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Esta é a história do dia da Rádio Observador: R9X, a arma terrível que eliminou Zawahiri.
"My fellow Americans, on Saturday, at my direction, the United States successfully concluded an airstrike in Kabul, Afghanistan, that killed the emir of Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri."
A 1 de agosto, dois dias depois do ataque letal, o presidente dos Estados Unidos anunciava que o líder da Al-Qaeda tinha sido executado por forças norte-americanas. Joe Biden deu o okay para um ataque cirúrgico, em que um dos responsáveis pelo 11 de setembro foi eliminado sem a necessidade de colocar homens no terreno. Terá sido usado um drone e um míssil, o Hellfire.
"After carefully considering the clear and convincing evidence of his location, I authorized the precision strike that would remove him from the battlefield once and for all. This mission was carefully planned, rigorously minimized the risk of harm to other civilians. And one week ago, after being advised that the conditions were optimal, I gave the final approval to go get him. And the mission was a success. None of his family members were hurt. There were no civilian casualties."
Ayman al-Zawahiri foi executado quando o sol nascia em Cabul, no Afeganistão. Segundo as informações disponíveis, terá sido usado um míssil sem carga explosiva que despedaça o alvo. Uma versão modificada do Hellfire, o fogo do inferno, numa tradução literal. Al-Zawahiri era o número dois de Osama bin Laden e assumiu a liderança da Al-Qaeda depois da execução do saudita em 2011. O médico egípcio esteve com bin Laden desde o início e estava também na lista de alvos a abater por parte dos Estados Unidos. Neste episódio, falamos de armas guiadas à distância e dotadas de uma letalidade assustadora. Algumas descrições podem impressionar os mais sensíveis. Vou conversar com Daniel Pinhel. É professor universitário em Amsterdã e especialista em terrorismo. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, professor Daniel Pinhel.
Olá, Ricardo. Obrigado, é um prazer estar aqui.
Vamos falar um pouco desta arma que foi usada. O que é isto deste míssil Hellfire R9X? Que arma é esta?
Bem, esta arma, número um, nós não temos a certeza ainda, não houve nenhuma confirmação oficial do uso desta arma e esta arma, por razões operacionais, tem-se mantido secreta durante bastante tempo e nós temos muito pouca informação. Temos alguma informação, mas temos muito pouca informação sobre esta arma, que é uma versão modificada do míssil Hellfire normal, que é um míssil originalmente desenvolvido como míssil antitanque, mas que, pelo seu tamanho, pela forma de ser fácil de operar, pela sua enorme precisão, quer dizer, dentro do que é um míssil. É um explosivo, obviamente, causa sempre dano, mas tendo em conta o tipo de armas usadas numa guerra, é uma arma de bastante precisão e de bastante eficácia. Portanto, mais de 26 países e organizações têm mísseis Hellfire que os Estados Unidos vendem. Aliás, vendem bastantes, vendem dezenas de milhares de mísseis Hellfire e usam bastante. Esta arma, o R9X, supostamente, a informação que temos é que é uma versão modificada de um Hellfire, que é um míssil um pouco menor do que um homem adulto. Sei que um metro e cinquenta, um metro e meio, um metro e quarenta, alguma coisa assim do gênero. É razoavelmente pequeno enquanto míssil e que tem na ponta um sensor que permite ser guiado com precisão, ou seja, uma chamada arma inteligente. Depois esse míssil, por exemplo, para um ataque a um tanque, aquilo que acontece é que há alguém que no terreno "pinta" o tanque com um laser, que é invisível às forças que estão no terreno.
Não se vê a luzinha vermelha no laser, é isso?
Não, não se vê. Normalmente, é até uma luzinha verde, mas não se vê e, portanto, ela reflete do metal de um veículo, por exemplo, de um tanque, e depois reflete de volta e o míssil é guiado, portanto, o sensor da ponta do míssil leva-o diretamente àquele lugar onde ele está a ser pintado. Às vezes é por aí, às vezes é por geolocalização, através, por exemplo, de um telefone. Portanto, há um sensor que vai até à fonte do sinal de um telefone, que é o telefone que está a ser o alvo. Aliás, a Rússia já matou com um míssil razoavelmente semelhante, há muitos anos atrás, o líder da guerrilha chechena, Shamil Basayev, da mesma forma, indo ao sinal do seu telemóvel por satélite. Portanto, há várias maneiras de fazer isso. Isto é o Hellfire normal, é um míssil razoavelmente pequeno, que tem bastante explosivos, que foi originalmente desenhado para ser uma arma de precisão contra tanques, mas que na última década, década e meia, pelo menos, tem sido bastante utilizado, porque é também possível montá-lo em helicópteros e em plataformas como drones, nomeadamente o Reaper, o K9, que é um dos drones mais utilizados pelos Estados Unidos, nomeadamente em missões de contraterrorismo.
