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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta pare um parecido de arranhados.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Esta é quase a pergunta inevitável que se tem que fazer hoje: o que é que fica de Francisco Pinto Balsemão, Bruno?

Carla, eu acho que fica para a maioria de nós uma história de amor à liberdade de imprensa, e de exercício dessa liberdade, de ensino aos outros, de mostrar aos outros como se exerce essa liberdade. E também com consequências na política, ou seja, não é apenas um discurso floreado, é demonstrar na política como é que se tenta garantir essa liberdade fundamental em democracia e que essa luta e esse amor pela liberdade de imprensa começou ainda nos tempos da ditadura. Nós às vezes queixamos, e com razão, diga-se, das nossas elites, da falta de qualidade das elites, da falta de visão e também da incapacidade de assumirem responsabilidades, ou seja, de terem recebido mais da sociedade do que depois estão dispostos a dar. Pinto Balsemão contrariou tudo isso. Nasceu privilegiado, mas nem sempre, ou quase nunca, escolheu o lado mais fácil e mais óbvio. Começou a modernizar o Diário Popular, que era da família. Foi fundador do Expresso e da SIC, e só por isso já seria uma figura marcante da democracia portuguesa. Foi também professor e hoje há ali alguns relatos de quem foi seu aluno na faculdade, a mencionar como era organizado e como era visionário também na forma como apontava.

Mutação dos media, era a cadeira do meu curso.

E muita gente, já vi várias pessoas nas redes sociais a mencioná-lo numa característica, numa faceta, se calhar hoje pouco conhecida, mas que, na verdade, marcou uma geração de jornalistas que se estavam a formar na altura.

E muitos foram recrutados pelo próprio para fundar a SIC.

Exatamente.

Fazia questão de ter uma conversa logo no início com ele.

Foi também, claro, fundador do PPD. Antes disso, foi deputado da União Nacional e foi primeiro-ministro, sucedendo a Sá Carneiro, como se sabe. Confessou mais tarde, e esta história também foi revelada nas suas memórias, que em 1995 ponderou candidatar-se às eleições presidenciais do ano seguinte. Havia aquela dúvida se Cavaco Silva iria ou não concorrer, o tal célebre tabu, que depois foi desfeito, mas na altura o entusiasmo com a candidatura de Cavaco Silva não era assim tão grande, mas acabou por não se candidatar. É, de facto, uma daquelas vidas maiores do que a vida, que em Portugal são infelizmente raras e nem sempre, aliás, quando existem, são pelos melhores motivos, ao contrário de Francisco Pinto Balsemão.

E ele foi o único grande empresário da comunicação social. Isto é, nós temos muitos empresários que investem na comunicação social, mas ele só tinha ali os seus interesses. Nós, se olharmos agora para Mário Ferreira, por exemplo, nós sabemos que o grande grupo dele é o Dourazul, por exemplo.

Ou a pensar no Público, de Belmiro de Azevedo.

No Público, de Belmiro de Azevedo, também. Rádio Nova e Público, mas obviamente que o centro do grupo não é esse. E Balsemão tinha os ovos todos no mesmo cesto: a comunicação social.

E vamos continuar a falar sobre Francisco Pinto Balsemão nos próximos passos aqui na Rádio Observador. Entretanto, Paulo, temos braço de ferro à vista entre o governo e os médicos?

É pra aí que caminhamos, com a solução que o governo está a preparar para tentar, no fundo, atenuar ou resolver, se é que podem ser resolvidos os problemas das urgências que vão sendo encerradas. A ideia aqui é concentrar estes serviços em hospitais regionais, para permitir ter equipas com uma dimensão que permitam fazer os turnos. E para que isso funcione, obviamente, os médicos que estão dispersos em vários hospitais hoje vão ter que ser transferidos, concentrados nessas unidades regionais. Como o governo quer autorizar os hospitais a mobilizar médicos à força, isto é, sem a vontade dos próprios, para essas unidades de urgências regionais, e isto é aquilo que os médicos sempre rejeitaram, a ordem sindicatos, até com ameaças de deixarem o SNS. Provavelmente não haverá outra solução, mas a questão é se essa deslocação vai ser paga, quanto é que vai valer. Isso ainda não se sabe. A chave pode estar aí, mas a ministra ou resolve isto bem e negocia bem com os sindicatos, ou então podemos estar aqui até perante um agudizado problema das urgências.

Bruno, então para construir é preciso demolir?

Às vezes. Às vezes é. E agora, finalmente, já se sabe, afinal, o que vai ser preciso demolir para se construir o troço da linha de alta velocidade entre o Porto e Oiã. Aqui há uns tempos houve um relatório, um estudo de impacto ambiental, que dava um número. Agora temos o número apresentado pelo consórcio de empresas responsável pela empreitada, diz que será preciso demolir 185 casas e 45 atividades econômicas/empresas, ou seja, terá de haver um total de 230 demolições, ainda assim menos 32 do que as previstas no tal estudo de impacto ambiental. As empresas dizem que esta diferença está relacionada com a evolução natural do projeto e a escala de trabalho agora mais precisa e que permite um maior rigor. Sobra então a pergunta, agora que já sabe o que é preciso mandar abaixo, e é uma pergunta que ainda bem que fazemos, mas então quando é que vamos ter a primeira fase da linha de alta velocidade, que liga o Porto a Soure, concluída? Bem, respirar. É para 2030. Se não houver derrapagens, se se demolir tudo a tempo e se construir tudo a tempo.

Vamos acreditar no Pai Natal.

Vamos ter muita fé.

Muita fé.

Olha, e reformar cimas nunca, nunca no nosso quintal. Esta é a máxima das mudanças no Estado.

É uma verdade eterna. Aplica-se a quase tudo. Todos estamos muito abertos a mudanças, desde que não mexam basicamente no nosso queijo. Cá está um exemplo: o governo anunciou a fusão do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, fusão com a Agência do Ambiente. No fundo, a nova entidade passará a exercer a função destas duas, e já há uma carta aberta, obviamente, de dezenas de personalidades que estão contra. Pouco importa se o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas funciona bem ou se funciona mal, ou se há vantagens ou não em ter concentrado na mesma entidade os processos burocráticos pesadíssimos de uma e de outra. No fundo, o princípio é este: há mudanças na minha área, eu estou contra. O mesmo já tinha acontecido há poucas semanas também com o anúncio da criação de uma nova entidade para onde vão ser transferidas as competências da FCT. Logo surgiu um coro de críticas, mesmo vindas de pessoas que se queixaram durante anos do péssimo funcionamento da FCT. No fundo, isso só nos mostra que o país é irreformável de alguma maneira.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta pare um parecido de arranhados.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer