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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, não se fala de outra coisa. Não estamos na rubrica errada. Qual é o preço que o governo está disposto a pagar para ter o acordo do Chega nas leis do trabalho?
Essa é a grande questão que ainda falta responder e que se coloca neste momento. Aliás, a votação na generalidade da proposta do governo vai ocorrer hoje no Parlamento. Podemos não ficar a saber ainda, isso depende das negociações entre o Chega e o governo. O PSD já ontem dava como garantido que o diploma seria aprovado, o que significa que o Chega viabiliza a passagem para a discussão da especialidade, mas o próprio Chega foi alimentando e alimenta ainda a dúvida até o fim, até porque tem um caderno de encargos que sabemos que é pesado, que é oneroso para aceitar a viabilização e, obviamente, tem que fazer render esse seu apoio. Por isso, a questão agora é: o que o governo vai sacrificar? Vai deixar cair ou modelar algumas propostas da própria lei? E que propostas são essas? São aquelas que o governo considerava ou considera centrais? Ou vai aceitar aquelas condições do Chega que não têm a ver com a lei laboral, como a descida da idade de reforma ou o fim retroativo de algumas subvenções públicas? Com a resposta a estas questões é que saberemos o preço de facto que o governo vai pagar, nalguns casos, politicamente, ou então que o país vai pagar economicamente, se estivermos a falar aqui da descida da idade da reforma.
Bruno, conta lá. Alguém copiou antes do exame?
E não foram os alunos. Antes do exame não podem ter sido os alunos, mas parece que alguém não fez o trabalho de casa, como deve ser, no exame de português do 12º ano. A polêmica começou quando se descobriu que uma imagem usada no exame nacional era igual à que aparecia no manual de preparação para a prova. Ora, o resultado, quem tinha treinado exatamente aquele exercício deve ter ficado com uma sensação estranha de déjà vu, ou onde é que eu já vi isto, e também com uma vantagem indevida em relação aos restantes alunos que não tiveram a mesma sorte. O Ministério da Educação reconheceu uma falha objetiva, já pediu uma auditoria aos procedimentos do Educa, o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, e a ideia é perceber como é que falhou aqui uma verificação que, em teoria, deveria evitar precisamente este tipo de coincidências. É que depois fica aberto o caminho para as teorias da conspiração. Será que foi mesmo uma coincidência? Se foi, quem virou a folha do exame e viu o exercício idêntico ao da preparação da prova, nem deve ter acreditado na sorte que teve.
Deve ter feito um sorriso de orelha a orelha. Paulo, e a eleição do Provedor de Justiça, será que à terceira vai ser de vez?
Vamos ver. Aí está há cerca de um ano que o lugar está vago, desde a saída de Maria Lúcia Amaral para o governo.
Que entretanto já saiu do governo.
Já entrou, já saiu e ainda não temos substituto ou substituta no cargo do Provedor. E é lamentável, de facto, esta demora com que o Parlamento trata estas questões e a forma como é absolutamente desleixado ao cuidar das instituições, do regular funcionamento das instituições. O primeiro nome proposto foi o de Tiago Antunes, não foi aprovado, sabemos, no Parlamento. A sua proximidade à governação de José Sócrates acabou por ditar esse chumbo. E agora vamos ter a segunda tentativa para eleger Luísa Neto. Na semana passada, o nome que foi apontado pelo PS falhou por apenas três votos e os socialistas agora vão insistir, vão levá-lo a uma segunda votação, que vai ocorrer no dia 3 de julho. Portanto, vamos ver se é desta, à terceira, mesmo que seja já tarde. Devia ter sido tratado antes.
E depois, há notícias em que só temos uma pergunta: por quê?
Por quê? É a única pergunta, porque há crimes que nos deixam quase sem palavras e a única palavra que nos ocorre mesmo é essa, para fazer essa pergunta. Há poucas semanas foi aquele caso das crianças abandonadas pela mãe e pelo padrasto. Ontem foi o caso de uma menina de oito anos assassinada pela madrasta, que entretanto já confessou o crime à Polícia Judiciária. Sabe-se que na origem do crime estarão desavenças familiares e conjugais, mas até dizermos a origem do crime já soa a uma justificação e não se consegue entender. Este tipo de crimes abalam uma comunidade, abalam um país. A tentação é sempre a de procurarmos respostas no coletivo, que permitam de alguma forma entender como é que uma pessoa faz uma coisa destas. Talvez a resposta esteja simplesmente na maldade humana e, confrontados com as tremendas consequências dessa maldade, voltamos ao porquê do início e, tal como no início, continuamos sem respostas.
É um vazio.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.