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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Eu já andava desconfiada disto, Bruno.

Quando olhas para o teu carro.

Quando olho pro meu carro. Estamos a ficar na reserva.

É, na reserva, Carla, e sem reservas. A Agência Internacional de Energia avisa que as reservas mundiais de petróleo estão a descer a um ritmo record, muito por causa do conflito no Médio Oriente, dos problemas que daí decorrem no estreito de Ormuz. A Europa ainda tem reservas estratégicas e os países já começaram até a libertar parte dessas reservas para aliviar a pressão, mas o ambiente mudou, continua a mudar, as companhias aéreas já fazem contas ao combustível, os governos falam em poupança energética e toda a gente, todos nós esperamos pelos preços do combustível anunciados à sexta-feira, como quem espera pela previsão meteorológica antes de um fim de semana prolongado. O mais curioso é que bastaram poucas semanas de tensão para regressarem aquelas expressões que já pareciam arrumadas nos longínquos anos 70. Racionamento, reservas estratégicas, choque petrolífero. Afinal, até a transição energética, tão falada nos últimos anos, ainda precisa de combustíveis fósseis para avançar.

Paulo, então e as filas nos aeroportos? O governo parece impotente para resolver este problema, não é?

É o que parece. O novo sistema eletrónico de controle de passaporte está em funcionamento há oito meses. Dizer que está em funcionamento é manifestamente otimista e exagerado, porque não tem funcionado ou tem funcionado muito mal. Mas já tivemos filas de cinco e seis horas, nós sabemos, ali por alturas de dezembro. Depois a coisa melhorou, também porque entrámos numa época baixa de turismo, no inverno, depois do Natal. A coisa melhorou e agora voltamos a ter demoras de duas ou três horas também nas saídas do país para fora. Estamos a falar sempre de pessoas que viajam para fora ou vão entrar ou sair do espaço Schengen. Luís Montenegro disse ontem que o governo está insatisfeito com o sistema, que implica, ainda por cima, diz o primeiro-ministro, um investimento enorme em pessoas e tecnologia. Ou seja, há dinheiro, há investimento, mas a coisa também não funcionar e o governo está insatisfeito, portanto, não tem conseguido, obviamente, dar conta do assunto. Se é assim, se é para acabar de vez com o turismo, então estamos aí no bom caminho, certamente.

Bruno, o PS anda muito agitado com a Base das Lajes.

Pelo menos um pouco mais barulhento do que é habitual. As declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, puseram o PS em polvorosa. O líder parlamentar dos socialistas, Eurico Brilhante Dias, falou num país de cócoras, Portugal, e agachado perante os Estados Unidos. E lá teve de vir Francisco Assis pôr água na fervura. Bem, pôr água na fervura, aqui depende da perspectiva. E acusar setores do PS de entrarem numa retórica extremista sobre os Estados Unidos e de reagirem de forma demasiado excitada ao assunto. O exemplo de Pedro Sánchez, o irredutível castelhano, tem inspirado alguns socialistas portugueses, mas nem todos concordam com aquilo que Francisco Assis diz ser uma retórica infantil e extremista. No fundo, a Base das Lajes, tantas vezes esquecida lá no meio do Atlântico, voltou para servir o seu propósito. É o lugar onde as nossas discussões políticas internas vão aterrar quando já não há muito espaço de sobra no continente.

E agora, estava aqui a pensar. E se o PSD, o CDS, a Iniciativa Liberal, se juntassem, se fundissem num só partido. Isto era um projeto bonito ou feio?

Sobre isso, cada um dirá de sua justiça. Mas podemos dizer que Diogo Feio, que defende a ideia, o considera bonito. Um projeto bonito. O ex-dirigente do CDS, também foi deputado, foi secretário de Estado, chama-lhe Aliança Democrática Liberal, e nesse projeto, então, os três partidos ficavam juntos, esses três partidos de centro-direita moderado. No fundo, daquilo que é o espaço chamado de direita, só o Chega é que ficaria de fora e por razões que se entendem. Diogo Feio diz que esta seria uma forma de garantir uma solução governativa majoritária. Isto num contexto que sabemos que é de cada vez maior fragmentação parlamentar. E nisto até o método eleitoral de Hondt, aquelas continhas que fazemos para, no fundo, transformar os votos nos vários círculos eleitorais em mandatos, até esse método favorecia este tipo de entendimentos. Portanto, está lançada a ideia, vamos ver se os partidos gostam dela e se gostarem, se têm capacidade para se reorganizarem. Olha, no fundo, como fazem outras organizações, nomeadamente as empresas.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.