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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os seres humanos que se identificam como gatos e cães. Este som que está a ouvir não é um cão. Nem um gato. Estes sons são de pessoas, humanas, que se identificam como animais. Vestem-se como animais, gostam de andar como animais e até há lições online sobre como melhor incorporar o espírito do animal com que se identificam.
Basically, in short, you want to get the feeling in your back of throat, you go: .
Estas pessoas chamam-se Therians. É uma comunidade que vive sobretudo nas redes sociais e que saltou para o primeiro plano quando a Ordem dos Médicos Veterinários se pronunciou.
A comunidade Therian, ou seja, estas pessoas que se identificam como animais, estão a recorrer cada vez mais às consultas de medicina veterinária. A ordem destes profissionais sentiu, por isso, necessidade de lançar um alerta. Diz a ordem que os veterinários não tratam pessoas, tratam apenas animais.
Eu sei que ouvir tudo isto praticamente desde o início deste episódio é estranho. É difícil compreender como é que seres humanos acham que são gatos, ou cães, ou outros animais. Mas é precisamente por isso que hoje vou conversar com a Mariana Marques Tiago, que escreveu sobre esta comunidade. Falou com pessoas que se identificam como Therians e também com psicólogos e psiquiatras para perceber que fenômeno é este e quem são estas pessoas. Eu sou o Pedro Gonovides e esta é a história do dia de segunda-feira, 01 de junho. Olá, Mariana.
Olá, Pedro.
Tu tiveste uma missão que foi: vai à procura de Therians, é assim que se diz?
Exato, sim.
Sabias o que eram antes de começares este trabalho?
Sabia, sim. Sabia porque já tinha lido algumas coisas até relacionadas com Espanha, com uns encontros que tinham sido marcados em Madrid. O meu conhecimento ficava por aí.
Mas já tinhas ouvido falar, pelo menos. Sabias que havia pessoas que se identificavam com animais.
Exato, que usavam umas máscaras e caudas. Sim, era isso.
E depois foste à procura de, imagino eu, de pessoas em Portugal.
Exato.
Que fizessem isso, que se dedicassem a isso, que se identificassem com animais. Como é que foi essa procura? Foi fácil encontrares? Foi fácil encontrar as pessoas? Depois de as encontrares, foi fácil encontrar quem quisesse falar com o jornalista para publicar o que essa pessoa dizia?
Sim. Se calhar, só para explicar o porquê também de ter começado essa procura, vem um bocadinho à boleia de uma indicação interna, de uma ordem interna que a Ordem dos Médicos Veterinários emitiu, e que depois, entretanto, tornou-se público, sobre como é que os médicos veterinários deviam proceder quando pessoas que se identificam como Therians...
Aparecessem no consultório.
Sim, e quisessem marcar uma consulta. E gerou aqui alguma surpresa, porque ninguém estava muito à espera que esta indicação fosse emitida por parte da OMV. Portanto, vem daí.
Mas se eles emitiram essa indicação, foi porque efetivamente já estava a acontecer isso.
Surpreendentemente, não.
Ok.
Cá em Portugal, e isso foi uma das coisas que a Ordem dos Médicos Veterinários me explicou, não há casos de pessoas que tenham tentado marcar consultas no veterinário para elas.
Ok. Mas já aconteceu noutros países.
Exatamente.
Muito bem.
Basicamente, os nossos veterinários um bocadinho aqui tentando antever aquilo que podia acontecer, pediram à Ordem um parecer para perceber como é que se deviam proteger legalmente.
E a Ordem disse isto.
Exatamente.
Muito bem.
Diz que obviamente que não.
Mas a verdade é que a partir daí o caso entrou no discurso público e ficámos todos, alguns mais espantados do que outros, a dizer: "Mas o que é isto?"
Exatamente.
E tu foste à procura de casos e foste à procura de perceber exatamente de que comunidade é que estamos a falar.
Exato. A forma mais fácil de encontrarmos esta comunidade, ou pessoas que pertençam a esta comunidade, é no TikTok, porque isto não é um submundo, mas é uma comunidade nicho, quase. É muito pequena, principalmente cá em Portugal, e portanto, a forma mais fácil é através do TikTok.
E tu tens ideia de números? Há números, alguém contabilizou isso, não?
