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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Que estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Falam, mas o melhor é ficar tudo na mesma. Sempre tudo na mesma, Paulo.

É o mais cómodo para todos, é aquilo que se vai percebendo. Deixar andar, não reformar nada, esperar até que eventualmente tudo venha a cair de podre. Agora são os reitores das universidades, estão contra a proposta do governo para alterar as condições de ingresso nas universidades e nos politécnicos. O governo propõe que os estudantes que concorrem ao ensino superior tenham níveis mínimos de literacia e numeracia, bem como de inglês, e para isso é preciso fazer testes para aferir esses níveis. Isto é obviamente um horror. Os reitores acham mal, dizem que é de operacionalização impraticável e com objetivos pouco explícitos. Portanto, por um lado, é impossível fazer estes testes. De facto, onde é que já se viu que as universidades tenham capacidade, consigam fazer testes a alunos? É difícil, não é? Por outro lado, é muito pouco claro porque é que o governo quer alunos a cumprir mínimos numa avaliação, nestes itens da literacia, numeracia e inglês, em que Portugal costuma ser o último país das tabelas da OCDE. Portanto, a mudança, como se vê por aqui também, é uma coisa muito difícil.

Pronto. Bruno, e só nos lembramos dos escritores quando há polémicas?

É, pouco falamos sobre os livros, muito falamos sobre as polémicas à volta dos escritores. É a sua sina. Saramago, ao longo da sua vida, teve uma boa dose de polémicas, que, diga-se de passagem, também não prejudicaram a sua carreira por aí além. Agora voltamos a mais uma polémica. Saramago deixa de ser obrigatório no 12º ano. Os professores que até aqui tinham de escolher entre um de dois romances de Saramago, "O Memorial do Convento" e "O Ano da Morte de Ricardo Reis", podem optar também agora por um romance de Mário de Carvalho, "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", um romance também premiado. E ouviram-se logo os uivos de indignação nas redes sociais, o nosso único nobel, um horror, como é possível? Voltou a Inquisição, o saneamento político. Felizmente, se a questão é política, junta-se a um escritor comunista, outro escritor comunista. Mas continuamos muito paroquiais nas nossas discussões. Por mim, para resolver o assunto, estudávamos todos Tolstói e até podia ser com a tradução do francês por José Saramago.

Ou no original em russo, ainda mais interessante.

Em russo. Aliás, eu acho que isso devia ser um critério de acesso às universidades, saber ler em russo.

Paulo, e os empresários estão obrigados a ter relações poligâmicas?

É uma inevitabilidade isso. Os empresários têm os relacionamentos pessoais que bem entenderem. Mas depois têm de estar sempre disponíveis para mais alguém. Gonçalo Regalado é presidente do Banco Português de Fomento. Pode dizer-se que pôs o Banco Português de Fomento a funcionar nos últimos dois anos. E ele não tem dúvidas. Diz ele: "Em Portugal, o empresário casa com o Estado, mesmo sem querer. E é pior do que isso, diz ele, e o divórcio é impossível. Portanto, é um casamento para a vida". É uma boa forma de colocar as coisas. Também há quem defenda, quem diga que o Estado é o sócio obrigatório de todas as empresas, o sócio que ninguém pediu, claro. E é um sócio que atrapalha muito, que se faz pagar muito bem e que faz questão de ser sempre o primeiro a receber. Portanto, isto anda muito próximo de uma relação tóxica.

Por falar em poligamia, Bruno. Sim, Carla. João, tudo bem? Quem quiser que leve.

Sim, Maria João.

O governo e o Chega estão condenados a não se entenderem.

Carla, parece uma dança feita de avanços e recuos, mas na hora da verdade, cada um dorme na sua casa. O governo parece que quer manter aqui todas as hipóteses em aberto, ora vai para ali.

Às vezes é o caminho para uma relação saudável. Outras vezes não chega.

É uma relação aberta, pois. Às vezes temos mais exigências. Depois do Tribunal Constitucional ter declarado a inconstitucionalidade de várias normas dos decretos sobre a Lei da Nacionalidade e das alterações ao Código Penal, a discussão regressou ao Parlamento, regressou a discussão e o desentendimento. Governo e Chega estiveram quase a entender-se, mas ficaram-se pelos preliminares. No final, André Ventura reclamou: "O governo não é capaz de ser menos socialista do que os socialistas." Bom, e assim, uma vez mais, ficaram adiadas as núpcias entre governo e Chega.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Que estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.