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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Começamos com contas, Bruno. Dois terços ou 100%?
Essa foi a discussão ontem no Parlamento, Luís. O governo queria pagar dois terços do ordenado aos trabalhadores das empresas que recorreram ao lay-off, na sequência da tempestade Cristine. A oposição queria um pagamento a 100%. O governo apontou para as regras do regime geral, a oposição lembrou o que o ministério prometeu logo depois da catástrofe. A troca de argumentos, discutiu-se se a verba deve ou não ser incluída no orçamento para 2027. O governo questionou a medida da justiça. Mas o certo é que a oposição, no atual contexto, é quem mais ordena se conseguir unir a direita toda junta, incluindo o Chega, a Iniciativa Liberal, tem dois terços do Parlamento.
Mas não 100%.
Mas não tem 100%. E desta vez a oposição uniu-se. Chega, PS e a restante esquerda demonstraram por A mais B, digamos assim, que 100% é evidentemente mais do que dois terços.
Ninguém diria.
Às vezes não é assim tão óbvio.
Isto de ter impostos elevados até dá jeito nalgumas ocasiões?
Isto pode parecer perverso, mas veja o caso dos combustíveis. É um bom exemplo. Se a carga fiscal dos combustíveis fosse mais baixa, aí na casa dos 15, 20%, o IVA da maior parte dos produtos anda aqui nos 23%, nalguns mais abaixo. Se fosse uma carga fiscal nesta ordem, a margem de manobra dos governos para reagir às altas de preço era muito reduzida. Isto é, se os combustíveis subirem 20%, lá se ia a margem fiscal toda, de alguma maneira. Mas como o peso dos impostos é superior a 50%, facilmente os governos podem ajustar as taxas e as taxinhas para amortecer pelo menos uma parte da subida dos preços e evitar que todo o custo dos mercados passe para os consumidores. É o que o governo vai fazer mais uma vez. Aliás, já o governo anterior, os governos socialistas tinham feito isso na altura da guerra da Ucrânia. Se o aumento for de R$ 0,10 por litro, o governo promete ajustar as taxas para aliviar a fatura. E mesmo assim, o Estado ainda mantém uma receita muito elevada e um peso dos impostos muito grande.
Bruno, talvez tu nos possas ajudar. Para que serve uma comissão de acompanhamento?
Pelos vistos, Maria João, serve para acompanhar. Acompanhar é de acompanhamento.
Faz sentido.
Na sombra e em silêncio. Vamos explicar. O alarme provocado pelo aumento da mortalidade infantil, dados revelados no final de 2024, início de 2025, levou a Direção Geral da Saúde a criar, no início de 2025, precisamente, uma comissão de acompanhamento para se perceber aquilo que se estava a passar. Um ano depois, silêncio quase total. Não há conclusões publicadas, não foi feito nenhum balanço do trabalho até agora realizado por esta comissão. A diminuição da mortalidade infantil é sempre apontada como uma das grandes conquistas do país e do SNS, e com bastante razão. E no ano passado a DGS mostrou-se muito preocupada com uma possível reversão dos progressos feitos nas últimas décadas. E a questão é: então por que ainda não temos respostas? Será que estamos perante uma tendência que se poderá agravar nos próximos tempos? Sabemos que o número de nascimentos em Portugal tem aumentado, ou depende em grande parte também das grávidas não nascidas em Portugal, grávidas estrangeiras. Perguntamos se têm o mesmo tipo de acompanhamento que as grávidas nacionais. Os alarmes soaram com a divulgação daqueles números, mas em explicações continuamos na mesma, às escuras.
Paulo, e é difícil imaginar pior do que o que se vai sabendo sobre práticas de tortura feitas por polícias.
É sempre um golpe duro na confiança que devemos ter nas instituições, sobretudo instituições que têm como função proteger-nos. Isto basicamente é um abalo na confiança. Ontem foram detidos mais sete elementos da PSP, da Esquadra Lisboeta do Rato, por suspeita de violência policial e torturas. Já dois tinham sido detidos há algum tempo. E o caso é, tanto quanto sabemos, pontual, isto é, daqui não podemos dizer que é sistêmico e generalizado na corporação, mas só aquilo já é suficientemente grave e horrível, e perturbador também. As práticas de que há suspeitas são do domínio do horror mesmo, algumas descrições que se vão sabendo, e impõe-se que o poder político e a hierarquia da PSP tomem conta do assunto para não deixar dúvidas sobre o caráter absolutamente inaceitável.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.