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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A que devemos estar atentos nas eleições autárquicas de 12 de outubro?
Penso que os resultados vão ser muito locais. E mesmo nos grandes municípios, isto é, na área metropolitana de Lisboa e do Porto, eu penso que vai pesar conhecer ou não os candidatos, o que eles fizeram no passado, o que é que vão fazer no futuro, que posições tomam sobre a autarquia, muito mais do que temas nacionais. É o que me parece que está a acontecer, pelo que se percebe, nomeadamente nas grandes áreas metropolitanas.
O Presidente da República antecipou desta forma este período de campanha eleitoral rumo às eleições autárquicas. Marcelo Rebelo de Sousa explica que os portugueses sabem distinguir eleições e que os temas em discussão nestes dias são maioritariamente locais, centrados nos problemas específicos de cada município ou freguesia. No próximo dia 12 de outubro, o país vai novamente a votos. São 308 autarquias e assembleias municipais e mais de 3 mil freguesias. Este ano, há também 89 autarcas que estão de saída devido à limitação de mandatos. Antecipamos aquilo que pode acontecer no próximo domingo, as lutas que vão aquecer durante esta semana de campanha e a possibilidade desta eleição ter um impacto na política nacional. Vou conversar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de segunda-feira, 6 de outubro. Bem-vindo, Rui.
Olá, Miguel.
Portugal tem mais de 300 municípios, mais de 3 mil freguesias. É difícil nestas eleições estar atento a tudo, mas já sabemos à partida que há vários pontos de interesse. Vamos começar por algo que se espera que aconteça em todo o país: o crescimento do Chega.
Sim, o crescimento do Chega vai ser mais do que evidente, além de o partido poder ganhar algumas autarquias e até agora estávamos limitados, além dos independentes, basicamente a três grandes forças autárquicas, que era o PSD, o PS e o Partido Comunista, que tem vindo a perder força nos últimos anos, e com o CDS, com algumas Câmaras, nunca teve mais do que cinco, seis Câmaras nos últimos anos, o limite era o tal penta ou hexa, que eles gostavam de chamar. O Bloco de Esquerda teve em tempos uma Câmara, mas também não foi muito tempo e nunca mais conseguiu. E o Chega já tinha conseguido vários eleitos em 2021 e agora certamente terá muitos votos, tendo em conta aquilo que é o ensaio das eleições legislativas. E portanto, o que é de esperar é que poderá não ser tão impressionante o número de autarquias que o partido vai ganhar, porque aí poderá até ficar aquém, por exemplo, do Partido Comunista ou até do CDS, porque não é fácil ganhar seis Câmaras ou sete Câmaras, se o CDS mantiver as que tem, mas terá a ver com a votação e portanto com a quantidade de votos que o Chega vai ter, porque tem de facto uma grande implantação nacional e também com o número de vereadores que vai eleger. Ou seja, em muitos dos municípios vai ter que passar a haver esse fator Chega. E abre aqui uma outra margem que muda tudo, que é perceber se a entrada do Chega prejudica diretamente o Partido Socialista ou se, por outro lado, rouba votos em alguns municípios ao PSD, permitindo ao Partido Socialista vencer nesses municípios. Há um exemplo muito específico disso que é Évora, que havia umas sondagens que dava o PS à frente, porque Pedro Pinto era um candidato forte do Chega, com Cristóvão Norte do PSD, então o candidato do PS estaria à frente porque dividiu o eleitorado. Mas isso não é líquido, isso não acontece assim sempre e portanto há essa dúvida sobre a quem é que o Chega vai roubar votos e a minha suspeita é que vai roubar votos a todos.
Mas tal como acontece com o Chega, há outros partidos em que se espera um crescimento natural por causa daquilo que tem acontecido nas últimas legislativas, por exemplo. Estou a falar aqui de partidos como o Livre e a Iniciativa Liberal. Podemos esperar também um crescimento natural aqui?
