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Esta é a história do dia da Rádio Observador: vencedores e vencidos da noite dos Oscars.

"The Oscar goes to..."

Esta é Nicole Kidman no exato momento antes de revelar o vencedor do Oscar de melhor filme. Foi o final de uma longa noite que começava assim:

"Thank you very much. I am Conan O'Brien, and I'm honored to be the last human host of the Academy Award."

Esta foi a primeira piada de Conan O'Brien ao abrir os Oscars deste ano. E a razão pela qual estamos a ouvir a piada do apresentador, mas ainda não deixamos Nicole Kidman acabar a frase que começou a dizer com o anúncio do vencedor da noite, é para dar tempo de avisar quem nos está a ouvir que, se ainda não viu os Oscars e não gosta de saber das coisas antes do tempo, este episódio vai ser uma batalha atrás da outra. Feito o aviso, aí vamos nós.

"And the Oscar goes to Amy Madigan."

A entrega de prêmios abre com um Oscar de melhor atriz secundária para Amy Madigan, reconhecida aos 75 anos pelo papel de Gladys no filme de terror "Weapons", em português, "A Hora do Desaparecimento". A partir daí, houve uma mulher a fazer história, houve um raro empate, também um recordista de Oscars que não apareceu na cerimônia, e uma corrida a dois entre pecadores, e uma batalha atrás da outra, que manteve o suspense até mesmo ao fim, quando Nicole Kidman anunciou isto:

"The Oscar goes to 'One Battle After Another'"

Hoje vamos olhar para quem ganhou e também para quem perdeu. Vamos eleger os momentos que ficam na história e aqueles de que ninguém se vai lembrar amanhã. E quando digo vamos, sou eu e o Tiago Pereira, editor de cultura do Observador. Eu sou o Pedro Benvides e esta é a história do dia de segunda-feira, 16 de março. Olá, Tiago.

Olá, Pedro.

Estás com ar ensaiado, eu também.

Não, é falso. Eu queria te dar os parabéns, porque esta introdução merecia o Oscar de melhor argumento introdutório.

Este ano houve um Oscar de estreia, que é o Oscar para o melhor casting.

É verdade.

Quem sabe, vamos torcer para que haja essa categoria numa das próximas edições. Eu dizia que estamos aqui um pouco com ar ensaiado, porque estamos a fazer esta edição da História do Dia em direto.

Grandes profissionais.

6:38 da manhã. Somos profissionais e modestos, ainda não parámos de nos auto elogiar. Vamos falar de-

Dos outros, da obra dos outros.

Da obra dos outros que foram premiados esta noite. Estamos a falar dos Oscars. "Uma Batalha Atrás da Outra" tinha imensas nomeações. Estamos a falar de 13 nomeações, não tenha certeza.

E curiosamente também, por causa do alentado da hora, batalha atrás de batalha, não uma batalha atrás da outra, que é o que nós estamos a fazer aqui a esta hora, mas eu compreendo perfeitamente.

Tenho esse problema.

Não faz mal nenhum.

É por causa da tradução.

Obviamente.

O que te pareceu esta vitória, este filme? Não é que seja propriamente uma surpresa, porque ele liderava as apostas. O que te pareceu?

Os Oscars têm este problema, entre aspas, que é até que ponto, às vezes, um Oscar é entregue como prêmio de carreira, mesmo sendo de melhor filme ou realização, como foi o caso ao Paul Thomas Anderson.

Tu achas que pode ter sido esse o caso?

Acho que sim. Se analisar as coisas à distância e demasiado rápido, olhando para a concorrência, provavelmente não.

Isso quer dizer que também não vias outro filme.

Via. Agora é preciso é ter em conta os valores habituais da academia, como é que funciona, quais são habitualmente os critérios, como é que a votação normalmente é orientada, o peso que pode ter um nome na decisão final. Todas estas coisas juntas, dois mais dois não é exatamente igual a quatro. Ou seja, o filme que te pode parecer, de facto, o melhor filme naquele ano.

Acabar por ganhar o Oscar.

Exato. E aí é que está a piada dos Oscars.

E neste caso concreto, e eu vou te pedir desculpa, porque são 6:40 da manhã. O que tu queres dizer com isso? Queres dizer que achas que foi bem entregue o Oscar?