Isso quer dizer que este míssil pode ser operado a partir dos Estados Unidos e disparado por um drone no Afeganistão. É isso?
"The precise nature of the drone strike, the fact that there was no explosion and the damage seemed to be limited to this tiny portion of the building where he was, suggests it could be the work of a secretive US weapon, a modified Hellfire missile nicknamed the Flying Ginsu."
O míssil leva uma coordenada e tem um sensor que o vai levar até o alvo e depois depende se esse alvo foi identificado por um sinal de telemóvel, um sinal eletrônico, um sinal de reflexo de um laser, etc. Neste caso, tudo leva a indicar que era por coordenadas que foram previamente dadas, e não por telemóvel, e não por laser, porque não havia, à partida, mais uma vez, da informação que temos, tropas no terreno a fazer isso. Este drone normalmente é operado a partir de uma base perto. Nós não sabíamos de onde é que esta base tinha sido até há muito pouco tempo. Pensava-se que fosse talvez do Paquistão, aliás, fez até uma mini crise política no Paquistão. Pensava-se que pudesse ter sido uma plataforma como um porta-aviões a partir do Golfo Pérsico, mas na verdade aquilo que nós entendemos hoje é que foi de uma base no Quirguistão, a base Manas, onde estava um contingente destes drones. O que acontece é que estes drones são operados razoavelmente perto, mas o piloto pode estar nessa base, como pode estar nos Estados Unidos. Há bases de drones a ser operadas a partir dos Estados Unidos, por exemplo, em Montana, onde o piloto está lá e o sinal vai por satélite e o piloto está a pilotar a partir dos Estados Unidos, embora o drone tenha sido lançado de outro lugar mais perto do alvo. Mas muitas vezes também os pilotos estão na base mais próxima, neste caso, no Quirguistão. Depende. Agora, o que normalmente acontece em ataques deste tipo é que há algum tipo de comando e controle. Pode ser, por exemplo, advogados, pode ser decisores políticos, pode ser pessoas que tenham que testemunhar o ataque, pode ser peritos, por exemplo, peritos no terreno, peritos no lugar, peritos na língua, peritos na cultura de um determinado sítio que possam estar presentes. E depois há dois tipos de ataques que são razoavelmente diferentes. Há ataques que são feitos a partir das Forças Armadas americanas, portanto, o Pentágono, que tem a jurisdição sobre eles, e ataques da CIA. Os ataques da CIA são bastante mais opacos, nós entendemos menos o processo do qual eles-
Este caso é um ataque da CIA, não é?
Neste caso, é um ataque da CIA, exatamente. E portanto, nós temos menos informação sobre a plataforma utilizada, sobre o míssil utilizado e sobretudo sobre quem esteve presente no chamado "kill chain", ou seja, na cadeia de comando para matar. Normalmente, há o operador do drone, como é óbvio, o seu comandante também presente, e há também, muitas vezes, um decisor político, seja ele alguém da CIA, um chefe de operações da CIA, um diretor da CIA, um diretor interino da CIA, e muitas vezes tem que estar, pelo menos, mais uma vez, no caso dos ataques de drone do Pentágono, tem que estar presente alguém da ala legal para aprovar, no momento, certo tipo de ações, ou seja, para determinar as regras antes da missão começar e depois para fazer com que essas regras sejam efetivamente a ser cumpridas e para dar a ordem final, para haver sempre um elemento humano que tome essa decisão, que não é meramente o piloto.
E para evitar também danos colaterais, como aquele que aconteceu há cerca de um ano em Cabul, em que morreram 10 pessoas inocentes.
