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Continuamos aqui no Centro Interpretativo das Termas Romanas de São Pedro do Sul. Falámos já em vários episódios com Eduardo Nuno Oliveira sobre este caráter divino, medicinal, curativo, que estas águas ao longo dos anos sempre tiveram nos olhos não só dos romanos, mas também da realeza portuguesa. E depois desta capela de Nossa Senhora da Saúde, subimos umas escadas e encontramos aqui três fotografias, três murais. Eduardo, o que estes murais nos dizem?

Estamos aqui numa sala que é o antigo coro da capela de Nossa Senhora da Saúde e que agora nos fala de divindades aquáticas, que normalmente estavam presentes nestes ambientes termais e medicinais. Somente em representação, nós temos ali numa das paredes duas telas retroiluminadas que nos mostram imagens de mosaicos romanos. Infelizmente, não são de cá. Nunca se encontraram aqui mosaicos romanos, aqueles são de áreas arqueológicas estrangeiras. Um representa o deus Neptuno e outro representa a deusa Diana. E noutra parede, nós temos aqui uma terceira representação que nos mostra a imagem de uma ninfa das águas.

Completar as ninfas, exato.

Também não é de cá. Esta imagem é de Rio Maior, foi encontrada num espaço arqueológico, estava numa fonte. Era certamente uma fonte com águas especiais, de maneira que esta era a representação, a imagem da ninfa que protegia aquelas águas em concreto.

Só pra completar, esta imagem foi encontrada da Quinta Diana Cér, em Rio Maior, datada do século II depois de Cristo. É isto.

Era uma vila, era uma unidade agrária romana, que tinha uma casa nobre, digamos assim, e esta imagem pertencia a esse conjunto. Mas nós aqui nas Termas de São Pedro do Sul, nas Termas Romanas, também tínhamos certamente ninfas, deuses, deusas e as suas representações, só que nunca se encontraram vestígios. Isto tem uma explicação. Em primeiro lugar, pela continuidade da ocupação deste edifício, que era constantemente limpo, varrido, intervencionado. E em segundo lugar, porque foi um espaço cristianizado. E durante esse processo de cristianização, tudo que era imagem pagã antiga era arrancada do pedestal, destruída, enterrada, reaproveitada e substituída por altares e santos cristãos. De maneira que, pelo menos até agora, ainda não foi possível encontrar vestígios dessas representações. Se bem que ainda temos aqui espaços por escavar e algumas são áreas de enchimento, de maneira que podem ter reutilizado esses materiais em épocas antigas para os enchimentos e quem sabe se no futuro, em próximas escavações, não venhamos a ter aqui uma boa surpresa.

E voltando novamente a estas fotografias, estes murais, e há pouco falou de alguns desses. Começamos agora por olhar para o retrato de Diana. Por que a presença de Diana?

Era uma das divindades que estava ligada à saúde, ao bem-estar. Neptuno era o deus das águas, era o deus protetor das águas, enfim, tem essa representação simbólica.

Diana, que era deusa, neste caso, da caça e também as suas ninfas. É um espaço que nós podemos recuperar esta ideia da água sagrada, água que tem sido respeitada como fonte de vida e elemento sagrado destes tempos imemoriais. É uma citação que estou agora a ler e que está, neste caso, inscrita numa destas paredes. Mas Eduardo, voltando esta representação das ninfas, não há essa presença mesmo destes murais, como já disse, estas fotografias não são de São Pedro do Sul, mas novamente, os romanos teriam sempre esta questão divina relacionada com estes tratamentos mais de saúde, mais medicinais.

Sim, efetivamente, havia ninfas que eram deidades locais, divindades locais, que protegiam estas águas em concreto. Era a sacralização da água, tanto das nascentes d'água, como, por exemplo, dos rios. O rio que passa aqui ao lado, que é o rio Vouga, na época romana era o Vauca ou Vaca, e tinha também a sua divindade. Tinha os seus deuses locais e protetores, o seu flumen.

E por isso, e aqui novamente recorrendo a alguns dos textos aqui inscritos, os romanos inclusive atiravam moedas às nascentes. Era quase como um agradecimento, uma oferta aos deuses.

Sim, exatamente. Deixavam uma oferenda simbólica, umas moedas, umas libações, ex-votos. Enfim, um pouco como nós hoje, quando vamos a uma igreja cristã, pedimos a intercessão de um santo para nos favorecer em alguma coisa que nós necessitamos. Assim os romanos faziam. Tinham os altares, umas aras, onde procediam algumas libações, onde deixavam algumas ofertas simbólicas, pedindo ajuda para alguma coisa que necessitassem.

E é com esse caráter, novamente divino e religioso, que vamos voltar para o próximo episódio, mas neste caso, sobre uma capela que está no exterior deste edifício, a Capela São Martin. Já voltamos para novo episódio de "A Nossa Cultura".