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A Rádio Observador e a Nossa Cultura estão hoje no Museu Municipal de Oliveira de Frades. Acabados de entrar, olhamos para uma coluna que é muito mais do que isso, mas quem vai explicar é o Filipe Soares, coordenador deste museu. Está muito relacionado com caminhos, com estradas. Em episódios anteriores, falámos também de vias romanas. Há alguma ligação que esta coluna, que certamente não se chama assim, tem com esse período?
Sim, há toda uma ligação, porque como falámos no episódio anterior, as estradas romanas vão ser a base das estradas medievais, das estradas modernas e muitas delas foram usadas até ao século XX. Portanto, este padrão que nós vemos à nossa frente é o padrão da Albergaria de Reigoso, um edifício, uma oferta que foi feita na Idade Média para apoio aos peregrinos que iam a caminho de Santiago Compostela. Nessa mesma estrada que falámos, que na Idade Média se chamou Estrada Velha ou do Peixe, circularam, além dos peregrinos que iam a caminho de Santiago Compostela e regressavam, porque hoje, na atualidade, vai-se a Santiago Compostela e regressa-se de carro ou de comboio. Naquele tempo, eles tinham que fazer o percurso para cá outra vez e portanto voltavam a passar aqui e precisavam outra vez de apoio nessa albergaria, como nas outras todas que existiam ao longo dos caminhos de Santiago. Além dos peregrinos, circularam, e como diz o nome Estrada do Peixe, também durante a Idade Média, moderna e até possivelmente à contemporânea, os almocreves, que foram os primeiros comerciantes que na Idade Média iam buscar o peixe ao litoral e o traziam para o interior, juntamente com o sal, que também era muito importante. Portanto, foi uma estrada onde circularam produtos, pessoas e conhecimentos também. Aqui este objeto, além de uma pequena inscrição numa pedra calcária que está no interior da Igreja de Reigoso, são as únicas duas evidências que nós temos dessa albergaria que existiu em Reigoso, que foi fundada pelo alcaide de Cerveira em 1169, que era para dar apoio aos peregrinos. Este padrão tem uma inscrição que é: "Peregrino, vindo ao Hospital de Reigoso, que vos darei casa, cama, água, fogo, azeite e sal". Acreditamos nós, porque não temos essas evidências, porque a albergaria, segundo uma informação escrita por Américo Girão, em 1930, já estaria destruída há muito tempo. Nós não sabemos onde ela estava localizada, mas acreditamos que este padrão estivesse um pouco mais longe da albergaria e o peregrino, antes de chegar à albergaria, via esta pedra e percebia que mais à frente ia ter um sítio onde descansar. Daí a casa e a cama, que naquele tempo seriam umas pobres palhas espalhadas pelo chão, nada de grandes confortos. Teria também água para se refrescar, para matar a sede, teria fogo para se aquecer, possivelmente para cozinhar, azeite, importante para a iluminação e para cozinhar também, e o sal, que era moeda de troca durante a Idade Média e até períodos posteriores. Além das moedas que já existiam, o sal também tinha uma importância económica muito grande.
E esta é a única indicação que se encontrou nesta região?
Em relação à albergaria, sim. Há referências orais populares que nos dizem que teria existido outra albergaria aqui em Oliveira de Frades. Neste caso, não seria uma referência oral, peço desculpa, mas mais uma memória escrita que foi nas memórias paroquiais, aquele grande inquérito ordenado pelo Marquês de Pombal a seguir ao terramoto de 1755, em que ele envia para as paróquias um grande rol de perguntas para responderem os párocos a falar um pouco das suas paróquias. E o pároco de Oliveira de Frades diz que existia uma albergaria aqui em Oliveira de Frades. Acreditamos que também tenha existido outra em São Vicente, em Santiaguinho, ao lado da estrada romana, mas não há qualquer referência nem bibliográfica nem oral. Aliás, só há oral a falar-nos disso.
Então esta era a esperança dos peregrinos que caminhavam até Santiago Compostela, de que poderiam ter um ponto para descansar. O episódio descansa também por aqui, mas a Nossa Cultura estará de regresso.