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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem é a próxima primeira-dama?
Relativamente à minha mulher, eu espero não a perder durante o mandato.
Para muita gente, aquela noite marcou uma estreia. A noite em que António José Seguro fez o discurso de vitória foi também a primeira vez que muitos portugueses viram e ouviram falar da mulher que a partir de agora vai estar sob os holofotes, quer queira, quer não queira.
E respeitarei sempre aquilo que forem as suas decisões.
Guarde o nome: Margarida Maldonado Freitas. É provável que volte a vê-la mais a partir do momento em que Seguro tomar posse. Ou talvez não.
Eu sei que contarei com a Margarida ao meu lado sempre que as exigências do Estado assim o exigirem. Será claro, porque a minha mulher é uma empresária independente, é uma mulher com vida própria e eu respeito muito isso.
Naquela noite, a plateia pareceu gostar da ideia de uma mulher de presidente, que tem mais o que fazer do que ocupar um cargo que formalmente nem sequer existe em Portugal. Mas quando o barulho das palmas deixar de se ouvir, Margarida vai ter de fazer escolhas. E essas escolhas vão acabar por definir a forma como decide vestir este fato estranho de primeira-dama num país que não tem uma há mais de 10 anos. Hoje vou falar sobre isso com a Mariana Lima Cunha, jornalista do Observador, que publicou um artigo precisamente sobre este tema. Vamos perceber quem é Margarida Maldonado Freitas, como conheceu António José Seguro e que impacto teve a família de Margarida na formação política do presidente eleito. E vamos também tentar responder a isto: o que é, afinal, ser primeira-dama? E como é que as mulheres de outros presidentes moldaram um cargo que não existe, mesmo aquelas que queriam manter uma vida profissional longe do Palácio de Belém. Eu sou o Pedro Ben vides e esta é a história do dia de segunda-feira, 16 de janeiro. Olá, Mariana.
Olá.
Mariana, tu acabaste de publicar no Observador um artigo que é um perfil da próxima primeira-dama de Portugal. Estamos a falar de uma pessoa que é praticamente desconhecida. Ela apareceu na campanha algumas vezes, mas é uma pessoa muito reservada, sabe-se pouco sobre ela. Quando um jornalista recebe essa missão-
Recebe essa má notícia.
É isso que eu queria saber, quando tu recebeste essa notícia, de que era essa a tua tarefa, o que te passou pela cabeça?
Olha, pensei: "Vou ter um dia difícil". Há trabalhos mais fáceis, sobretudo quando a pessoa é muito discreta e não disponibiliza, ou seja, não tem grande interesse em que se saiba muito mais sobre ela. Isso percebe-se desde logo pelo papel que quer desempenhar enquanto primeira-dama, que não é de uma primeira-dama que seja particularmente, eu não quero dizer presente, não quer dizer que a pessoa não esteja presente ao lado do marido, mas presente no sentido de assumir funções específicas ou de ter uma atividade específica como primeira-dama. E portanto, eu sabia que não ia ser uma tarefa fácil, mas acabou por ser um trabalho que me deu gosto de fazer, porque acabei por mergulhar um bocadinho. O nosso objetivo também é de perceber o que é uma primeira-dama, o que faz uma primeira-dama.
Sendo que não existe.
Exatamente.
Oficialmente, não existe essa figura.
Citando uma das nossas alegadas primeiras-damas, Manuela Eanes, é um título pomposo e importado dos americanos e portanto, em Portugal não existe, legalmente. Tive interesse também em perceber, no fundo, o que é que cada mulher que esteve nesta posição fez do cargo, porque cada uma o interpretou à sua maneira e cada uma acabou por inventar um cargo que não existe. E portanto, acabámos por descobrir aqui algumas histórias.
Quando tu dizes inventar, estás a falar de identidades que elas próprias criaram.
Exatamente.
Cada uma foi diferente das outras e eu acho que vai ser um tópico interessante de conversa aqui um bocadinho mais para frente, mas já agora, dá-nos aqui duas ou três curiosidades, também não muitas, que é para os leitores não deixarem de ler a tua história.
Eu quero promover o meu texto na mesma.
Exato, vão ler o texto da Mariana Lima Cunha, mas dá-nos duas ou três curiosidades sobre Margarida, a futura primeira-dama portuguesa.