Sim, no caso do Livre, em Lisboa, onde é bastante forte, decidiu ir na coligação e, portanto, a lógica do Rui Tavares e da direção do Livre e dos militantes do Livre foi tentar tudo menos moedas e portanto, já será naturalmente uma vitória se conseguirem contribuir para que a direita saia do poder local na capital do país. No Porto vão sozinhos, mas até podem contribuir ao contrário, que é para roubar algum voto a Manuel Pizarro e até ajudar, de alguma forma, a eleição de Pedro Duarte. A IL, nessas duas grandes cidades, acabou por ser mais pragmática e portanto, apesar das divergências, integra a coligação nas duas cidades para tentar que a direita fique no poder nessas duas, ou melhor, para evitar que o Partido Socialista chegue ao poder nessas duas cidades. Isto estende-se, por outro lado, por exemplo, no caso de Gaia, a Iniciativa Liberal apoia o Luís Filipe Menezes e isso foi alvo de crítica interna por causa de algumas dúvidas éticas do passado e do despesismo, etc. Mas, por exemplo, em Oeiras, a Iniciativa Liberal não abdicou De ir com candidato próprio, ou melhor, não apoiar o candidato que o PSD apoia, que é Isaltino Morais, precisamente por causa dessas dúvidas éticas. E depois há Rui Rocha em Braga, um ex-líder a concorrer, que também pode estragar bastante a vida ao PSD, que enfrenta dificuldades nessa importante cidade do norte do país. Vemos aqui uma Iniciativa Liberal a jogar nestes tabuleiros e o Livre também a tentar usar a sua força. Agora, se me perguntares que vamos olhar pro mapa e no dia seguinte tem muitos eleitos na vereação, não conto que nenhum dos partidos tenha, mas sim nestes grandes centros urbanos onde se movimentam, conseguirem ter um vereador e fazer parte da solução que lidera o executivo, eles podem se considerar vencedores. Agora é preciso que vençam essas câmaras em que fazem parte de coligações.
Falemos então mais concretamente de alguns duelos. Já detalhaste aqui alguns, mas alguns duelos que podemos antecipar que vão ser interessantes. No Porto, temos um recorde de candidatos e certeza de que há uma mudança.
Sim, Rui Moreira já não continua, apesar de um trabalho que nós publicamos no Observador agora no último fim de semana, precisamente que tem a ver com de onde é que param as pessoas que apoiavam Rui Moreira, presidentes de junta ou agora, ou ex-chefes de gabinete, ou antigos vereadores. E na verdade, eles estão divididos por quatro candidatos, pelo PSD, pelo PS, pelo Chega, até pelo Chega, e também pela candidatura independente de Filipe Araújo, o que mostra bem que o moreirismo ainda é um ativo no Porto e que todos estão a tentar ir buscar o melhor da imagem de Rui Moreira pra tentarem vencer. Mas há uma imprevisibilidade grande, e essa imprevisibilidade acontece ao nível dos dois grandes candidatos à vitória, que é Pedro Duarte e Manuel Pizarro. Parecia que o médico e ex-ministro Manuel Pizarro estava mais forte nas sondagens, e nas últimas sondagens, Pedro Duarte conseguiu colocar-se ao mesmo patamar de Manuel Pizarro, porque à partida, o grande crescimento do Chega estava a prejudicá-lo e apesar do Chega ter força, não o prejudicou o suficiente pra sair dessa corrida. Portanto, está tudo em aberto no Porto, e eu diria que os últimos dias vão ser fundamentais para definir quem é que vai vencer e quem é que vai ganhar a cidade, sendo que todos eles, creio que aí nesse aspecto, dariam muito jeito a Pedro Duarte, os votos do Filipe Araújo, por exemplo, e essa candidatura forte e um Chega forte prejudica sempre a eleição do candidato do PSD.
Já vamos continuar a conversa com Rui Pedro Antunes. Por agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Rui, já falamos do Porto, falemos um pouco do Algarve. Aqui, neste caso, o Chega pode ter, de facto, maior crescimento. Aconteceu nas legislativas. E olhando para este cenário no Algarve, é de esperar também que PSD e PS continuem à procura de segurar alguns municípios. Portanto, será muito provavelmente no Algarve que vamos ter uma luta mais acesa entre três partidos.
