Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá e sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador, em Viseu. Alberto Correia continua a desfiar as suas memórias e as tradições de toda esta região Centro. Hoje falamos de uma capucha de burel, uma vestimenta que, diz o Alberto, dura duas vidas e que era de todo o ano, de facto. Falamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Uma capucha de burel, logo ao sair da mão de alfaiate ou costureira, vinha talhada para durar duas vidas, no dizer de Aquilino Ribeiro, que vestiu de capucha o corpo fecundo de Brízida, a paciente esposa do Malhadinhas, e que ao Almocreve também cobria como abrigo da nevasca nas voltas demoradas dos invernos, e ao afamado juiz de Barelas servia como capa de honra nas vagas horas de audiência. Em capucha de burel se abrigou a mãe do afamado mestre das letras, Glória e Ana, as duas tias que inventou, Glorinhas, Rosa Gaudêncio e a Zefa do Alonso, e essas heroínas todas que cumpriram seu fado nas agras terras do demo. De capucha se vestiu Joana na serra da Lapa, pastorita eleita para ver Nossa Senhora. À volta de Viseu, mal passadas as alpoudras da balsa, os pontões da ribeira e o chão das quintas que pertenceram ao bispo e outras senhorias, a capucha de burel, gerada provavelmente em longevidade a partir do saio lusitano, permanece como vestimenta de generoso uso até ao fechar das portas do século XX. Cirandam com ela as mulheres nas voltas do povo, nos caminhos da fonte ou da ribeira onde vão lavar a roupa ou fazer curtir o linho, na ida à feira quando o tempo se oferece, na rotina do serão, no aconchego de um berço de criança. As raparigas, essas levam a capucha para o monte quando à meia tarde partem com o gado, as vacas e as ovelhas que por lá deixam a pastar, enquanto sonham ou se entretêm a fiar. Os homens cobrem-na a desoras enquanto vigiam a vinha quase pronta para a vindima, o pinhal armado para a colha da resina ou as águas de lima nos lameiros. A lã era caseira, das ovelhas tosquiadas quando vinha o São João, e que depois era lavada. Após, vinham as cardas num demorado pentear e, armada em velos, levava bem o inverno inteiro a fiar. Urdida a teia, bate que bate, luz de candeia, o sono esquecido ao cantar, iam crescendo as varas de pano no tear. Depois, vinha o pisão. No rio Vouga, em riba feita, no rio Dama, em povolide, no rio Pavia, já feio, na ribeira d'água alta, em Torredeita, a força dos maços a bater, uma dona com uma trouxa de pano à cabeça, caminhos velhos é até ao adro da igreja e o manso bater à porta de uma costureira. E a capucha nova para estrear.
É extraordinário e estou muito contente, Alberto, ter descoberto ainda há pouco tempo, em Manteigas, por exemplo, uma "ressurreição" desta arte do burel e a maravilha que é o burel, que passou de roupa que era não tão fina e tão bem confeccionada, mais roupa de pastores, mais grosseira, pra uma coisa que hoje em dia até na decoração é usada, em casas e roupas que podem ter várias cores, vários feitios e várias formas, sempre muito quentinha, muito ecológica. Em Manteigas foi completamente recuperada a fábrica do burel. É muito engraçado essa tradição que foi renovada e foi agarrada, e assim não se perdeu. Muito bom ter lembrado isto hoje, a propósito da capucha, que o Aquilino dizia que era feita pra duas vidas.
Na região de Viseu também foi recuperada por certos ateliês ali no Montemuro, onde havia fortíssima a tradição do burel.
Obrigado. Oxalá se mantenha, porque é, de facto, algo que vem muito próximo da natureza, vem da natureza, dado pela natureza e que faz muito efeito. Foi completamente adaptado aos tempos modernos, com o gosto e tudo, que é muito bom quando se salvam estas tradições baseadas nestas histórias. E o Aquilino fez bem em ter começado com Aquilino Ribeiro, a lembrar um desses, nos romances dele, que tanta gente eu vestiu de capuchas. Muito bem, Alberto. Então, por esta semana temos conversados, continuando a desejar-lhe um belíssimo ano. É sempre tão bom ouvi-lo e a sua prosa tão poética, que nos lembra estas coisas interessantes e bonitas da vida e do nosso país. Desejo-lhe, repito, um bom ano e até pra semana. Bem-haja.
E bom ano também para todos e até amanhã. Até amanhã, não, até pra semana.
Até pra semana. Obrigado.