do Artur Costa. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Um feliz Natal.