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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, é isso.

Calma. E Bruno, Luís Montenegro já está a pensar no futuro?

João, quem olhar para os novos nomes na direção do PSD pode sentir-se tentado a pensar assim. A entrada de Carlos Moedas e Pedro Duarte, os líderes das maiores autarquias do país, e de Sebastião Bugalho, que passa a ser o porta-voz do partido, parece o final de uma etapa de ciclismo em que os sprinters se vão posicionando para garantir um bom lugar. E estes três são nomes de que toda a gente fala para um dia poderem vir a suceder a Luís Montenegro. Mas o primeiro-ministro não deve estar ainda a pensar na sucessão, não é o futuro que o preocupa, é o presente. E estes reforços políticos para a direção significam que a batalha nos próximos meses vai ser intensa. Não a batalha pela liderança do PSD, mas a batalha contra as chamadas forças de bloqueio, que, para infelicidade de Luís Montenegro, estão mesmo a bloquear o governo.

Ora, falando em bloqueios, chumbado que está o pacote laboral, Paulo, qual é agora o caminho do governo?

Luís Montenegro parece que deixou uma espécie de guião no discurso de encerramento do congresso. A estratégia agora parece ser acelerar a fundo com outros temas na agenda. Parece que vem aí, por exemplo, um fundo soberano do país, uma medida que promete dar muita discussão. Vai haver um sistema de prêmios de desempenho na função pública, mais uma polêmica, certamente. Já estou mesmo a ver os sindicatos a contestarem os critérios que vão sendo apresentados, sejam eles quais forem. Vai avançar a subconcessão ferroviária da linha de Cascais. Aqui também podemos já antecipar acusações de privatização dos comboios e uma série de outras medidas que Luís Montenegro anunciou. Em muitos casos, vai colocar-se a mesma questão que se colocou agora com o pacote laboral, que é o governo e o Parlamento vai aprovar estas medidas com quem, já que não tem maioria. E, portanto, vamos andar sempre nisto, a fazer essas contas de cabeça, e o governo a olhar por cima do ombro depois daquilo que se passou no pacote laboral.

E Paulo, o próximo tema deverá ser a PSU, a Prestação Social Única. A AD está confiante no apoio do CHEGA?

Estranhamente, está confiante. Estranhamente, depois daquilo que se passou na semana passada. Hugo Soares disse ontem que neste caso da Prestação Social Única, é notório, e citamos, que há maior vontade do CHEGA do que do PS, o que é estranho, diz o Hugo Soares, porque foi o PS que teve a ideia, aliás, e que vinculou o país a esta medida como contrapartida do PRR. Diria que aqui o mais estranho é a AD ainda confiar no CHEGA para aprovar seja o que for. Basta André Ventura lembrar-se de uma qualquer ideia, como a descida da idade da reforma, e lá se vão depois as negociações sobre a Prestação Social Única. Ventura, sabe-se desde o início da legislatura, queria um casamento com papel assinado. Como não teve, vai andar aqui nesta relação muito aberta a dizer que sim hoje para dizer que não amanhã. A questão é: quanto tempo vai aguentar uma legislatura desta forma, João?

É uma questão que fica. Em Espanha, outras questões. O chefe do governo vai tropeçar na primeira-dama?

Pedro Sánchez é um sobrevivente. Já sobreviveu a crises parlamentares, a eleições complicadas, a alianças com companheiros improváveis, mas a aliança matrimonial pode ser demais até para um especialista em desembaraçar-se de problemas como é Sánchez. Begoña Gómez, a mulher do primeiro-ministro espanhol, vai a julgamento por alegados crimes de tráfico de influências, corrupção, apropriação indevida, entre outros. O juiz retirou-lhe o passaporte, proibiu-a de sair de Espanha, obrigou-a a apresentações periódicas e são medidas pouco habituais num caso desta natureza e que têm provocado bastante polêmica política. Para Pedro Sánchez, o pior nem será não ter a companhia da mulher nas viagens ao exterior, é o desgaste. Há mais de um ano que o caso está ciclicamente nas manchetes, com novos desenvolvimentos, recursos, acusações de perseguição política contra acusações sobre interferências na justiça. E a acusação agora conhecida, bem como estas medidas de coação, não vão arrefecer os ânimos, mas se Sánchez sobreviver a isto, é caso para dizer que sobrevive a qualquer coisa.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, é isso.