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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Que amizade é esta entre Kim e Vladimir? Frente a Vladimir Putin, numa longa e apinhada mesa, Kim Jong-un diz que, com o camarada Putin, teve uma discussão profunda sobre a situação política e militar na península da Coreia e também na Europa. O líder norte-coreano diz que chegaram ambos à conclusão que é necessário intensificar a cooperação estratégica e tática para garantir a segurança e a paz em todo o mundo. No almoço, houve um brinde. Putin elevou o copo à saúde da relação entre os dois países e também à saúde do camarada secretário Kim. Os líderes da Coreia do Norte e da Rússia estiveram juntos no cosmódromo de Vostochny, no leste da Rússia, um local ligado à exploração espacial, o que juntou os líderes dos dois mais isolados países do planeta, duas potências nucleares. E até que ponto devemos ter receio desta aparente amizade? São perguntas para a conversa com a jornalista do Observador, Ana Kotowicz. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.
Olá, Ricardo.
Ana, Vladimir Putin e Kim Jong-un encontraram-se em Vostochny, uma base que é russa, geralmente designamos por cosmódromo, porque o Ocidente tem astronautas, a Rússia tem cosmonautas. Enfim, essa é outra história. Foi num cosmódromo. Pareciam dois velhos amigos que já não se viam há algum tempo e logo numa base ligada à exploração do espaço. Nada disto é por acaso, pois não?
Não, e vais-me obrigar a citar Putin, não é uma coisa que eu costumo fazer muitas vezes, por causa dessa história dos dois amigos, porque ele fez questão de dizer que os países eram amigos há 75 anos. E depois, aqui abro aspas, e ele diz assim: "Na Coreia há um provérbio: as boas roupas são as novas, os bons amigos são os velhos. Na Rússia diz-se de outra maneira: um velho amigo é melhor que dois novos." Portanto, foi assim que o Putin usou a sabedoria popular para resumir as relações dos dois países. E claro que o cosmódromo aparece porque é aí que estão focados os interesses dos dois.
E já vamos tentar perceber melhor o que é que terão conversado Putin e Kim Jong-un. Explica-nos como é que o líder, porque isto também é muito interessante, como é que o líder norte-coreano chegou à Rússia?
Foi uma longa viagem, muito longa. Mais longa ainda por causa do comboio em que foi feito, porque entre Pyongyang e Vladivostok, o Kim viajou num comboio blindado, ou seja, é todo à prova de bala, os vidros, a carroçaria, o próprio chão é à prova de explosões, mas esta blindagem paga-se. É um comboio muito pesado e que é mais lento que um intercidades, que já por si anda devagarinho. No máximo, este comboio anda a 55 km/h.
Isso parecem as automotoras da Linha do Oeste.
É tal e qual. E portanto, foram 20 horas de viagem, em que mesmo a boa comida e a boa bebida que serve lá dentro não tornam a viagem propriamente simpática.
Mas é um comboio blindado, mas com requinte.
Todo o luxo que tu possas imaginar, até poltronas cor-de-rosa fluorescentes existem lá dentro.
Isso promete. E esse comboio tem um nome?
Claro que sim. Fortaleza Móvel ou Comboio número um.
Comboio número um. Também há o Air Force One, mas esse é outro. E o que é que Kim e Putin, afinal, discutiram?
Olha, Ricardo, como diz o Peskov, que é o porta-voz do Kremlin, isso é lá entre eles os dois. E nós agora não temos nada a ver com isso. Mas o Putin foi dando algumas luzes sobre o que foi falado nas várias declarações que foi fazendo junto de jornalistas ao longo do dia. Diz que falaram sobre o Extremo Oriente, que falaram sobre as relações dos dois países e ainda disse, e esta é a parte mais importante, que estava pronto para ceder tecnologia à Coreia do Norte, que lhes permitisse desenvolver um satélite espião. Portanto, isto é uma coisa importante. O que ninguém disse é que de certeza absoluta que discutiram o envio de munições de Pyongyang para Moscovo.
Mas sabemos se foi assinado algum acordo, algum papel, alguma coisa?