Precisamente. Os drones sempre foram vistos pelos Estados Unidos como uma arma de alguma precisão, mas a verdade é que tanto na administração Obama, que teve um aumento enorme da utilização da tecnologia de drones, eles causaram muitas baixas colaterais, crianças, pessoas que estavam perto, porque apesar da razoável precisão de um míssil explosivo, ele tem ainda assim um raio de combate, e há obviamente erros, e depois porque os Estados Unidos tinham políticas, no mínimo, controversas de, por exemplo, fazer o que se chamava ataques de assinatura comportamental, ou seja, não sei se esta pessoa é ou não da Al-Qaeda, não está numa lista, não tenho uma identificação positiva de quem é esta pessoa, mas a forma como esta pessoa ou estas pessoas se estão a comportar sugerem-me que elas possam ser militantes e, portanto, porque têm, por exemplo, armas e botijas de gás numa carrinho pickup, estão numa área de confronto, possivelmente vão fazer um ataque. E isso levava a uma controvérsia muito grande. Portanto, a administração Obama, que foi talvez a pior administração do ponto de vista de mortes e acidentes por drones, e depois a administração Trump, que também teve alguns casos notoriamente maus, nomeadamente aquele famoso caso, o último ataque até agora de um míssil Hellfire no Afeganistão, que foi perto do aeroporto de Cabul, porque suspeitavam que um motorista num carro estava ligado ao ISIS e que ia atacar os talibãs e os americanos no aeroporto quando se deu a retirada de Cabul e portanto fizeram o ataque com míssil Hellfire, esse sim, com carga explosiva, e ainda assim, além de morrer a pessoa que é visada e de haver muita destruição do veículo, depois veio-se a verificar que não havia nenhum explosivo.
"I offer my profound condolences to the family and friends of those who were killed. This strike was taken in the earnest belief that it would prevent an imminent threat to our forces and the evacuees at the airport. But it was a mistake, and I offer my sincere apology."
Morreram ou ficaram feridas dezenas de pessoas, nomeadamente sete crianças que morreram perto, possivelmente da família dessa pessoa, que morreram nesse ataque. E, portanto, para evitar isso, houve um planeamento muito grande para utilizar uma arma, uma versão modificada deste Hellfire, que basicamente é o seguinte-
Vamos lá então perceber o que é isso do R9X.
O R9X, que tem uma série de uma certa mística, nós não sabemos verdadeiramente quase nada sobre este míssil.
We can tell you what we believe we know. The truth is the Pentagon, the DoD, they don't really even want to talk about this thing.
Tornou-se notório pela primeira vez, que provavelmente já tinha sido usado antes, mas tornou-se notório pela primeira vez em março de 2017, quando os Estados Unidos mataram um líder bastante sénior da Al-Qaeda, Abu Khir al-Masri, na Síria, em que as fotos que depois foram passadas à imprensa mostravam um veículo, nomeadamente um carro, que tinha sido atacado, mas esse carro não tinha sinal de explosão nem fogo. Tinha apenas um enorme buraco no tejadilho do carro e o carro estava destruído no centro, nomeadamente nos bancos do condutor e do pendura, mas não tinha sinais de uma explosão. E desde essa altura que houve muita especulação e começamos a falar deste míssil, o R9X, que é um míssil que essencialmente não leva carga explosiva, portanto leva o sensor na ponta do míssil, leva o míssil, o míssil atrás tem uns ailerons Pequeninos que fazem com que o míssil gire, porque tem maior precisão se for a girar, em vez de ser só-
Vai rodopiar?
Vai rodopiar e depois, nos segundos imediatamente antes do ataque, como isto é um míssil anti-individual, não é contra uma estrutura, não é contra um veículo, não é contra uma área, é contra uma pessoa, e portanto, vai para a coordenada específica do corpo da pessoa e uns segundos antes abre umas lâminas, em princípio seis lâminas, e como está a girar, basicamente tritura. Quer dizer, entre o impacto de um míssil que vem a cair de bastante alto e portanto tem bastante força cinética para causar bastante dano, tem também estas lâminas, o que depois causa bastante dano à pessoa e aquilo que está imediatamente na sua vizinhança, mas não dano estrutural à casa. Por exemplo, as informações que temos é que não houve explosões dentro da casa, que estava aliás num bairro de Cabul bastante complicado, porque é um bairro onde estavam as várias missões diplomáticas até há pouco tempo atrás, onde ainda há algumas missões diplomáticas, o bairro Sherpur, e estava numa casa que pertencia a Sirajuddin Haqqani, o filho de Jalaluddin Haqqani, que é um dos comandantes do Talibã, com posição no governo e que é mais anti-americano, e que tem uma posição mais endurcida em relação aos acordos de Doha, e que tem muitos laços, há décadas, toda a sua rede, a Al-Qaeda. E portanto, estava a família de Ayman al-Zawahiri na casa e para evitar esse dano colateral e para evitar os problemas de uma operação com forças especiais, como por exemplo, a morte de Bin Laden, aquilo que se optou foi por este ataque. Este ataque foi com dois mísseis, porque se o primeiro falhasse ou se a pessoa se desviasse ou se a pessoa fosse para um metro ao lado ou entrasse para dentro da casa, havia um segundo míssil que iria atrás da pessoa usando exatamente o mesmo tipo de técnica. No fundo, é um assassinato extrajudicial usando um míssil com lâminas que mata uma pessoa, mas que deixa a estrutura da casa intacta e que não causa, por exemplo, fogos ou explosões secundárias.
