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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Paulo, estamos a pagar décadas de erros no ordenamento e na construção.
Daí que sim. São derrocadas, aluimentos de terras, estradas que cedem e vão-se indo aqui e ali como um castelo de cartas. A orla costeira desfigurada. De facto, a quantidade de chuva nos últimos dois meses foi anormal, isso é verdade. E neste contexto, ficam expostos muitos facilitismos e erros cometidos durante muito tempo. Erros que continuamos a cometer de alguma maneira, permitindo a construção em locais de risco, por exemplo. Nada que não tenha merecido avisos de muita gente ao longo deste tempo, mas fomos fazendo e agora pagamos esse custo.
Bruno, há muita água e pouco peixe.
E pouco peixe. Parece uma contradição, mas não é. Água, temos visto, não falta, o que falta são os homens e as embarcações no mar, isto por causa do mau tempo e das tempestades. O setor registra perdas e não percas. Percas não há.
Não há.
Elevadas, mas ainda há peixe nos supermercados, só que ou é peixe de aquacultura, ou então vem de outras águas, nomeadamente até de Marrocos.
Logo o preço aumenta.
O que significa preços mais elevados, preços que já têm vindo a aumentar desde outubro e que agora ainda estão mais elevados, porque as barras estão fechadas e com o mau tempo os barcos não saem para o mar e não chega o peixe que costumava chegar diariamente às lotas. Mas o mau tempo também afasta clientes das bancas, pelo menos é disso que se queixam os vendedores. Aquela boa notícia de há uns dias, de que no verão teríamos sardinha gorda, boa notícia para os apreciadores. Agora o que temos é tempo de sardinhas magras ou nem sequer de sardinhas, nem de peixe nenhum, com estas restrições. E vai continuar. E aqui há um problema que é mesmo sério, que é para os profissionais do setor que vivem disto e que estão impedidos de trabalhar.
Paulo, há excesso de hotéis nas principais cidades.
Provavelmente estamos a chegar a um limite de saturação e devemos pensar no assunto quando esse alerta vem da própria Associação da Hotelaria de Portugal, que está a realizar o seu congresso.
É só ir ali abaixo, não é?
Sem dúvida. E espera pelos próximos anos. Bernardo Trindade, presidente precisamente desta associação, defende que se deve estudar a capacidade de carga sobre as cidades, com todos os seus impactos presentes e futuros. Isto numa altura, cá está, em que as licenças já emitidas apontam para a abertura de mais 45 hotéis em Lisboa até 2028, portanto, em três anos.
Sim, foi tema, Paulo, nas autárquicas. O assunto, em Lisboa, sobretudo, foi muito discutido.
Sem dúvida, discutiu-se muito isso. Mas aí está, as licenças foram emitidas. 45 mais em Lisboa e no Porto mais 35 hotéis. No caso de Lisboa, este aumento da capacidade hoteleira acontece já agora com o aeroporto escutadíssimo, como se vê. Portanto, estamos aqui num jogo de forças e a corda há de partir por algum lado, ou hotéis que são abertos e depois não têm mercado, de alguma maneira, porque começam a ser muitos e o aeroporto acaba por ser o Entroncamento. O aeroporto atual, porque o outro, enfim, nem se sabe quando.
Qual é a pressa?
Sem dúvida. Ou então é a própria vida nas cidades que pode sofrer um bocado.
Pois é. Errar é humano, Bruno.
Errar é humano, demasiado humano, diria Friedrich Nietzsche, em tempos de redes sociais. Errar não é mais humano, mas é mais frequente. As pessoas falam mais, escrevem mais coisas. O que não é assim tão frequente, e nas redes sociais, sobretudo, é reconhecer humildemente o erro. Augusto Santos Silva é conhecido por muitas vezes disparar primeiro e só depois fazer as perguntas, à boa maneira dos xerifes do velho Oeste. Desta vez voltou a repetir a dose, criticou Marcelo Rebelo de Sousa por em 2022 ter dado posse por um dia a António Costa, na altura primeiro-ministro, como ministro dos Negócios Estrangeiros, e de agora não ter feito o mesmo com Luís Montenegro no Ministério da Administração Interna. Disse que era dois pesos e duas medidas, dualidade de critérios, e usou uma expressão, disse que eram coisas ridículas. Ao fim de duas horas, Santos Silva teve de corrigir a publicação nas redes sociais e dar a mão à palmatória. Afinal, a lei foi alterada em 2022, precisamente depois dessa situação com António Costa, e aquilo que antes era necessário, deixou de ser. Santos Silva pediu desculpa e disse como pode ser ridículo um sociólogo, ele próprio, quando se aventura no saber labiríntico dos jornalistas, dos juristas. Ou quando é o gatilho mais rápido Oeste. Seja como for, reconheceu o erro e nem todos têm a mesma coragem.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.