Na passada quarta-feira, às cinco em ponto da tarde, o primeiro-ministro Luís Montenegro publicou isto na sua conta oficial do X: “António Guterres foi sempre uma voz forte e determinada na defesa da paz, do direito internacional e do multilateralismo. Ao longo dos últimos dez anos foi também um defensor constante da dignidade humana. A ONU e Portugal estão-lhe gratos pelo sua afirmação como referência moral da humanidade. Convergimos na defesa de uma solução diplomática para os conflitos com que o mundo hoje se confronta. (…) Portugal continuará a ser um apoiante constante e indefectível das Nações Unidas e do multilateralismo. Em 2027 e 2028 levaremos a nossa vocação de diálogo e construção de pontes para o Conselho de Segurança.”

Confrontada com o texto, uma amiga perguntou: “Isto é a gozar, não é?”. Em princípio, tinha meia razão. A menos que seja um insuspeito mestre do humor negro, julgo que o dr. Montenegro escreveu semelhantes alucinações a sério, por convicção ou como retribuição forçada pelo facto de Portugal levar “a vocação de diálogo e construção de pontes para o Conselho de Segurança”. Mas, deliberadamente ou não, estava a gozar connosco.

Há inúmeras expressões para designar o eng. Guterres, a maioria com recurso a variações de um jargão que não cabe aqui. “Referência moral”, ainda por cima da humanidade, não é uma delas. Em mais do que um sentido, toda a vida pública desse “defensor da paz” é precisamente uma declaração de guerra à moral. E à decência. E àquelas características primárias que, sob a enxúndia do mundo, às vezes tornam os seres humanos estimáveis, ou no mínimo toleráveis. Nem vou recuar às proezas “nacionais” do espécime, que brindaram o país com a estagnação económica, a institucionalização do descaramento e uma casta de peculiares “delfins” políticos que nos assombram há 30 anos. Se o pretexto é a ONU, limito-me à ONU.

E na ONU o eng. Guterres assimilou depressa a tradição da casa, que obrigam a responsabilizar Israel por quase todos os males da Terra. É verdade que, nos primeiros tempos em que “liderou” (força de expressão) aquilo, o eng. Guterres empenhou-se sobretudo nas matérias do clima, ou melhor, em arranjar novos disfemismos para as alterações do clima. O “aquecimento global” passou a “ebulição climática”. A “ebulição climática” viu-se promovida a “inferno climático”. O “inferno” subiu a “pacto de suicídio colectivo”. E o “suicídio colectivo” ganhou analogia com o “meteoro” que extinguiu os dinossauros. Pelo meio, deixou-se fotografar para a “Time” com o ar tipicamente desconsolado e os pezinhos num charco em Tuvalu, ilha que aliás ficaria submersa num ápice (não ficou: a área terrestre tem aumentado, imagine-se). Tudo isto era desmesuradamente ridículo e não desprovido de piada.

A sete de Outubro de 2023, a piada esgotou-se. Ainda corria o sangue das vítimas do massacre e ainda o governo israelita não esboçara qualquer reacção quando o eng. Guterres explicou que os ataques do Hamas, uma aula completa de selvajaria e crueldade, não aconteceram “no vácuo”. Queria o sujeito dizer, sem ao menos a sinceridade de o admitir com clareza, que Israel merecera os ataques na medida em que os provocara. A uma pessoa normal, deve ter sido difícil ouvir frase tão reles e manter o almoço no estômago. Como a visão de larvas num cadáver, a retórica do eng. Guterres não é aconselhável a digestões sensíveis. Nesse dia, provou-se que a retórica e o seu autor são abjecção pura. Desse dia em diante, o culto do abjecto não cessou.

Não tenciono enumerar as centenas de ocasiões em que entretanto o eng. Guterres se referiu pejorativamente a Israel. Basta lembrar que, no que toca à aversão a “sionistas” [sic] e enquanto secretário-geral, conseguiu ultrapassar largamente as tradições da ONU, incluindo um seu antecessor no cargo que fora “camisa castanha” das SA e participara na deportação de judeus gregos para o extermínio. Caso não baste, adiciono uma pequena sentença que o eng. Guterres repetiu no discurso de despedida (?) em Nova Iorque: “A dimensão da mortandade em Gaza não se compara a nada que eu tenha visto nos meus anos como secretário-geral”. Naturalmente, “defensor da dignidade humana” não viu nada por exemplo na Ucrânia, na Etiópia, no Sudão, no Iémen, na Síria e no Afeganistão, desgraças realmente incomparáveis com Gaza em número de mortos de 2017 em diante, mesmo se engolirmos os números de Gaza revelados pela própria ONU e mesmo se esquecermos que boa parte dos falecidos no território são terroristas ou cúmplices de terroristas.

O eng. Guterres não viu, ou viu por alto, os restantes conflitos porque não os quis ver. E não os quis ver porque aí não havia forma de culpar Israel, afinal o objectivo que importa. Há décadas que se avoluma o cadastro  da ONU em viés anti-israelita (para não usar o termo correcto). No curto período dos seus mandatos, o eng. Guterres foi o rosto e a voz da transformação desse viés em franco e exclusivo activismo. Além de nomear China e Irão, além de outros faróis da liberdade, para o Conselho dos Direitos Humanos e de sustentar os parasitas que referiu Javier Milei também na Assembleia desta semana, a ONU, não só através da UNRWA, existe sobretudo para tentar fazer com que Israel não exista. A ONU, portanto, não devia existir. E, dos baixios da absoluta falta de isenção e vergonha, o eng. Guterres é o exacto oposto de uma “referência moral da humanidade”. No máximo, a criatura de muitos pântanos é uma referência para a parcela da humanidade que mata pelo Hamas (e pelo regime iraniano), que reproduz a propaganda do Hamas (e do regime iraniano) e que se manifesta em prol do Hamas (e do regime iraniano). Não é uma parcela minúscula. Minúsculo, sob qualquer perspectiva, é o eng. Guterres.