Sim, a Margarida Maldonado Freitas é de uma família com posses das Caldas da Rainha. É uma família conhecida por ter ligações, primeiro à luta republicana, depois ao PS. Havia também alguns rumores sobre ligações à maçonaria, mas que são coisas que quando se trata da maçonaria, é natural que não sejam propriamente confirmadas.
Era uma missão mais difícil, essa.
Exatamente. Era uma missão para mais tempo. Ou seja, é uma família que tem alguma tradição já no PS. Aliás, uma das histórias que a própria já contou no passado, num artigo que até foi assinado por ela, é que o bisavô Custódio da família Maldonado Freitas recebeu Mário Soares quando ele era criança em casa, enquanto o pai de Mário Soares estava preso nos Açores. Mário Soares acabou por fazer nas Caldas da Rainha um ano, penso que a quarta classe da sua educação primária, e portanto, as Caldas da Rainha eram uma cidade que para Mário Soares era uma das suas casas.
E foi na família Maldonado Freitas-
Exatamente, que foi acolhido.
Isso é muito curioso.
E portanto, já havia ali algumas ligações ao PS que são muito naturais, evidentemente. O pai de Margarida Maldonado Freitas também socialista e que se torna depois amigo de António José Seguro, que não tinha estas ligações tão naturais, se calhar, ou tão de família ao PS, é quase como eu lia num perfil do Expresso de António José Seguro, é como se tivesse tido o berço político dado pela família da mulher nesse sentido. E o próprio, eu lembro-me de ter visto na apresentação da candidatura de Seguro, e ele dizia que a família Maldonado Freitas o tinha ajudado muito a consolidar os valores. Ele falava dos valores dele, mas eu diria que até os valores políticos, porque tem aquela grande ligação ao PS, ao republicanismo, e portanto, essa é uma curiosidade que eu acho engraçada.
Sim, sem dúvida.
Ela depois era da JS e aí conhece António José Seguro numa noite numa discoteca, na Poseidónio, na Figueira da Foz, em 94.
Poseidónio é o nome da discoteca.
Exatamente, sim. Dizem-me que é um clássico daquela zona, por acaso não conheço. Eles estavam numa das noites do Congresso da JS, em que Sérgio Sousa Pinto ia suceder a António José Seguro. António José Seguro devia estar animadíssimo, segundo o próprio, devia ser porque ia deixar aquelas funções, se calhar estava-se a sentir mais livre. Subiu a uma coluna, portanto, deve ter impressionado Margarida Maldonado Freitas desde o início com a sua descontração. E é António Galamba, que é socialista também, que será seu padrinho de casamento, que os apresenta E pelo que sabemos, é um casamento que é sempre muito com base no convívio com amigos, casa cheia, acho que festejam todos os anos o aniversário de casamento em Porto Covo, sempre com amigos, que é onde eles passam também as férias. Portanto, é um convívio com muitos amigos, também com muita gente do PS, e Margarida é da JS, mas opta por não fazer esse caminho que o marido fez, que foi profundamente no aparelho do PS. E segue a vida profissional, que na verdade é muito natural para a família. É uma família de farmacêuticos que tem várias farmácias. Ela herdou várias farmácias da família, neste momento dirige três. Já fez parte também da Associação Nacional de Farmácias, especializou-se em análises clínicas. Já agora, mais uma curiosidade que posso chutar aqui, é que uma dessas farmácias foi sede de campanha de António José Seguro, agora nas Caldas da Rainha, porque eles foram viver para lá quando se casaram e ele diz que agora é incapaz de sair das Caldas, que é de fato uma cidade do coração e foi graças a Margarida Maldonado Freitas que ele acabou por fazer esse percurso.
António José Seguro fez sede de campanha num sítio cheio de medicamentos.
Exatamente. Olha, é um sítio que seria o sonho do nosso atual Presidente da República.
Do nosso atual Presidente da República.
Um hipocondríaco como Marcelo Rebelo de Sousa.
Está aqui uma série de círculos que parece que se vão fechando do ponto de vista político e também do ponto de vista pessoal. Mariana, eu vou perguntar-te a seguir, conhecendo agora mais sobre a mulher do futuro presidente, que papel achas que ela vai desempenhar enquanto primeira-dama e depois quero que me fales também, tendo em conta o conhecimento que ganhaste entretanto sobre as várias primeiras-damas portuguesas.
Sim, com muito esforço e muito empenho.
