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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os novos testemunhos de mulheres recrutadas para a seita do yoga.
Em Portugal, a Art Extasia parece estar mais ativa do que nunca. Organiza atividades de fim de semana, palestras sobre relacionamentos conscientes e cursos de introdução ao tantra.
Este é um excerto do podcast Plus do Observador, "Os Segredos da Seita do Yoga", que contou a história de Gregorian Bivolaru, acusado de explorar sexualmente centenas de mulheres, entre elas portuguesas. Ouvimos a referência à Art Extasia, o ramo artístico do movimento criado pelo alegado guru do yoga, que está detido em França desde novembro de 2023, por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza. Em Portugal, os testemunhos que chegaram ao Observador depois da publicação deste podcast Plus confirmam uma ligação entre a escola de yoga Natha, em Lisboa, e a Art Extasia. Vou conversar com Mariana Marques Tiago. É jornalista da seção de sociedade do Observador e assina este artigo sobre o qual vamos falar. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Luís.
Mariana, para quem não ouviu ou para quem não se lembra, queres recordar um pouco desta história que é contada no podcast "Os Segredos da Seita do Yoga"?
É um podcast em seis episódios, como é habitual, que conta a história de várias mulheres portuguesas. Temos apenas uma mulher estrangeira, mas o resto são tudo mulheres portuguesas que entraram numa escola de yoga e tantra aparentemente normal, em Lisboa, no centro da cidade, mas que depois acabava, e acaba, porque ainda está a acontecer, por ser todo um mundo de juramentos, de segredos, de viagens que os membros fazem para destinos desconhecidos, sem saber para onde é que vão, essencialmente as mulheres, e que no fundo, a pouco e pouco, começam a cortar ligações com toda a sua vida pessoal fora da escola, passam a viver exclusivamente para a escola e quando dão por si, estão numa seita.
Entretanto, foi possível perceber de que forma a Art Extasia, que é uma das protagonistas também desse podcast, recruta em Portugal. E pegando na pergunta que tu própria fazes no teu texto, Mariana, como é que esta escola em Lisboa, a Natha, e a Academia de Arte Erótica se cruzam em tudo isto? Explica-nos um bocadinho do que está aqui em causa.
Sim, porque às vezes parece que é um pouco complexo. Nós temos uma organização que é controlada por um guru, que é o Gregorian Bivolaru, que é romeno, e em todos os países onde o grupo ou a organização está presente, é uma espécie de triângulo. Temos a escola de yoga e tantra, que em Lisboa se chama Natha, com TH. Depois temos ligações ao templo tântrico, que é toda uma outra história que também está desenvolvida no podcast. E depois temos este ramo artístico, que é a Art Extasia, que serve como forma de recrutar novos membros. E como é que as coisas aqui se interligam? Quando nós fazemos uma pesquisa no site, quer seja da escola de yoga e tantra, quer seja no site da Academia de Arte, parece que não há aqui nenhum cruzamento, nós não percebemos que há uma ligação. Mas aquilo que nós começámos a perceber, logo com as primeiras pessoas com quem falámos para o podcast e agora aprofundámos, é que efetivamente há uma ligação clara, e são as próprias pessoas que nos contam isso. Mulheres, essencialmente, que dizem que existem rituais de iniciação secretos, tanto num sítio como no outro, que têm sempre por base a mesma ideia, que é o tantra, e depois a partir daí evolui. Têm também vários alunos e professores em comum. Quando eram organizados festivais de tantra da escola de yoga e tantra, as pessoas que estavam na Academia de Artes também faziam parte da organização. Portanto, temos aqui vários cruzamentos. E há outra coisa muito interessante que uma das pessoas nos conta que é, por exemplo, quando entravam na Art Extasia por uma questão da beleza e da arte associada ao tantra, muitas vezes os professores que lá estavam aconselhavam começarem a fazer yoga ou ter uma prática tantra um bocadinho mais aprofundada numa escola que era a Natha. Portanto, há aqui uma ligação clara.
Mariana, temos então neste artigo, sobretudo, o testemunho de três mulheres, Ângela, Rita e Luísa, que são nomes fictícios. São testemunhos que chegaram depois da publicação do podcast, os Segredos da Seita do Yoga. Mariana, estas mulheres sabiam ao que iam quando entravam nestas escolas, nestes locais?
Não. Todas elas estavam à procura de, primeiro, perceber mais sobre o tantra. Todas elas dizem que tinham já um grande interesse no tantra e portanto queriam aprofundar esse conhecimento. E depois, havia aqui a questão da arte também ligada à espiritualidade, portanto acabava por ser uma coisa que as atraía. Obviamente que estas mulheres quando entram para a Academia de Arte, sabem que temos uma academia de artes que está ligada ao tantra. Obviamente, está aqui quase implícito que há aqui esta ideia de toque, de corpo. Mas há uma diferença entre isso e depois outras experiências que elas nos contam, como por exemplo, as iniciações secretas, práticas em que elas começam a colocar em questão alguns dos seus princípios, e que saem da sua zona de conforto. E também não sabemNão sabiam, por exemplo, que havia uma associação ao guru Gregorian Bivolaru, não sabiam que existiam comunidades, os ashrams, onde vivem certas pessoas que pertencem a este movimento.
Não sabiam bem ao que iam. E, de resto, elas contaram algumas situações que viveram, nomeadamente esta Luísa e esta Rita, que mais uma vez digo, são nomes fictícios.
Claro. Sim. A Luísa e a Rita têm uma experiência só aqui em Portugal. Elas entraram na Academia de Arte e aquilo a pouco e pouco começou esta questão da exploração do corpo, das posições, tudo isto aliado ao tantra, e depois escala para retiros e workshops, em que elas nos contam, por exemplo, o facto de terem feito filmagens nuas na serra de Sintra, que é uma coisa que fazia parte destes retiros. E isto é muito interessante. Na altura, uma destas mulheres até diz: "Eu na altura, eu despi-me e eu acho que foi de forma consentida, mas ao mesmo tempo, agora quando eu penso, eu já não sei se foi de forma consentida ou se eu simplesmente estava tão embrulhada naquilo e com a questão também social, a interferência das outras pessoas que estão ali a gravar e a acompanhar a produção destas filmagens, que são levadas a fazer aquilo." Estas duas mulheres acabaram por participar nos vídeos e nos filmes que são feitos pela Arte Extasia, porque eles têm esta questão da arte e depois a arte ganha forma em vídeos e filmes que eles depois, supostamente são apenas para consumo interno. Essa é uma questão que fica por esclarecer, pelo menos para já. E elas acabam por entrar nestes filmes e nestes filmes, por exemplo, surgem nuas. Essa é logo uma primeira experiência que parece que está a sair um bocadinho daquilo que é o normal. Depois, além disto, temos a questão das iniciações, em que uma das mulheres nos conta, por exemplo, que tinham iniciações com outras mulheres mais velhas, que estavam há mais tempo na Academia de Arte, em que havia ensinamentos mais eróticos, coisas que se calhar já estão a sair aqui um bocadinho daquilo que é o expectável para uma academia de arte e de tantra. Passamos aqui o limite.
E fica também essa ideia de que lhes era difícil a estas mulheres depois distanciar-se ou mesmo sair destes movimentos depois de entrarem.
Sim. Isso acontece aqui nesta Academia de Arte, mas também acontecia na escola de yogui tantra. Neste aspecto também há aqui mais uma semelhança, porque para já temos a questão da pertença do grupo. E depois era muito incutida a ideia de que as mulheres tinham que fazer aquilo para evoluir espiritualmente e que se elas não estavam a conseguir fazer aquilo, a culpa era delas. Ou era o ego delas que não se estava a permitir responder a esse desafio, ou porque ainda não tinham evoluído o suficiente e tinham que fazer mais horas de prática de ioga, por exemplo. Ao mesmo tempo, as pessoas que estavam há mais tempo dentro destes movimentos, também tentavam puxar um bocadinho pelas pessoas, de não as deixar sair. De dizer: "Isto é apenas mais um desafio que tu consegues ultrapassar, não te podes deixar consumir por aqueles que estão lá fora e que não entendem aquilo que nós estamos aqui a fazer, que não entendem o que é evolução espiritual." Digo as mulheres, porque os exemplos que temos são mulheres, mas também temos homens, atenção. Mas quando as mulheres com quem nós falámos tentavam sair, deparavam-se com esta situação e sentiam: "Se calhar sou eu que não estou a conseguir estar à altura."
O problema é meu, não é dos outros.
Exatamente.
Já regressamos à conversa com a Mariana Marques Tiago. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Mariana Marques Tiago. Há aqui também neste teu artigo, Mariana, o nome de um homem, Pedro Vieira, que também faz aqui uma ligação entre a Natha e a Arte Extasia. Quem é exatamente este homem, Mariana?
Pedro Vieira é um ator, é português, e atualmente assina como presidente da direção da Arte Extasia cá em Portugal, porque, como disse logo no início, a Arte Extasia tem representação nos vários países onde existe a organização, o movimento. Cá em Portugal é o Pedro Vieira. O Pedro Vieira é muito próximo de uma mulher que é a Agora Vidya, que é um nome também importante porque é o braço direito do guru. Enquanto ao mesmo tempo que temos o guru, ou tínhamos, pelo menos certede, como cabecilha da organização, digamos assim, temos a Agora Vidya a coordenar a parte artística, a parte dos filmes, a produção dos filmes, através do qual eles recrutam novas pessoas. E o Pedro Vieira acaba por ser muito o seu braço direito, então ele tem aqui um papel muito importante, e as próprias mulheres nos contam isso, que é o papel de sedutor. O objetivo dele é atrair pessoas para a Academia de Artes e faz isso sendo muito sedutor, muito cativante, tentando ter uma presença masculina que, ao olhar da academia, é a presença que o homem deve ter, um homem viril, um homem calmo, sempre muito tranquilo, muito internamente organizado, digamos assim. E o Pedro Vieira é esse homem.
E foi ele que acabou também por levar algumas mulheres portuguesas para a Hungria, como foi o caso da Ângela, também um nome fictício de quem falas no teu artigo. Qual foi a experiência que ela te relatou?
Sim. A Ângela, em comparação com as outras duas mulheres, esta é a mulher mais velha com quem nós falámos. E é importante fazer aqui uma ressalva que é: o Pedro Vieira não a levou literalmente para a Hungria. Ou seja, ele lançou o desafio à Ângela de ela ir à Hungria conhecer a comunidade que existe lá, que vive num ashram, portanto, mesmo numa casa. E a Ângela foi um bocadinho à experiência, duas semanas para ver como é que a coisa corria.E ela disse que estava muito entusiasmada, porque lhe contavam maravilhas. Diziam que era um sítio muito bonito, onde ela podia viver em paz e trabalhar na sua evolução espiritual, aliado à questão da arte e tudo mais. O problema é que quando ela chegou lá, percebeu que, afinal, as expectativas dela tinham caído todas por terra, porque aquilo não era nada do que ela tinha imaginado. A primeira coisa que ela destaca logo é o facto de haver duas casas separadas para homens e mulheres, sendo que a dos homens tinha ótimas condições e a das mulheres não. Era totalmente o oposto, ao ponto de, por exemplo, tinham uma lâmpada avariada há quase um ano e as mulheres não podiam mudar porque não tinham ordem de o fazer, tinha de ser os homens, e os homens faziam ao tempo deles. O mesmo com as compras.
Com a comida e a comida também. Faz essa distinction.
Ela conta que esteve 15 dias a comer só cebola e batata. Nem azeite.
Exatamente. Naturalmente, Mariana, que pediste também uma reação a todos estes testemunhos e a estas ligações, obtiveste alguma resposta? Conseguiste perceber como é que estes visados reagem a todos estes relatos?
Não, a Artexasia não quis responder. Aliás, nós trocamos alguns e-mails e a Artexasia acabou por não nos dar uma resposta. Disse que faltavam alguns dados concretos que lhes permitissem responder às perguntas que nós tínhamos feito. Não obtivemos nenhuma resposta por parte deles, sendo que todos os e-mails foram escritos por Pedro Vieira, o presidente da Artexasia em Portugal.
Mariana, estes testemunhos chegaram já depois da publicação do Podcast Plus. Imagino que existam também muitos outros que não estão aqui. Será que vamos ter uma segunda temporada do "Os Segredos da Seita do Yoga" ou não podes dar aqui um spoiler?
Vamos ver. Nunca se sabe.
Exatamente. Mariana, obrigado.
Obrigada.
Mariana Marques Tiago é jornalista da secção de sociedade do Observador. Assina este artigo e é também autora da pesquisa e dos guiões do Podcast Plus "Os Segredos da Seita do Yoga". Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Boa semana.