Não sabemos, até porque não houve nenhum comunicado conjunto. E isto é uma coisa que já tinha acontecido em 2019, quando Kim e Putin estiveram juntos pela primeira vez. O que eu te sugiro é que nos próximos dias estejamos muito atentos ao que vai sair na imprensa russa, porque o Kremlin normalmente autoriza algumas fugas de informação controlada e aí podemos perceber, de facto, o que é que aquele aperto de mão muito prolongado, o que é que saiu dali.
Já voltamos à conversa com a Ana Kotovitz, jornalista do Observador. Devemos ou não ter receio desta amizade? Regressamos à conversa com a Ana Kotovitz, jornalista do Observador. Ana, vamos então aqui por partes. A Coreia do Norte será, por esta altura, o país mais isolado do mundo. O povo vive com gravíssimas carências, nós nem sabemos bem a dimensão dessas carências. O que Pyongyang tem para oferecer a outro Estado, por exemplo, a Moscovo, o que tem para oferecer à Rússia?
Milhões e milhões de coisas. São todos o mesmo, são granadas de artilharia. E as granadas de artilharia são uma das munições que mais se tem gasto na guerra com a Ucrânia. E aqui há um lado histórico engraçado, que é: a Coreia do Norte foi um dos países que, durante os tempos da União Soviética, recebeu armamento e munição soviética. Portanto, qual é a vantagem? Tudo o que a Coreia do Norte ali tem é compatível com o que os russos estão a usar na linha da frente e, portanto, não é preciso aqui fazer-
Grandes adaptações.
Exatamente, porque tudo ali vai encaixar onde tem que encaixar. E, portanto, essencialmente, é isto que a Coreia do Norte tem para oferecer. Até porque há uma coisa importante que é: a Coreia do Norte e a Coreia do Sul continuam em guerra. Nunca foi assinado um tratado de paz. E, portanto, ao contrário de outros países que fecharam as suas fábricas, pararam de produzir armamento, a Coreia do Norte nunca fez isso. Manteve todas as fábricas em funcionamento, continuou sempre a armazenar grandes estoques de munições, sempre com a perspectiva de que a qualquer momento poderia ter que ir pro campo de batalha. E depois também é curioso de ver que nos últimos tempos, o Kim tem andado a fazer uma série de visitas a fábricas e o que ele diz é sempre o mesmo: "É preciso produzir". Portanto, já estará aqui a pensar na ajuda à Rússia.
Portanto, haverá munições, por exemplo, para entregar à Rússia. E o que a Rússia, por seu lado, pode oferecer à Coreia do Norte?
A Rússia também tem muito para oferecer, desde que Vladimir Putin queira. E aqui essa é mesmo a grande questão, que é: até que ponto o Putin está desesperado o suficiente para oferecer tecnologia importante e fundamental, por exemplo, para um país que tem poderio nuclear.
Já estamos a falar de duas potências nucleares.
Exatamente. Mas lá está, a Coreia do Norte já é uma potência nuclear, mas não está ao nível da Rússia.
Claro.
E a Rússia pode lhe dar essa vantagem, porque esse é um dos grandes objetivos do Kim. Eles, aliás, têm um plano a cinco anos, que termina em 2026, e uma das coisas que ele quer muito ter pronto nessa altura é um satélite espião. Não é a única coisa que ele quer. Ele quer um submarino nuclear, quer um míssil balístico intercontinental, quer um míssil hipersônico. Tudo isto a Rússia tem e é forte nesta tecnologia. Agora, quererá Putin entregar isto de mão beijada, a troco de granadas de artilharia a Kim? Não sabemos.
E também não pode ser visto como um sinal de fraqueza por Vladimir Putin pedir ajuda, nomeadamente a munições, que são muito precisas, porque a Rússia está numa ofensiva e gasta muitas munições. Pedir ajuda à Coreia do Norte, já não consegue ajuda em mais lado nenhum?