Sim, o fato de existirem três forças que divide bastante a votação, e isso permite que com pequenas porcentagens e com algumas centenas de votos, se possa vencer uma autarquia. O Chega tem, como falávamos aqui há pouco, a hipótese de vencer Faro, não é assim tão improvável, está na luta com o PSD e o Partido Socialista. E na verdade, o atual líder parlamentar Pedro Pinto é o candidato. Seria também interessante perceber como é que seria se algumas dessas figuras começam a vencer autarquias a sul e depois como é que é a experiência autárquica do Chega e se Pedro Pinto iria mesmo viver pra Faro, ou na verdade, pra Câmara de Faro. E ali perto, por exemplo, na Câmara de Albufeira, um antigo deputado do PSD, Rui Cristina, que atualmente é deputado do Chega, creio que também tem a hipótese, de acordo com sondagens que vão circulando, de vencer a autarquia. E portanto, isso significa que não será de estranhar, dei estes dois exemplos, mas há outros, de que o Chega consiga, de facto, essas presidências de câmara eventualmente no Algarve. Claro que pode não conseguir nenhuma, isso também está em cima da mesa, mas só a força do Chega no Algarve dar-lhe-á não só a possibilidade de ter algumas presidências de câmara, como dá vereadores, deputados municipais, juntas de freguesia, e isso vai ser uma mudança no mapa. Isto remetendo-nos um bocadinho pro início da nossa conversa, que é, de facto, o Algarve é muito Chega, e isso vai passar a ser notado também nos órgãos autárquicos. E aí já o Chega também passa a ser responsabilizado ou pelo lixo que está na rua, ou pelo acesso às praias, ou pela forma como não é limpa a serra de Monchique ou do Caldeirão. Portanto, já passa a haver uma responsabilidade sobre o Chega.
Ou por eventuais casos de corrupção que possam surgir, que vêm surgindo em várias autarquias do país.
Com o poder também vêm esses problemas. E aliás, sempre que o Chega tem tido eleitos ou candidatos, não tem corrido bem, porque tão longe de ter a ficha limpa, e há vários casos polêmicos à volta de alguns dos candidatos e até eleitos do Chega nos últimos anos. E portanto, é muito curioso perceber essa chegização do Algarve, o que é que vai dar agora. Que o Chega tem boas possibilidades, conquistar autarquias e ganhar ali muita força nos municípios com muitos eleitos, isso tem e é um dos destaques do próprio Algarve é essa força, e perceber que efeito é que tem a entrada do Chega pra enfraquecer ou o Partido Socialista ou o PSD em alguns desses municípios.
Falemos de Lisboa. Há um taco a taco, pelo menos nas sondagens, entre Moedas e Leitão. E apesar do bom desempenho nos debates, as sondagens apontam também pra uma queda da CDU. Podemos ter aqui uma eleição mesmo ganha por um voto
Sim, na verdade, já temos exemplos em Lisboa em que se ganhou a Câmara de Lisboa por escassíssimos votos. Foi o caso, por exemplo, de Pedro Santana Lopes em 2001. Carlos Moedas também não teve uma vitória que fosse retumbante, aliás, não teve a maioria. E aqui pode novamente acontecer o mesmo. Vai ser cada voto disputado ao milímetro, ao segundo, cada voto é um voto, e o que vai acontecer é que olhando para as sondagens é que há uma grande imprevisibilidade. Nós temos aqui, para já, nos últimos dias, parece ter funcionado o voto útil à esquerda, com o PCP numa sondagem, numa tem bons números e Alexandre Leitão fica ligeiramente atrás de Carlos Moedas. Numa outra, Alexandre Leitão até está à frente e isso vê-se que é à custa do PCP, que nessa sondagem tem menos votação e menos intenção de voto. E, portanto, na verdade, o que é curioso aqui é que vão ser os dois partidos que desafiam o voto útil, no caso do Chega à direita, no caso da CDU à esquerda, que vão acabar por definir quem é o vencedor. A maioria da cidade parece-me estar virada à direita, o que dá margem para o Chega ter mais votação do que a CDU, mas mesmo assim, o Chega cresce de uma forma tão galopante que não é possível prever que votação possa ter. E naturalmente que isso vai prejudicar muito Carlos Moedas, para quem um voto pode contar para continuar ou não como presidente de câmara. Ele há uns meses pedia a maioria, eu acho que agora já poderá apenas pedir ser reeleito, que já seria uma vitória quiabé para aquilo que tem sido esta campanha.
