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Olá e sejam então bem-vindos. Já sabem, esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e Alberto Correia, em Viseu, conta-nos mais memórias, mais histórias curiosas de toda esta região centro, que ele tão bem domina e que tão bem sabe contar e encantar-nos. Hoje vamos falar de uma árvore, de uma memória que ele tem da sua aldeia natal. É concretamente um chorão. Vamos então saber mais sobre esta sua velha árvore. Bem-vindo, Alberto.
Lembro-me de uma velha árvore, um velho chorão de uma praça da minha aldeia natal. Era tão grande que só muitos abraços de meninos lhe apertavam o tronco. Era tão grande que os meninos da aldeia podiam brincar todos no abrigo dos seus ramos. Os ramos vinham de muito alto e desciam como as lágrimas luminosas do fogo de artifício da festa da padroeira ou como as mil fitas multicores atiradas das janelas nos cortejos de verão. Desciam quase até ao chão. Deste modo, os ramos definiam um espaço largo, circular e interior, quase secreto. E no centro, à volta do tronco, havia uns bancos de pedra já gastos pelo tempo, onde os velhos se sentavam como se fosse para um conselho de tempos antigos, como se fosse para presidir à liturgia de um culto de mistérios. A casca da árvore confundindo-se com a cor grisalha do cabelo dos anciãos. Havia ali perto uma fonte da qual a veia de água jamais se esgotara, que os velhos se lembrassem. E havia a capela de São Sebastião. Estava quase sempre aberta, a capela, e o mártir tinha um corpo que fazia dó, de tão ferido pelas setas de prata, de onde parecia escorrer sangue. À volta, erguiam-se as habitações da aldeia, de loja e um piso, quase todas. E as casas continuavam pelos quatro caminhos da aldeia, irradiando do terreiro. Para os lados do poente, desciam as hortas com muros velhos demarcando a paisagem. Mas um dia arrancaram o chorão. Não me recordo dos homens que tal fizeram, nem do som do machado batendo, nem das folhas mortas, nem do tronco serrado e carregado em carro de bois lembrando esquife, nem dos velhos me recordo. De certo, alguns permaneceriam ao longe olhando esse lugar santo da memória. Lembro-me da ferida aberta no chão do terreiro, que assim lhe chamava a gente. A água enchera abandonada como seiva não mais necessária. E a árvore deixou, até hoje, um lugar vazio na praça desprotegida. É que o chorão era necessário no amplo terreiro. Os velhos que em moços ali cantaram bailias podiam agora sentar-se à sombra recordando. E os moços ali podiam dançar em horas de festa ou de ócio ao som das baladas de tempos novos. Arrancaram o chorão e as gerações perderam um elo que as prendia e algo se perdeu para todos. Ficou desumanizada a praça, porque o chorão fazia parte da família. Ficou sem equilíbrio a arquitetura das habitações, da fonte, da capela do santo e dos muros baixos das hortas. A história ficou sendo menos verdadeira.
Só preciso lhe perguntar uma coisa, Alberto. E por que esse chorão foi arrancado? Ele estava doente ou por alguma razão especial, ou pra passar alguma estrada? Soube por quê?
Nunca soube verdadeiramente. Aquilo que eu me lembro exatamente é dessa cova gigante para os meus olhos de seis anos, por aí, e da água ali empoçada. Provavelmente, estava implantada no meio daqueles adros da aldeia, onde está uma capela, uma fonte, e que faria um certo estorvo aos carros de bois que naquele tempo passavam carregados com lenhas, estrumes, frutos, etc. Portanto, deve ter sido essa a razão.
A culpa do progresso, mesmo assim, um progresso relativo, mas o suficiente pra deitar abaixo uma memória de provavelmente séculos de vida. E ficou só aquela cratera ali no meio, aquela cicatriz.
Na altura, ainda não se falava de ecologia.
Sim.
Que mesmo hoje, por mais que se fale, os arvoredos vão sendo dizimados de uma maneira ou de outra.
Exatamente. Infelizmente. Muito bem, Alberto, ficamos então com mais esta memória sua, este belíssimo chorão que desapareceu um dia na sua infância, daquele terreiro e que tanta falta fazia aos velhos, aos novos, a toda aquela aldeia, que de fato, o seu desaparecimento, como o Alberto tão bem diz, desequilibrou a paisagem. E eu estou mesmo a ver esse desequilíbrio acontecer e às vezes sem uma razão forte. É impressionante. Não nos soubemos adaptar. Muito obrigado por esta sua memória, Alberto. E bem-haja, marcamos encontro amanhã. Até amanhã.
Até amanhã.