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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Donald Trump é o grande derrotado das intercalares.
"Every county, every vote. Every county, every vote. And that's exactly what happened. We jammed them up."
John Fetterman é candidato ao Senado pelo Partido Democrata no estado da Pensilvânia. Bateu Mehmet Oz, o candidato republicano apoiado por Trump. Oz é uma estrela em todo o mundo. Era o médico de Oprah Winfrey, que apelou ao voto no adversário Fetterman. Oz é um dos candidatos de Trump derrotados nas eleições intercalares nos Estados Unidos.
"I had a stroke. He's never let me forget that. And I might miss some words during this debate, mush two words together, but it knocked me down, but I'm gonna keep coming back up. And this campaign is all about, to me, is about fighting for everyone in Pennsylvania that ever got knocked down, that needs to get back up and fighting for all forgotten communities all across Pennsylvania."
Os resultados finais ainda não são conhecidos e podem demorar semanas. À hora que estamos a gravar este episódio, a corrida eleitoral está taco a taco para o Senado e com vantagem para os republicanos na Câmara dos Representantes. Vários especialistas e também os partidos Republicano e Democrata previram que uma onda vermelha, a onda dos republicanos, iria varrer os Estados Unidos, mas erraram. A corrida para o Congresso tem muita importância para os próximos dois anos de governação da administração Biden e pode ser fundamental na definição da corrida para as presidenciais de 2024. Vou conversar com Nuno Gouveia, um especialista em política norte-americana e autor da newsletter Atlantic Report. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Nuno Gouveia.
Obrigado, é um prazer estar aqui na Rádio Observador.
A noite de terça pra quarta-feira foi mal dormida, na expectativa dos resultados, ou não?
Sim, aliás, é um hábito de dois em dois anos, sempre que há eleições nos Estados Unidos, nós aqui, pelo menos aqueles que seguem mais atentamente o fenômeno eleitoral americano, termos uma noite mal dormida ou às vezes nem sequer dormida.
E o que está em causa nestas eleições intercalares? Não estamos só a falar de Congresso, não é?
Sim, de facto, os Estados Unidos de dois em dois anos vão a eleições. Esta semana foram eleitos todos os congressistas na Câmara dos Representantes, foi eleito também um terço no Senado e 36 governos estaduais foram a votos, e as Câmaras Estaduais também, os Senados Estaduais, e há sempre um enorme leque de referendos locais que também são efetuados nesta altura.
E os resultados finais só em dezembro? É preciso assim tanto tempo? Porque é mais rápido e no Brasil foram poucas horas.
É verdade, já estamos habituados desde a famosa eleição presidencial do ano 2000, no estado da Flórida, que não termina tudo no dia das eleições. Neste caso, nas eleições desta semana, o que se passa é que o estado da Geórgia tem uma obrigação dos candidatos terem mais de 50% e os dois candidatos, o Partido Democrata e o Partido Republicano, nenhum deles atingiu esse valor. Portanto, irá haver uma segunda volta no mês de dezembro. Este ano, ficará em suspenso o resultado final, porque pode ser uma eleição decisiva para definir a maioria no Senado.
"State officials say it looks like we're headed for another runoff this year, as neither Democratic senator Raphael Warnock and Republican challenger Herschel Walker have hit the 50% threshold to win outright."
E os socialistas e também os dois grandes partidos norte-americanos, democratas do presidente Biden e os republicanos do presidente Trump, previam uma verdadeira onda vermelha, a cor do Partido Republicano. Nos Estados Unidos, a direita veste vermelho. Mas afinal, Nuno Gouveia, não há onda, só há espuma.
De facto, nós nas últimas semanas, havia uma expectativa e quase todos os analistas eram coincidentes que haveria uma grande vitória eleitoral do Partido Republicano com uma grande vitória na Câmara dos Representantes e também com uma conquista mais ou menos confortável de uma maioria no Senado. O que os resultados desta semana nos dizem é que isso não vai acontecer. A maioria na Câmara dos Representantes poderá ser muito curta e a maioria no Senado, neste momento, figura-se difícil.