Ninguém me soube dizer, nem a Ordem dos Psicólogos, nem a Ordem dos Veterinários, muito menos, nem sequer a pessoa com quem eu falei, que era aí que eu ia chegar. Eu comecei esta pesquisa no TikTok, e aparecem muitas pessoas, principalmente crianças, com estas máscaras, a fazer saltos.
Quando dizes crianças, estamos a falar de que idades?
10 anos, talvez. A partir do momento em que eram crianças, e a maioria eram crianças, havia aqui já uma linha vermelha, porque eu não ia tentar entrar em contato com elas sendo menores de idade. Entretanto, deparei-me com o perfil de uma pessoa que claramente era maior de idade, que se afirmava, identificava cá em cima na biografia e tudo mais do perfil, dizer que era Therian, e tinha muitos vídeos até das máscaras que já tinha produzido e tudo. E através do TikTok do Observador entrámos em contato com essa pessoa. Surpreendentemente, essa pessoa disse logo que sim. Portanto, foi muito interessante.
Não estava à espera disso.
Não, não estava nada. Aliás, nós achávamos mesmo que era uma missão um bocadinho ingrata, porque sendo uma comunidade tão pequena...
Ia ser uma missão impossível.
Sim. E afinal tornou-se possível.
Uma comunidade pequena e, ao mesmo tempo, uma comunidadePouco compreendida. Eu próprio vou admitir. Nós sabemos que hoje em dia na sociedade as pessoas têm formas de expressão e de identificação muito mais vastas do que alguma vez isso aconteceu. No entanto, há determinadas coisas que são mais desconfortáveis ou mais difíceis de compreender. Uma pessoa que se identifica com um animal é provavelmente uma dessas.
Sim.
E tu quando partiste pra conversa, essa pessoa com quem tu falaste sabia que é difícil para os outros perceberem o que é o seu estilo de vida?
Sim, sem dúvida. Isso, por acaso, foi uma coisa muito interessante, porque quando nós estávamos a falar, eu ia fazendo algumas perguntas, as mais básicas que eu acho que toda mundo faz quando ouve falar logo nisso, que é: o que é isto? O que é ser therian? Como é que tu sabes que és therian? Como é que tu podes dizer que te identificas ou que te reconheces como um cão, por exemplo, ou um lobo.
Essa pessoa era o quê, já agora?
É um cão de raça Border Collie.
Muito específico.
Sim, muito específico. E esta pessoa dizia, ela própria reconhecia, às vezes parava para pensar antes de me responder, porque ela própria assumia: é difícil explicar a quem está de fora, por vários motivos. Primeiro, também um pouco porque a receptividade às vezes é inexistente do outro lado. E isso era um receio, que esta pessoa que falou comigo tinha. E depois, porque é uma experiência muito interna, segundo aquilo que me contaram, que esta pessoa partilhou. Porque a partir do momento em que é uma coisa que ela própria vive, tem muita dificuldade em colocar lá pra fora uma explicação clara de, por exemplo, como é que os instintos dela funcionam, por que são diferentes dos instintos normais, entre aspas, de uma pessoa que não seja therian. Tudo isto é difícil. Difícil de explicar, difícil de perceber.
Essa pessoa não há de viver como um cão o dia todo.
Não, exato.
Como é que gere isso? Como é que isso se faz?
Acho que há aqui uma coisa muito importante que é esta ideia das máscaras e caudas, e às vezes até patas, que surgem nos vídeos ou nas fotografias. Isso é apenas um acréscimo. Ou seja, as pessoas que são therian usam esses acessórios, podemos chamar assim, como forma de reforçar a sua identidade, como forma de expressão externa. Mas, independentemente disso, continuam a, no interior, entre aspas, digamos assim, de forma mais simples, a identificar-se como therian. Ou seja, não é por não estarem a usar a cauda naquele momento que não o são.
Certo, mas têm interação com outras pessoas, imagino que não seja-
Sim, totalmente normais.
Como ser humano.
Sim.
Ok. Portanto, têm momentos em que...
Têm momentos em que esses instintos animais, chamemos assim, ativam. Esta pessoa até usou um termo, que é os shifts, que é como se houvesse uma mudança do estado psicológico da pessoa.
E passa a ser aquele animal. Essa pessoa com quem tu falaste tem um emprego, tem uma vida.
Tem.