"Now, justice has been delivered and this terrorist leader is no more."
Ayman al-Zawahiri acabou por ser vítima do hábito.
Exatamente. Como é que se planeia uma missão destas? Deve demorar...
Semanas. Bastantes semanas a planear. Os Estados Unidos fizeram um modelo da casa, o que significa que têm "assets" no terreno que estiveram a observar a casa minuciosamente, a tirar fotografias, fotografias de satélite. Provavelmente tentaram ter alguém no Afeganistão que pagassem, que fosse dentro da casa ou tivesse acesso pelo menos ao pátio da casa para saber quantas pessoas estavam, etc. E depois foram observando as pessoas. E uma das coisas que observaram é que Ayman al-Zawahiri, que é uma pessoa de extremo cuidado, Ayman al-Zawahiri está na lista para ser capturado ou morto pelos Estados Unidos, pelo menos desde o ataque ao USS Cole, ainda antes da invasão dos Estados Unidos, desde 97.
Esteve com Bin Laden desde o início.
Ele foi um dos fundadores da Al-Qaeda e era talvez a pessoa ideologicamente mais influente na cúpula da Al-Qaeda.
"For decades, he was the mastermind behind attacks against Americans, including the bombing of the USS Cole in 2000, which killed 17 American sailors and wounded dozens more."
E portanto, é uma pessoa que sobreviveu todo este tempo por ser extraordinariamente cauteloso, mas estando no Afeganistão, tendo um sentido de vitória, estando protegido por um dos comandantes mais importantes do movimento Talibã e os Estados Unidos tendo retirado totalmente do Afeganistão, ele deu-se ao hábito, ao pequeno prazer de todas as manhãs, após as orações da manhã, muito cedo, perto do nascer do sol, de ir à sua varanda no topo desta casa, não sei se é um terraço, e ficar a ver o sol nascer sobre Cabul, que é efetivamente muito bonito, porque Cabul é rodeado por montanhas, está num planalto desértico e está rodeado por montanhas com neve. E desenvolveu esse hábito que permitiu à CIA fazer o que se chama um ataque através do padrão de vida ou de padrão de comportamento. Permitiu esta janela de oportunidade numa altura em que ele estava razoavelmente isolado, numa zona visível e numa zona da casa que não era muito interior e que fazia com regularidade. Os Estados Unidos viram várias opções, viram a opção de um ataque mais convencional com explosivos, de um avião largar uma bomba maior, mas isso teria um efeito colateral ainda maior, de uma operação eventualmente com pessoas no terreno, mas ela era bastante arriscada e poderia pôr em causa os acordos de Doha da parte dos Estados Unidos com os Talibã. E portanto, os Estados Unidos basicamente optaram por esta versão do R9X com estas lâminas para matar apenas Ayman al-Zawahiri.
"At the speed it's traveling, if you actually spotted this relatively small missile a mile away, you would have four seconds before it was on top of you. That's how fast it's moving. So that's what makes it such a devastating weapon."
Eu acho que muito pouca gente vai continuar a dizer que esta política de contraterrorismo cinética tem uma série de problemas legais, éticos e políticos, nomeadamente na ideia de caçarmos seres humanos à distância, mas ao mesmo tempo acho que ninguém vai, tirando talvez algumas pessoas da Al-Qaeda, chorar muito por Ayman al-Zawahiri, que é uma pessoa responsável pela morte de dezenas de milhares de pessoas, nomeadamente uma vasta maioria de muçulmanos, sobretudo muçulmanos xiitas, e que tem atrás de si um rasto de destruição que vai desde o Egito ao Paquistão, ao Iémen, à Síria, ao Iraque, ao Afeganistão, e é de facto talvez até mais significativo do ponto de vista operacional para a Al-Qaeda do que a própria morte de Osama Bin Laden.
Obrigado, professor Daniel Pineau.
Obrigado eu, foi um prazer.
Daniel Pineau é professor universitário em Amsterdão e é especialista em terrorismo e relações internacionais. Esta foi a História do Dia. Neste episódio, ouvimos sons retirados do canal do YouTube da Casa Branca e ainda da CNN Internacional. A produção foi da Inês Santos, a sonoplastia do Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Até amanhã!