"But I just wanna step back again and just look at this map, right? That's not a red wave. Uh, that's nothing like a red wave. That could end up being enough for Republicans to get a small House majority."
Portanto, penso que os analistas e também as sondagens, mais uma vez, não nos contaram a história toda e foi mesmo preciso esperar pela contagem dos votos pra sabermos o que é que os americanos decidiram.
Mas as sondagens, e falando nelas, punham, por exemplo, a inflação, o crime, o aborto no topo das preocupações dos norte-americanos. E estes, tradicionalmente, são pontos fortes dos republicanos quando perguntavam às pessoas qual o partido com mais capacidade para lidar com estes problemas, a inflação, a criminalidade ou também a questão do aborto. As pessoas respondem maioritariamente os republicanos e não os democratas. O que falhou aqui?
De facto, estas exit polls que fizeram nas eleições são muito interessantes porque revelam De facto, uma incapacidade do Partido Republicano em ganhar diante do clima que está instalado nos Estados Unidos. De facto, há um grande descontentamento em relação à administração Biden. O presidente Joe Biden permanece extremamente impopular e também por esses motivos esperava-se que o Partido Republicano tivesse uma grande vitória. A meu ver, há vários motivos que explicam esta contradição entre o sentimento geral da população e depois os resultados do partido da oposição, mas o Partido Republicano escolheu alguns maus candidatos. Eu vou só dar o exemplo do estado de New Hampshire, que era um estado em que os democratas sentiam que tinham grandes possibilidades de perder a sua senadora. Os republicanos venceram facilmente para o governo estadual, portanto, o governador é republicano e foi reeleito facilmente, mas os republicanos nas primárias nomearam um candidato apoiado por Donald Trump e que defende todo o argumentário de Donald Trump e esta semana acabou copiosamente derrotado. Isso explica algumas das derrotas que os republicanos tiveram esta semana. Por outro lado, eu penso que no verão a decisão do Supremo Tribunal em reverter a decisão do Roe versus Wade jogou a favor dos democratas e todas as exit polls apontam para uma grande mobilização do eleitorado mais jovem e normalmente a favor dos candidatos do Partido Democrata.
Portanto, a questão do aborto poderá também ter sido decisiva aqui.
Eu penso que foi bastante decisiva para equilibrar as eleições em muitos estados e a mobilização da base democrata, que também não estará muito contente com a administração Biden, mas estes eleitores terão sido motivados pela questão do aborto a ir às urnas e isso poderá ter sido decisivo para atenuar as perdas do Partido Democrata.
Já voltamos à conversa com o Nuno Gouveia.
PopUp.
O programa de cultura pop da Rádio Observador, que olha para o presente, tem dias em que aposta no futuro, mas também aprecia bastante olhar para o passado.
Com Maria Ramos Silva. Aquelas séries curtinhas de 20 e tal minutos, 30. Aquilo era tudo muito ao osso e tu numa noite sem querer podias ver dois a três episódios. Bruno Vieira Amaral.
É para dar já a minha opinião.
Pedro Buchinho Mendes.
É mais uma série em que eles estão no fundo do robe, têm umas espadas, há uns venenos, há uns feiticeiros.
E Tiago Pereira.
Se calhar muita gente agora de repente quer mudar a estação. Não façam isso, por favor.
PopUp, às quintas-feiras depois do meio-dia na Rádio Observador e sempre em podcast.
Estamos de regresso à conversa com Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana e autor da newsletter "Atlantic Report". E afinal, que corridas ou que estados foram essenciais para os resultados nestas eleições intercalares?