Acho que foi bem entregue. Isto vai tudo depois da opinião pessoal. Eu gostei do filme, gosto do Paul Thomas Anderson como realizador. Não me parece que seja o melhor filme dele, mas não é isso que está aqui em causa. O que está em causa é a valia do trabalho e depois tendo em conta a concorrência. E tendo em conta, de facto, tudo isso, parece-me que foi muito bem entregue. E eu acho que a cerimônia foi explicando aos bocadinhos o que ia acontecer. Portanto, foram seis prêmios. Quando vês melhor montagem, melhor argumento adaptado, o melhor ator secundário, já vai dando pista de que o elenco tem peso. O melhor casting, ainda que o melhor casting não seja o melhor elenco. Talvez a tradução mais certa seja a melhor direção de elenco, ou seleção de elenco. Portanto, o prêmio foi entregue à diretora de casting. Aquele processo, a forma como os atores para determinados papéis foram escolhidos. Vai juntando estas peças todas E depois chegas à realização.

A partir do momento em que entregaram o prêmio ao Paul Thomas Anderson, ficou claro.

Sim, neste caso, eu acho que se torna claro. Acho que era inevitável.

E tu achas que "Pecadores", que era o filme que ainda por cima partia com mais nomeações e que era o grande concorrente de batalha atrás de batalha, achas que saiu como um derrotado ou apesar de tudo, conseguiu alguns prêmios de consolação suficientes, designadamente até o de melhor ator?

Sim, eu acho que não saiu como derrotado. A conta não pode ser feita só de forma aritmética. Tinha 16 nomeações, só ganhou quatro. A vitória do Michael B. Jordan parece-me importante, parece-me assinalável.

Ele fazia dois papéis no mesmo filme.

Ele fazia dois papéis e acho que não levava o filme às costas, como por exemplo, aconteceu com a Jessie Buckley no "Hamnet".

Que ganhou o prêmio de melhor atriz.

Que ganhou o prêmio de melhor atriz. Esse prêmio estava definido à partida, podiam ter entregue há duas semanas, parece.

O de melhor atriz.

O de melhor atriz.

Ela ganhou todos os prêmios que havia para ganhar.

Era inevitável. Dado o formato daquela interpretação e dada a votação habitual da academia. Muitas vezes, nesses papéis dizem que determinados filmes são feitos de propósito para que um ator ou uma atriz ganhe o prêmio. Dizem isso, por exemplo, do Chalamet com o "Martyr Supreme". Depois fui saber e o "Martyr Supreme" não ganhou absolutamente nada.

Timothée Chalamet foi talvez um dos grandes derrotados desta noite, mas não foi propriamente nesta noite, especificamente, foi a partir do momento em que vieram aquelas declarações dele a falar da ópera e do ballet.

Mas depois há a grande questão que é: até que ponto, efetivamente, isso influenciou a votação, tendo em conta a data do encerramento da votação, os votos que já estavam feitos ou não. Vamos ficar sempre na dúvida até que ponto isso influenciou. Porventura, pode não ter influenciado e porventura Michael B. Jordan já estava decidido que iria ganhar. Eu acho que o facto do Ryan Coogler ter vencido na categoria de melhor argumento original também teve muito peso.

Que, já agora, foi o realizador também do filme "Pecadores", certo?

Sim, é o mesmo realizador e argumentista.

Não ganhou o prêmio de realização.

Não ganhou o prêmio de realização. E depois, o prêmio de fotografia, que foi para a primeira mulher e a primeira pessoa negra a ganhar este prêmio.

Isso é importante. Eu na introdução falava de um momento que fez história e foi exatamente esse, foi quando Autumn Durald Arkapé ganhou o prêmio.

Talvez o nome mais difícil da história.

Ganhou o prêmio de melhor fotografia, foi a primeira mulher a conseguir isso e fez aliás um discurso que, numa noite com discursos relativamente mornos, foi um discurso que marcou. Achaste isso da cerimônia, genericamente?

Até me lembrei. Não sei se tu és fã dos Oscars, se costumas ver, se tens memória.

Em tempos via com alguma convicção.

Depois a vida tomou conta das situações.

Exatamente.

Mas eu lembro-me de discursos relativamente recentes, como o discurso do Cuba Gooding Jr, o discurso do Roberto Benigni, o discurso da Halle Berry.

O discurso do Roberto Benigni é eu a andar por cima das cadeiras.

Mas tudo aquilo.

Houve momentos que...

Mesmo que seja um discurso muito cênico, que seja muito físico. O discurso mais antigo da Sally Field, o discurso do ano passado da Zoe Saldaña, que se desmanchou a chorar e estávamos a ver que ela não seria capaz de dizer absolutamente nada. O que me pareceu é: eu tento colocar-me, de forma totalmente legítima, claro, no lugar de alguém que recebe um Oscar e sobe ao palco do Dolby Theatre e penso: será que eu seria assim tão comedido, tão pouco emocional? Porque foi isso que me pareceu. À parte a política, porque isso então é outro tema.