É exatamente essa a leitura que muitos analistas fazem, é que Putin está desesperado e é por estar desesperado que vai bater à porta de Kim, porque a Coreia do Norte não é um parceiro estável. Ninguém pode confiar 100% no que vai sair da Coreia do Norte e do seu líder supremo. Além disso, também nos mostra outra coisa. Mostra-nos que a Rússia, ao contrário do que tem sido dito, não tem munições suficientes. E o Kremlin tem frisado muito nesta tecla, têm dito sempre que está tudo ok com as reservas, que tem capacidade pra continuar a produzir toda a munição de que precisa, mas depois, na verdade, não estará com toda a certeza, porque senão não ia ter com o Kim. Depois, outra coisa curiosa, exatamente por estares a falar aqui no ele estar desesperado e ir ter com a Coreia do Norte, é que o que se diz é que ele primeiro tentou países africanos, porque também eles, no tempo da União Soviética, receberam material e, portanto, seria mais simples ir beber à África. Não conseguiu, teve que se virar pra Coreia do Norte.
Mas ver estes dois homens juntos, Vladimir Putin, o presidente russo, e Kim Jong-un, o sucessor de uma dinastia comunista, que no fundo é o que aquilo é na Coreia do Norte, isto pode ser visto como um eixo do mal ou, neste caso, estamos a falar de duas pessoas, uma espécie de aliança do mal?
Olha, eu acho que isso é muito à George W. Bush. Faz-me lembrar o Axis of Evil.
"States like these and their terrorist allies constitute an axis of evil."
E nem de propósito, nessa altura era o Irã, o Iraque e a Coreia do Norte. A Rússia, não, a Rússia nessa altura não fazia parte do lado do mal Mais engraçado do que isso é ver o que Kim disse, porque o Kim é líder de um Estado pária, é o país mais isolado do mundo, é um país que desconsidera completamente o direito internacional. Pelo que vamos percebendo, nem se preocupa com a sua própria população. Como tu dizias há bocado, nós nem sequer conseguimos perceber a dimensão da pobreza em que eles vivem. E hoje, com uma cara muito feliz e contente, dizia, ao lado de Vladimir Putin, que está pronto para lutar contra o mal ao lado da Rússia. Isto vindo de quem vem, é um bocadinho assustador. É que apesar de tudo, nós de Putin ainda vamos esperando alguma racionalidade, poucochinha, cada vez menos, mas alguma. Agora, de Kim já não esperamos nada. Portanto, se calhar, de facto, há aqui uma nova aliança do mal a nascer.
E em Moscovo, apesar de Vladimir Putin mandar, apesar de tudo, ainda existe uma cúpula militar, uma cúpula política. Aqui na Coreia do Norte, nós não sabemos como é que as coisas funcionam.
Não fazemos ideia. Ele é o líder supremo, como antes o pai era o querido líder. E nós sabemos que Putin é um ditador, mas como tu dizias, o Kim, estamos a falar de uma monarquia comunista, portanto, ele é uma entidade divina que faz o que quer e como quer e não tem respeito por nada nem por ninguém. E aliás, neste encontro ficou bastante claro que houve uma coisa engraçada, salvo seja, que nós não falámos aqui, que é: pouco antes de começar o encontro entre os dois, eles fizeram mais um teste de mísseis na Coreia do Norte. Isto mostra duas coisas, que é que Kim consegue mandar o seu país fazer um teste mesmo à distância. Isso é uma das potencialidades que tem o seu comboio, o comboio número um.
Portanto, consegue disparar mísseis não estando em Pyongyang.
Exatamente. E ao mesmo tempo é dizer: "Estou-me nas tintas pro que diz o direito internacional, estou-me nas tintas para as sanções das Nações Unidas. Eu faço o que eu quero e ninguém pode fazer nada para me impedir."
Obrigado, Ana.
Obrigada eu, Ricardo.
Ana Kotowicz é jornalista do Observador e esta foi a História do Dia. E já lá vão 400 episódios. E há duas coisas muito simples que pode fazer por nós. A primeira é seguir a História do Dia no Spotify ou na Apple Podcast, enfim, na aplicação que habitualmente utiliza para ouvir podcasts. A outra é partilhar este episódio ou outro dos 400 com um amigo ou com um colega. Desde já, muito obrigado. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.