Eu destacava alguns estados que terão marcado a noite. Em primeiro lugar, e a favor do Partido Republicano, destacaria a vitória na Flórida de Ron DeSantis, o governador que está a preparar uma candidatura presidencial para 2024 e que obteve uma vitória histórica de perto de 60%, venceu alguns condados que os republicanos não ganhavam há décadas, como Miami-Dade. E esta vitória dele, até em contraste com os resultados mais fracos em outros estados de candidatos apoiados por Donald Trump, vai marcar estas eleições. Por outro lado, destacava, como há pouco falei, a dissonância em alguns estados que aconteceu entre candidatos claramente marcados e apoiados por Donald Trump e outros candidatos. E aí iria ao estado da Geórgia, o tal que vai ter uma segunda volta em dezembro para o Senado, mas onde o governador Brian Kemp, que como nos recordamos desafiou Donald Trump nas eleições de 2020 e foi desafiado este ano nas primárias republicanas por um candidato apoiado por Donald Trump. Brian Kemp venceu esta terça-feira facilmente a reeleição em Geórgia e marcou aqui um bocado esta dissidência dentro do Partido Republicano, onde um candidato não apoiado por Trump vence facilmente e o candidato apoiado por Trump vai ser obrigado a espetar uma segunda volta e se forem repetidos os resultados que tivemos em 2020 poderá perder essa eleição. Depois destacava algumas vitórias interessantes que os democratas tiveram, sobretudo nos governos estaduais contra candidatos apoiados por Donald Trump e mais uma vez candidatos que questionados sobre se teriam validado os resultados de 2020 recusaram-se a responder. E estas vitórias quase em toda a linha do Partido Democrata em governos estaduais como Wisconsin, como no Michigan, como no Minnesota, como provavelmente no Arizona, estas vitórias irão marcar também o futuro e isso é uma nota muito positiva para o Partido Democrata porque Joe Biden e os membros do Partido Democrata fizeram também da questão da defesa da democracia, da defesa da transparência nas eleições, uma questão nestas eleições. E nestes estados onde isso foi um assunto muito debatido entre os candidatos, os democratas saíram vencedores.
E Nuno Gouveia, já vamos olhar mais em pormenor para essa questão desses derrotados que eram apoiados por Trump e que influência pode isso ter nos próximos tempos. Queria aqui ainda ver outro ponto antes de irmos a esse. É relativamente normal esta mudança de mãos do poder em Washington, o sistema prevê eleições de dois em dois anos nos Estados Unidos Os presidentes Joe Biden, Barack Obama, Donald Trump empenharam-se muito nesta campanha eleitoral e estes resultados quase taco a taco a que estamos a assistir, são mais sinais de que há uma efetiva polarização política nos Estados Unidos, há uma divisão do país ao meio?
Esta polarização já não é de agora, começou eventualmente no início da primeira década deste século e tem vindo a agudizar-se. Os anos de Barack Obama já foram muito difíceis. A eleição de Donald Trump em 2016, contra todas as expectativas, foi uma prova que havia, de facto, uma divisão profunda na sociedade americana e desde que Donald Trump é o polo unificador do Partido Republicano e de toda a política norte-americana que essa divisão se acentuou. Não era tão normal os antigos presidentes se envolverem tão ativamente nas eleições dos Estados Unidos, mas nos últimos anos temos visto que quer Bill Clinton, quer Barack Obama, que quase parecia ele próprio um candidato.
Exatamente.
Correu quase a América toda em favor dos candidatos democratas. É uma evidência também que aquele respeito institucional entre ex-presidentes e entre os dois partidos já não existe. Aliás, nesta campanha, se atentarmos ao que foi dito sobre o ataque à esposa Nancy Pelosi, onde alguns republicanos colocaram em causa até que o senhor tenha sido atacado, ou algumas declarações mais influentes de alguns responsáveis republicanos, demonstra que a polarização existe e que não vai desaparecer tão cedo.
E o marido de Nancy Pelosi foi atacado em casa. E de facto, aparentemente, e olhando para todos estes resultados, as tropas de Trump, se lhe podemos chamar assim, foram penalizadas. Isto pode levar a alguma mudança de discurso, nomeadamente nos candidatos que vão ter agora uma segunda volta, para se afastarem de Trump?
O candidato Herschel Walker, da Geórgia, é basicamente uma criação de Donald Trump. Ele era uma antiga estrela de futebol americano, é uma pessoa conhecida nos Estados Unidos, mas não tinha nenhuma ambição política, ou pelo menos não era muito conhecido nenhuma intervenção política, e foi Donald Trump que o convenceu a candidatar-se às primárias na Geórgia para derrotar um candidato que ele não gostava. O inteligente, por exemplo, para Herschel Walker nesta segunda volta, seria de facto afastar-se um bocado desta linguagem mais divisiva de Donald Trump, mas dada a proximidade que ele tem com Donald Trump, eu não acredito que isso vá acontecer. Por outro lado, eu penso que o Partido Republicano e alguns operacionais e alguns doadores do Partido Republicano, estarão a ver como é que poderão se livrar de Donald Trump. Aliás, esta conversa dos insiders do Partido Republicano, nas suas conversas e no seu íntimo não quererem estar aliados a Donald Trump, mas depois como existe quase um culto entre uma base muito grande do Partido Republicano em relação a Donald Trump, eles acabam sempre por ir atrás de Donald Trump, porque percebem que não têm sobrevivência política fora da órbita de Donald Trump. Mas o que aconteceu esta semana estará a fazer muita gente equacionar o seu futuro político ao lado de Donald Trump.
Donald Trump prometeu para dia 15 uma declaração, ou seja, mantém aqui no ar a possibilidade de uma candidatura. Isso depois destes resultados ainda poderá acontecer?
Eu penso que sim, até porque se atentarmos à personalidade de Donald Trump, normalmente estes reveses ele não os encara bem assim como reveses. Aliás, ele ontem dava uma entrevista num canal americano onde dizia esta coisa inacreditável que era: "Se os resultados forem bons, o crédito é todo meu. Se os resultados forem maus, eu não tenho nada a ver com isso". Esta é uma tradução minha, mas a ideia da frase dele era esta. Portanto, ele pré-anunciou que irá anunciar a sua candidatura presidencial na próxima semana. Esta antecipação do calendário eleitoral por parte de Donald Trump, ao pré-anunciar que vai anunciar uma candidatura já no dia 15 de novembro, não é só motivada pelo seu desejo de voltar a ser candidato presidencial, mas também pelo seu receio ou receio que os processos judiciais que está a ser alvo, nomeadamente no estado de Nova Iorque ou das entidades federais, o possam assombrar. E Donald Trump e seu círculo vê esta pré-anúncia candidatura como uma proteção. Ou seja, ele pensa que se for já um pré-candidato ou um candidato à nomeação, que as instâncias judiciais o vão deixar em paz. E eu penso que será por isso que ele irá provavelmente anunciar a sua candidatura no dia 15.
E entre os republicanos há alternativas a Trump? Já falou aí de um forte candidato que vem de Miami.
Sim, eu penso que Ron DeSantis é neste momento o favorito a defrontar Trump com sérias possibilidades de vencer as primárias. Aliás, as casas de apostas, que valem o que valem e neste momento não valem muito, mas já estavam a indicar que Ron DeSantis era o favorito não só para vencer as primárias republicanas, mas também as presidenciais de 2024. Portanto, ele seguramente, se nada acontecer, porque em política tudo pode acontecer e nos Estados Unidos ainda mais, será um forte candidato à nomeação republicana. Outros nomes que estarão a pensar nisso e que não escondem é o Mike Pence, o antigo vice-presidente dos Estados Unidos, que também neste momento não tem relações com Trump, tem anunciado e tem feito algumas aparições e poderá ser um candidato. Não acredito que tenha grandes possibilidades de vencer, mas ele poderá ser um candidato à nomeação. Outros nomes que se falam é o senador do Texas, Ted Cruz, ou a Nikki Haley, que poderá ser um nome forte mediante o leque de candidatos, que ela foi governadora da Carolina do Sul, foi embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, e é sempre um nome que se fala com potencial presidencial para 2024.
Obrigado, Nuno Gouveia.
Obrigado, Ricardo.
Esta foi a história do dia. Nuno Gouveia é especialista em política norte-americana e é o autor da newsletter Atlantic Report. Ouvimos sons retirados das emissões das televisões norte-americanas CNN e também CBS. Este episódio contou ainda com a ajuda da jornalista Inês Batista. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.