Já voltamos a falar. E estamos de volta com a Mariana Lima Cunha, que está aqui a traçar-nos este retrato da próxima primeira-dama. De tudo aquilo que entretanto já conheceste de Margarida Maldonado de Freitas, como é que achas que ela vai exercer, se é que ela quer exercer o papel de primeira-dama?
Até ver, parece que vai ser da maneira mais discreta possível. Eu digo parece porque uma das coisas que fui aprendendo também com esta pesquisa sobre primeiras-damas, Maria Cavaco Silva escreveu um texto em que dizia que quando chegou a este pseudocargo, que não existe, é que percebeu que era muito mais solicitada do que pensava. E eu acho que talvez por isso Margarida Maldonado de Freitas, na noite das eleições, respondeu aos jornalistas que espera manter a vida profissional. Ou seja, ela não foi taxativa, ela disse que espera. E eu acho que de fato é porque vai haver aqui uma mudança natural na vida até do casal, e dos dois, que torna difícil prever exatamente se ela vai conseguir executar o seu plano. O seu plano, de fato, é continuar a trabalhar. Ela, como nós já explicámos aqui, é proprietária de farmácias, dirige farmácias nas Caldas da Rainha, vai continuar a viver lá. Esse é também o plano de António José Seguro, que admite dormir em Lisboa quando for preciso, quando as renas prolongarem. Mas a ideia do casal é continuar a vida o mais normal possível. E António José Seguro já disse que a mulher é uma empresária com vida própria, independente, e portanto não lhe vai tirar isso, ela é que toma as suas decisões. Agora, eu não sei se a aplicação depois na prática, isso vai se ver com o tempo, será assim tão fácil manter uma vida tão normal como Margarida Maldonado de Freitas quer, e prosseguindo aquela que é de fato a sua profissão, para a qual estudou, para a qual trabalhou.
Sendo que nós tivemos vários perfis diferentes, Manuela Eanes, Maria Barroso, Maria José Ritta e Maria Cavaco Silva. Destas quatro, há alguma que tu aches que tem um perfil mais parecido com aquilo que é o da mulher do próximo presidente da República?
Eu não sei se há alguma mais parecida, no sentido em que eu não sei qual era a intenção delas quando chegaram ao Belém, sendo que todas acabaram por ter um papel bastante ativo. Nós sabemos, por exemplo, se podemos ir ao caso Marcelo Rebelo de Sousa tinha uma namorada, Rita Amaral Cabral, quando chegou à presidência, que de fato não quis aparecer. Ele também nunca considerou que isso fizesse sentido e portanto aconteceu, por exemplo, numa questão protocolar, quando Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse, isso vai voltar a acontecer agora quando sair, houve um ajuste no protocolo. Normalmente, as primeiras-damas trocam de cadeira, literalmente. Enquanto o marido está a fazer o juramento para tomar posse na Assembleia da República, elas trocam de cadeira para sinalizar que a nova entrou e a antiga saiu. Neste caso, não vai acontecer porque Marcelo Rebelo de Sousa não tem primeira-dama e portanto foi o caso em que houve uma discrição total e o cargo não tomou relevância nenhuma. Em todos os outros casos que tu referiste, eu acho que o cargo acabou por ter alguma relevância pelo que cada uma fez dele. Agora, algumas diferenças. Até ao caso de Maria José Ritta não havia um gabinete oficial. Neste momento, o que nós temos duas pistas na lei que apontam para a existência da primeira-dama, sem nunca lhe chamar primeira-dama. O primeiro é que existe um gabinete oficial, que é o gabinete de apoio ao cônjuge do Presidente da República, e que prevê que haja um gabinete junto à Casa Civil com três funcionários. Esses funcionários são retirados de dentro da Casa Civil, ou seja, não há gasto extra por causa disso e não há um orçamento, o que talvez também explique por que as primeiras-damas se costumam concentrar tanto, por exemplo, em ações de solidariedade. Maria Cavaco Silva dizia que se dedicava muito ao networking, apresentar pessoas a pessoas, tentar, no fundo, exercer alguma influência dentro da esfera de poder limitada que tem. Mas portanto, há esse gabinete e há também uma lei dos protocolos portuguesa, que o que diz é que, no caso de altas entidades públicas, como é o presidente, quando o cônjuge for convidado, tem direito a ser equiparado ao cargo, ou seja, a mesma cerimônia é feita para ele, tem um lugar à mesa. Isso costuma acontecer muito, por exemplo, em visitas de Estado ao estrangeiro, ou quando o chefe de Estado estrangeiro vem cá e traz a mulher ou marido, é natural que o nosso chefe de Estado seja acompanhado Enfim, pela primeira-dama.
