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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Então, Bruno, vamos entregar tudo aos privados?
Vamos. É este o discurso apocalíptico que se ouve sempre a propósito da saúde. A intenção, dizem, é de degradar o SNS para depois entregar tudo aos privados. Só que há aqui um pormenor que normalmente é esquecido. Os privados já estão aí há muito tempo e em muitos setores. Um deles é o da radiologia. E no ano passado o SNS gastou 135 milhões de euros com exames de radiologia no setor convencionado, mesmo que a oferta não pública não exista em mais de 150 concelhos do país. Pelos vistos, ninguém se alarma com este dinheiro que vai para as mãos dos privados. É que a alternativa seria o Estado realizar esses exames e provavelmente a conta final seria muito superior a esses 150 milhões. Seria ainda mais importante discutir quer a eficácia, quer a cobertura desta rede, porque 15,4% da população portuguesa tem de se deslocar a outro concelho quando necessita de fazer um exame radiológico no setor convencionado. Ou seja, em vez de discutir os privados, devia-se discutir o público. Não o setor público, mas os utentes.
Paulo, então deixamos de ir à bola com Marrocos?
Olha, pelo menos é essa a proposta do LIVRE, não é? Cancelar Marrocos da organização tripartida do mundial de futebol 2030, onde estão também, como sabemos, Portugal e Espanha. O partido defende que a organização do campeonato seja feita na mesma, por Portugal e Espanha também, mas sem Marrocos. E por quê? Por causa da crise migratória de Ceuta, sinal para o LIVRE de que Marrocos não tem capacidade nem transmite confiança. Bom, já agora, se me permitem, eu sugiro outra coisa: que Portugal se retire, ele próprio, dessa organização, e aí desligamo-nos logo de Marrocos, onde nunca devia ter entrado. Não há nenhuma boa razão para gastar mais umas dezenas ou centenas de milhões dos contribuintes neste evento. O país não precisa de mais marketing territorial para atrair turistas, temos excesso de turismo. E, portanto, o futebol não precisa de ser promovido entre nós, antes pelo contrário. As companhias não são as melhores, como o próprio LIVRE aponta agora, apontando pra Marrocos, e o futebol é cada vez mais, como se vê, um ambiente tóxico, como se viu no último mundial e nestas jogadas de Infantino. Isso sim, é que seria uma decisão de aplaudir.
Bruno, já estamos a viver a era da guerra dos drones?
Sim. Nos últimos dias, a Rússia anunciou ter abatido 320 drones ucranianos numa única vaga de ataques, que atingiu 19 regiões do país. Ao mesmo tempo, um drone ucraniano, vimos essas imagens, caiu numa estância balnear russa, provocando várias mortes, dezenas de feridos, no que foi um dos episódios mais graves para civis em território russo desde o início da guerra. E neste contexto, ganha também importância aquela notícia sobre o drone da empresa portuguesa Tekever, que foi interceptado pelas forças russas. Foi o primeiro desta empresa que foi abatido e interceptado pelas forças russas, que depois estiveram a estudar o aparelho e ficaram impressionadas com a tecnologia. Os drones, e estes drones em particular, não mudaram o rumo da guerra, mas mostram que já são uma peça central no campo de batalha, na vigilância e na identificação de alvos, na orientação de ataques e no fornecimento de informação em tempo real. Hoje, milhares de aparelhos relativamente baratos conseguem atingir alvos a centenas de quilômetros, alvos entre os quais aeroportos, fábricas ou até praias frequentadas por turistas. O que também aqui levanta questões éticas que se colocavam de outra forma antes do aparecimento desta tecnologia. Questões que têm de ser feitas, porque a guerra dos drones não é o futuro, é mesmo já o presente.
Pois é, de que maneira. E será, Paulo, que vamos ter outro brilharito orçamental no final do ano?
Luís Montenegro ontem deu algumas pistas sobre isso e garantiu, de facto, que as contas do Estado vão surpreender no final do ano. Também desvalorizou o aumento do rácio da dívida no PIB, que subiu quase dois pontos percentuais no último trimestre, para quase 93%. Bom, no fundo, o primeiro-ministro está seguro com a execução orçamental, também já estamos a entrar em agosto e os dados já começam a ser mais ou menos firmes em relação aos próximos meses. E isto acontece mesmo no ano em que houve gastos extraordinários com as ajudas aos estragos das tempestades, que afetaram sobretudo o centro do país. Mas ainda assim sobram algumas dúvidas. Primeiro, o governo vai dar este ano novamente aquele suplemento extraordinário aos pensionistas, como fez nos últimos anos, ou não? A decisão costuma ser agora em setembro e a atribuição em outubro. Outra dúvida: vai haver espaço para alguma redução do IRS, como aconteceu também nos últimos anos? Portanto, vamos ver se a execução das contas públicas, de facto, está assim tão bem.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.