Também houve aqui com doses mais ou menos subtis durante toda a cerimônia.

Sim, houve ali alguém que não teve subtileza nenhuma. Mas depois eu estou à espera de ver alguém absolutamente arrebatado a vencer um Oscar. E acho que não vi isso.

Então, pegando na tua deixa, o que achas que poderá ter ficado para a história desta cerimônia e o que achas que amanhã já ninguém se vai lembrar?

Esta questão da diretora de fotografia.

Entra para a história.

Parece-me que entra para a história. Entra para a história o facto de ter sido entregue um primeiro Oscar para a categoria de melhor casting. Em princípio, é uma categoria que fica, portanto ficam estas 24. Vamos ver se isto agora vai ser como, por exemplo, os Jogos Olímpicos, que X em X anos aparece mais uma categoria.

E há umas que vão saindo.

A vencedora foi a Cassandra Kulukundis, que também é um ótimo nome para o batalha atrás de batalha. A Amy Madigan, que também já tinhas dito.

Amy Madigan, que tinha sido nomeada já uma vez, mas há muito tempo.

Há 40 anos. Ela fez questão de realçar isso. E disse qualquer coisa como: "Eu agora estou aqui outra vez, mas agora tenho aqui este pequenote." Enquanto segurava o Oscar na mão. E depois há um meio-meio. A cerimônia acaba com o Conan O'Brien a fazer um sketch como quem ia dizer que conquistou o lugar vitalício de apresentador dos Oscars.

Que é também uma referência ao filme que acabou por ganhar o Oscar de melhor filme, que tem exatamente essa cena com o Sean Penn, que já agora ganhou um Oscar, o terceiro Oscar. Há poucos atores que tenham conseguido esse feito, mas ele não estava propriamente impressionado, porque nem apareceu na cerimônia.

Não, não apareceu. É uma das coisas que fica para a história e é um dos acontecimentos insólitos. Depois houve alguns relatos distintos pela razão. Houve quem dissesse que ele não tinha ido porque ficou muito aborrecido porque mandaram vir com ele nos Globos de Ouro, porque ele tinha sido apanhado a fumar. E então disse Eu não estou para isto. Se é para não fumar, eu fico em casa. O New York Times reportou, entretanto, que Sean Penn já estaria na Europa porque está a preparar uma viagem à Ucrânia.

À Ucrânia, exato.

Ficamos naquela. Ele aparece no ecrã. Também é interessante porque ele quando ganha o Oscar para melhor ator, um dos dois que ganhou, o outro foi para o Mystic River, e em 2009 ganha pelo Milk, em que ele faz do ativista Harvey Milk, e ele dá um discurso que também fica na história. E aqui talvez fosse aquela salvação da antiguidade que podia fazer a diferença, não aconteceu.

Houve um momento simbólico que talvez tenha funcionado, não sei se concordas, que foi a homenagem a Rob Reiner.

Sim.

Que deu o arranque àquele momento habitual em que se celebram as pessoas que morreram durante este ano e que, para além de ter Billy Crystal, um histórico apresentador dos Oscars, teve vários atores que foram estrelas nos filmes que ele foi realizando. E foi talvez um momento emocionante. Só para não parecer que somos dois egos a competir, porque também temos coração, acho que é importante também dizer isto a quem nos estiver a ouvir. Tiago, obrigado.

Ora essa.

Por teres estado conosco aqui a analisar esta longa noite dos Oscars.

Volta para o ano, pode ser à mesma hora.

Vamos ver, vamos pensar, vamos negociar isso.

Falamos sobre isso.

Obrigado. O Tiago Pereira é editor de cultura do Observador e eu conversei com ele sobre a cerimônia dos Oscars, que deu seis prêmios ao filme de Paul Thomas Anderson, um realizador várias vezes nomeado, que nunca tinha ganhado um Oscar e só esta noite levou três para casa. E depois do brilho de Hollywood, vamos ao choque de realidade, afinal hoje é segunda-feira e neste dia o gasóleo vai aumentar 10 cêntimos e a gasolina 10,3 cêntimos. O governo vai voltar a reduzir as taxas do imposto, o ISP, para acomodar este novo aumento, que é já quase de 20% no gasóleo e de 10% na gasolina desde que começou a guerra no Irão. Também por cá, hoje retomam as negociações entre o governo, os patrões e a UGT acerca da reforma da Lei do Trabalho. A CGTP não foi convocada para esta ronda negocial, mas diz que vai aparecer à mesma na reunião. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia da Margarida Adão, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.