E há programas até, às vezes, exclusivos para as mulheres ou para os maridos.
Exatamente. E apesar de não ser um cargo formal, há algumas coisas previstas e há este gabinete. Nos casos das primeiras-damas que vieram antes desta lei existir, esta lei foi datada em 1996, portanto já valeu para Jorge Sampaio e para Maria de José Rita, o que aconteceu foi informalmente a mesma coisa. Ou seja, Manuela Eanes explicou em entrevistas posteriores que se organizou um gabinete na residência para não gastar dinheiro, que o marido lhe dispensou um funcionário. Na altura, foi aquilo a que teve direito. Aliás, ela insiste muito na frugalidade de António Ramalho Eanes, diz que ele pagava até do bolso dele jantares com personalidades, porque não queria pôr esse gasto nas contas de Belém. Ela fazia o seu cabelo, a sua maquiagem. Eu li uma reportagem da Máxima que dizia que ela fazia os embelezamentos femininos sozinha, e com sucesso, dizia a Máxima. Tratava disso tudo e eram bastante frugais neste uso do cargo dela. O que ela dizia também é que chegou a Belém e os sofás estavam rotos, não havia pinturas nas paredes e ela foi falar com David Mourão-Ferreira, que era secretário de Estado da Cultura, para ir buscar umas pinturas para compor aquilo. E depois focou-se muito nas causas infantis e foi a grande causa do trabalho dela.
Até porque deu-se esse caso histórico de ser o único presidente que foi pai enquanto estava no Palácio de Belém.
Exatamente. E foram os únicos que viveram efetivamente no Palácio de Belém, tanto que há uma história engraçada que é: o staff de Eanes percebe que há um novo filho a caminho, porque o jovem jornalista Marcelo Rebelo de Sousa liga para o staff de Eanes a perguntar se confirmam que Manuela Eanes está grávida pela segunda vez. E há um comentário numa reportagem do Diário de Notícias Juristas, há um ex-colaborador que diz: "Nós pensámos: se o Marcelo diz é porque há aqui um fundo de verdade, ele deve saber alguma coisa que nós não sabemos." E vão perguntar a António Ramalho Eanes, que sorri e diz que sim, que é verdade. Eles tiveram uma vida, nalgumas coisas, mais condicionada por viverem no Palácio de Belém, mas eles também explicavam, e Manuela Eanes em concreto explicou, que eram outros tempos, eram tempos políticos um pouco mais imprevisíveis e que era menos seguro estarem numa casa própria, na casa da família, que tinham muitas pessoas à porta diariamente e consideraram que seria mais seguro mudarem-se para o Palácio de Belém.
Coisa que não vai acontecer agora com este novo casal presidencial.
Não vai acontecer. Vai continuar nas Caldas da Rainha. Nem aconteceu com os restantes, preferiram sempre a privacidade das suas casas.
Então, quem quiser saber mais sobre a história das primeiras-damas portuguesas, um cargo que oficialmente não existe, mas que teve dimensão e concretização, apesar de tudo, e quem quiser tentar antecipar que primeira-dama vamos ter agora quando António José Seguro tomar posse, pode ler o artigo da Mariana no Observador. Mariana, obrigado.
Obrigada.
A leitura é recomendada, o artigo da Mariana Lima Cunha, com quem estive a conversar, chama-se "A primeira-dama que quer continuar a trabalhar". Hoje começam as férias de Carnaval nas escolas. Boa sorte a todos os pais de crianças em idade escolar. Em várias zonas do país, hoje é dia de desfiles e de festa rija, num ano em que as zonas mais afetadas pela intempérie tiveram de cancelar a programação. Em Torres Vedras, por exemplo, antecipa-se uma perda de 15 milhões de euros de receita. E mais longe, no Rio de Janeiro, à noite, há desfile das escolas de samba do grupo especial na Marquês de Sapucaí. No fundo, isto é uma deixa para lembrar que amanhã é dia de Carnaval e não há a história do dia. A de hoje teve a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até quarta-feira.