Ou seja, quem não saber, não sabe.
Exatamente. Sim.
Mas mesmo isso que tu estavas a descrever, tem um shift. Cientificamente, nada disso existe. O ser humano não é internamente um cão, à partida, ou um gato, ou o que animal seja. Como é que a comunidade científica olha pra isto?
Eu falei com o bastonário da Ordem dos Psicólogos, o Miguel Ricou, e falei também com o presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental, Luís Madeira. E o discurso de ambos vai um pouco no mesmo sentido, que é: isto tem a ver com a construção de identidade, que é uma coisa que não é estagnada, ou seja, nós construímos a nossa identidade ao longo da nossa vida. Muitas vezes não é estável, portanto, não é uma coisa constante e está sempre sujeita aos estímulos externos. E tal como tu dizes inicialmente, hoje em dia temos muito mais estímulos, e estímulos diferentes, que afetam depois a forma como nós nos desenvolvemos. Daí que esta questão de se é therian ou não é therian, começa com as pessoas muito jovens. Aliás, foi isto que aconteceu com a pessoa com quem nós falámos. Começou a sentir-se diferente, como dizia, por volta dos 12 anos. E é uma coisa que ainda a acompanha até hoje, que já atingiu a maioridade.
Isso tem a ver com o quê? Com a identificação com grupos com quem se identifica, tem a ver com dificuldades de socialização. Como é que eles olham pra isso?
Sim, o bastonário da Ordem dos Psicólogos falava sobre isso e diz que há pessoas mais propensas a identificarem-se com comunidades, tal como dizia há pouco, quase comunidades nicho. Estas comunidades mais pequenas. E que pode ter a ver com essa questão de dificuldade de socialização, de dificuldade de pertença. Muitas vezes acontece: não me identifico com ninguém, não me identifico com grupo nenhum, mas começo a ver um certo grupo com quem, afinal, se calhar, até tenho aqui algumas coisas em comum. Gosto, começo a fazer parte e de repente estou envolvido naquele grupo. É importante dizer que também, tanto o Miguel Ricou, o bastonário da Ordem dos Psicólogos, como o representante da Sociedade de Psiquiatria, dizem que tudo isso deve ser tratado com normalidade. Ou seja, não devemos assumir que isto é um distúrbio, que é uma perturbação, sendo que depende sempre de como estamos a definir perturbação e o que consideramos normal. Mas a partir do momento em que isto não afeta o funcionamento normal da pessoaO seu dia a dia, a sua capacidade de trabalho, por exemplo, é simplesmente um traço da sua identidade.
Uma forma de expressão de que a pessoa precisa.
Sim.
Por isso também eu te perguntava se essas pessoas tinham uma vida normal.
Sim.
Se tinham um emprego, se tinham uma vida social, digamos, como ser humano.
Sim, inclusivamente esta pessoa com quem eu falei está num relacionamento. Além da questão de trabalhar e tudo mais.
E tu perguntaste se a pessoa com quem se relaciona tem...?
Não perguntei.
Não perguntaste.
Não perguntei.
Se era alguém da comunidade ou se era alguém fora da comunidade, para ver como é que...
Mas sei que esta pessoa tem amigos também são therian, portanto também pertencem à comunidade. Em termos de socialização, por exemplo, neste caso aqui, pelo menos, parece estar tudo dentro do padrão daquilo que é normal. Era o que nos dizia até o bastonário da Ordem dos Psicólogos.
Muito bem, é um assunto fascinante, talvez incompreensível para muita gente que nos esteja a ouvir, mas quem queira saber mais, tem o teu texto para poder ir ver todas estas abordagens sobre o que é isto dos therian, que de repente aterraram aqui no nosso mundo das notícias quando a Ordem dos Médicos Veterinários veio lançar um alerta. Mariana, obrigado.
Obrigada.
Eu falei com a jornalista de sociedade do Observador, a Mariana Marques Tiago, sobre esta comunidade, os therians, as pessoas que se identificam como animais. A Mariana explicou-me que a maior dificuldade em escrever este texto teve a ver com a dissonância entre aquilo que os membros desta comunidade lhe diziam para explicar a forma como se reconhecem a si próprios e aquilo que são os limites da realidade para a maior parte de nós. Como transformar em texto aquilo que a audiência não compreende. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.