Apontas mais casos de interesse nestas eleições autárquicas?
Sim, há casos bastante interessantes pelo país fora. Já falámos aqui de alguns, mas posso faltar falar o caso de Braga, porque também necessariamente há uma mudança, porque Ricardo Rio sai da autarquia. Houve todas as confusões de uma nacionalização da campanha com o candidato do PSD estar envolvido de alguma forma, através da família, no caso PIN-Um Viva. O candidato do Partido Socialista não traz propriamente uma grande novidade à cidade de Braga, que é o António Braga, até partilha o nome, mas o Rui Rocha Forte e todo o caso PIN-Um Viva e até a própria postura que tem tido o candidato do PSD em Braga, perturbam um pouco a continuidade do PSD nessa cidade. E por aí fora, em Aveiro também Ribau Esteves deixa de ser presidente de câmara. Há dois irmãos que disputam entre si a eleição. Não há certezas que o PSD possa continuar. Em Sintra, sabemos que Basílio Horta também sai, o que cria sempre alguma imprevisibilidade e qualquer um dos três, Chega, PS e PSD, pode vencer e, portanto, também aí há um grande foco de interesse. Em Loures, o Chega tem possibilidades de enfrentar um candidato do PS que parece aproximar-se muito das posições dele e, portanto, é curioso ver essa divisão de votos, sendo que a CDU não perdeu a câmara por tantos votos há quatro anos, portanto é sempre uma força política a ter em conta nesse conselho. E ao longo do país vamos vendo que estas são das autárquicas mais interessantes dos últimos anos, porque há muita mudança e isso também traz muita imprevisibilidade.
Para terminar, podemos esperar algum impacto destas eleições naquilo que é política nacional?
Acho que os líderes estão mais ou menos imunes. Uma derrota do PSD, que seria perder a Câmara de Lisboa e não conquistar o Porto, e não diminuir o decalage que existe para o PS no número de autarquias, não será suficiente para colocar Luís Montenegro em maus lençóis ou para o próximo presidente dissolver a assembleia. Se o PS perder câmaras, as escolhas foram de Pedro Nuno Santos e, portanto, José Luís Carneiro também não deve ser retirado, até porque não faria muito sentido dar a metade líder agora, também não ajudaria muito. E André Ventura, com o que se espera de vencer e como vai virar logo a agulha para as presidenciais, qualquer coisa que corra menos bem também não será sacada. E, portanto, eu diria que é mais ou menos fácil antever que as lideranças estão seguras, o que não significa que algumas não possam ter um desgaste conforme aquilo que seja o resultado do próximo dia 12 de outubro.
Obrigado, Rui.
Obrigado, Miguel.
Rui Pedro Antunes é o editor de política do Observador. Nesta história do dia, de saída, deixo também algumas notas. Ainda sobre a campanha eleitoral, o Observador continua na estrada a acompanhar as candidaturas autárquicas e os líderes nacionais. Pode acompanhar tudo em observador.pt e pode também escutar o direto à campanha depois do noticiário das 9 e o Caso ao Voto às 17h30 na Rádio Observador e sempre em podcast. No desporto, começa hoje a concentração da seleção nacional para preparar mais dois jogos de qualificação para o Mundial de 2026. No dia 11, Portugal joga com a Irlanda, no dia 14 com a Hungria. Os dois jogos acontecem no Estádio de Alvalade, em Lisboa. Para fechar, começa hoje a atribuição dos Prémios Nobel deste ano. À meia manhã desta segunda-feira, o Comité Nobel Thomas Perlmann, no Instituto Karolinska, em Estocolmo, anuncia o vencedor do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina. Até dia 13 deste mês vão ser anunciados todos os vencedores desta edição. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.