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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

E de repente, tudo muda na política, Paulo.

É verdade, não nos podemos queixar nos últimos dias de monotonia, não é, na política.

Não, e de plot twists.

Completamente. Aliás, isto está mais interessante do que uma série que seja cheia desses plot twists. Das reviravoltas não erremos.

É verdade. Ainda bem que traduziste.

É claro. Nunca se sabe. Ontem de manhã a expectativa era que a AD aprovaria com o Chega, na especialidade, a nova prestação social única, que vai agregar 13 apoios sociais não contributivos, porque as duas bancadas estavam a negociar. A AD até estava a fazer cedências e havendo notícias de algumas cedências para se aproximar das posições do Chega. O dia foi passando, as negociações iam decorrendo, obviamente, em gabinetes, nos bastidores, é normal. E depois, a meio da tarde, aconteceu o volte-face. O PS anunciou que tinha chegado a acordo com a AD, o Chega estava de fora. Os socialistas fizeram esse acordo depois de garantir algumas alterações no diploma que para eles eram essenciais. O Chega tinha ficado pelo caminho e vai votar contra. Duas semanas, duas surpresas na 25ª hora. Na semana passada foi o pacote laboral, com o Chega a votar contra, quando se esperava que aprovasse, e agora o PS a aprovar, em vez do Chega. Digamos que há aqui um pisca-pisca da AD, que parece voltar a funcionar, pelo menos para o lado esquerdo. A viragem à esquerda está a funcionar.

Bruno, o Estado regula bem?

Nem sempre, Maria João. Muitas vezes os organismos existem, mas nem sempre são eficazes na regulação dos setores. Para isso, o governo criou uma comissão, um clássico, para estudar a autonomia e independência dos reguladores. E agora vieram as conclusões. E uma das conclusões ou recomendações até passa pela criação de uma comissão de acompanhamento do funcionamento das entidades reguladoras. Há outras recomendações, a mais relevante talvez seja a criação de um supervisor financeiro único, que agora está disperso por Banco de Portugal, Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e a Autoridade de Seguros e Fundos de Pensões. Quanto às nomeações para as entidades reguladoras, a comissão acha que não é necessário mexer. Afasta a hipótese de concursos públicos, por exemplo, e acredita que pôr mais entraves às nomeações pode, paradoxalmente, até partidarizar ainda mais as nomeações. Há ainda outras conclusões, nomeadamente ao nível da remuneração e das incompatibilidades. Tudo, em princípio, para ajudar o Estado a regular melhor.

Paulo, o bom e velho FMI está de volta com os seus avisos?

É verdade, de vez em quando faz falta ouvir aquele tio razingão que se senta lá à mesa e começa a disparar pra todos os lados. Há uma série de alertas e de recomendações. O FMI divulgou ontem um relatório anual sobre a economia portuguesa, e não faltam, de facto, avisos, também alguns aplausos, é evidente. Nos avisos, fala-se, por exemplo, da necessidade de controlar a despesa pública, porque de outra forma, diz o FMI, os excedentes orçamentais vão acabar, voltamos ao déficit. O FMI baixou também a previsão de crescimento para a economia portuguesa. Diz que as regras para o aumento de pensões que temos em vigor, para o aumento das pensões gerais, aquela fórmula que é aplicada todos os anos, que deviam ser mais generosas, mas também diz que, ao mesmo tempo, o nosso sistema é muito permissivo nas regras de atribuição das pensões de sobrevivência aos viúvos. Sugere ainda o fim da garantia pública para os jovens no crédito à habitação, mas, por outro lado, também não vê problemas naquela ideia de criar um fundo soberano, mesmo com a dívida pública ainda elevada. Em resumo, há aqui matérias para todos os gostos e para cada agente político criticar ou aplaudir o governo. Portanto, nos próximos dias vamos ter certamente o festival do FMI diz isto e diz aquilo.

Já por outro lado, Bruno, podemos estar tranquilos com o PRR?

Ainda pensei aqui, Carla, na palavra descansados, mas talvez seja uma palavra demasiado forte. Tranquilos ainda servirá melhor, porque descansados dá aquela ideia de que podemos ficar à sombra da bananeira e não é esse o caso. As autarquias estão muito preocupadas, porque o prazo de Bruxelas para os projetos financiados pelo PRR estarem concluídos está mesmo a chegar, em agosto, e se as obras não estiverem terminadas, os municípios poderão ter de devolver o dinheiro. Luís Montenegro vem então tranquilizar, que não descansar, os autarcas. Nenhuma escola ou centro de saúde, nenhum investimento público deixará de ser feito por causa de minudências como os prazos. Mas sabendo que as coisas são como são, como é que isso poderá, na verdade, ser feito? Aqui é que entra o nosso proverbial desenrascanço. Há um mecanismo trabalhado com a Comissão Europeia, que é um instrumento de gestão financeiro no âmbito do banco de fomento para a inovação. Isso mesmo, é complicado. E para o resto, o financiamento através do Orçamento de Estado. Portanto, há aqui duas soluções, um pouco naquela onda do desenrascanço. Podemos estar então tranquilos, porque se não respeitarmos os prazos, o governo há de desenrascar.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus